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Volta Seca

ANTÔNIO DOS SANTOS
(78 anos)
Cangaceiro, Cantor e Compositor

☼ Saco Torto, SE (13/03/1918)
┼ Pirapetinga, MG (02/02/1997)

Antônio dos Santos, conhecido como Volta Seca, foi um cangaceiro sergipano nascido em Saco Torto, no então município de Itabaiana Grande e atual município de Malhador, SE, no dia 13/03/1918. Filho de Manuel Antônio dos Santos e Arminda Maria dos Santos, era o sexto dos treze filhos do casal.

Volta Seca saiu pelo mundo devido aos maus tratos da madrasta, pessoa violenta que espancava constantemente os enteados. Percorreu sozinho, os sertões de Sergipe e Bahia, até encontrar Lampião em Goroso, no município de Bom Conselho. Era o mais jovem dos cangaceiros do bando, tendo-se juntado a ele ainda aos 11 anos de idade. E não era a primeira criança a ser aceita no bando: Beija-FlorDeus-te-GuieJosé Roque e Rouxinho. Essas crianças eram utilizadas na lavagem dos cavalos, no carregamento de água, na arrumação e assepsia de pousos e acampamentos, e foram muitas vezes usadas nos serviços de espionagem. Portanto, a sua passagem pelo cangaço foi rápida, não mais de 4 anos.

Misterioso, complexo e desconcertante, Antônio dos Santos, o Volta Seca, é uma das personalidades mais ricas do ciclo do Cangaço. Considerado o tenente de "mais destacada fama" de Lampião, mais importante ainda do que Corisco na opinião de historiadores como Ranulfo Prata. Matou pela primeira vez aos 10 anos, entrou para o cangaço aos 11 anos recrutado pelo Diabo Louro, compôs pérolas do cancioneiro popular como "Mulher Rendeira" e teve a compaixão de  Irmã Dulce.

Embora haja discordância entre alguns historiadores e relatos, Volta Seca deve ter entrado para o bando de Lampião por volta de 1928 e lá permaneceu por quatro anos, destacando-se pela coragem, valentia, e implacável postura de sentinela. Em entrevista ao jornalista Joel Silveira ele disse que logo que chegou ao bando apanhava quase que diariamente mas "depois endureci o cangote e o primeiro que me apareceu com ares de pai, recebi com a mão no rifle!".

Coragem Para Desafiar o Capitão

Volta Seca foi o único a desafiar o próprio chefe para uma briga. O episódio marcou o fim de sua vida no cangaço e foi relatado por ele ao, na época, já famoso jornalista Joel Silveira, em entrevista concedida em março de 1944 no presídio da Coreia em Salvador.

A contenda se deu em 1931 por causa de um socorro dado ao cangaceiro Bananeira, ferido em combate. Lampião era de opinião que o atraso colocaria o bando em risco junto a volante, mas Volta Seca insistiu em acudir o companheiro atingido por tiros. A insubordinação do rapazote enfureceu o capitão, que não viu outro jeito de assegurar sua autoridade no bando senão dar cabo do insolente. Mas Volta Seca não era apenas o preferido de Lampião, era querido também por Maria Bonita, a quem Virgulino lhe confiou a guarda por diversas vezes. Ao tomar conhecimento dos planos de LampiãoMaria Bonita tratou de avisar a seu segurança que o marido pretendia matá-lo no dia seguinte durante o almoço. Volta Seca fugiu na madrugada.

Em sua fuga acabou preso aos 14 anos, no final de fevereiro de 1932. Foi a julgamento dois anos depois sendo condenado a 145 anos de cadeia. A chegada de Volta Seca a Salvador causou comoção. Uma junta de cientistas, médicos e acadêmicos logo se adiantou para traçar o perfil antropológico e psicológico do bandido, segundo os cânones evolucionistas que ainda perduravam no país por via da influência da chamada Escola de Nina Rodrigues.

O grande médico e etnólogo alagoano, Arthur Ramos foi um dos que estudaram cuidadosamente o perfil de Volta Seca na prisão e emitiram diagnóstico. Segundo Arthur Ramos, a primeira impressão que se tem ao encontrar o bandido é de desapontamento. Não são encontradas nele nenhuma das características do criminoso nato, "nenhuma anomalia, nenhum estigma antropológico de degenerescência", a saber, "a cabeça disforme, os malares salientes, o olhar duro e mau, orelhas malformadas...".

"Antes cafuzo do que caboclo propriamente dito, Volta-Seca é o tipo do adolescente mal saído da época puberal. Dezesseis anos. De estatura um pouco abaixo do normal: 1,58 e 5. Franzino.
Atitude de humanidade. Fala arrastado, responde com precisão a questões que lhe propõem. A este exame preliminar, parece haver um certo grau de mitomania. Aumenta um pouco os relatos de crimes dos seus companheiros. Admiração incondicional pelo compadre Lampião, o que denota um certo grau de erostratismo criminal. Olhar móvel, desconfiado, intimidado com a presença de várias pessoas - oficiais da Força Pública - que o inquirem.
Esta vaidade criminal leva-o até a descrer no fracasso de Lampião, que julga invulnerável." 
(Relata Arthur Ramos) 


A mesma falta de sinais aparentes de psicopatia é encontrada no perfil psicológico. Arthur Ramos, no entanto, conclui que a criminalidade em Volta Seca é fruto de seu ambiente e não uma disposição intrínseca.

"Outro desapontamento. É o menino aparentemente ingênuo dos sertões. Crivado de perguntas, responde com humildade, fala arrastada, com precisão. Esta impressão de ingenuidade vai desaparecendo progressivamente, à medida que vamos mergulhando nos abismos desconhecidos da sua psique criminal... Isoladamente, é o caboclo humilde, o adolescente inofensivo que temos diante de nós. Socialmente, porém, é o membro temível de uma coletividade anormal. Em Volta Seca, o fator intrínseco da criminalidade cede de muito o passo aos fatores extrínsecos, mesológicos, que o caracterizam como um dos elementos mais perversos, mais criminosos, mais ferozes, do grupo de Lampião."
(Trechos retirados do capítulo "Os cabras de Lampião", do livro "Lampião" de Ranulfo Prata)

Tudo leva a crer que Volta Seca possuía um nível intelectual acima da média. Além do senso moral próprio e do talento como compositor, possuía também, apesar da pouca idade, um discernimento agudo da situação social e política do Nordeste que pode ser ilustrada por uma de suas declarações na prisão:

"O medo da prisão transforma o homem numa fera, é isto mesmo: os crimes dos 'macacos' foram iguais aos nossos. Mas nada aconteceu com eles, nem com os homens importantes e ricos do sertão, que nos ajudaram, nos davam armas, dinheiro e comida, continuam ricos e importantes."
(Volta Seca)

Segundo Zé Sereno, depois da prisão de Volta Seca, ninguém nunca mais acampou no Raso da Catarina, ou na Serra do Chico. Quando o cangaceiro foi preso, Lampião ordenou a divisão dos grupos, entregando o comando aos seus mais experimentados homens: Luís Pedro, Zé Baiano, Velho Cirilo, Jararaca Manuel Moreno. Cada um com seu grupo formado saiu do Raso da Catarina, para penetrar nas caatingas.


Ao tomar conhecimento da prisão de Volta SecaLampião soube que os irmãos Roxo, o haviam entregue à polícia e decidiu se vingar. Passou na casa dos irmãos e assassinou todos eles, exceto a mãe e um irmão que encontrava-se viajando. Incendiou a fazenda e destruiu plantações.

Volta Seca, por duas vezes fugiu da cadeia. A primeira foi concedida um "passeio experimental". Volta Seca saiu e não retornou, ficou perambulando pelas ruas de Salvador. A segunda vez fugiu em companhia de outro sentenciado e saiu pela porta principal sem ser percebido. Apesar de não ter sido capturado em combate, a polícia baiana ganharia notável publicidade com a prisão de Volta Seca, que ocorreu em virtude do cansaço (longa caminhada a pé pela mata durante vários dias), do companheiro de cárcere que ficou muito doente, ao ponto de querer desistir da jornada. Volta Seca não o abandonou, levou-o nos ombros até o primeiro povoado mais próximo, onde foi reconhecido pela população e denunciado a força pública, em seguida preso e recambiado a Salvador.

