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Zé da Zilda

JOSÉ GONÇALVES
(46 anos)
Cantor e Compositor

* Rio de Janeiro, RJ (06/01/1908)
+ Rio de Janeiro, RJ (10/10/1954)

José Gonçalves, mais conhecido como Zé da Zilda, foi um cantor e compositor brasileiro. Nasceu no subúrbio de Campo Grande, no Rio de Janeiro.

Filho de músico, aos cinco anos começou a aprender cavaquinho com o pai, passando mais tarde a acompanhar-se no violão. Antes de tornar-se cantor e compositor profissional, trabalhou como bombeiro-hidráulico.

Morou no morro da Mangueira desde a infância onde conviveu com o futuro compositor Cartola. Integrou a ala de compositores da Mangueira, compondo vários sambas de terreiro em parceria com Cartola e Carlos Cachaça.

No início da carreira, integrou a Companhia Teatral Casa de Caboclo, do bailarino Duque, tocando violão e cavaquinho, cantando emboladas e sambas. Ficou durante muito tempo conhecido pelo nome artístico de Zé Com Fome, por conta do personagem que interpretava para aquela Companhia. Foi convidado por Duque a ingressar na Rádio Educadora, na qual trabalhou formando dupla com Claudionor Cruz, que assinava Pente Fino. Mais tarde, como chefe de um regional e com programa próprio, passou para a Rádio Transmissora, na qual conheceu a cantora Zilda Gonçalves, que por essa época fazia sua estréia e com quem formou a Dupla da Harmonia.

Em 1936, o samba "Não Quero Mais" (José Gonçalves e Carlos Cachaça), foi cantado com grande sucesso pela Estação Primeira de Mangueira e gravado na RCA Victor por Aracy de Almeida, sendo sua primeira composição gravada.

Em 1937, seu choro "Devo E Não Nego" (José Gonçalves Dirigan Gonçalves), foi gravado pela dupla sertaneja Alvarenga & Ranchinho na RCA Victor, e o maracatu "Eu Sou Do Forte" foi registrado por Laís Marival na gravadora Columbia.

Zé da Zilda e Zilda do Zé
Em 1938, casou-se com Zilda Gonçalves. O casal manteve a Dupla da Harmonia e passou a atuar na Rádio Clube do Brasil. Nesse mesmo ano, Orlando Silva gravou "Meu Pranto Ninguém Vê" (José Gonçalves e Ataulfo Alves), e Ranchinho o samba-choro "Barracão De Zinco", as duas na RCA VictorMoreira da Silva na gravadora Columbia lançou o samba "Nega Zura". Ainda em 1938, gravou como crooner do Conjunto Regional do Donga a toada-brasileira "Corta Jaca" (Chiquinha Gonzaga), e o samba "Pelo Telefone" (Donga e Mauro de Almeida).

Em 1939, a Dupla da Harmonia passou a atuar no programa de Paulo Roberto na Rádio Cruzeiro do Sul, passando a ser chamada de Zé da Zilda e Zilda do Zé, nome dado pelo próprio apresentador e adotado inicialmente pela dupla, que o usou em apresentações nos shows e em circos.

Em 1939, gravou sozinho os sambas "Antonieta" (Alzira Medeiros e Zilda Fernandes), e "Virgulina" (Antenor Borges), além do maxixe "Escravo Do Samba" (Antenor Borges e René Bittencourt). 

Em 1940, a convite do maestro Villa-Lobos, participou juntamente com outras personalidades da música brasileira como Cartola, Pixinguinha, João da Baiana, Jararaca, Zé EspinguelaDonga e Luiz Americano, da gravação dos discos de Leopold Stokowski, registrados no navio Uruguai. Esses discos foram editados pela gravadora Columbia nos Estados Unidos. Na ocasião foram registrados seu samba-de-breque "Festa Encrencada" e seu maxixe "Bole-Bole", ambos compostos em parceria com Zilda Gonçalves.

Em 1941, seus sambas "Machucando A Gente" (José Gonçalves, Antenor Borges e M. Amorim) e "Projeto De Samba" (José Gonçalves e José Tadeu), foram gravados por Marilu, e a batucada "Uma, Duas E Três" (José Gonçalves Germano Augusto), foi gravada por Silvino Neto, na RCA Victor, além dos sambas "Tristeza" (José Gonçalves André Gargalhada) e "Zé Boa Vida" (José Gonçalves Claudionor Cruz), que foram lançados respectivamente por Gilberto Alves e Dircinha Batista na Odeon.


Em 1942 Nelson Gonçalves gravou o samba "Quem Mente Perde A Razão" (José GonçalvesEdgard Nunes e Cyro Monteiro), na RCA Victor. Lançou o samba "Senta Lá Na Mesa" (José Gonçalves e Claudionor Cruz). Ainda em 1942, sua primeira parceria com a esposa Zilda Gonçalves foi gravada, o samba "São Miguel", pela cantora Marilu. Teve também o samba "No Mundo Da Lua" (José Gonçalves Wilson Batista), gravado por Déo na gravadora Columbia. Também no mesmo ano, teve gravado seu maior sucesso, o samba "Aos Pés Da Cruz" (José Gonçalves Marino Pinto), por Orlando Silva na RCA Victor.

Em 1943, Déo gravou na Columbia os sambas "Cinzas Do Coração" (José Gonçalves Osvaldo Lobo), e "No Mundo Da Lua" (José Gonçalves Wilson Batista). Na RCA Victor, Marilu gravou o samba "Júlia Sapeca" e o choro "Fiz Um Chorinho", e Nelson Gonçalves o samba "Cruz Da Desilusão". Nesse ano, em plena Segunda Guerra Mundial, sua marcha "Galinha Verde" (José Gonçalves André Gargalhada), apelido que era dado popularmente aos simpatizantes do integralismo, foi gravada por Marilu na RCA Victor. Também em 1943, gravou o primeiro disco com a esposa Zilda Gonçalves com quem formou a dupla Zé e Zilda interpretando de sua autoria os sambas "Levanta José" e "Fim Do Eixo", sendo que este segundo samba fazia referência à derrota do eixo formado por Alemanha, Itália e Japão na Segunda Guerra Mundial.

Em 1944, seu samba "Meu Poema" (José Gonçalves Jorge de Castro), foi gravado por Orlando Silva, e o samba "Tapete De Flor" (José Gonçalves René Bittencourt), foi lançado por Gilberto Alves, ambos na gravadora Odeon. Ainda em 1944, Ataulfo Alves e Suas Pastoras gravaram o samba "Diz O Teu Nome" (José Gonçalves Ataulfo Alves). Com Zilda Gonçalves gravou os choros "Um Calo De Estimação" (José Gonçalves José Tadeu), e "O Malhador" (José Gonçalves Germano Augusto).

