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Arnon de Mello

ARNON AFONSO DE FARIAS MELLO
(72 anos)
Jornalista, Advogado, Político e Empresário

☼ Rio Largo, AL (19/09/1911)
┼ Maceió, AL (29/09/1983)

Arnon Afonso de Farias Mello foi um jornalista, advogado, político e empresário brasileiro, nascido em Rio Largo, AL, no dia 19/09/1911, pai de Fernando Collor de Mello, ex-presidente do Brasil, e de Pedro Collor de Mello.

Era filho do senhor de engenho Manuel Afonso de Mello e de Lúcia de Farias Mello. Estudou em Maceió até mudar-se para o Rio de Janeiro em 1930 onde trabalhou como jornalista em A Vanguarda, jornal fechado pela Revolução de 1930.

Advogado formado pela Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro em 1933, trabalhou no Diário de Notícias, nos Diários Associados antes da graduação e, após esta, trabalhou na Associação Comercial do Rio de Janeiro, no Diário Carioca e em O Jornal.

Em 1936 assumiu a direção da Gazeta de Alagoas e foi membro do conselho diretor da Associação Brasileira de Imprensa.

Carreira Política

Após o fim do Estado Novo ingressou na União Democrática Nacional (UDN) e foi eleito suplente de deputado federal em 1945, e exerceu o mandato mediante convocação. Por esta mesma legenda foi eleito simultaneamente deputado federal e governador de Alagoas em 1950, optando por este último cargo onde cumpriu um mandato de 5 anos.

Retornou à vida política pelo Partido Democrata Cristão (PDC) sendo eleito senador em 1962, ingressando na Aliança Renovadora Nacional (ARENA) após a decretação do bipartidarismo pelo Regime Militar de 1964.

Reeleito pelo voto direto em 1970, foi reconduzido ao mandato como senador biônico em 1978.

Assassinato no Congresso

Em 04/12/1963, o senador Arnon de Mello (PDC-AL), atirou contra Silvestre Péricles (PTB-AL). O segundo disparo acertou o abdome do senador José Kairala (PSD-AC), um comerciante de Brasiléia, que morreria horas depois no Hospital Distrital de Brasília com os intestinos e a veia ilíaca trespassados.

Tudo foi causado por uma acirrada rixa regional. Silvestre Péricles, que andava armado, prometeu matar Arnon de Mello, que pôs um Smith Wesson 38 na cintura e marcou discurso para desafiá-lo.

Silvestre Péricles conversava com o senador Arthur Virgílio Filho (PTB-AM). Arnon de Mello provocou e Silvestre Péricles partiu para cima, gritando "Crápula!"Arnon de Mello não deixou o rival se aproximar: sacou o revólver, mas antes que atirasse, Silvestre Péricles, mais rápido, apesar dos 67 anos, jogou-se ao chão, enquanto sacava sua arma. O senador João Agripino (UDN-PB), atracou-se com Silvestre Péricles para tirar-lhe a arma. José Kairala tentou ajudar, mas foi atingido pelo segundo disparo de Arnon de Mello.

Os senadores Arnon de Melo (de costas) e Silvestre Péricles, ambos de Alagoas, trocam ofensas no Senado em 05/12/1963. Ao lado direito de pé (o mais baixo), o suplente José Kairala, poucos segundos antes de ser atingido.
Os dois contendores foram presos; em dias, o Senado Federal deu licença para que fossem processados. Ambos acabaram absolvidos.

José Kairala, de 39 anos, tinha três filhos, entre 2 e 6 anos, e deixou a mulher grávida. Era um suplente, assumira 6 meses antes e devolveria o mandato ao titular, José Guiomard, no dia seguinte. No Senado, teve tempo de fazer 13 discursos e apresentar dois projetos. Levava a mesma inicial carismática, JK, consagrada por seu colega de bancada Juscelino Kubitschek.

Apesar do assassinato, e ainda que tenha sido dentro do Senado Federal, na presença de inúmeras autoridades, Arnon de Mello não teve seu mandato cassado nem qualquer punição imposta pela Mesa.

Logo após o tiroteio ambos senadores foram presos em flagrante, porém, mesmo com o homicídio e as testemunhas, ficaram presos pouco tempo.


Silvestre Péricles foi enviado para o quartel da Aeronáutica em Brasília, onde ficou pouco mais de um mês. Em janeiro de 1964, ele foi para o Hospital do Exército no Rio de Janeiro, onde passou por algumas cirurgias. Em 16/04/1964 foi inocentando e solto. De licença médica voltou ao Senado em 07/06/1964.

A prisão de Arnon de Mello foi mais longa, quase 7 meses. Logo após o crime ele foi levado ao quartel do Exército e depois transferido para a Base Aérea de Brasília, onde ficou até ser inocentado pelo assassinato de José Kairala, em 30/07/1964. O Senado abriu processo para cassação dos senadores, mas ela foi rejeitada. Arnon de Mello retornou ao Senado no dia seguinte à sua absolvição.

Arnon de Mello foi casado com Leda Collor de Mello e tiveram cinco filhos: Fernando Collor de Mello, Pedro Collor de Mello, Leopoldo Collor, Leda Maria Collor de Mello e Ana Luiza Collor de Mello.

Arnon Afonso de Farias Mello faleceu em Maceió, AL, no dia 29/09/1983, aos 72 anos. Ao falecer estava filiado ao Partido Democrático Social (PDS), no qual ingressou em 1980. Após sua morte a cadeira foi ocupada por Carlos Lyra.