A notícia de sua fuga, do famigerado bandoleiro, deixou a população sergipana preocupada, porque ainda não havia desaparecido do espírito nordestino, a época de terrorismo em que o banditismo de Lampião criou nos sertões de Pernambuco, Sergipe, Bahia e Alagoas, e de tão graves consequências para o homem do campo. Segundo o Departamento de Segurança:

"Volta Seca fugiu da Bahia pelo litoral, penetrando neste Estado pelo município de Estância, e sendo preso em companhia de outro bandoleiro, entre os municípios de Indiaroba e Cristinápolis."
(Diário Oficial, 05/03/1944)

Após tomar conhecimento da fuga, as autoridades sergipanas, determinaram rápidas e enérgicas providências, estabelecendo imediatamente contato, com os destacamentos policiais de todo o interior e foi determinada severa vigilância.

A Força Policial do Estado, que relevantes serviços prestou no combate ao banditismo, quando este esteve em plena campanha, traz de público, uma vez mais, a sua disposição de combatê-lo, sempre com mais energia, defendendo, com a sua coragem e a sua técnica militar:

"Transportado de Indiaroba para esta capital, desde a sexta-feira última, que aqueles foragidos estão recolhidos à Penitenciária do Estado, à disposição das autoridades policiais do vizinho Estado da Bahia, de onde se evadiram."
(Diário Oficial, 08/03/1944)

Volta Seca, Esposa e Filhos
Liberdade e Música

Volta Seca ganhou a liberdade em 1954, graças a um indulto do presidente Getúlio Vargas. No presídio da Coreia, em Salvador, conheceu Irmã Dulce e lhe prometeu nunca mais pegar em armas, e virou personagem de Jorge Amado no romance "Capitães de Areia".

A amizade com a jovem freira, que costumava visitar o presídio para levar o consolo do evangelho e da música aos presos, para escândalo da sociedade da época, se deu por causa da música. Sanfoneira e amante da música, Irmã Dulce encontrou em Volta Seca um talento musical incomum: tocava realejo, era entoado ao cantar e já havia composto a maioria de suas músicas.

Estigmatizado ao sair da prisão, Volta Seca recebeu o apoio do cineasta Lima Barreto por ocasião do lançamento do filme "O Cangaceiro" (1953) em São Paulo. Lima Barreto o convidou para avaliar criticamente o filme.

Volta Seca não gostou de uma cena em que Lampião aparece chicoteando um homem no rosto. Segundo ele, isso não se fazia no Nordeste: "A cara de um homem é sagrada".

Realizado em 1953, "O Cangaceiro" foi o primeiro filme brasileiro a alcançar sucesso internacional. Ganhou o prêmio de melhor filme de aventura e de melhor trilha sonora com a música "Mulher Rendeira", em Cannes.

Com a mudança para o Sudeste, Volta Seca conseguiu emprego na Estrada de Ferro Leopoldina. Cantor e compositor em 1957, Volta Seca gravou pela Continental um LP, com apenas 8 faixas compostas no período do Cangaço, "As Cantigas de Lampião", interpretadas pelo próprio, com instrumentação do maestro Guio de Moraes e narrações do radialista Paulo Roberto da Rádio Nacional: "Acorda Maria Bonita", "Escuta Donzela", "Eu Não Pensei Tão Criança", "Lá Prá Mina", "A Laranjeira", "Mulher Rendeira", "Lampião e Sabino" e "Se Eu Soubesse".

A famosa "Mulher Rendeira", conta-se, foi cantada pelo bando de Lampião durante a famosa invasão a cidade de Mossoró, RN.

Em 1959, teve o baião "A Laranjeira" gravado por Zé do Baião, e no ano seguinte, por José Tobias, a toada "Se Eu Soubesse".

Antônio dos Santos, o Volta Seca, faleceu aos 78 anos em Pirapetinga, MG, no dia 02/02/1997, de causas naturais.

Roberto Audi

ROBERTO AUDI
(63 anos)
Cantor e Compositor

☼ Rio de Janeiro, RJ (10/02/1934)
┼ Rio de Janeiro, RJ (12/02/1997)

Roberto Audi iniciou sua carreira artística como corista nos shows de Carlos Machado na boate Night And Day.

Cunhado do letrista David Nasser, passou a atuar com freqüência na antiga TV Tupi, bem como na Rádio Tupi.

Estreou em disco em 1958 cantando a toada "Geada" (Armando CavalcantiDavid Nasser), e o fox "No Azul Pintado de Azul" (Modugno e Puzzaglia), com versão de David Nasser, em dueto com Leny Eversong, cantora que o descobriu. No mesmo ano, fez suas primeiras gravações solo, os sambas-canção "E Me Deixe Entrar" (Jossicar e Verinha Falcão), e "Não Tens Reconhecimento" (Fausto Guimarães e Verinha Falcão), realizadas na gravadora Copacabana, onde fez um total de 22 discos entre os anos de 1958 e 1963. Ainda em 1958, recebeu da revista Radiolândia o troféu Antena de Prata depois de eleito por um júri composto de críticos especialistas e representantes de agências de propaganda como o cantor revelação do ano na TV.

Em 1959 apresentou-se no "Super Show" da TV Tupi do Rio de Janeiro, passando posteriormente a atuar em programas da Rádio Nacional, TV Tupi, TV Rio e, em São Paulo, na TV Record e na Bandeirantes. No mesmo ano, gravou a toada "A Canção é Você" e o samba canção "Noite Triste Sem Ninguém", ambas de Fred Chateubriand e Vinícius de Carvalho. Nessa época, gravou o LP "E As Operetas Voltaram", onde conhecidos trechos de operetas europeias entrelaçadas com operetas americanas foram vertidos e adaptados para o português pelo compositor Lamartine Babo, que foi também o produtor do disco. Participou do LP "A Música de Dolores" uma homenagem da gravadora Copacabana à cantora e compositora Dolores Duran falecida prematuramente naquele ano. Nesse disco interpretou o samba-canção "Noite de Paz".


Em 1960 gravou o fox "Ninguém é de Ninguém" (Umberto Silva, Toso Gomes e Luiz Mergulhão), e o samba canção "Um Novo Céu" (Ted Moreno e Fernando César).

Em 1961 foi premiado pela Revista do Rádio e Radiolândia  como Cantor Revelação. No mesmo ano, gravou a guarânia "Duas Rosas" (Lourival Faissal e Arsênio de Carvalho), e o bolero "Noite Após Noite" (Nelson GonçalvesDavid Nasser).

Entre os anos de 1961 e 1964 fez shows pelo Brasil e excursionou a Portugal, Estados Unidos, Uruguai e Argentina.

Em 1963 gravou "Meu Bem" (Getúlio Macedo), e, da dupla João Roberto KellyDavid Nasser, os sambas-canção "Poeira no Meu Caminho" e "O Céu do Teu Olhar".

Em 1964 gravou "Tédio" (Nazareno de Brito e Fernando César).

Sua primeira composição gravada foi "Encontrei Afinal, Meu Amor" (Roberto Audi e Ribamar).

Lançou ainda os LPs "Música Para Nós Dois" e "Com Vocês, Roberto Audi", ambos pela gravadora Copacabana. Ao abandonar a gravação de discos passou a se apresentar em shows pelo interior do país.