Em 1945, teve o samba "Não Posso Te Aceitar" (José Gonçalves Germano Augusto), gravado por Carmen Costa, e o samba "Rei Do Astral" lançado por Gilberto Alves, os dois na RCA Victor. Nesse ano, gravou com Zilda Gonçalves o samba-choro "Dona Joaninha" (José Gonçalves Ari Monteiro), o choro "Compadre Chegadinho" (José Gonçalves Germano Augusto), e os sambas "Gostozinho" (José Gonçalves Ari Monteiro) e "Izabel Não Voltou" (José GonçalvesGermano Augusto e Ari Monteiro).

Em 1946, gravou com Zilda Gonçalves os sambas "Vou-me Embora" (José Gonçalves e Marcelino Ramos) e "Se Eu Pudesse..." (José Gonçalves Germano Augusto), a batucada "Não Me Rasgue A Roupa" (Braga Filho e Germano Augusto), e o choro "Não Tenho Inveja" (Del Loro e Ari Monteiro). Também no mesmo ano, seu samba-choro "Caboclo Africano" (José Gonçalves Zilda Gonçalves), foi gravado por Jorge Veiga na gravadora Continental.


Em 1948 foi com Zilda Gonçalves para a gravadora Star e lançou os sambas "A Cabrocha Rasgou Minha Roupa" (José Gonçalves Oldemar Magalhães), e "Tribunal Da Terra" (José Gonçalves Paulo Gesta).

Em 1949 gravou com Zilda Gonçalves os sambas "Cidade Alta" (José Gonçalves Oldemar Magalhães), e "Enquanto Eu Viver""Luz Da Madrugada" (José Gonçalves e O. Silva). As marchas "Sanfoneiro Joaquim" (José Gonçalves Temístocles de Araújo), e "Tudo Azul" (José Gonçalves Paquito), além da batucada "Hoje, Não" (José Gonçalves Antônio Maria). Teve gravado por Roberto Silva o samba "Ela Não Tem Razão" (José Gonçalves Abelardo Barbosa), também em 1949.

Fez em 1950 com o radialista Abelardo Barbosa, o Chacrinha, o choro "Disco Voador" lançado por Zé Gonzaga na Odeon.

Em 1951 gravou a batucada "Para Dar Conforto A Ela" (José Gonçalves Benedito Lacerda) e teve o samba "Au Revoir" (José Gonçalves José Gama de Souza), gravado pelos Demônios da Garoa.

Em 1952, gravou com Zilda Gonçalves a marcha "Parafuso" (José GonçalvesAdelino MoreiraZilda Gonçalves), e o samba "Não Fiz Nada" (José Gonçalves Antônio Maria). Teve ainda o samba "Nosso Amor" e o mambo "Filho De Mineiro", parcerias com Zilda Gonçalves lançados por Emilinha Borba na gravadora Continental.

Em 1953 lançou com  Zilda Gonçalves os sambas "Meu Contrabaixo" (José Gonçalves Antônio Maria), "Dona Fortuna" (José GonçalvesJ. Reis e Airton Amorim), "Bom Filho Não Esquece" (José Gonçalves Felisberto Martins), e "Levou O Diabo" (José GonçalvesZilda Gonçalves e O. Silva). Ainda nesse ano, a marcha "Vendedor De Pirulito" (José Gonçalves Zilda Gonçalves), e o samba "Jura" (José GonçalvesAdolfo MacedoMarcelino Ramos) foram gravados por ele e Zilda Gonçalves em conjunto com a cantora Diamantina Gomes. O samba "Jura" obteve grande repercussão popular. Ainda em 1953, gravou com a mulher Zilda Gonçalves o baião "Eh! Baião" (José Gonçalves Jota Reis), e o bambo "Mentira" (José GonçalvesZilda Gonçalves e O. Silva). Teve ainda gravados o samba "Devagar" (José Gonçalves Jarbas Reis), por Aracy de Almeida, e a marcha "Quebra Mar" (José GonçalvesAdelino Moreira e Zilda Gonçalves) por Marlene.


Para o carnaval de 1954, lançou com Zilda Gonçalves a marcha "Saca-Rolha" (José GonçalvesZilda Gonçalves e Valdir Machado), que se tornou um clássico do repertório carnavalesco. Nesse ano, seu samba "Não Sabe O Que Diz" (José Gonçalves Valdir Machado), foi gravado por Diamantina Gomes, e a marcha "Funga-Funga" (José Gonçalves Adelino Moreira), foi lançada na gravadora Continental por Marlene. Gravou com a esposa, Zilda Gonçalves, o samba "Destruiram O Morro" (José GonçalvesZilda Gonçalves e Claudionor Santana), e a valsa "Pede A Deus". Também no mesmo ano, a dupla trabalhou na Rádio Mayrink Veiga.

Em setembro de 1954, gravou seu último disco, falecendo menos de um mês depois, cantando com Zilda Gonçalves as marchas "Ressaca" (José Gonçalves Zilda Gonçalves), que seria sucesso no carnaval do ano seguinte, e "Guarda Essa Arma" (José GonçalvesJorge GonçalvesZilda Gonçalves).

Um mês após sua morte, foi homenageado por Ataulfo Alves com o samba "Zé da Zilda" gravado na Todamérica por Ataulfo Alves e Suas Pastoras. Em dezembro de 1954, foi homenageado pela gravadora Odeon com a gravação dos sambas "Império Do Samba" (José Gonçalves Zilda Gonçalves) e "Samba Do Assovio" (José GonçalvesZilda GonçalvesA. Silva E. Silva) interpretados pelo Coro de Artistas da Odeon.

Em 1955, a marcha "Ressaca" foi regravada em ritmo de tango pela Osquestra Típica de Osvaldo Borba. Ainda nessse ano, recebeu homenagem da esposa Zilda Gonçalves com a gravação do samba-canção "Meu Zé" (Ricardo GalenoZilda Gonçalves). Seu samba "Império Do Samba" foi escolhido por uma comissão julgadora reunida no Teatro João Caetano como um dos dez mais populares daquele carnaval.