Obras
  • 1931 - Os Sem Trabalho da Política
  • 1933 - São Paulo Venceu
  • 1940 - África - Viagem às Colônias Portuguesas e à África Inglesa
  • 1958 - Uma Experiência de Governo

Margarida Maria Alves

MARGARIDA MARIA ALVES
(50 anos)
Sindicalista e Defensora dos Direitos Humanos

☼ Alagoa Grande, PB (05/08/1933)
┼ Alagoa Grande, PB (12/08/1983)

Margarida Maria Alves foi uma sindicalista e defensora dos direitos humanos brasileira, nascida em Alagoa Grande, PB, no dia 05/08/1933. Durante o período em que esteve à frente do sindicato local de sua cidade, foi responsável por várias ações trabalhistas na justiça do trabalho regional, tendo sido a primeira mulher a lutar pelos direitos trabalhistas no Estado da Paraíba durante a ditadura militar.

"É melhor morrer na luta que morrer de fome!"

Nascida e criada em Alagoa Grande, no Brejo Paraibano, foi a primeira mulher presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais da cidade.  Lá, fundou o Centro de Educação e Cultura do Trabalhador Rural, uma iniciativa que, até hoje, contribui para o desenvolvimento rural e urbano sustentável, fortalecendo a agricultura familiar.

Lutando pela defesa dos direitos dos trabalhadores sem terra, suas principais metas eram o registro em carteira de trabalho, a jornada diária de trabalho de 8 horas, 13° salário, férias e demais direitos, para que as condições de trabalho no campo pudessem ser equiparadas ao modelo urbano.

Em seus 12 anos de gestão, o Sindicato moveu mais de 600 ações trabalhistas e fez diversas denúncias, como a endereçada diretamente ao Presidente do Brasil, em 1982, João Baptista Figueiredo. Infelizmente, Margarida não viveu o suficiente para ver o resultado de seu pleito. Por causa do surgimento do Plano Nacional de Reforma Agrária, a violência no campo foi intensificada por parte dos latifundiários, que não queriam perder suas terras, mesmo as improdutivas.


A partir deste momento, o trabalho de Margarida na defesa dos direitos dos trabalhadores entrou em conflito com os interesses dos latifundiários, tornando-a uma ameaça para eles.  Em seu discurso na comemoração do  01/05/1983, na cidade de Sapé, na Paraíba, ela deixou isto bem claro:

"Eles não querem que vocês venham à sede porque eles estão com medo, estão com medo da nossa organização, estão com medo da nossa união, porque eles sabem que podem cair oito ou dez pessoas, mas jamais cairão todos diante da luta por aquilo que é de direito devido ao trabalhador rural, que vive marginalizado debaixo dos pés deles."

Margarida seria assassinada três meses e onze dias após essa declaração. O principal acusado é Agnaldo Veloso Borges, então proprietário da usina de açúcar local, a Usina Tanques, e seu genro, José Buarque de Gusmão Neto, mais conhecido como Zito Buarque. Seu sogro era o líder do Chamado Grupo da Várzea, composto  por 60 fazendeiros, três deputados e 50 prefeitos.

O crime ocorreu no dia 12/08/1983, quando um pistoleiro de aluguel, num Opala vermelho, disparou um tiro de escopeta calibre 12 em seu rosto, quando ela estava na frente de sua casa. Seu filho e seu marido viram tudo.


Foram acusados pelo crime o soldado da PM Betâneo Carneiro dos Santos, os irmãos pistoleiros Amauri José do Rego, Amaro José do Rego e Biu Genésio, o motorista do Opala. Mais tarde, ele foi assassinado, como "queima de arquivo".

O crime teve repercussão internacional, com denúncia encaminhada à Corte Internacional de Direitos Humanos e várias outras entidades semelhantes. Severino, o marido de Margarida, dizia que "ela era uma mulher sem medo, que denunciava as injustiças". Na época de sua morte, 72 ações trabalhistas estavam sendo movidas contra os fazendeiros locais.

Símbolo da luta pelos direitos dos trabalhadores rurais, Margarida recebeu, postumamente, o prêmio Pax Christi Internacional, em 1988. Em 1994, foi criada, pela Arquidiocese da Paraíba, a Fundação de Defesa dos Direitos Humanos Margarida Maria Alves e, em 2002, recebeu a Medalha Chico Mendes de Resistência, oferecida pelo Grupo Tortura Nunca Mais (GTNM) do Rio de Janeiro.

O dia de seu assassinato, 12 de agosto, é conhecido como o Dia Nacional de Luta contra a Violência no Campo e pela Reforma Agrária.

Dora Lopes

DORA FREITAS LOPES
(61 anos)
Cantora e Compositora

* Rio de Janeiro, RJ (06/11/1922)
+ Rio de Janeiro, RJ (24/12/1983)

Aos 14 anos de idade, fugiu de casa com a intenção de ser cantora de rádio.

Em 1947, já se apresentava em casas noturnas. Nesse ano, consquistou o primeiro lugar no famoso e rigoroso programa de calouros apresentado pelo compositor Ary Barroso na Rádio Nacional interpretando o samba "Plac-Plac", sucesso de Dircinha Batista alguns anos antes.

No ano seguinte, gravou pelo selo Star o seu primeiro disco com os sambas "Volta Pro Teu Barracão" e "Roubei o Guarani".

Em 1951, assinou um contrato com a gravadora Sinter e lançou o batuque "Cão Cambieci" (Luiz Soberano e Anísio Bichara), e o samba-canção "Inclemência" (Armando Cavalcanti).

Em 1952, gravou duas composições da dupla Luiz Soberano e Anísio Bichara, a marcha "Moço Direito" e o samba "Vou Beber".

Em 1953 gravou os sambas "Me Abandona" (Sávio Barcelos, Ailce Chaves e Paulo Marques), e "Lei da Razão" (Blecaute e Rubens Silva), além dos sambas-canção "Baralho da Vida" (Ulisses de Oliveira) e "Você Morreu Pra Mim" (Fernando Lobo e Newton Mendonça). Ainda em 1953, apresentou-se no México e na Venezuela como integrante da orquestra-espetáculo de Ary Barroso, na qual, além de cantar em coro, interpretou sozinha a música "Chamego", e com Vieirinha a música "Macumba".