Discografia

78 RPM
  • 1958 - Geada / No Azul Pintado de Azul (Copacabana)
  • 1958 - E Me Deixe Entrar / Não Tens Reconhecimento (Copacabana)
  • 1958 - Telefonei / Vida de Artista (Copacabana)
  • 1959 - Noite de Paz / Outros Caminhos (Copacabana)
  • 1959 - Matei a Saudade / Cravo Branco - Carnaval de 1960 (Copacabana)
  • 1960 - Romântica / Férias de Amor (Copacabana)
  • 1960 - A Canção é Você / Noite Triste Sem Ninguém (Copacabana)
  • 1960 - Ninguém é de Ninguém / Um Novo Céu (Copacabana)
  • 1960 - Eu Amei / O Maior Amor (Copacabana)
  • 1961 - Duas Rosas / Música Para Nós Dois (Copacabana)
  • 1961 - Sino de Belém / Boas Festas (Copacabana)
  • 1961 - Valsa da Despedida / Feliz Natal, Meu Amor (Copacabana)
  • 1961 - Dinheiro Não Há / Adeus Mangueira (Copacabana)
  • 1961 - Renunciei / Ponto Final (Copacabana)
  • 1961 - São João Diferente / Noite Após Noite (Copacabana)
  • 1961 - Vou Beber Até Cair / É Incrível (Copacabana)
  • 1962 - Loucura, Loucura / Palhaço de Botequim (Copacabana)
  • 1962 - Sofrimento / O Lelê da Lalá (Copacabana)
  • 1962 - Adeus, Amor, Adeus / Quero e Não Quero (Copacabana)
  • 1963 - Poeira no Caminho / O Céu do Teu Olhar (Copacabana)
  • 1963 - Ao Nascer do Sol / Meu Bem (Copacabana)
  • 1963 - Meu Castigo / Eu e Elas (Copacabana)
  • 1963 - Fim de Ano / Noite Silenciosa (Copacabana)
  • 1964 - Estranho na Praia / Tédio (Copacabana)
  • 1964 - Meu Patuá / Festa Brava (Copacabana)
  • 1964 - Que Fez Você / O Carrinho (Copacabana)


LPs
  • 1959 - Concerto Para Senhoras (Copacabana)
  • 1960 - E as Operetas Voltaram (Copacabana)
  • 1960 - Música Para Nós Dois (Copacabana)
  • S/DT - Presença de Roberto Audi (Copacabana)
  • S/DT - Com Vocês, Roberto Audi (Copacabana)

Fonte: Dicionário Cravo Albin da MPB e Discomentando
Indicação: Miguel Sampaio

Portinho

ANTÔNIO PORTO FILHO
(71 anos)
Maestro, Arranjador, Clarinetista, Saxofonista e Compositor

☼ Rio Grande, RS (27/09/1925)
┼ São Paulo, SP (01/01/1997)

Antônio Porto Filho nasceu na cidade do Rio Grande, RS,  no dia 27/09/1925, numa família de músicos, onde o pai era trombonista, o avô sanfoneiro e o tio violonista.

Mudou-se ainda jovem para Porto Alegre, onde conheceu o conceituado violonista paulista Antonio Rago. A convite deste se radicou em São Paulo. Portinho tocou em várias orquestras e com grandes artistas, chegando inclusive a reger, como convidado, a Orquestra Jazz Sinfônica de São Paulo.

Participou nos anos 40 do regional de Claudionor Cruz, nos 50 do regional do Rago, e foi uma figura da história do rádio do Rio de Janeiro e de São Paulo.  Portinho assinou arranjos de alguns  discos  de renomados artistas, como Ângela MariaPaulo VanzoliniNelson GonçalvesWaldick Soriano, Noite IlustradaCláudia Barroso (descoberta por Portinho), entre tantos outros, incluindo ídolos da Jovem Guarda, como Ed CarlosDemétriusMartinhaMário FaisalWilson Miranda, e outros.   

O maestro também entrou também na "onda" da Jovem Guarda, tendo inclusive gravado o álbum "Portinho - O Maestro Iê-Iê-Iê", lançado em 1967 pela gravadora Continental. O destaque está na contracapa: um texto de Ronnie Von, redigido do próprio punho na madrugada de 06/07/1967, destacando as qualidades do músico e informando que "A Praça", grande sucesso do cantor na época, teve os arranjos assinados pelo maestro.


"Portinho veio confirmar um pensamento nosso sobre a inexistência da idade cronológica. Sua jovialidade suplantou a nossa, e, vindo de outra geração, enquadrou-se perfeitamente na era da harmonia musical eletrônica, aderindo à nossa causa e, conosco, levanta agora, ainda mais alto, a bandeira da música jovem."
(Ronnie Von)

De fato, o repertório é formado por sucessos da juventude, e o álbum foi produzido com o talento impar do maestro.

O maestro foi tão respeitado no meio artístico que o cantor Teixeirinha o homenageou na gravação da música "O Centro-Oeste Brasileiro".  O violonista de 7 cordas Ed Gagliardi disse que o mestre Portinho foi como as músicas que compôs: calmo, tranquilo e alegre.


Muitos discos produzidos, principalmente, nos anos 60 e 70, vinham com o nome do maestro Portinho como o responsável pelos arranjos. Além de figurar como um dos músicos mais requisitados em discos, que iam de Teixeirinha a Caetano Veloso, o maestro também gravou vários discos. Uma reportagem sobre o artista informa que foram 35 LPs orquestrais e 5 como solista, mas esses dados requerem melhor apuração.

A sua discografia é imensa, e só para citar dois excelentes álbuns, recordamos um, só com composições de Noel Rosa, intitulado "Noel Rosa e Portinho Dá Samba", e outro que gravou em 1973, com muitas músicas de Ary Barroso intitulado "Samba, o Melhor do Brasil".

Os seus últimos anos de atividade foram ensinando música na Universidade Livre de Música (ULM), em São Paulo.

Portinho faleceu no dia 01/01/1997, em São Paulo, SP, deixando um importante legado para a cultura musical brasileira.

Indicação: Miguel Sampaio

Antônio Venâncio

ANTÔNIO VENÂNCIO DA SILVA
(86 anos)
Empresário

☼ Assaré, CE (1911)
┼ Rio de Janeiro, RJ (15/10/1997)

O nome do cearense Antônio Venâncio da Silva é uma das marcas de Brasília. Sertanejo semi-analfabeto, construiu um império de R$ 200 milhões em imóveis. Tentava imortalizar o próprio sucesso a cada prédio erguido. Assim, foram se sucedendo os edifícios Venâncio 1, 2, 3, 4, 5, 6... A fortuna cresceu junto com a numeração. Os dois últimos prédios, grandes shoppings populares no coração da cidade, foram batizados de Venâncio 2000 e Venâncio 3000. Em péssimo estado de conservação, são o retrato da decadência dos empreendimentos.

Antônio Venâncio constituiu uma família incomum. Aos 17 anos, casou-se com Antônia Odontina de Souza, em Santana do Cariri, no interior do Ceará. Não tiveram filhos. Odontina sentia-se culpada pela infertilidade e aceitava os filhos que o marido tinha fora do casamento. Cinco, segundo a conta oficial. Ou sete, se forem considerados todos os que buscam na Justiça o reconhecimento de paternidade. Frequentavam a casa do pai. As velhas fotos de família mostram os filhos reunidos nos aniversários. A tolerância era aparente. Devia-se ao patriarca e à mão de ferro com que governava empresas e herdeiros.

Depois do enterro de Antônio Venâncio, os filhos só se reuniram uma vez. Foi na Vara de Família, com dez seguranças dentro da sala e detector de metais na porta. As velhas fotos fazem parte agora dos processos em que os irmãos Antônio Venilson e Maria Verenice da Silva tentam provar que são filhos de Antônio Venâncio e têm direito a parte do espólio. "Até a semelhança dos nomes prova a ligação", diz Venilson.

Venâncio 2000 em Brasília (Foto Diurna)
Antônio Venâncio era um conquistador assumido. Na última casa em que morou, uma mansão de 2 mil metros quadrados, o quarto era decorado com espelhos no teto e cama redonda. Viveu com várias mulheres, mas nunca pediu a separação formal de Antônia Odontina. Os dois chegaram a comemorar com missa as bodas de ouro, em 1979. Ela aparece como sócia em quase todas as empresas abertas pelo marido e figura nos testamentos como dona de metade dos bens do casal.