Em 1956, duas composições de sua autoria, ainda inéditas, foram lançadas por sua esposa Zilda Gonçalves, a marcha "As Águas Continuam" (José GonçalvesZilda Gonçalves e Rubens Campos), e o samba "Vai Que Depois Eu Vou" (José GonçalvesZilda Gonçalves, Adolfo Macedo e Airton Borges). Esse último por sinal foi grande sucesso. Mais tarde, com os mesmos parceiros, Zilda Gonçalves compôs "Vem Me Buscar", homenagem ao esposo falecido.

Em 1973, Paulinho da Viola incluiu "Não Quero Mais Amar A Ninguém" no LP "Nervos De Aço", lançado pela gravadora Odeon.

No ano de 1975, várias músicas de sua autoria, como "Garota Copacabana", "Nega Zura" e "Mulher Malandra" foram regravadas por Jorge Veiga no LP "O Melhor De Jorge Veiga", lançado pela Copacabana Discos.

Leny Andrade regravou em 1994 "Não Quero Mais Amar A Ninguém", no disco em homenagem a Cartola que fez pela gravadora Velas.

Em 1998, foi lançado o CD "Chico Buarque De Mangueira", lançado pela BMG, no qual Chico Buarque prestou homenagem aos compositores da Mangueira. Nesse disco, foi gravado um samba seu em parceria com Germano Augusto, "Se Eu Pudesse", interpretado por Alcione e Nelson Sargento.

No ano 2000, o Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro lançou o CD duplo "Mangueira - Sambas De Terreiro E Outros Sambas". Nesse disco foram gravadas duas músicas de sua autoria, "Meu Amor Já Foi Embora" (José Gonçalves Cartola) e "Quem Se Muda Pra Mangueira".

Em 2004, quando se celebraram os cinquenta anos de sua morte, a Universidade Moacir Bastos, com sede em Campo Grande, promoveu uma homenagem em sua memória, de que foi conferencista-convidado o crítico Ricardo Cravo Albin, que discorreu para uma numerosa platéia sobre a vida e obra do cantor e compositor, nascido em Campo Grande.

Morte

Zé da Zilda faleceu precocemente aos 48 anos de idade vítima de um derrame cerebral. Por ocasião de seu falecimento, assim reportou-se o jornal O Globo no dia seguinte:

"Da manhã de sexta à manhã de sábado perduraram as esperanças de que o derrame cerebral se tornasse frustado e os médicos devolvessem aos ouvidos do povo a voz do seu cantor. Mas às 11:20 hs de anteontem entrou em luto o samba nacional ao confirmar-se a notícia triste: faleceu Zé da Zilda, que na linguagem musical proclamava que 'o mundo inteiro não valia o seu lar', e que tornara amarguras da vida carioca em reclamação melodiosa no sucesso 'Saca-Rolha', do último carnaval. Contava ele com 46 anos de idade".

Discografia

  • 1954 - São João do Rancho Fundo / No Terreiro Da Tia Sinhá (Odeon, 78)
  • 1954 - Pede A Deus / Destruíram O Morro (Odeon, 78)
  • 1954 - Ressaca / Guarda Essa Arma (Odeon, 78)
  • 1953 - Meu Contrabaixo / Dona Fortuna (Odeon, 78)
  • 1953 - Bom Filho Não Esquece / Levou O Diabo (Odeon, 78)
  • 1953 - Saca-Rolha / Olha O Coco Sinhá (Odeon, 78)
  • 1953 - Eh! Baião / Mentira (Odeon, 78)
  • 1952 - Nego Da Calça Amarela / Vai Levando (Odeon, 78)
  • 1952 - Parafuso / Não Fiz Nada (Odeon, 78)
  • 1952 - Cansado / Sapateiro (Odeon, 78)
  • 1951 - Assobia Pra Esquecer / Em Caxias É Assim (Star, 78)
  • 1951 - Para Dar Conforto A Ela (Star, 78)
  • 1950 - Tempo Quente / Samba De Branco (Star, 78)
  • 1949 - Cidade Alta / Sanfoneiro Joaquim (Star, 78)
  • 1949 - Paulo Da Portela / Jequitibá (Star, 78)
  • 1949 - Tudo Azul / Enquanto Eu Viver (Star, 78)
  • 1949 - Luz Da Madrugada / Hoje, Não (Star, 78)
  • 1949 - Zé Camilo / Jangadeiro (Star, 78)
  • 1948 - Vem Me Consolar / Falam De Mim (Continental, 78)
  • 1948 - A Cabrocha Rasgou Minha Roupa / Tribunal Da Terra (Star, 78)
  • 1947 - Procura-se Uma Mulher / Promete (Continental, 78)
  • 1947 - A Dona Do Lar / Aula De Francês (Continental, 78)
  • 1946 - Vou-me Embora / Não Me Rasgue A Roupa (Continental, 78)
  • 1946 - No Alto Da Serra / O Dinheiro É Que Manda (Continental, 78)
  • 1946 - Se Eu Pudesse... / Não Tenha Inveja (Continental, 78)
  • 1946 - A Hora Da Onça / Sonhei (Continental, 78)
  • 1946 - Trabalhar Eu Sim / Morena Do Brasil (Continental, 78)
  • 1945 - Mais Um Louco / Ai, Adélia! (Continental, 78)
  • 1945 - Dona Joaninha / Compadre Chegadinho (Continental, 78)
  • 1945 - Gostozinho / Izabel Não Voltou (Continental, 78)
  • 1945 - Pega No Pandeiro / Conversa, Laurindo! (Continental, 78)
  • 1945 - Até Qualquer Dia / Quem Tem Culpa Tem Medo (Continental, 78)
  • 1944 - Um Calo De Estimação / O Malhador (Continental, 78)
  • 1944 - Segura Chico / Tire O Meu Nome Do Meio (Continental, 78)
  • 1943 - Levanta José / Fim Do Eixo (RCA Victor, 78)
  • 1939 - Antonieta / Virgulina (RCA Victor, 78)
  • 1939 - Escravo Do Samba (RCA Victor, 78)
  • 1938 - O Ccorta-Jaca / Pelo Telefone (Odeon, 78)

Celso Vieira

CELSO VIEIRA DE MATOS MELO PEREIRA
(76 anos)
Escritor, Historiador, Biógrafo e Ensaísta

☼ Recife, PE (12/01/1878)
┼ (19/12/1954)

Celso Vieira de Matos Melo Pereira, mais conhecido como Celso Vieira, foi um historiador, escritor, biógrafo e ensaísta brasileiro. Nasceu na cidade do Recife, PE, em 12/01/1878 e era filho de Rafael Francisco Pereira e de Marcionila Vieira de Melo Pereira.