Em 1954, lançou a batucada "Toma Cachaça" (Índio do Brasil e Darci Viana), e a marcha "Pegando Fogo" (J. Piedade, Humberto de Carvalho e Edu Rocha). Nesse ano, obteve sucesso com o samba "Minha Chave é Você" (Dora Lopes, Hamilton Costa e Waldemar Silveira) gravado na RCA Victor por Dircinha Batista.

Em 1955, ingressou na gravadora Continental e no primeiro disco lançou os sambas-canção "Toda Só" (Hianto de Almeida) e "Tenho Pena da Noite" (Catulo de Paula e Marino Pinto). Ainda nesse ano, gravou a marcha "Homem Leão" (Haroldo Lobo e Brasinha), e o samba "Faca de Ponta" (Peterpan, Ivan Campos e Celso Albuquerque).

Em 1956 gravou o samba "Samba Não é Brinquedo" (Tom Jobim e Luiz Bonfá), e o samba-canção "Tanto Faz" (Luiz Antônio e Ari Monteiro). Também em 1956, teve o samba "Quatro Histórias Diferentes" (Dora Lopes e Bidu Reis), gravado pelo grupo vocal Quatro Estrelas.

Em 1957, transferiu-se para a gravadora pernambucana Mocambo e gravou o samba "Maria Navalha" (Manoel Casanova, Jorge de Castro e Inácio Heleno) e a batucada "Ina...Ina..." (Dora Lopes e Ari Monteiro). No mesmo ano, gravou a marcha "Fila de Gargarejo" (Dora Lopes, José Batista e Nilo Viana), e o samba "Samba Borocochô" (Inácio Heleno, Manoel Casanova e Jorge de Castro). Ainda em 1957, lançou pela Mocambo o LP "Enciclopédia da Gíria", disco no qual interpretou as músicas "Dicionário da Gíria" (Dora Lopes e César Cruz), "Banca de Brabo", "Falso Cabrito" e "Galã Continental" (Dora Lopes e Franco Ferreira), "Nega Odete" (Dora Lopes e Aldacyr Louro), "Baiuca do Leleco" (Dora Lopes e Zeca do Pandeiro), "Diploma de Otário" (Dora Lopes e Ari Monteiro), "Tostão Não Tem Troco" (Dora Lopes), "Bom Mulato" e "Ninando Muriçoca" (Ari Monteiro e Zeca do Pandeiro), "Engolobada" (Zeca do Pandeiro e Geraldo Seraphim), e "Conversando na Gíria" (Zeca do Pandeiro e Arthur Montenegro).

Gravou em 1958, os sambas "Tuninho" (Antônio Bruno) e "O Gingador" (Erasmo Silva e Geraldo Serafim), o bolero "Tu Me Acostumaste" (Frank Dominguez), e a "Marcha da Pimenta" (Dora Lopes, Luiz Vanderley e Renato Araújo).


Atuou na Rádio Nacional e Rádio Mayrink Veiga. Na década de 50, fez um excursão pela Europa cantando na França, Itália, Suíça, divulgando ritmos brasileiros. Cantou também no México e nos Estados Unidos. Atuou com frequência, nas boates do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Gravou em 1961, ainda na Mocambo os sambas "Tostão Não Tem Troco" (Dora Lopes) e "Falso Cabrito" (Dora Lopes e Franco Ferreira).

Em 1962, ingressou na gravadora Copacabana e lançou os sambas "Nós Dois Sabemos" (Mário Cavagnaro e Othon Russo), e "Samba da Madrugada" (Dora Lopes, Carminha Mascarenhas e Erotides), música que passou a ser um dos hinos da boemia carioca, a partir de então. Nesse ano, recebeu o Prêmio Chico Viola por "Samba da Madrugada" (Dora LopesCarminha Mascarenhas e Erotides).

Gravou em 1963 a batucada "Mulher de Bebo" (Dora Lopes, Renato Araújo e Arildo Souza), os sambas "Fica Comigo" (Emilinha Borba e Rubem Gerardi), e "Tortura de Amor" (Waldick Soriano), além da marcha-rancho "Estrela Boêmia" (Dora Lopes e Jorge Lopes). Ainda em 1963, seu samba "Velório de Sambistas" (Dora Lopes e Jorge Lopes) foi gravado por Edith Veiga na Chantecler. A mesma Edith Veiga gravaria o samba-canção "Canção de Mulher Sozinha", no LP "Noite Sem Ninguém" do mesmo ano.

Em 1964, lançou o samba "Vou Lhe Matando Devagar" (Dora Lopes e Renato Araújo) e a marcha "Marrai, Marrai" (Santos Garcia e M. Gomes).


Em 1965, gravou o disco "Minhas Músicas e Eu", pela Copacabana. Neste LP, incluiu as músicas "Dona Solidão" (Dora Lopes e José Di), "Ambiente Diferente" (Dora Lopes e N. Ramos), "Recalque Noturno (Eu Sou a Madrugada)", "Dúvida", "Pintura Manchada", "Meu Alguém", "Meu Samba Triste", "Se Arranca Que Vem Chuva", "Lavadeira Tem Filho Doutor", "Canção do Que Você é" (Dora Lopes e Zairo Marinoso), "Com Dolores no Céu" (Dora Lopes e Jorge Lopes), e "Madrugada Zero Hora" (Dora Lopes e Genival Melo).

Em 1972, teve as músicas "Briguei Com Você" (Dora Lopes e Edith Veiga) e "Ontem à Noite" (Dora Lopes,  D. Mendonça e Analigia) gravadas em compacto duplo lançado pela cantora Edith Veiga pela gravadora Sinter.