Antônio Venâncio nasceu pobre, filho de pequenos agricultores. Aos 16 anos, intermediou a venda de um terreno no sertão. O comprador foi o Padre Cícero Romão Batista, já com alguma fama de santo no Nordeste. Sob as bênçãos do Padre Cícero, iniciou os negócios e fez de tudo. Durante a Segunda Guerra Mundial, explorava cera de carnaúba e revendia pneus usados.

Mudou-se para o Rio de Janeiro e investiu em construção. Lançou em Copacabana sua primeira série de edifícios. Antônio Venâncio chegou a Brasília rico, mas foi na Capital Federal que entrou para o clube dos arquimilionários. Quando morreu, tinha R$ 10 milhões numa conta corrente do Banco do Brasil. O restante da fortuna estava investido na empresa que administra os shoppings.

A briga dos herdeiros é pelo controle da holding familiar. De um lado está José Nicodemos, o filho mais velho, de 62 anos, que dividia com o pai a administração das empresas. Seu trunfo é ser o único herdeiro de Antônia Odontina. Isso lhe garantiria a metade dos bens. A outra metade, correspondente a Antônio Venâncio, seria dividida entre ele e os outros quatro filhos oficialmente reconhecidos - André, Rafael, Priscila e Venâncio Júnior.

Venâncio 2000 em Brasília (Foto Noturna)
Os quatro contestam o testamento. Alegam que o pai era menor de idade quando se casou com Odontina, portanto os dois não poderiam ter adotado o regime de comunhão de bens. Além disso, acusam José Nicodemos de ter gerenciado mal as empresas. As denúncias fazem parte do processo na Justiça. José Nicodemos teria pago despesas pessoais com vales da empresa. Apenas no mês de maio de 1998 os vales somariam R$ 265 mil. Fez isso sem abrir mão do salário mensal de R$ 19.500. José Nicodemos diz que todos os irmãos retiravam dinheiro das empresas.

No dia 15/10/1997, enquanto o pai era velado no Rio de Janeiro, José Nicodemos registrava em ata uma reunião dos condomínios dos dois shoppings, supostamente realizada em Brasília. A ata confirma a presença do morto na reunião, que aprovou despesas de R$ 1,7 milhão nos prédios. André e Venâncio Júnior ganharam lugar na diretoria da empresa e alijaram José Nicodemos. A disputa entre os diretores paralisa a companhia. Os herdeiros calculam que o valor dos dois shoppings caiu pela metade.

José Nicodemos ganhou na Justiça o direito de sacar cerca de R$ 5 milhões da conta que o pai mantinha no Banco do Brasil. O juiz Silvânio Santos autorizou o saque no último dia de expediente do Poder Judiciário, enquanto os outros herdeiros ainda tentavam um recurso. O advogado de José Nicodemos, Jonas Cruz, é padrinho da filha de Silvânio Santos. Mesmo assim ele não se considera suspeito para julgar o caso: "A lei diz que só há suspeição se o juiz for amigo íntimo de uma das partes do processo, não do advogado", argumentou.

Desde a morte do patriarca, em outubro de 1997, aos 86 anos, a família briga pela herança. A cada sentença judicial o comando das empresas muda de dono.

Venâncio 3000, atualmente Shopping ID em Brasília
O Império dos Venâncios em Brasília

Poucos brasilienses e visitantes que trafegam pela Via S1 tem conhecimento que seis prédios que formam o complexo comercial conhecido por Conic, foram construídos pelo empresário cearense Antônio Venâncio da Silva, natural do Assaré. Além dos Edifícios Venâncios II, III, IV, V e VI o ex-agricultou que residiu na Taboquinha altaneirense, construiu um verdadeiro império na Capital Federal no ramo imobiliário, inclusive com dois centros comerciais que marcaram época.

Na Taboquinha existe uma lenda que o jovem Antônio Venâncio enganou uma velha senhora e desenterrou um butija (pote com ouro e prata) e fugiu para o Rio de Janeiro onde fez sua fortuna. 

O primeiro imóvel construído por Antônio Venâncio foi o Edifício Venâncio I, localizado na Avenina Nossa Senhora de Copacabana em área nobre do Rio de Janeiro, antes da transferência da Capital Federal para Brasília.

Já os brasilienses são mais familiarizados com outros, os dois centros de compras da família, o Venâncio 2000 e o Venâncio 3000 (atual Shopping ID), ambos os empreendimentos foram construídos na década de 70 do século passado.

Os dois shoppings, sobretudo o Venâncio 2000, representaram uma mudança no varejo na Capital Federal e no comportamento dos consumidores. Até então, era na Avenida W3 Sul onde se encontravam o bom comércio e as boas lojas, além do grande divertimento dos brasilienses da época: "flanar" por suas calçadas, olhar as vitrines, além de ver e ser visto pela sociedade local.

Com a construção do primeiro shopping da capital, o Venâncio 2000, naturalmente os consumidores migraram da Avenida W3 Sul para o centro de compras, pois encontravam tudo o que precisavam em um só lugar, não precisavam mais percorrer as longas distâncias entre as lojas e estavam protegidos do sol inclemente do cerrado, além das intermitentes chuvas que assolavam Brasília na época do verão.

Conic (Complexo de Edifícios Venâncio em Brasília)
Ambos os centros comerciais possuem endereços privilegiados: Venâncio 2000 no Setor Comercial Sul (SCS) quadra 8 e o Venâncio 3000 no Setor Comercial Norte (SCN) quadra 6. Por terem sido construídos num período onde o preço do m² no centro da cidade era mais barato, ambos os empreendimentos possuem corredores bastante largos e todas as suas lojas possuem dimensões maiores, inclusive, das encontradas nas lojas âncora dos shoppings atuais.

O falecimento de Antônio Venâncio em outubro de 1997 expõe a verdadeira guerra que seu herdeiros (cinco legalmente reconhecidos mais dois que não eram reconhecidos, quando da sua morte) travavam dentro da família e que espólio do rico empresário cearense só tornou mais acirrada. Os bens deixados pelo Antônio Venâncio já foram avaliados em mais R$ 400 milhões, constituído de 10.000 salas e lojas comerciais, 2 shoppings centers, quatro casas em Brasília, um apartamento no Rio de Janeiro, as cotas da empresa que administra os bens e R$ 10 milhões depositados numa conta bancária no Banco Brasil.

Em meio a várias disputas judiciais dignas de enredo de novela, ambos os shoppings foram entrando em decadência. Suas instalações ficaram obsoletas e a chegada de empreendimentos concorrentes, só agravou o problema.

Tentativas para reerguer ambos os shoppings são frequentemente anunciadas como a da livraria FNAC, que antes de optar pelo Park Shopping cogitou em ser condômina dos Venâncios e o departamento cultural do Unibanco, mas ante ao embrolho judicial desistiram. Outra solução encontrada foi a de alugar os espaços para a sede de empresas estatais como a EBC e a Eletronorte que depositam mensalmente o aluguel numa conta bancária sob administração judicial. Além dessas medidas, ocorreu, também, o retrofit do Venâncio 3000 e sua transformação em shopping de móveis e decoração, o Shopping ID, buscando a loja paulista Etna para âncora do empreendimento.

Guilherme Figueiredo

GUILHERME DE OLIVEIRA FIGUEIREDO
(82 anos)
Autor e Dramaturgo

☼ Campinas, SP (13/02/1915)
┼ Rio de Janeiro, RJ (24/05/1997)

Guilherme de Oliveira Figueiredo, ou somente Guilherme Figueiredo foi um autor e dramaturgo brasileiro, irmão do último presidente militar João Baptista de Oliveira Figueiredo. Nasceu em Campinas, interior do Estado de São Paulo, em 13/02/1915.

Forma-se em Direito, pela Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, cidade em que iniciou sua carreira profissional como crítico de teatro e de literatura em O Jornal e no Diário de Notícias.

Em 1948, fez sua estreia como dramaturgo, com a montagem de dois textos pela Companhia do ator Procópio Ferreira: a comédia "Lady Godiva" e o drama "Greve Geral".

Suas peças são voltadas para temas mitológicos, em sua maioria, escritas com uma abordagem cômica.