Mudou-se para Belém, PA, onde ali estudou no Colégio Paes Leme, iniciando o curso de direito, que concluiu no Rio de Janeiro, em 1899. Já formado, voltou ao Recife, participando no ano de 1901 da fundação da Academia Pernambucana de Letras, ali assentando na Cadeira 20. Foi, ainda, presidente desta entidade.

Retornou, mais tarde, para o Rio de Janeiro, onde ocupou alguns cargos públicos, como o de auxiliar do Chefe de Polícia do Rio de Janeiro, a secretaria do Tribunal de Justiça deste estado e ainda a direção do Gabinete do Ministro da Justiça, dentre outros.

Academia Brasileira de Letras

Terceiro ocupante da cadeira que tem por patrono Tobias Barreto, sucedendo a Santos Dumont que, havendo cometido suicídio, não chegou a tomar posse. Foi eleito a 20/07/1933, sendo empossado em 05/05/1934, recebido por Aloysio de Castro. No Silogeu ocupou a secretaria e a presidência, esta última em 1940. Foi o imortal encarregado de recepcionar o acadêmico  Vítor Viana, em 30/08/1935.

Celso Vieira foi sucedido na Academia Brasileira de Letras, pelo médico e professor Maurício de Medeiros.

Celso Vieira faleceu em 19/12/1954.

Excertos

"No oratório-berço donde veio Rui - berço e altar de Vera Cruz - era ainda criança e colegial, quando a voz de um poeta anunciou que ele seria um tribuno-gigante. Com efeito, à velha tribuna religiosa de Antônio Vieira, prodígio do século XVII e enlevo do templo católico, erigida no solo baiano, sucedeu a tribuna jurídica, freqüentada pela nova eloqüência e pelo novo sacerdócio, em que se multiplicaram as suas orações, flamejantes cóleras ou esplendentes milagres do Verbo nas alturas."
(Homenagem a Ruy Barbosa)

"Senhores Acadêmicos. Quando fui recebido nesta casa, em 1935, por Aloysio de Castro, sentenciou esse amável confrade, resumindo-me o longo tirocínio administrativo, que o secretariado era a minha vocação e o meu fadário. Houve sorrisos discretos no auditório ilustre. Daí por diante, confirmando o vaticínio ao colega, que exultava à hora das eleições, infalivelmente, a Academia elegeu-me 2o secretário, 1o secretário e secretário geral, posto já ofuscante, no qual supunha eu ter vencido o ápice do meu destino (...)"
(Do Discurso Inaugural da Sessão de 28/12/1939)

Publicações

Autor pouco conhecido, tanto da crítica quanto do público, Celso Vieira publicou os seguintes trabalhos, a maioria no campo biográfico:

  • 1919 - Endymião
  • 1919 - O Semeador
  • 1920 - Defesa Social
  • 1923 - Varnhagen
  • 1929 - Anchieta
  • 1932 - Para as Lindas Mãos
  • 1936 - Aspectos do Brasil
  • 1939 - Tobias Barreto
  • 1941 - Estudos e Orações (Ensaios)
  • 1945 - Manuel Bernardes, Clássico e Místico
  • 1946 - Scepticisme et Beauté
  • 1949 - Joaquim Nabuco
  • 1951 - O Gênio e a Graça

Rubens Vaz

RUBENS FLORENTINO VAZ
(32 anos)
Militar

* Rio de Janeiro, RJ (17/03/1922)
+ Rio de Janeiro, RJ (05/08/1954)

O major Rubens Florentino Vaz foi um militar brasileiro, da FAB.

Destacou-se por ser a vítima mortal do Atentado da Rua Tonelero contra Carlos Lacerda, quando o jornalista, retornando de um comício, se aproximava do seu apartamento no edifício à Rua Tonelero, 180.

Os tiros disparados feriram o pé de  Carlos Lacerda e mataram o major Rubens Vaz. A investigação subsequente indicou como mandante do crime o chefe da segurança pessoal do então Presidente da República, Getúlio VargasGregório Fortunato, apelidado de "O Anjo Negro".

19 dias após o episódio,  Getúlio Vargas cometeu suicídio.

O Atentado

O atentado contra  Carlos Lacerda  foi idealizado no Palácio do Catete pelo chefe da segurança de  Getúlio Vargas Gregório Fortunato.

Os tiros contra  Carlos Lacerda foram disparados quando ele voltava ao carro após chamar o garagista do Edifício Albervania e se despedir do major Rubens Vaz. A munição usada foi calibre 45.  Carlos Lacerda disparou seu revolver calibre 38 contra os agressores. Não acertou ninguém. Depois desse rápido tiroteio o major  Rubens Vaz estava caído no chão com dois tiros no coração. 

Rubens Vaz, já morto no hospital
Após investigações foi preso em Tinguá Climério Eurides de Almeida, policial do Departamento Federal de Segurança Pública, onde nunca trabalhou. Ele prestava serviço na Guarda Pessoal do Presidente da Republica. Presos também foram o motorista, que levou os autores do atentado, Nelson Raimundo, e Alcino João do Nascimento, que posteriormente confessou ser o autor da morte do major  Rubens Vaz.

O major Rubens Vaz morreu aos 32 anos deixando 4 filhos menores.

Em sua homenagem,  Carlos Lacerda, já governador do Estado da Guanabara, deu ao túnel que liga as Ruas Tonelero e Pompeu Loureiro o nome do major.

Fonte: Wikipédia e Tumminelli



Oswald de Andrade

JOSÉ OSWALD DE SOUSA DE ANDRADE NOGUEIRA
(64 anos)
Escritor, Ensaísta e Dramaturgo

* São Paulo, SP (11/01/1890)
+ São Paulo, SP (22/10/1954)

Era filho único de José Oswald Nogueira de Andrade e de Inês Henriqueta Inglês de Sousa Andrade. Seu nome pronuncia-se com acento na letra a (Oswáld).

Foi um dos promotores da Semana de Arte Moderna que ocorreu 1922 em São Paulo, tornando-se um dos grandes nomes do modernismo literário brasileiro. Foi considerado pela crítica como o elemento mais rebelde do grupo, sendo o mais inovador entre estes.

O Papel de Oswald no Modernismo Brasileiro

Um dos mais importantes introdutores do modernismo no Brasil, foi o autor dos dois mais importantes manifestos modernistas, o "Manifesto da Poesia Pau-Brasil" e o "Manifesto Antropófago", bem como do primeiro livro de poemas do modernismo brasileiro afastado de toda a eloquência romântica, Pau-Brasil.