Em 1974, gravou um compacto pela RGE, no qual lançou duas composições, "Se Eu Morrer Amanhã, Está Tudo Certo" e "Tomando Mais Uma", ambas em parceria com Conde Fernete e Jony Santos. Neste mesmo ano, a gravadora lançou o LP "Testamento", no qual interpretou alguns sucessos de sua carreira, como "Samba da Madrugada", "Com Dolores no Céu", "Tomando Mais Uma" e novas canções como "Ponto de Encontro" (Dora Lopes e Clayton Werre), "Branco de Paz" (Dora Lopes, Franco Xavier e Jean Pierre), "Oração à Dalva" (Dora Lopes, Norberto Pereira e José Costa), "Visita Permanente" (Dora Lopes e Jean Pierre) e "Barraco Diferente" (Dora Lopes, Jorge Rangel e Conde Fernete), além do samba "Homenagem" (Dora Lopes).

Em 1980, teve os sambas "Amor de Mentira" (Dora Lopes e Odete Guimarães), "Amiga Íntima da Tristeza" (Dora Lopes, Edith Veiga e José Hélio) e "Até os Objetos" (Dora Lopes, Edith Veiga e Nilton Moreira), gravadas por Edith Veiga.

Ao longo de sua carreira, atuou na vida noturna de Copacabana, convivendo com toda a boêmia das décadas de 50, 60 e 70. Gravou um total de 19 discos em 78 RPM pelas gravadoras Sinter, Continental e Mocambo, além de 3 LPs.

Como compositora seu maior êxito foi o "Samba da Madrugada", que foi incluído em sua homenagem no show "Estão Voltando as Flores", escrito e dirigido por Ricardo Cravo Albin entre 2001 e 2003. A homenagem lhe foi prestada em cena pela co-autora do samba Carminha Mascarenhas.

Discografia

  • 1974 - Dora Lopes (RGE, Compacto Simples)
  • 1974 - Testamento (RGE, LP)
  • 1965 - Minha Música e Eu (Copacabana, LP)
  • 1964 - Vou Lhe Matando Devagar / Marrai, Marrai (Copacabana, 78)
  • 1964 - Mister Tico-Tico / A Cigana Errou (Rio, 78)
  • 1963 - Mulher de Bebo / Fica Comigo (Copacabana, 78)
  • 1963 - Tortura de Amor / Estrela Boêmia (Copacabana, 78)
  • 1962 - Nós Dois Sabemos / Samba da Madrugada (Copacabana, 78)
  • 1961 - Tostão Não Tem Troco / Falso Cabrito (Mocambo, 78)
  • 1958 - Tuninho / Tu Me Acostumaste (Mocambo, 78)
  • 1958 - Marcha da Pimenta / O Gingador (Mocambo, 78)
  • 1957 - Maria Navalha / Ina... Ina... (Mocambo, 78)
  • 1957 - Fila de Gargarejo / Samba Borocochô (Mocambo, 78)
  • 1957 - Enciclopédia da Díria (Mocambo, LP)
  • 1956 - Samba Não é Brinquedo / Tanto Faz (Continental, 78)
  • 1955 - Toda Só / Tenho Pena da Noite (Continental, 78)
  • 1955 - Homem Leão / Faca de Ponta (Continental, 78)
  • 1954 - Toma Cachaça / Pegando Fogo (Sinter, 78)
  • 1953 - Me Abandona / Lei da Razão (Sinter, 78)
  • 1953 - Baralho da Vida / Você Morreu Pra Mim (Sinter, 78)
  • 1952 - Moço Direito / Vou Beber (Sinter, 78)
  • 1951 - Cão Cambieci / Inclemência (Sinter, 78)
  • 1948 - Volta Pro Teu Barracão / Roubei o Guarani (Star, 78)

Teotônio Vilela

TEOTÔNIO BRANDÃO VILELA
(66 anos)
Empresário e Político

☼ Viçosa, AL (28/05/1917)
┼ Maceió, AL (27/11/1983)

Teotônio Brandão Vilela foi um empresário e político brasileiro. Dentro de duas décadas foi deputado estadual, vice-governador e senador, reeleito para este último no pleito seguinte. É pai do político e atual governador de Alagoas, Teotônio Brandão Vilela Filho.

Filho de Elias Brandão Vilela e Isabel Brandão Vilela, Teotônio Vilela nasceu na cidade de Viçosa, Alagoas, na data do dia 28/05/1917.

Cedo fez o curso primário na sua cidade natal e o secundário no Ginásio de Maceió e no Colégio Nóbrega em Recife. Apesar de ter frequentado duas faculdades, a de Engenharia e de Direito, no Recife e no Rio de Janeiro, à época no então Distrito Federal. Não chegou a concluir nenhum curso superior, tornando-se autodidata.

No ano de 1937, abandonou os estudos e voltou para Alagoas, onde passou a trabalhar com seu pai, que era proprietário rural. Como o pai, virou agropecuarista e, em seguida usineiro, em sociedade o engenheiro agrônomo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), Geraldo Gomes de Barros, em 12/04/1973 fundou uma usina de açúcar situada no município de Teotônio Vilela, antigo povoado de Feira Nova, localizado a cerca de 100 km da capital Maceió, chamada Usinas Reunidas Seresta.

Teotônio Vilela casou-se com Helena Quintela Brandão Vilela, com quem teve sete filhos, um dos quais, Teotônio Vilela Filho, eleito senador por três vezes consecutivas e governador de Alagoas, para o período de 2007 a 2010, e posteriormente reeleito para um novo mandato de 2010 e 2014.