Em 1949 montou a peça "Um Deus Dormiu Lá Em Casa", inspirada em temática grega, iniciando uma série que o aproximou do universo dos mitos. Dirigida por Silveira Sampaio, com Paulo Autran e Tônia Carrero à frente do elenco, a montagem alcançou repercussão e prêmios. Ainda em 1949, foi professor de história do teatro na Escola do Serviço Nacional de Teatro (SNT), bem como tradutor de inúmeros autores, como Molière, William Shakespeare e Bernard Shaw.

Com o Teatro de Revista em alta, na década de 50, escreveu as revistas "A Imprensa é Livre" e "Miss França", em co-autoria com Geysa Bôscoli. Em seguida, apresentou os textos "Don Juan" (1951).

Em 1952, "A Raposa e as Uvas" dirigida por Bibi Ferreira, tornou-se sua criação mais conhecida no Brasil e no exterior, onde conheceu diversas encenações e traduções, recebendo o Prêmio Municipal do Rio de Janeiro e da Associação Brasileira de Críticos Teatrais (ABCT).


Em 1957, fez "Menina Sem Nome", infantil. No volume "Xântias - Oito Diálogos Sobre a Arte Dramática", Guilherme Figueiredo resume seus ensinamentos sobre dramaturgia.

Em 1958, fez "A Muito Curiosa História da Virtuosa Matrona de Éfeso", montagem de sucesso empreendida pelo Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). Novos textos são lançados, mas nenhum alcança grande repercussão: "Tragédia Para Rir", "Retrato de Amélia" e "Os Fantasmas".

Nos anos subsequentes criou as peças inéditas: "Napoleão", "Balada Para Satã", "O Herói", "Comédia Para Não Rir" e "Maria da Ponte", além de uma série de comédias curtas em um ato.

Em 1963, escreveu "Os Gigantes, Os Rios..." e "A Cidade de Cada Um", conto premiado no concurso "As Melhores Histórias Sobre a Cidade", instituído pelo Correio da Manhã, publicado pela Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro.

Com o livro "A Raposa e as Uvas" alcançou o Prêmio Artur Azevedo, da Academia Brasileira de Letras (ABL), e com o livro "Um Deus Dormiu Lá Em Casa", obteve a medalha de ouro da Associação Brasileira de Críticos Teatrais (ABCT).

Guilherme Figueiredo morreu no dia 24/05/1997, aos 82 anos, no Rio de Janeiro.

Fonte: Wikipédia

Waldir Amaral

WALDIR AMARAL
(70 anos)
Radialista e Locutor Esportivo

* Andinópolis, GO (17/10/1926)
+ Rio de Janeiro, RJ (07/10/1997)

Waldir Amaral foi um radialista e locutor esportivo brasileiro. Talentoso profissional de comunicação, foi um dos pioneiros na transformação das jornadas esportivas radiofônicas num verdadeiro show. Criou bordões que atravessaram todo o Brasil e tornaram-se referência nacional como "Indivíduo Competente", "O Relógio Marca", e "Tem Peixe Na Rede". Criou também o apelido "Galinho de Quintino" que acompanha Zico até os dias de hoje.

Waldir Amaral iniciou sua carreira na Rádio Clube de Goiânia. No Rio de Janeiro, passou pela Rádio Tupi, Rádio Mauá, Rádio Continental, Rádio Mayrink Veiga, Rádio Nacional e Rádio Globo. Nesta última, por sinal, permaneceu de 1961 a 1983.


Foi Waldir Amaral, ao lado de um dos diretores da Rádio Globo, Mário Luiz, o "criador intelectual" da vinheta "Brasil-sil-sil!", gravada pelo radialista Edmo Zarife durante as eliminatórias da Copa do Mundo de 1970, para levar a Seleção Brasileira à frente, e que está no ar até hoje.

Waldir Amaral faleceu 10 dias antes de completar 71 anos, vitimado por uma insuficiência coronariana.

Em sua homenagem, a Rua Turf Club, no bairro do Maracanã, passou a se chamar Rua Radialista Waldir Amaral. Rua, aliás, onde se encontra a sede da Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (FERJ).

Waldir Amaral foi um locutor original e que soube comunicar como poucos. Narrava pausadamente, com elegância e muito estilo. Foi um dos maiores radialistas esportivos de todos os tempos.

Bordões

Profissional extremamente criativo, Waldir Amaral costumava dizer vários bordões enquanto narrava a partida. Alguns bordões criados por ele:

  • "Tem peixe na rede do..." - Dizia se referindo ao time que levava gol do adversário.
  • "Choveu na horta do..." - Dizia se referindo ao time que fazia gol no adversário.
  • "É fumaça de gol" - Dizia quando surgia uma oportunidade de gol: "Aproxima-se da área, é fumaça de gol..."
  • "Caldeirão do Diabo" - A grande área: "Vai cruzar no caldeirão do Diabo!"
  • "Indivíduo competente" - Quem fazia o gol: "Indivíduo competente o Zico!"
  • "Deeeeez, é a camisa dele!"
  • "O visual é bom, Roberto tem bala na agulha!" - Quando o jogador ia bater uma falta.
  • "Estão desfraldadas as bandeiras do Botafogo" - Dizia logo após o gol.
  • "Deixa comigo" - Dizia logo após a vinheta do seu nome.
  • "O relógio marca" - Dizia quando dava o tempo de jogo.

Fonte: Wikipédia
Indicação: Miguel Sampaio

Ester de Abreu

ESTER DE ABREU PEREIRA
(75 anos)
Cantora

* Lisboa, Portugal (25/10/1921)
+ Rio de Janeiro, RJ (24/02/1997)

Irmã da também cantora Gilda Valença, fixou residência no Brasil a partir do final da década de 40. Entre 1952 e 1953, manteve relacionamento amoroso com o então prefeito do Distrito Federal coronel Dulcídio do Espírito Santo Cardoso, romance que mereceu fortes reportagens na imprensa e em revistas especializadas da época.

Iniciou a carreira cantando em programas radiofônicos dedicados ao público infantil. Em 1940 começou a cantar profissionalmente na Rádio Nacional de Lisboa. Em 1946 venceu um concurso na mesma rádio, da qual passou a fazer parte do cast de artistas. Excursionou diversas vezes por Portugal.

Em 1948 recebeu convite para vir ao Brasil fazer uma temporada de dois meses no Copacabana Palace Hotel, no espetáculo "Sonho Nas Berlengas". Acabou ficando no Rio de Janeiro, definitivamente, sendo contratada pela Rádio Nacional.

Em 1950 estreou em discos no Brasil gravando na Continental o fado canção "Já Não Sei" (Antônio Mestre) e o fado "Pomar Da Vida" (Renê Bittencourt e Antônio Mestre). No ano seguinte gravou o fado baião "Ai, Ai Portugal" (Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga) e o baião "Carro De Boi" (Humberto Teixeira e Caribé da Rocha).


Em 1952, gravou pela Sinter seu maior sucesso, o fado-canção "Coimbra (É Uma Lição De Amor)" (José Galhardo e Raul Ferrão). No ano seguinte gravou para o carnaval a marcha "Cabral No Carnaval" (Blecaute).

Em 1954 gravou de Paulo Tapajós e Jorge Henrique a canção "Quero-te Outra Vez". No mesmo ano lançou seu primeiro LP, pela RCA Victor.

Tanto por sua beleza pessoal, quanto por sua ligação sentimental com o então prefeito do Distrito Federal, coronel Dulcídio do Espírito Santo Cardoso, obteve grande popularidade, na década de 1950, tendo por inúmeras vezes merecido a capa das revistas Radiolândia e Revista do Rádio.

Em 1955 gravou o fox "Gosto Milhões" (Cole Porter), com versão de Haroldo Barbosa e o "Samba No Havaí" (Bruno Marnet e Irani de Oliveira)

Em 1956 gravou com Ivon Curi o samba "Pequena Do Contra" (Renê Bittencourt).

Em 1957 gravou de Fernando César e Dolores Duran a toada "Só Ficou A Saudade", e de Irani de Oliveira e Lourival Faissal o fado "Canção Do Imigrante".