Muito próximo, no princípio de sua carreira literária, da pessoa de Mário de Andrade, ambos os autores funcionaram como um dínamo na introdução e experimentação do movimento, unidos por uma profunda amizade que durou muito tempo.

Porém, possuindo profundas distinções estéticas em seu trabalho, Oswald de Andrade foi também mais provocador que o seu colega modernista, podendo hoje ser classificado como um polemista. Nesse aspecto não só os seus escritos como as suas aparições públicas serviram para moldar o ambiente modernista da década de 1920 e de 1930.

Foi um dos interventores na Semana de Arte Moderna de 1922. Esse evento teve uma função simbólica importante na identidade cultural brasileira. Por um lado celebrava-se um século da independência política do país colonizador, Portugal, e por outro consequentemente, havia uma necessidade de se definir o que era a cultura brasileira, o que era o sentir brasileiro, quais os seus modos de expressão próprios. No fundo procurava-se aquilo que Johann Gottfried von Herder definiu como alma nacional (Volksgeist). Esta necessidade de definição do espírito de um povo era contrabalançada, e nisso o modernismo brasileiro como um todo vai a par com as vanguardas europeias do princípio do século, por uma abertura cosmopolita ao mundo.

Na sua busca por um caráter nacional, ou falta dele, que Mário de Andrade mostra em "Macunaíma", Oswald de Andrade, porém, foi muito além do pensamento romântico, diferentemente de outros modernistas. Nos anos vinte Oswald de Andrade voltou-se contra as formas cultas e convencionais da arte. Fossem elas o romance de idéias, o teatro de tese, o naturalismo, o realismo, o racionalismo e o parnasianismo, por exemplo Olavo Bilac. Interessaram-lhe, sobretudo, as formas de expressão ditas ingênuas, primitivas, ou um certo abstracionismo geométrico latente nestas, a recuperação de elementos locais, aliados ao progresso da técnica.

Foi com surpresa e satisfação que Oswald de Andrade descobriu, na sua estada em Paris na época do futurismo e do cubismo, que os elementos de culturas até aí consideradas como menores, como a africana ou a polinésia, estavam a ser integrados na arte mais avançada. Assim, a arte da Europa industrial era renovada com uma revisitação a outras culturas e expressões de outros povos.

Oswald de Andrade percebeu-se que o Brasil e toda a sua multiplicidade cultural, desde as variadas culturas autóctones dos índios até a cultura negra representavam uma vantagem e que com elas se poderia construir uma identidade e renovar as letras e as artes. A partir daí, volta sua poesia para um certo primitivismo e tenta fundir, pôr ao mesmo nível, os elementos da cultura popular e erudita.

Representações na Cultura

Oswald de Andrade já foi retratado como personagem no cinema e na televisão, interpretado por Colé Santana no filme "Tabu" (1982), Flávio Galvão e Ítala Nandi no filme "O Homem do Pau-Brasil" (1982), Antônio Fagundes no filme "Eternamente Pagu" (1987) e José Rubens Chachá, nas minisséries "Um Só Coração" (2004) e "JK" (2006).

As ideias de Oswald de Andrade influenciaram também diversas áreas da criação artística: na música o Tropicalismo, na poesia o movimento dos concretistas, e no teatro grupos como Teatro Oficina e Cia. Antropofágica têm sua trajetória ligada ao poeta.

Principais Obras

Além do "Manifesto da Poesia Pau-Brasil" (1924) e "Manifesto Antropófago" (1928), Oswald de Andrade escreveu:

Poesia

Sendo o mais inovador da linguagem entre os modernistas, abriu caminhos que influenciaram muito a poesia brasileira posterior como a de Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Mello Neto, o Concretismo e Manoel de Barros, bem como à obra do poeta francês Blaise Cendrars, considerado um dos 10 maiores poetas franceses do século XX pelo poeta Paul Eluard.

  • 1925 - Pau-Brasil
  • 1927 - Primeiro Caderno do Aluno de Poesia Oswald de Andrade
  • 1945 - Cântico dos Cânticos Para Flauta e Violão
  • 1945 - O Escaravelho de Ouro
  • 1947 - O Cavalo Azul
  • 1947 - Manhã

Romance

Seus romances ainda não são devidamente conhecidos, porém "Memórias Sentimentais de João Miramar", por exemplo, foi escrito antes de 1922, antecipando toda a linguagem do modernismo brasileiro.

  • 1922-1934 - Os Condenados (Trilogia)
  • 1924 - Memórias Sentimentais de João Miramar
  • 1933 - Serafim Ponte Grande
  • 1943 - Marco Zero à Revolução Melancólica

Teatro

Escreveu um dos mais importantes textos teatrais do Brasil, "O Rei da Vela", que só foi montado em 1967 pelo diretor José Celso Martinez. As peças de 1916 foram escritas em francês em parceria com Guilherme de Almeida. Os textos da década de 30 trazem conteúdo político e a constante discussão das idéias socialistas e foram os primeiros textos modernos do teatro brasileiro, antecedendo, inclusive, a Nelson Rodrigues.

  • 1916 - Mon Couer Balance e Leur Ame (Parceria Guilherme de Almeida)
  • 1934 - O Homem e o Cavalo
  • 1937 - A Morta
  • 1937 - O Rei da Vela

Fonte: Wikipédia

Roquette-Pinto

EDGAR ROQUETTE CARNEIRO DE MENDONÇA PINTO VIEIRA DE MELLO
(70 anos)
Médico, Professor, Antropólogo, Etnólogo, Escritor, Arqueólogo e Ensaísta

* Rio de Janeiro, RJ (25/09/1884)
+ Rio de Janeiro, RJ (18/10/1954)

Filho de Manuel Menelio Pinto e Josefina Roquette Carneiro de Mendonça, nasceu a 25 de setembro de 1884, em Botafogo, Rio de Janeiro.

Foi criado pelos avós maternos na Fazenda Bela Fama, próxima de Juiz de Fora, em Minas Gerais, até aos 10 anos, quando retornou ao Rio de Janeiro com os pais.

Fez o curso de humanidades no Colégio Aquino, entrando depois na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, onde se formou em 1905 com a tese O Exercício da Medicina Entre os Indígenas da América. O pouco contacto com a família do pai levou-o a alterar o nome de registo para Edgard Roquette-Pinto, que legalizou em 1905.