Carreira Política

Filiou-se à União Democrática Nacional (UDN), em 1948, sendo um dos fundadores do partido em Alagoas, criado em 1952. Elegeu-se deputado estadual pela legenda nas eleições de 1954, exercendo mandato até 1958. Pertencente à "Bancada do Açúcar" neste mandato foi o relator da comissão que pedia o impeachment do populista Muniz Falcão, então governador, acusado pela oposição ferrenha de 22 deputados a Assembleia Legislativa de crime de responsabilidade e de ameça e violência contra deputados.

"O relator da comissão, deputado Teotônio Vilela, concluía o veredicto para informar o que todos já esperavam:
Em face do exposto, não há como fugir à evidência da responsabilidade do senhor governador do estado nos crimes compendiados na denúncia oferecida pelo senhor deputado Oséas Cardoso Paes.
Pelo que, somos de parecer seja a denúncia considerada pela Assembléia do estado objeto de deliberação, prosseguindo nos termos ulteriores, na forma da lei."
("Curral da Morte" - Livro do jornalista alagoano Jorge Oliveira)

Em 1960, foi eleito vice-governador, na chapa do general udenista Luiz de Souza Cavalcante, para o período de 1961-1966, quando ambos sucederam ao governador Muniz Falcão.

Em outubro de 1965, com a edição do AI-2 pelo governo militar, foi reaberto o processo de cassações e suspensões de direitos políticos, a extinção dos partidos políticos existentes, a manutenção das eleições indiretas para a Presidência da República e o estabelecimento das eleições indiretas para os governos estaduais, além de limitadas as imunidades parlamentar e individual dos cidadãos.

Em dezembro do mesmo ano, foram criados dois novos partidos - um de apoio ao governo, a Aliança Renovadora Nacional (ARENA) e outro de oposição, o Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Veio a filiar-se na primeira agremiação, sendo eleito para o primeiro mandato de senador em 1966.

No Senado, atuou como membro titular das comissões de Economia, de Agricultura, de Redação, de Ajustes Internacionais, de Legislação sobre Energia Atômica e de Indústria e Comércio. Ao final do mandato foi quarto suplente da mesa e vice-presidente da Comissão de Assuntos Regionais.

Nas eleições parlamentares de 1974, foi reeleito para o Senado, sendo um dos poucos arenistas a ter sucesso eleitoral pelo partido do governo, em todo o país, para a legislatura de 1975 a 1982. Luís Viana Filho, Henrique de La Rocque Almeida, Antônio Mendes Canale, Jarbas Gonçalves Passarinho e Petrônio Portella Nunes foram os outros arenistas.

Com a posse de Ernesto Geisel, em março de 1974, e o início de um projeto de "abertura" política "lenta, gradual e segura", proposta por Petrônio Portella, o senador alagoano após uma conversa reservada com o presidente, desfraldou a bandeira da redemocratização, colocando-se como porta-voz do processo de distensão e assumindo a posição de "oposicionista da ARENA".

Fazia pronunciamentos no Senado pró-democratização e buscou contatos com personalidades e instituições para elaborar um projeto de institucionalização política para o Brasil. Em abril 1978, o apresentou no Senado o que ficou conhecido como o Projeto Brasil, que incluía diversas propostas liberalizantes.

No mês seguinte, aderiu à Frente Nacional Pela Redemocratização, um movimento cujo programa, segundo Teotônio Vilela, era semelhante ao seu Projeto Brasil, além de oferecer uma possibilidade de mobilização. A Frente queria a candidatura do general Euler Bentes Monteiro à presidência e do senador emedebista Paulo Brossard para a vice-presidência da República, buscando agrupar, além do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), militares descontentes e políticos dissidentes da Aliança Renovadora Nacional (ARENA).

Filiou-se ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB), no dia 25/04/1979, e em meados de junho, durante o seu primeiro discurso como oposicionista, fez duras críticas ao governo provocando a retirada geral dos parlamentares da Aliança Renovadora Nacional (ARENA) do plenário do Senado.

Batalhador incansável pela anistia geral exerceu a presidência da comissão mista que estudava o projeto sobre o tema, encaminhado ao Congresso pelo Governo.

Ao receber, em setembro de 1979, o título de Cidadão Paulistano reconhecido pela Câmara Municipal de São Paulo, explicou a sua devoção pela liberdade:

"Cidadão de Viçosa de Alagoas, dos arredores da Serra dos Dois Irmãos, um dos últimos redutos da Guerra dos Palmares, vivo contemplando a imagem do Zumbi, sinto-lhe o rumos dos sonhos e o calor do sangue libertário."

A Câmara Municipal do Rio de Janeiro, em homenagem ao grande menestrel, batizou seu Plenário com o nome de "Teotônio Vilela".

Partido do Movimento Democrático Brasileiro

Em 1980, com o fim do bipartidarismo e o surgimento de diversos partidos de oposição no Brasil, Teotônio Vilela preferiu filiar-se ao Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), considerado o continuador do extinto Movimento Democrático Brasileiro (MDB), tornando-se um dos mais importantes nomes da legenda.

No seu discurso de despedida, em 30/11/1982, fez questão de deixar clara a sua disposição em continuar atuando politicamente:

"Estou saindo desta Casa esta semana, isto não é despedida, mesmo porque não é do meu hábito despedir de nada. A vida política continua comigo, continuarei lutando lá fora, só não terei o privilégio de usar esta ou aquela tribuna. Quanto ao mais, prosseguirei na minha vida de velho menestrel, cantando aqui, cantando ali, cantando acolá, as minhas pequeninas toadas políticas."
(Diário do Congresso Nacional, Brasília, DF, 02/12/1982)

Menestrel das Alagoas

Em setembro de 1983, os compositores Milton Nascimento e Fernando Brant lançaram em homenagem a Teotônio Vilela, "O Menestrel das Alagoas", cantada por Fafá de Belém, música que se transformaria, assim como "Coração de Estudante", em hinos da campanha das Diretas Já!, movimento que tomou conta do Brasil, nos primeiros meses de 1984, exigindo que o Congresso aprovasse a emenda constitucional que instituía a eleição direta para o sucessor do presidente João Figueiredo.