Em 1962 lançou pela Continental o bolero "Que Deus Me Dê", da dupla Jair Amorim e Evaldo Gouveia.

Até a década de 1970, quando encerrou a carreira artística, a cantora não gravou apenas fados e canções, mas também vários gêneros populares brasileiros como sambas-canções, baiões e marchinhas de carnaval.

Discografia

  • 1962 - Que Deus Me Dê / Saudade, Não Vás (Continental, 78)
  • 1961 - Les Enfant Du Pirés / Lisboa (Continental, 78)
  • 1960 - Saudade Vai-te Embora / Lisboa À Noite (RCA Victor, 78)
  • 1959 - Amor Sou Tua / Canção Da Madrugada (RCA Victor, 78)
  • 1959 - Orgulho / Rua Sem Luz! (RCA Victor, 78)
  • 1958 - Tu Me Acostumbraste / Figueira Da Foz (RCA Victor, 78)
  • 1958 - Mas Sou Fadista / Sinal Da Cruz (RCA Victor, 78)
  • 1958 - Gigi / Soidão (RCA Victor, 78)
  • 1957 - Casinha Branca / Anda Amigo (RCA Victor, 78)
  • 1957 - Só Ficou A Saudade / Canção Do Imigrante (RCA Victor, 78)
  • 1957 - Volta Ao Mundo / Marcelino, Bom Menino (RCA Victor, 78)
  • 1956 - Se Um Dia / Lavadeiras De Portugal (RCA Victor, 78)
  • 1956 - Lisboa, Não Sejas Francesa / Pequena Do Contra (RCA Victor, 78)
  • 1956 - Ninguém Como Tu (RCA Victor, 78)
  • 1956 - Festa Das Flores / Foi Deus (RCA Victor, 78)
  • 1956 - Que Será, Será / Sempre Que Lisboa Canta (RCA Victor, 78)
  • 1955 - Fado Das Caldas / Mais Um Pouco De Amor (RCA Victor, 78)
  • 1955 - Ester de Abreu Com Orquestra de Lírio Panicali (Sinter, SLP - LP)
  • 1955 - Malagueña / Vira Das Palmas (RCA Victor, 78)
  • 1955 - Gosto Milhões / Samba No Havaí (RCA Victor, 78)
  • 1954 - Marcha Do Cau-Cau / Marcha Do Carneirinho (Sinter, 78)
  • 1954 - Novo Fado Da Severa / Rosinha Dos Limões (RCA Victor, 78)
  • 1954 - Mãe Preta / Quero-te Outra Vez (RCA Victor, 78)
  • 1954 - Pode Ser Mentira / Vivo A Sofrer (RCA Victor, 78)
  • 1954 - Anna / Mariana (Sinter, 78)
  • 1954 - Ester de Abreu (RCA Victor, LP)
  • 1953 - Cabral No Carnaval / Ou Vai Ou Racha (Sinter, 78)
  • 1953 - Segredo / Confesso (Sinter, 78)
  • 1952 - Coimbra (É Uma Lição De Amor) / Outras Mulheres (Sinter, 78)
  • 1952 - Perseguição / Reflete, Amor (Sinter, 78)
  • 1951 - Ai, Ai Portugal / Carro De Boi (Continental, 78)
  • 1950 - Já Não Sei / Pomar Da Vida (Continental, 78)

Indicação: Miguel Sampaio

Rosita Gonzales

JUSSARA DE MELO VIEIRA
(67 anos)
Cantora

* Rio de Janeiro, RJ (08/11/1929)
+ Rio de Janeiro, RJ (28/02/1997)

Iniciou a carreira artística profissional em 1946 quando foi contratada peal Rádio Nacional.

No início dos anos 1950 ingressou na Rádio Mayrink Veiga. Assinou contrato com o selo Elite Special e lançou o primeiro disco em 1952 com os boleros "Noite Após Noite" (Vitor Berbara e Haroldo Eiras) e "O 'M' Da Minha Mão" (Mário Gennari Filho e Ribeiro Filho). No mesmo ano, gravou os mambos "Passa Mañana" (Denis Brean e Blota Jr.), "Sonrie La Luna" (Alexandre Gnattali, J. Castilho e Clarice Gnattali), os boleros "Lunita Blanca" (Juanita Castilho e Alexandre Gnattali) e "Nenhuma Ilusão" (Vitor Berbara e Altamiro Carrilho). Ainda em 1952, assinou contrato com a Odeon e gravou com o instrumentista Roberto Ferri no solovox o bolero "Numa Noite De Luar" (Hianto de Almeida e Haroldo de Almeida).

Em 1953, gravou o fox "Chinita, Chinita" (Osvaldo Farrel) e o beguine "Porque Volvi" (Haroldo Eiras e Vitor Berbara). Ainda nesse ano, gravou o samba-canção "Aconteceu" (Luiz de França e Oscar Bellandi) e o samba "O Mal Que Eu Fiz" (Luiz Bittencourt).

Gravou em 1954 o pasodoble "El Novillero" (Maria Tereza Lara) e o bolero "Si Te Llego A Perder" (Roberto Martins e Aguimar). Ainda em 1954, participou com a Orquestra Ruy Rey, Grande Otelo, Jorge Veiga, Cauby Peixoto, Jackson do Pandeiro, Dircinha Batista e Emilinha Borba de show promovido pela Associação dos Servidores do Trabalho, Indústria e Comércio em comemoração ao Dia do Trabalhador.

Em 1955, gravou o tango "A Toca Do José" (R. Adler, J. Ross e Ghiaroni) e o bolero "Não Sei Como Foi" (Haroldo de Almeida).

Em 1958, realizou uma longa temporada cantando em boates de São Paulo.

Em 1960, foi contratada pela gravadora Philips e gravou o tango "A Carta" (Bidu Reis e Murilo Latine) e a guarânia "Quero Fitar Teus Olhos" (Arsênio de Carvalho e Lourival Faissal). Nesse ano, lançou pela Philips o LP "Lo Que Te Gusta A Ti" e no ano seguinte, o LP "Boleros Inolvidables".

Gravou em 1963 o bolero "Confesion" (Joaquin Oliver) e o cha cha cha "Quando Calienta El Sol" (Carlos Rigual e Mario Rigual).

Em 1964, gravou pelo selo Repertório o choro "Pranto" (Felício dos Santos e Gadé) e a fantasia "Noche Azul" (Ricardo Bardaguer).

Na década de 70, integrou o elenco do Brazilian Follies, que fez temporada no Hotel Nacional, no Rio de Janeiro.

Participou em 1989, ao lado das cantoras Nora Ney, Carmélia Alves, Violeta Cavalcanti, Zezé Gonzaga, e Ellen de Lima, do show "As Eternas Cantoras do Rádio". Desse show foi gravado um LP lançado dois anos depois no qual interpretou as músicas "As Cantoras Do Rádio" (Alberto Ribeiro, João de Barro e Lamartine Babo), juntamente com as outras cantoras, "Fascinação" (D. Marchetti e M. de Feraudy) e "Noche De Ronda" (Maria Tereza Lara).

Na década de 90, participou do CD "Coisas Nossas", tributo a Noel Rosa, da Leblon Records, interpretando "As Pastorinhas" (Noel Rosa e João de Barro).