Além do avô João Roquette, que lhe pagou os estudos e lhe incutiu o gosto pela natureza, marcaram o seu destino o biólogo Francisco de Castro, que o fez desistir da ideia de ser oficial da Marinha e o orientou para a Medicina e a Biologia e o médico Henrique Batista, que o converteu ao Positivismo – doutrina fundada por Auguste Comte (1798-1857), segundo o qual a redenção do homem se daria pelo conhecimento. Embora estudioso, seguiu o trabalho de campo até à Antropologia.

Em 1906 torna-se professor assistente de Antropologia no Museu Nacional e foi, em setembro, ao Rio Grande do Sul, estudar os sambaquis – jazidas de conchas, ossos e utensílios do homem pré-histórico do litoral da América.

É nomeado médico-legista com o trabalho Fauna Cadavérica do Rio de Janeiro em 1908, abrindo um laboratório de análises clínicas. Neste ano, casa com Riza Batista, com quem teve os filhos Beatriz e Paulo Roquette-Pinto.

Após alguns anos como assistente de Henrique Batista e médico-legista, passa, por concurso, a professor de Antropologia e Etnografia do Museu Nacional, onde organizou a Sala Dom Pedro II em 1910.

Delegado do Brasil no Congresso de Raças, em Londres (1911), estuda na Europa com os professores Richet, Brumpt, Tuffier, Perrier e Luschan.

Expedições Com Rondon

Em 1907 surge a Comissão de Linhas Telegráficas e Estratégicas de Mato Grosso ao Amazonas, chamada Comissão Rondon devido à fama do Tenente-Coronel Rondon (1865-1958), que a comandava. Iria ligar pelo fio telegráfico os territórios do Amazonas, Acre, Alto Purus e Alto Juruá à capital do Mato Grosso, com os pontos extremos em Cuiabá e Santo António do Madeira.

Colaboraram militares, para execução de serviços técnicos e cientistas civis, para fazer o levantamento geográfico, botânico, zoológico, etnológico e antropológico da região a desbravar.

Ao voltar das expedições, Rondon depositava amostras de objectos paleolíticos no Museu Nacional. Roquette estudou vários e escreveu a Nota Sobre os Índios Nhambiquaras do Brasil Central. Fascinado, trabalhou alguns meses com Rondon em 1910, que o influenciou e lhe incutiu o desejo de estudar aquelas terras.

Roquette integrou a comitiva que seguiu, em Julho de 1912, ao encontro da Comissão à Serra do Norte, em Mato Grosso. Na expedição foi etnógrafo, sociólogo, antropólogo, geógrafo, arqueólogo, botânico, zoólogo, linguista, médico, farmacêutico, legista, fotógrafo, cineasta e folclorista. Anotou a aparência da região – da floresta à árvore e à folha – composição dos solos, contorno das montanhas, fluxo dos rios, intensidade das quedas e variedade da fauna.

Nas visitas às tribos, mediu os crânios dos índios, comparou o seu peso e altura, analisou doenças, efectuou a primeira dissecação de um indígena e relatou as formas de produção, comércio e transporte. Registou conhecimentos científicos, relações familiares, organização política, hábitos religiosos, formas linguisticas, habilidade manual e danças. Anotou musicalmente os cantos dos nativos e fez gravações in loco com o Fonógrafo portátil. Nos fonogramas, cilindros de cera, registou melodias indígenas Nhambiquaras e Parecís e música popular mato-grossense (Cururu e canções Sertanejas).

Filmou o que pôde e fotografou ou desenhou o resto. Recolheu pedras, pontas de setas e objectos indígenas levados por milhares de quilómetros através de rios, pântanos e picadas abertas na selva. Apressou-se a estudar a região pois temia a perda dos fenómenos etnográficos, usos, costumes, indústrias, técnicas, arte, religião e política dos povos, que cedo ocorreria, devido à chegada e influência de objectos da civilização.

A morte foi constante no percurso pelas selvas do Mato Grosso, Amazonas e nas bacias dos rios Paraguai, Juruena e Ji-Paraná, pelas dificuldades climáticas, geográficas e humanas. Os Nhambiquaras eram hostis, matando expedicionários e haviam as ameaças da selva: animais e doenças – varíola, beribéri, paludismo. Burros, cavalos e bois morriam, os homens eram enterrados pelo caminho e os locais batizados com os seus nomes. A sobrevivência deste intelectual da cidade à vida difícil da selva surpreendeu tudo e todos, devendo-se talvez à infância passada na fazenda (note-se a diferença entre mato e sertão!) e a ser jovem e saudável. Mas a principal razão terá sido a firme determinação em cumprir a tarefa a que se propôs.

Roquette dizia que Marechal Cândido Rondon era o "ideal feito homem". Mameluco por parte de avós indígenas, falava dialectos de várias tribos, passando aos índios a sua mensagem de paz. Roquette extraiu assim, uma compreensão do problema do índio ainda revolucionária: para ele, os índios deviam ser protegidos como tal e não forçados a ser brasileiros, sendo o papel da nação protegê-los como aos menores abandonados, presos ou doentes.

Os Nhambiquaras contactados viviam na Idade da Pedra: tinham machados de pedra mal polida e as facas eram lascas de madeira. Desconheciam navegação, cerâmica ou redes de dormir – atravessavam os rios a nado, comiam de mão em mão e dormiam no chão. Cobertos por bernes, pulgas e piolhos, não conheciam um homem branco ou negro. O mal que faziam era, às vezes, por ignorância. De volta ao Rio de Janeiro, em novembro desse ano, Roquette depositou no Museu Nacional cerca de tonelada e meia de objectos que trouxe da Serra do Norte, entre observações, fichas antropométricas, croquis, filmes documentais, material etnográfico, etc. Roquette trouxe também o paludismo, cujas sequelas contribuíram para a espondilose de que sofreu mais tarde.

Em 1915, propôs numa conferência do Museu Nacional a designação de Rondônia à região do Noroeste do Brasil limitada pelos meridianos 54 e 65 oeste, Greenwich e entre os paralelos 8 e 15 ao sul do Equador, cortada entre os rios Juruena e Madeira pela estrada Rondon, como homenagem a Rondon.

Com os resultados das suas investigações sobre Parecís e Nhambiquaras escreveu Rondônia (1916), tratado antropológico, botânico, geológico, etnográfico e climático da região compreendida entre os rios Juruena e Madeira, incluindo partes de Mato Grosso, Amazonas, Pará, Acre e Guaporé.

A vivência com índios e homens do sertão foi a base da sua campanha anti-racista contra o arianismo no Brasil. Segundo ele, o homem no Brasil precisava de "ser educado e não substituído".