Partido da Social Democracia Brasileira

O Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), em 19/09/1995, criou o Instituto Teotônio Vilela, órgão de estudos e formação política do partido e, em 25/04/2005, foi inaugurado, em Maceió, o Memorial Teotônio Vilela, uma obra de Oscar Niemeyer em homenagem ao Menestrel das Alagoas, como ficou conhecido nacionalmente, devido a sua luta pela liberdade política e a redemocratização do Brasil.

Obras Publicadas

Publicou alguns trabalhos entre os quais podem ser destacados:

  • Mobilização Contra o Subdesenvolvimento (Rio de Janeiro: Dasp, 1958)
  • Andanças Pela Crônica (Maceió: Departamento Estadual de Cultura, 1963)
  • A Civilização do Zebu e a Civilização do Basset (Brasília, DF: Senado Federal, 1974)
  • A Pregação da Liberdade: Andanças de um Liberal (Porto Alegre: L&PM, 1977)

Morte

Teotônio Vilela encerrou sua carreira parlamentar, em novembro de 1982, em decorrência de um câncer. Morreu no dia 27/11/1983, vítima de câncer generalizado.

Em 1983, a deputada pernambucana Cristina Tavares fundou o Centro de Estudos Políticos e Sociais Teotônio Vilela, um palco importante onde seriam discutidos vários problemas da população brasileira.



Em 1986, Teotônio Vilela recebeu o título de Grande Oficial da Ordem do Congresso Nacional (In Memoriam).

Fonte: Wikipédia

Condessa Pereira Carneiro

MAURINA DUNSHEE DE ABRANCHES PEREIRA CARNEIRO
(84 anos)
Empresária

* Niterói, RJ (15/08/1899)
+ Brasília, DF (06/12/1983)

Maurina Dunshee de Abranches Pereira Carneiro, mais conhecida como Condessa Pereira Carneiro, foi uma empresária brasileira, diretora-presidente do Jornal do Brasil. Nascida em Icaraí, Niterói, era filha do escritor João Dunshee de Abranches de Moura, também jornalista e político. A filha, que lhe fora secretária, publicou sua obra de mais de 100 livros. Neta e bisneta de jornalistas, casou-se com o conde Ernesto Pereira Carneiro, proprietário do Jornal do Brasil, jornal que herdou e reformulou, representando uma revolução na imprensa nacional.

Sob sua direção, o Jornal do Brasil deixou de ser antiquado e graficamente pesado, para transformar-se, na década de 50, em um modelo para o moderno jornalismo brasileiro. "Mulher não tinha cotação naquela época", disse em uma de suas últimas entrevistas, referindo-se ao ano de 1953, quando assumiu a direção do Jornal do Brasil, após a morte do segundo marido, o conde Ernesto Pereira Carneiro.

Casou-se pela primeira vez em 1920, com o diretor dos serviços legislativos da Câmara dos Deputados carioca, Amilcar Machesini, enviuvando aos 27 anos. Em 1940, casou-se com o conde, um rico empresário que entre outros negócios tinha o Jornal do Brasil e a Rádio JB. O jornal, economicamente abastado, refletia o espírito empresarial do dono. As primeiras páginas eram carregadas de classificados.

Poucos anos após assumir o jornal, a Condessa, assessorada pelo jornalista e escritor Odylo Costa Filho, presidiu uma reforma que envolveu a redação e o aspecto gráfico do jornal. Redatores hostis à máquina de escrever, habituados à pena, foram gentilmente mandados para casa, em muitos casos, sem perder seus salários. Essa mudança alterou a fisionomia do Jornal do Brasil, onde surgiu uma brilhante geração de repórteres e fotógrafos. Em pouco tempo, o jornal tornava-se sério concorrente em prestígio do Correio da Manhã, falecido em janeiro de 1975.

Condessa Pereira Carneiro e Antônio Maria
Apesar disso a Condessa Pereira Carneiro jamais se envolveu em questões políticas. Sua única e inflexível influência exerceu-se sempre ao apoio à Igreja Católica. A condessa ia à missa todos os domingos e o Jornal do Brasil jamais apoiou o divórcio.

Ela restringia sua vida social a um pequeno círculo de amigos. Em suas viagens costumava carregar na mala fotos dos netos e bisnetos. Colecionava quadros de pintores primitivos, que costumava comprar em Ouro Preto. Teve uma única filha, Leda, cujo marido, Nascimento Brito, é o principal executivo do jornal há cerca de 30 anos.

Aos 84 anos, a Condessa Pereira Carneiro ainda era uma mulher dinâmica. Quando estava no Rio de Janeiro, costumava ir quase todos os dias ao seu gabinete repleto de peças art-nouveau de diretora-presidente do Jornal do Brasil.

Sua morte ocorreu em Brasília, onde foi assistir à condecoração de seu genro, Manoel Francisco do Nascimento Brito, presidente do conselho diretor do  Jornal do Brasil, com a Ordem do Império Britânico. A condessa morreu vítima de uma parada cardiorrespiratória, no dia 06/12/1983, no Centro de Reabilitação Sara Kubitscheck, em Brasília.

Sua morte causou grande comoção: o governador do Rio de Janeiro de então, Leonel Brizola, decretou luto oficial no Estado, o mesmo ocorrendo no Maranhão, por decreto do gestor Luís Rocha. O presidente do México, Miguel de la Madrid Hurtado, expressou suas condolências. A cerimônia fúnebre foi regida pelo cardeal Dom Eugênio Sales.

A Condessa Pereira Carneiro foi enterrada no Cemitério de São João Batista (Perpétuo 85-A, Aléia 1).

