Mercedes Baptista

MERCEDES IGNÁCIA DA SILVA KRIEGER
(93 anos)
Bailarina

* Campos dos Goytacazes, RJ (1921)
+ Rio de Janeiro, RJ (18/08/2014)

Mercedes Ignácia da Silva Krieger, Mercedes Batista, nasceu em 1921, no município de Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro, em uma família humilde que vivia do trabalho de sua mãe, a costureira Maria Ignácia da Silva.

Ainda jovem, mudou-se para a cidade do Rio de Janeiro, exercendo diversas atividades profissionais. Trabalhou em uma gráfica, em fábrica de chapéus e como não podia fugir a regra de grande parte das meninas negras de seu tempo, foi empregada doméstica. Trabalhou, também, em bilheteria de cinema e quando podia, assistia aos filmes. Neste período acalentava o sonho dos palcos. Mobilizada por realizar seu sonho, começou a dedicar-se a dança.

Cabe salientar que Mercedes Baptista foi iniciada no balé clássico e dança folclórica, pela grande Eros Volúsia, bailarina que abrilhantou o Brasil através de suas coreografias inspiradas na cultura brasileira.

Na década de 40 ingressou na Escola de Danças do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, tendo a oportunidade de estudar com Yuco Lindberg e Vaslav Veltchek, artistas que possuíam projeção internacional.

No ano de 1947 foi admitida como bailarina profissional no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, tornando-se assim a primeira mulher negra a ingressar como bailarina nesta casa de espetáculos.


Embora fizesse parte do Corpo de Baile do Teatro Municipal, teve poucas chances de atuar, pois pouquíssimas vezes foi escalada para as apresentações. Percebeu então um traço do preconceito. Enquanto mulher negra e artista sofreu discriminação, mas também aprendeu com os próprios passos e escolhas a criar mecanismos de superação. É neste mesmo período que conheceu Abdias do Nascimento e passou a acompanhar os ideais do Teatro Experimental do Negro. Juntamente com as forças renovadas e ao perceber que outros negros e negras, desenvolviam formas de atuação de luta contra o racismo no Brasil, uniu forças com estes grupos, criando espaços e estratégias para lutar contra o preconceito racial.

Neste cenário, buscou formas de valorizar a cultura brasileira, assim como lutou contra o preconceito que tentava inferiorizar a população negra. Foi então, que sistematicamente trabalhou pela reafirmação do artista negro na dança, com talento, perseverança e o uso da pesquisa enquanto instrumento/ferramenta. Conseguiu magistralmente, embasar e aprofundar o conhecimento sobre as artes negras, assim entendendo e conhecendo suas origens usando-a enquanto elemento criativo, e, portanto, uma nova postura sobre a dança afro-brasileira.

Mercedes Baptista participou de diversos eventos promovidos pelo Teatro Experimental do Negro, sendo, em 1948, eleita a Rainha das Mulatas. No ano de 1950, tornou-se membro do Conselho de Mulheres Negras.

Em finais da década de 50 foi selecionada pela coreógrafa e antropóloga americana Katherine Dunham e conquistou uma bolsa de estudos em New York. Quando de sua volta para o Brasil, no Rio de Janeiro, fundou o Ballet Folclórico Mercedes Baptista. Grupo formado por bailarinos negros que desenvolviam pesquisas e divulgavam a cultura negra e afro-brasileiras, descortinando novos horizontes para a dança, introduzindo elementos afro na dança moderna brasileira. O grupo ganhou notoriedade e respeito, apresentaram-se na Europa e vários países da América do Sul.


Na década de 60, Mercedes Baptista, teve a oportunidade de atuar no Grêmio Recreativo Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro, elaborando coreografia, para o tema "O Quilombo dos Palmares", escolhido pela escola. As escolas de samba curvaram-se ao talento de Mercedes Baptista, pois foi ela quem idealizou as apresentações das escolas com alas coreografadas. E não fica por aí, coreografou para cinema, televisão e teatro.

Mercedes Baptista ministrou diversos cursos fora do Brasil - New York e Califórnia. Influenciou a dança em outros países, mas também teve consistência e prestígio para introduzir na Escola de Dança do Teatro Municipal do Rio de Janeiro a disciplina dança afro-brasileira.

Por sua capacidade de conciliar técnica e talento, por inovar, por sua trajetória de vida e sua importância para dança nacional, e por que não dizer mundial, no ano de 2005 recebeu uma homenagem através da exposição "Mercedes Baptista: A Criação da Identidade Negra na Dança", com curadoria de Paulo Melgaço e Jandira Lima.

Em desdobramento a exposição, no ano de 2007 foi lançado o livro "Mercedes Baptista: A Criação da Identidade Negra na Dança", de autoria de Paulo Melgaço da Silva Júnior, publicado pela Fundação Cultural Palmares.

Também recebeu, em 2008, a homenagem da Escola de Samba Cubango (grupo de acesso), sendo considerado um dos sambas mais bonitos deste ano. No ano seguinte a Escola de Samba Vila Isabel, escolheu por tema o centenário do Teatro Municipal, quanto este lhe rendeu a merecida homenagem, por ser Mercedes Baptista uma figura emblemática da dança nacional e referência obrigatória no Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

Seu legado é a valorização das culturas de matrizes africanas e a introdução de elementos da dança afro a dança moderna brasileira, mais sobretudo o exemplo de superação e criatividade para a juventude negra, fazendo dela um dos nomes mais respeitado no Brasil nessa área.


Morte

Mercedes Baptista morreu na segunda-feira, 18/08/2014, aos 93 anos, na casa de repouso onde morava, em Copacabana, Rio de Janeiro. O corpo foi velado na casa de repouso onde ela morava e cremado no Memorial do Carmo, no Caju. Mercedes Baptista sofria de diabetes e problemas cardíacos.

Em nota, o Teatro Municipal do Rio de Janeiro lamentou a morte de Mercedes Baptista.