Discografia

  • 1994 - As Eternas Cantoras do Rádio - Volume 2 (CID, LP)
  • 1991 - As Eternas Cantoras do Rádio (Fama / CID, LP)
  • 1965 - Sabor A Mi (Philips, LP)
  • 1964 - Pranto / Noche Azul (Repertório, 78)
  • 1963 - Tangos (Philips, LP)
  • 1963 - Confesion / Quando Calientea El Sol (Philips, 78)
  • 1962 - Boleros Inolvidables (Philips, LP)
  • 1961 - Lo Que Te Gusta A Ti (Philips, LP)
  • 1960 - A Carta / Quero Fitar Teus Olhos (Philips, LP)
  • 1960 - Lo Que Te Gusta A Ti (Philips, LP)
  • 1958 - Boleros e Beguines (Todamérica, LP)
  • 1957 - Pranto / Noche Azul (Repertório, 78)
  • 1955 - Rosita Gonzales (Rádio)
  • 1955 - A Toca Do José / Não Sei Como Foi (Odeon, 78)
  • 1954 - El Novillero / Si Te Llego A Perder (Odeon, 78)
  • 1953 - Chinita, Chinito / Porque Volvi (Odeon, 78)
  • 1953 - Aconteceu / O Mal Que Eu Fiz (Odeon, 78)
  • 1952 - Noite Após Noite / O "M" Da Minha Mão (Elite Special, 78)
  • 1952 - Passa Mañana / Lunita Blanca (Elite Special, 78)
  • 1952 - Nenhuma Ilusão / Sonrie La Luna (Elite Special, 78)
  • 1952 - Numa Noite De Luar (Odeon, 78)
  • S/D - Rosita Gonzales e Os Sucessos dos Filmes "Carmen de La Ronda" e "La Violetera (Philips)
  • S/D  - Compacto (Tapecar)

Indicação: Miguel Sampaio

Frei Damião

PIO GIANNNOTTI
(98 anos)
Frade

* Bozzano, Itália (05/11/1898)
+ Recife, PE (31/05/1997)

Frei Damião foi um frade italiano radicado no Brasil. Nasceu em Bozzano, município de Massarosa, Província de Lucca, na Itália, aos 05/11/1898. Foi o segundo dos 5 filhos do casal Félix Giannotti e Maria Giannotti, camponeses italianos de sólida formação cristã e católica. O filho mais velho da família, Guilherme Giannotti, tornou-se padre diocesano e depois recebeu o título de Monsenhor, destacando-se como professor e diretor espiritual no Seminário Arquiepiscopal de Lucca-Itália. A irmã mais nova, Pia Giannotti, tornou-se freira da Congregação das Irmãs de Santa Zita (Zitinas).

No dia seguinte ao seu nascimento, foi batizado na igreja dos santos Catarina e Próspero, matriz de Bozzano, recebendo o nome de Pio Giannotti. Aos 10 anos de idade, em 15/06/1908, foi crismado na Catedral de Lucca, pelo Cardeal Lorenzelli. Todavia, o dia da sua Primeira Comunhão foi para o menino Pio Giannotti o mais especial, após a experiência que teve diante de Jesus Crucificado, que o marcou pelo resto de sua vida. Segundo o testemunho de uma de suas irmãs, Josefa, após a missa da Primeira Comunhão, quando voltaram para casa, logo o menino desapareceu, preocupando a todos da família. Ela saiu à sua procura e encontrou-o, para sua surpresa, ajoelhado diante de um crucifixo que ele mesmo colocara no sótão da casa, onde guardavam os mantimentos para o inverno, rezando e chorando a paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Eis porque durante toda a vida, jamais se separou do crucifixo!


A Vocação à Vida Religiosa

Depois da experiência com o Crucificado, Pio Giannotti começou a externar os primeiros sinais de sua vocação, com o desejo de consagrar-se inteiramente a Deus. Não seguiu o mesmo caminho do irmão Guilherme, que era padre diocesano, mas, tocado pelo testemunho dos filhos de São Francisco de Assis, aos 13 anos de idade, a 17/03/1911, ingressou no Seminário Seráfico de Camigliano, da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos. Aos 17 anos, em julho de 1915, emitiu os primeiros votos, recebendo o nome de Damião, Frei Damião de Bozzano, indicando sua cidade de origem.


Formação Religiosa e Intelectual

Sendo professo simples na Ordem dos Capuchinhos, Frei Damião iniciou o estudo da Filosofia. Teve, contudo, que parar por algum tempo, devido à convocação, em setembro de 1918, para o serviço militar na Primeira Guerra Mundial. Ficou acampado em Zara, uma zona de conflito. Voltando para o convento, depois do fim da guerra, Frei Damião emitiu a sua Profissão Perpétua, selando para sempre com o Senhor o compromisso de viver em castidade, em obediência e sem nada de próprio, conforme a Regra de São Francisco de Assis e as Constituições da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos.

No ano de 1920, iniciou estudo da sagrada Teologia. A seguir, foi enviado à Universidade Gregoriana de Roma, onde concluiu os estudos, com láurea em Direito Canônico e Teologia Dogmática. Em 05/08/1923, ele foi ordenado sacerdote na igreja do antigo Colégio São Lourenço de Bríndisi, em Roma.


Serviços Prestados

Dois anos após a sua ordenação, Frei Damião de Bozzano foi nomeado vice-mestre de noviços de sua Província religiosa, Lucca, Itália. Em 1926, foi nomeado diretor e professor dos frades estudantes, cargo que exerceu até 1931, ano de sua vinda para o Brasil. E no Brasil foi eleito Assistente (Conselheiro) da então Custódia Geral dos Capuchinhos de Pernambuco. Aqui, dedicou-se às Santas Missões durante 66 anos.

Frei Damião, recém chegado ao Brasil
No Brasil: Residências e Andanças Missionárias

A Província dos Capuchinhos de Lucca-Itália assumiu a Missão de Pernambuco no ano de 1930, quando aportou em Recife o Frei Félix de Olívola, nomeado Superior da dita Missão. Por seu expresso pedido, obediente ao mandato de Cristo aos apóstolos: "Ide por todo mundo e pregai o Evangelho a toda criatura" (Mc 16,15), Frei Damião deixou sua Itália querida e veio, juntamente com Frei Inácio de CarraraFrei Bento de Terrinca, como missionário para o Nordeste do Brasil. Partiu da cidade de Gênova, no navio Conte Rosso, aos 28/05/1931, desembarcando no porto do Recife, em Pernambuco, aos 17/06/1931.

No Brasil, sua primeira residência foi o Convento de Nossa Senhora da Penha, donde partiu para pregar as Santas Missões, começando pelo Sítio Riacho do Mel, município de Gravatá, PE, a 35 km da capital.

Desde então, durante 66 anos, percorreu como fiel filho de São Francisco as secas, porém, férteis terras nordestinas, enfrentando sol, chuva e poeira nas estradas, pregando, confessando, celebrando a Eucaristia e convidando à conversão e à mudança de vida.

Para melhor difundir a mensagem por ele anunciada, escreveu o livro "Em Defesa da Fé". Durante esse tempo morou em Recife, PE, Maceió, AL (no período da Segunda Guerra Mundial) e em Natal, RN, onde fez parte da primeira Fraternidade, ou seja do primeiro grupo de frades que residiram na capital potiguar. Mas, a maior parte do tempo era em andanças de cidade em cidade.


As Santas Missões: O Estilo de Evangelização

As Santas Missões eram um tempo forte de graça e conversão. A cidade parava para ouvir e celebrar a Palavra de Deus proclamada pelo Frei Damião. Era sempre recebido com festa e tratado com muito carinho como ele mesmo afirmava. Porém, fazia questão de dizer que tudo aquilo não era para ele, mas para Deus de quem o povo o via como mensageiro. Não pregava a si mesmo, mas o Evangelho de Cristo.

Frei Damião, antecedido por outros tantos abnegados capuchinhos missionários no Nordeste, desenvolveu um estilo próprio de evangelização, através das Santas Missões. A Missão geralmente começava na segunda-feira. Ao cair da tarde, o missionário era recebido á entrada da cidade e conduzido, geralmente em carreatas, à igreja matriz, ali dirigia as primeiras palavras à multidão que esperava, sedenta, ouvir a voz do Peregrino de Deus.

À noite, rezava o terço com o povo, fazia o grande sermão, seguido da bênção do Santíssimo Sacramento, e, em seguida, confissão para os homens até 00:00 hs ou mais. Nas primeiras horas do amanhecer, às 4:30 hs, com a campainha na mão, acordava os cristãos: "Vinde pais e vinde mães…", chamando as pessoas para a caminhada de penitência, seguida do canto do Ofício de Nossa Senhora ou das Benditas Almas do Purgatório, e da celebração da missa e das confissões.