Fonte: Wikipédia e Revista Veja, 14/12/1983 - Edição n.° 797 - Página 115)

Ana Cristina Cesar

ANA CRISTINA CRUZ CESAR
(31 anos)
Poetisa e Tradutora

* Rio de Janeiro, RJ (02/06/1952)
+ Rio de Janeiro, RJ (29/10/1983)

Ana Cristina César era um dos nomes mais representativos de uma nova poesia que se estava produzindo no Brasil a partir dos anos 70, e se afirmando na década seguinte. Foi, segundo Eucanaã Ferraz, "personagem fundamental no ambiente artístico e cultural do Rio de Janeiro nos anos 1970". Segundo Heloisa Buarque de Hollanda, doutora em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), "no meio dos poetas marginais era e se comportava como musa, um pouco distante como devem ser a musas".

Ela foi uma poetisa e tradutora brasileira, conhecida como Ana Cristina Cesar, ou Ana C., é considerada um dos principais nomes da geração mimeógrafo da década de 1970, e tem o seu nome muitas vezes vinculado ao movimento de Poesia Marginal.

Filha do sociólogo e jornalista Waldo Aranha Lenz Cesar e de Maria Luiza Cruz, Ana Cristina nasceu em uma família culta e protestante de classe média. Tinha dois irmãos, Flávio e Filipe.

Antes mesmo de ser alfabetizada, aos 6 anos de idade, ela ditava poemas para sua mãe. Em 1969, Ana Cristina Cesar viajou à Inglaterra em intercâmbio e passou um período em Londres, onde travou contato com a literatura em língua inglesa. Quando regressou ao Brasil, com livros de Emily Dickinson, Sylvia Plath e Katherine Mansfield nas malas, dedicou-se a escrever e a traduzir, entrando para a Faculdade de Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), aos 19 anos.


Ana Cristina começou a publicar poemas e textos de prosa poética na década de 1970 em coletâneas, revistas e jornais alternativos. Seus primeiros livros, "Cenas de Abril" e "Correspondência Completa", foram lançados em edições independentes. As atividades de Ana Cristina  não pararam: pesquisa literária, um mestrado em comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), outra temporada na Inglaterra para um mestrado em tradução literária, na Universidade de Essex, em 1980, e a volta ao Rio de Janeiro, onde publicou "Luvas de Pelica", escrito na Inglaterra. Em suas obras, Ana Cristina Cesar mantém uma fina linha entre o ficcional e o autobiográfico.

Ana Cristina cometeu suicídio aos 31 anos, atirando-se pela janela do apartamento dos pais, no oitavo andar de um edifício da Rua Tonelero, em Copacabana.

Armando Freitas Filho, poeta brasileiro, foi o melhor amigo de Ana Cristina Cesar, para quem ela deixou a responsabilidade de cuidar postumamente das suas publicações. O acervo pessoal da autora está sob tutela do Instituto Moreira Salles. A família fez a doação mediante a promessa dos escritos ficarem no Rio de Janeiro. Contudo, sabe-se que muitas cartas de Ana Cristina Cesar foram censuradas pela família, principalmente as recebidas do escritor Caio Fernando Abreu.

Ítalo Moriconi escreveu: "Ana Cristina dizia que uma das facetas do seu desbunde fora abandonar a ideia de ser escritora, livrar-se do que ela naquele momento julgava ser sua face herdada, o estigma princesa bem-comportada, alguém marcada para escrever."


Em 1987, ao ser lançado seu livro póstumo "A Seus Pés", o poeta e amigo Armando Freitas Filho escreveu esse texto, sobre a obra e a autora e amiga:

"Olhos azuis, a flor da pele. A Teus Pés (Ana Cristina César) foi escrito na rua e pelo telefone. Num caderno preto, pautado, de capa dura, desses que antigamente, eram usados por pequenas firmas para registro, sempre caligráfico, de suas atividades, do seu 'dever & haver'. Foi escrito com canetas de vários tipos e cores, como se, inconscientemente se desejasse sublinhar e fixar as muitas intenções e nuances, a pegada mais forte ou mais suave de cada texto.
Seu primeiro nome foi 'Meios de Transporte', logo abandonado por ter um segundo sentido demasiadamente explícito. A escolha definitiva me foi comunicada num telefonema extra, de tarde, pois nos falávamos diariamente pela manhã, quando Ana me disse que tinha achado o título, afinal, num poema meu, no último verso.
À princípio achei meio bolero, mas depois fui me acostumando, na medida em que acompanhava literalmente, passo a passo, a feitura do livro. Na época escrevia também o meu, que se chamava '3X4'. Esses 'telefonemas de consulta' eram discussões pormenorizadas sobre os escritos de cada um, quando tudo era visto sem nenhum rigor fetichizado, de colarinho branco, mas sim meio na contramão, a la diable.
Hoje, quando me lembro desse tempo, não poderia dizer, com exatidão, quem telefonava pra quem. Ora um, ora outro. Ou o telefone tocava sozinho numa ligação telepática?
A Teus Pés, também, foi escrito andando, ao meu lado, pelas ruas do Rio, viajando em 'frescões' ou sentado em mesas de chá transitórias. Foi, aliás, na Confeitaria Colombo que ela me levou a versão final, impecavelmente datilografada em máquina elétrica, às vésperas de enviar os originais para a Brasiliense. Sugeri cortes, supressões de alguns textos. Foram aceitos depressa. Fiquei arrependido, liguei à noite e disse que era melhor considerar com mais calma a eliminação deles. Ela disse não. Os originais já tinham sido remetidos. Dois anos depois penitenciei-me incluindo muitos desses poemas em 'Inéditos e Dispersos' (Ana Cristina César).
Agora estou aqui recordando esses pequenos acontecimentos, publicando intimidades delicadas, O telefone telepático, na ponta do trampolim, não bate mais. É uma caixa-preta, for ever. Nunca pensei que na minha vida acontecesse uma coisa tão forte, tão brusca e selvagem, e que uma ausência pudesse ser tão viva."