Em 1915 concorre para Livre-Docente de História Natural, na Faculdade de Medicina, com o trabalho sobre Dinoponera Grandis, a formiga amazônica, continuando a atividade de pesquisa e ensino, lecionando História Natural na Escola Normal e no Colégio Aquino.

Empenhou-se na Fisiologia, sendo convidado, em 1920, como professor visitante para inaugurar a cadeira de Fisiologia Experimental na Faculdade de Medicina da Universidade de Assunção, conseguindo a admiração do povo numa época conturbada entre Brasil e Paraguai.

Fascínio Pela Rádio e Pelo Cinema

Prevendo a importância da rádio na educação do povo fundou, a 20 de Abril de 1923, na Academia Brasileira de Ciências (de que era membro, bem como de outras associações nacionais e estrangeiras), a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, só com fins educacionais e culturais. O fascínio de Roquette pela rádio deve-se, em parte, pela entrega à causa positivista e à profissionalização como antropólogo, factores que o colocaram ao serviço de causas científicas e sociais.

"A rádio é a escola dos que não têm escola. É o jornal de quem não sabe ler; (...) é o divertimento gratuito do pobre; (...) desde que o realizem com espírito altruísta e elevado."

E concluía sempre a sua emissão com o lema:

"Pela cultura dos que vivem em nossa terra. Pelo progresso do Brasil".

Em 1924 participa no Congresso Internacional de Americanistas, na Suécia, tornando-se responsável pela Seção de Antropologia, Etnografia e Arqueologia do Museu Nacional, do qual foi director de 1926 a 1935.

Candidata-se à Academia Brasileira de Letras em 1927 na vaga de Osório Estrada (cadeira 17), é eleito a 20 de outubro.

Em 1929 presidiu o 1º Congresso Brasileiro de Eugenia e realizou as primeiras demonstrações televisivas no Brasil.

Em 1932 funda a Revista Nacional de Educação e o Serviço de Censura Cinematográfica, criando em 1934 a Rádio Escola Municipal do Rio de Janeiro com Anísio Teixeira.

Em 1936 fundou e dirigiu o Instituto Nacional de Cinema Educativo onde esteve com Humberto Mauro, aposentando-se em 1947.

Orientou a parte histórica do filme O Descobrimento do Brasil (1937), dirigiu e gravou o comentário sobre arte marajoara do filme Argila (1940) e o filme Rondônia.

Eleito diretor do Instituto Indigenista Americano do México em 1940, foi membro fundador do Partido Socialista Brasileiro, em 1947.

Como homenagem, vários naturalistas deram o seu nome a algumas espécies, como Phylloscartes Roquettei, ave do Brasil Central.

Entre as suas obras escritas estão Guia de Antropologia (1915), Elementos de Mineralogia (1918), Seixos Rolados (1927), Samambaia (1934), além de muitos trabalhos científicos, artigos e conferências, publicados em vários jornais e revistas.

A 18 de Outubro de 1954 sofre um Derrame fatal no seu apartamento, no Rio de Janeiro, quando escrevia um artigo para o Jornal do Brasil, em que dizia: Aquele que conhece, aquele que cria, aquele que ama.

Fonte: Wikipédia e Ana Fernandes (Trabalho realizado no âmbito da disciplina de História das Ciências, Licenciatura em Bioquímica, Departamento de Química e Bioquímica, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, 2002-2003)

Rita Lobato

RITA LOBATO VELHO LOPES
(87 anos)
Médica e Política

* Rio Grande, RS (07/06/1866)
+ Rio Pardo, RS (06/01/1954)

Rita Lobato foi a primeira mulher a exercer a Medicina no Brasil.

Frequentou o curso secundário em Pelotas, RS, e demonstrou, desde cedo, vocação para a Medicina. Mas, apesar de um decreto imperial de 1879 autorizar às mulheres a frequentar os cursos das faculdades e obter um título acadêmico, os preconceitos da época, que relegavam às mulheres a uma função doméstica, falavam mais forte.

Rita matriculou-se inicialmente na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, transferindo-se depois para a Faculdade de Medicina de Salvador, na Bahia. Determinada em obter o título de médica, venceu a hostilidade inicial dos colegas e professores, conquistando aos poucos sua simpatia, até receber do corpo docente da tradicional faculdade baiana as maiores considerações.

Em 1887, tornou-se a primeira mulher brasileira e a segunda latino-americana a obter diploma de médica, após defender tese sobre "A Operação Cesariana".

Após a formatura, retornou ao Rio Grande do Sul, onde casou com Antônio Maria Amaro Freitas, com quem teve uma única filha, Ísis.

Rita Lobato iniciou a prática da profissão clinicando em Jaguarão, RS, recém casada, onde permaneceu por quase dois anos. Mas inteligente, saiu para o mundo a estudar e de volta ao Rio Grande, RS, em 1910, passa a clinicar nos arredores de Rio Pardo, RS, agora com domicílio na Estância Capivari.

Rita Lobato praticou a caridade homenageando sua mãe que morreu durante o parto de seu irmão caçula. Prestou serviços gratuitos, forneceu medicamentos gratuitos. Esqueceu de si mesma e atendeu a todos os chamados que lhe bateram à porta. De 1910 a 1925, exerceu intensamente a clínica domiciliar. Já com quase 60 anos, encerrou sua atividade profissional.

Em 1926 perdeu seu marido, companheiro dedicado por 37 anos. Doou seus aparelhos ao hospital local e ingressou na vida política encontrando terreno propício por seu temperamento, tentando esquecer sua mágoa pela morte de Antonio Maria e procurando ajudar as dificuldades da cidade onde clinicou por tanto tempo, sendo testemunha das dificuldades de seu povo.

Militou no Partido Libertador (PL). Septuagenária, foi eleita vereadora pelo Partido Libertador por Rio Pardo, representando a Vereança com mesma dignidade e eficácia que praticou a Medicina. Exerceu seu mandato até a implantação do Estado Novo em 1937, que fechou as Câmaras Municipais. Mesmo assim continuou sendo Presidente de Honra do Comitê Feminino Pró-Candidatura Darcy Porto Bandeira, em favor ao seu conterrâneo à prefeitura de Rio Pardo.

Afastou-se da vida política no final da década de 1950. Passou a viver no centro da cidade de Rio Pardo com os familiares onde ficou até 1950. De 1950 a 1952 viveu em Porto Alegre, RS, voltando para Rio Pardo em 1952 e falecendo em 1954.