Frei Damião confessava mais de 12 horas por dia, celebrava com o povo o Sacramento do Perdão de Deus. Com carinho paterno, jeito terno e, às vezes, severo, ele orientava os corações para Cristo.

Durante a Semana da Missão, havia encontros específicos com as mulheres, com os homens, com os jovens, catecismo para as crianças, visitas aos doentes e aos encarcerados. O encerramento dava-se no domingo com a procissão dos motoristas e bênção dos automóveis pela manhã e, á noite, o grande sermão com os últimos conselhos do missionário.

Tinha uma pregação de conteúdo moral e apologético, propondo, assim, demonstrar a verdade da doutrina cristã católica, defendendo-a diante de teses contrárias, ou seja, sistematizando a fé cristã católica, sua origem, credibilidade e autenticidade. Fazia parte do Sermão a pregação que apontava para "Os Novíssimos": Morte, Juízo, Céu e Inferno. Lembrando que o Livro do Eclesiástico contém um conselho fundamental para nossa salvação: "Em todas as tuas obras, lembra-te dos teus novíssimos, e jamais pecarás" (Ecl. 7, 40).

Assim se recordarmos sempre da morte, do juízo, do céu e do inferno jamais pecaremos. Se o mundo anda tão mal, é porque pouco se medita ou mesmo não se cogita seriamente sobre os Novíssimos. Os Santos, no entanto, não só os tinham sempre presentes, mas também pregavam sobre eles aos outros. Assim o fez e ensinou Frei Damião de Bozzano.

Memorial Frei Damião
Companheiros de Missões

Como companheiros de missões, Frei Damião teve o apoio de Frei Antônio de Terrinca, Frei Cipriano de Ponteccio, Frei Eduardo de Strettoia, Frei Félix de Pomezzana e aquele que por mais de 50 anos esteve a seu lado, Frei Fernando Rossi. Ao lado do Servo de Deus, esteve em muitos lugares, especialmente nos Estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Alagoas, Sergipe, Ceará e Piauí. Atualmente, reside na Vila São Francisco, município de Quebrangulo, AL.


Resistência, Doação, Dom da Escuta e Espiritualidade

Frei Damião era de uma resistência extraordinária. Até 1990, pregou missões no mesmo ritmo, de segunda a domingo, de 10/01 a 31/12, parando apenas quando estava doente e, mesmo no hospital, não deixava de atender ao povo.

Arrastava multidões e todos queriam ouvir sua voz e tocá-lo. Era querido pelo povo como um pai, um padrinho, alguém da família. Não falava simplesmente à multidão, mas ao coração de cada um em particular. Por isso, acolhia a todos sem distinção, do rico ao pobre, do letrado ao analfabeto, era irmão de todos, e a todos exortava a viverem na amizade de Deus e a abandonarem o pecado.

Ouviu a alma do nosso povo e não somente os pecados, mas as dores e as alegrias. Tornou-se solidário conosco, um de nós, nordestino como nós, para levar todos a Cristo. Jamais se separou do crucifixo, nem do rosário da Mãe de Deus. Como autêntico franciscano, alicerçou sua vida missionária sobre os principais pilares da espiritualidade franciscana: a Cruz, a Eucaristia e Maria.


Doença e Morte

Durante muito tempo, Frei Damião sofreu de erisipela, devido à má circulação sanguínea. E no ano de 1990, após ter sofrido uma embolia pulmonar, diminuiu o ritmo das Santas Missões, passando apenas para os finais de semana. Na simplicidade de um quarto, na casa que lhe fora construída como enfermaria, viveu seus últimos dias, cercado pelo carinho do seu povo que, aos milhares, vinha ao seu encontro.

Mas, em 1997, sua saúde agravou-se bastante. Foi internado várias vezes no Real Hospital Português do Recife, sob os cuidados do Drº Blancard Torres. Ele pregou sua última Santa Missão na cidade de Capoeiras, PE, em 02/1997. Depois, adoeceu novamente tendo que ser levado ao Hospital Sara Kubitschek, em Brasília, DF, para que lhe fosse confeccionada uma cadeira ortopédica que o ajudasse a respirar melhor.

Em 12/05/1997 foi novamente internado no Real Hospital Português, na capital pernambucana, mas, fato inusitado, ele em dado momento foi encontrado rezando o rosário com o povo numa das salas do hospital. Foi sua última missão: rezar com o povo o rosário de Nossa Senhora. No dia seguinte, 13/05/1997, sofreu um derrame cerebral sendo levado para a UTI. No dia 31/05/1997, às 19:20 hs, Frei Damião faleceu, aos 98 anos de idade, cercado pela oração de seus confrades, da equipe médica que dele cuidara e sob a melodia de cânticos e hinos.


Luto, Velório e Sepultamento

Tendo sido embalsamado, o corpo de Frei Damião foi velado na Basílica de Nossa Senhora da Penha, no centenário bairro de São José, em Recife, PE. Os governos federal e estadual declararam luto oficial. E ao longo de três dias de velório, mais de 300 mil pessoas enfrentaram filas quilométricas, passando até cinco horas para chegar ao local do velório, a fim de dar-lhe o último adeus.

Personagens de renome fizeram-se presente ao velório, desde clérigos, religiosos e religiosas, políticos, artistas a fiéis comuns. A morte do "Missionário do Nordeste" foi anunciada pelos principais meios de comunicação do país e do estrangeiro, especialmente na sua terral natal, a Itália, e até mesmo na Rádio Vaticano.

No dia 04/06/1997, o corpo de Frei Damião foi levado em carro aberto até ao Estádio do Arruda, para a missa solene de despedida, presidida pelo arcebispo metropolitano de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, e concelebrada por dezenas de bispos e centenas de padres. Do estádio, em helicóptero, foi transportado para o Convento São Félix de Cantalice, no bairro do Pina, em Recife, PE, onde vivera seus últimos anos de vida. Ali, na capela dedicada à Nossa Senhora das Graças, foi sepultado sob cânticos, aplausos e pétalas de rosas.


As Romarias e a Fama de Santidade

Desde o sepultamento, todos os domingos, muitos fiéis, romeiros e romeiras, advindos dos mais diversos recantos do Nordeste e d’outras partes do país, alguns até do estrangeiro, acorrem ao túmulo de Frei Damião, para rezar e suplicar a Deus uma graça por sua intercessão. São sempre festa, devoção, piedade e alegria, como nos dias das Santas Missões.

A fama de santidade de Frei Damião espalha-se a cada dia. Ele é, para todo cristão, um modelo de seguimento de Jesus Cristo e de concretização do mandato do Senhor: "Sede santos como o vosso Pai do Céu é santo" (Mt 5,48). 

Afirmam os confrades contemporâneos de Frei Damião que sua fama de santidade já começara na Itália, destacando-se como frade piedoso e zeloso sacerdote, entregue à oração, à contemplação e de profunda identificação com o carisma capuchinho de viver em fraternidade, segundo a forma do Santo Evangelho. Aqui no Brasil, destacou-se, além disso, por sua resistência como confessor, sua sabedoria como pregador e sua convicção das verdades de fé que anunciava, deixando-as transparecer pelo seu exemplo de vida, e também por sua identificação franciscana com os pobres e desvalidos do Nordeste, terra tão sofrida e marcada pelas intempéries do tempo e das injustiças sociais. Por isso, valeu-se do dom da escuta, para acolher e ouvir a todos que o procuravam, na partilha sincera de suas vivências e nos sussurros ao pé do ouvido feitos por muitos que não tinham voz nem vez, e que Frei Damião em prece levava ao coração de Deus.

É claro que no coração dos nordestinos Frei Damião já tem um altar, pois todos reconhecem a sua santidade, mas isso precisa ser analisado e reconhecido pela santa Igreja, a quem compete pronunciar-se oficialmente sobre a santidade de uma pessoa e apresentá-la como modelo ao mundo, inclusive dando-lhe as honras dos altares. Para isso, está em trâmite o seu Processo de Beatificação e Canonização, aberto em 2003.