Souza Dantas

LUIZ MARTINS DE SOUZA DANTAS
(78 anos)
Diplomata

* Rio de Janeiro, RJ (17/02/1876)
+ Paris, França (16/04/1954)

A História do Brasil registra feitos de muitos heróis. Heróis de guerras, heróis que morreram em defesa da liberdade do nosso país. Contudo, ainda hoje, existem outros tantos heróis desconhecidos que nos merecem todas as honrarias.

É possível que poucos ou nenhum de nós tenha ouvido falar a respeito de Luiz Martins de Souza Dantas. Seu nome, em verdade, não figura em nenhum livro-texto de História do Brasil.

Sob ofício de missão diplomática brasileira, na França, concedeu vistos para o Brasil a vários judeus e outras minorias perseguidos pelos Nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, contrariando a política do governo Vargas. O resgate de sua história deve-se ao professor Fábio Koifman em seu livro "Quixote nas Trevas".

Biografia

Após concluir os estudos de Direito aos 21 anos, ingressou no Ministério das Relações Exteriores já no período republicano. Galgou todos os postos da carreira diplomática e serviu em diversas capitais do mundo.

Em 1916, durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), foi nomeado ministro interino das Relações Exteriores e durante alguns meses respondeu pelo Itamaraty. Chegou ao posto de embaixador em 1919, quando passou a chefiar a representação brasileira em Roma.

Em fins de 1922, Souza Dantas foi nomeado embaixador do Brasil na França, cargo em que permaneceria até 1944. Entre 1924 e 1926, durante alguns períodos, foi também o representante do governo brasileiro na Liga das Nações – órgão que reunia representantes de vários países com o intuito de zelar pela paz mundial baseada na negociação e no entendimento cordial entre as nações. Em 1931, já era o decano do corpo diplomático em Paris, ou seja, o embaixador há mais tempo em atividade na capital francesa.

Resgate

Em 1940, com a iminência da invasão alemã no Norte da França, o governo francês se retirou para o Sul, instalando um governo colaboracionista na cidade de Vichy. Naturalmente, o corpo diplomático estrangeiro o acompanhou. Registros dessa época mostram que Souza Dantas já vinha intercedendo em favor de refugiados do nazismo desde a sua saída de Paris. É possível comprovar o envolvimento pessoal e direto do embaixador, que começou a emitir os primeiros vistos diplomáticos "irregulares" de próprio punho. A maioria desses documentos foi concedida em Vichy e beneficiava não apenas judeus, mas também homossexuais, comunistas e qualquer pessoa ameaçada pelo nazismo.

No entanto, de acordo com a legislação vigente na época, era raro um embaixador conceder pessoalmente um visto, e isto só costumava ser feito em casos excepcionais. Para um "indesejável" receber um visto - mesmo o que se encaixava nas poucas exceções preestabelecidas –, era necessário apresentar uma série de documentos, como atestados negativos de antecedentes criminais, de "não ser de conduta nociva à ordem pública", de saúde e prova de profissão lícita, entre outros. Era muito difícil conseguir estas declarações, principalmente para os refugiados que se encontravam longe de seus países de origem. A autoridade consular brasileira que emitia o visto, por sua vez, tinha a obrigação de informar a "origem étnica" do estrangeiro.

Uma grande quantidade de pessoas que requeriam vistos era apátrida, portadoras de Passaportes Nansen – fornecidos pela Liga das Nações para indivíduos expatriados por causa de problemas políticos. Outras não possuíam qualquer tipo de documento para viajar. Algumas provinham de países que se encontravam tecnicamente extintos naquele momento devido aos conflitos ou cujos governos não os reconheciam mais como cidadãos. A exigência de uma série de documentos e certidões dos imigrantes tinha, na realidade, a função de impedir a entrada de refugiados no Brasil.

No dia em que Souza Dantas deixou Paris rumo a Vichy, já no caminho, ao passar por cidades como Perpignan e Bordeux, começou a assinar passaportes e documentos de viagem de estrangeiros, a maioria refugiados. Não eram pessoas "especiais" ou "importantes", mas gente comum. Ele não seguiu nenhuma regra do governo brasileiro, não exigiu taxas, transferências bancárias, declarações ou atestados, e tampouco perguntou ou informou a alguém a origem étnica dos pretendentes.

Cerca de 500 vistos diplomáticos foram emitidos entre meados de junho de 1940 e 12 de dezembro do mesmo ano – data em que Souza Dantas foi proibido formalmente de conceder qualquer tipo de visto. Entretanto, de acordo com depoimentos, muitos refugiados estiveram com o embaixador nos primeiros meses de 1941 e receberam vistos com datas anteriores a 12 de dezembro de 1940. Ou seja, ele ainda concedeu alguns vistos, mesmo depois de ter sido repreendido e proibido.

Por causa da presença de soldados brasileiros na guerra, das notícias da resistência de Souza Dantas à invasão da embaixada em Vichy e de seu longo internamento na Alemanha, os jornais brasileiros passaram a tratá-lo como herói. Mas a transformação do diplomata processado pelo governo em herói não agradou ao ditador Vargas.

Rapidamente, as notícias de homenagens a Souza Dantas sumiram da mídia, então controlada rigidamente pelo Estado. Enquanto durou o Estado Novo, Getúlio tratou de manter o diplomata fora de evidência no Brasil. Com a queda da ditadura em 1945, o velho embaixador saiu do ostracismo graças à influência política de antigos companheiros do Itamaraty.

Já aposentado, Souza Dantas foi convidado pelo Ministério das Relações Exteriores para chefiar a delegação brasileira na Primeira Assembléia Geral das Nações Unidas, em Londres, entre 10 de janeiro e 14 de fevereiro de 1946. O embaixador foi o primeiro brasileiro a discursar neste órgão precursor da ONU.

Souza Dantas passou seus últimos anos de vida em Paris, morreu pobre e abandonado, em um humilde quarto de hotel, em Paris no ano de 1954, no mesmo ano da morte de Getúlio Vargas

No ano de 2003, seu nome foi inscrito no Museu do Holocausto, em Jerusalém, como Justo Entre as Nações, por seu empenho pessoal na emissão de centenas de vistos, durante os anos mais duros da repressão nazista na Europa.

O homem que pôs em risco sua carreira e sua vida, que desafiou nazistas na Europa e políticos no Brasil, recebeu a medalha póstuma, por seus méritos.

Ele merece brilhar na galeria universal dos heróis do século vinte.