Principais Obras

Poesia
  • 1982 - A Teus Pés
  • 1985 - Inéditos e Dispersos
  • Novas Seletas (Póstumo, organizado por Armando Freitas Filho)


Crítica
  • 1980 - Literatura Não é Documento
  • 1999 - Crítica e Tradução


Variados
  • Correspondência Incompleta
  • Escritos no Rio (Póstumo, organizado por Armando Freitas Filho)
  • Escritos em Londres (Póstumo, organizado por Armando Freitas Filho)
  • Antologia 26 Poetas Hoje, de Heloísa Buarque


Fonte: Wikipédia

José Fortuna

JOSÉ FORTUNA
(60 anos)
Cantor, Compositor, Autor Teatral, Radialista e Ator

* Itápolis, SP (02/10/1923)
+ São Paulo, SP (10/11/1983)

Zé Fortuna começou a compor ainda criança, quando acompanhava o pai em andanças pela lavoura, escrevendo versos no chão de terra com um pedaço de madeira. Com 11 anos de idade compôs "Quinze a Sete", numa homenagem a seu time de futebol. Profissionalmente compôs sua primeira música no dia 26 de setembro de 1942, com 18 anos.  Sua primeira música gravada foi "Moda das Flores", no dia 04 de abril de 1944, por Raul Torres & Florêncio, e desde então nunca mais parou. Nos próximos quarenta anos ele comporia e gravaria perto de duas mil músicas, algumas com mais de cinquenta regravações.

Um de seus maiores sucessos foi a versão da guarânia "Índia", composta há sessenta anos, do outro lado de "Meu Primeiro Amor", também versão de José Fortuna, gravados originalmente por Cascatinha & Inhana, no ano de 1952, músicas que chegaram a vender na ocasião mais de um milhão de cópias.

Casa onde José Fortuna nasceu no Bairro da Aldeia em Itápolis, SP
Estas duas composições foram regravadas por dezenas de duplas sertanejas, como também por intérpretes da música popular brasileira, como por exemplo, Agnaldo Timóteo, Ângela Maria, Nara Leão, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gal Costa, que regravou "Índia", nome dado a um de seus shows no Canecão, Rio de Janeiro. A obra foi tema da novela da Rede Globo "Alma Gêmea" (2005), de Walcir Carrasco, na interpretação de Roberto Carlos.

"Meu Primeiro Amor", a versão para "Lejania", composta no mesmo ano para o outro lado de "Índia", e também muito regravada, foi relançada nos últimos anos pelos intérpretes Joana e Fagner. Uma curiosidade é que "Índia", foi a responsável pela introdução da guarânia como estilo musical no Brasil, posto que até então tal gênero musical era desconhecido por aqui, não possuindo mercado propício para a sua expansão, e assim sendo, após o enorme sucesso gravado por Cascatinha & Inhana, intensificou-se o intercâmbio cultural entre Brasil e Paraguai. Estas duas guarânias, bem como outras de autoria de José Fortuna, tais como, "Anahy", "Solidão", "Minha Terra Distante", "Vai Com Deus", entre outras, geraram inúmeras regravações, inclusive no exterior.

Entretanto, José Fortuna não foi na sua essência, um compositor de guarânias somente, mas sim de uma grande versatilidade de estilos musicais. Outros de seus grandes sucessos foram as músicas "Lembrança", "Paineira Velha", "Berrante de Ouro", "Cheiro de Relva", "Terra Tombada", "O Selo de Sangue", "Rosto Molhado", "Vinte e Quatro Horas de Amor", "Esteio de Aroeira", "A Mão do Tempo", "O Ipê e o Prisioneiro", "O Vai e Vem do Carreiro", entre outras, todas com várias regravações.

Durante todo este tempo, e paralelamente às suas atividades como compositor, José Fortuna manteve um trio, do qual pertencia também seu irmão Euclides Fortuna, o Pitangueira, formando com Zé do Fole o trio Os Maracanãs. Eles gravaram mais de quarenta LPs e dezenas de discos ainda em 78 rotações, como também muitos compactos com músicas de José Fortuna. Apresentaram-se em todas as emissoras da capital e do interior. Curiosamente foi o trio Os Maracanãs que inaugurou o canal 5, hoje Rede Globo de Televisão, no ano de 1950.


Além de compositor, José Fortuna foi também autor e escritor de 42 peças de teatro, tais como "O Punhal da Vingança", "O Selo de Sangue", "Voz de Criança", "Lenda da Valsa dos Noivos", "Crime de Amor", "Os Valentes Também Amam", "Coração de Homem", entre outras peças,  percorrendo todo o Brasil, e algumas cidades da América do Sul, com a Companhia Teatral Maracanã. Também atuava como ator de destaque em todas as suas criações teatrais, e a Companhia Teatral Maracanã acabou por receber inúmeros prêmios e troféus, tornando-se assim conhecidos dentro do universo da música sertaneja como "Os Reis do Teatro".

Em meio a todas essas atividades, publicou também 40 livretos com as letras de suas obras musicais e dezenas de estórias completas, todas em verso, a chamada Literatura de Cordel.

Após o encerramento das atividades com a Companhia Teatral Maracanã, por volta de 1975, passou então a se dedicar com maior afinco à composição. Foi a época dos grandes Festivais de Música Sertaneja promovidos pela Rádio Record, em que ele começou a trabalhar em parceria com Carlos Cezar.

Participou então seguidamente de mais de 20 Festivais, obtendo sempre as primeiras colocações, principalmente na Capital, onde nos anos de 1979, 1980 e 1981 venceu-os consecutivamente. Em um deles, no ano de 1979, obteve os três primeiros lugares com as músicas: "Riozinho" (1º lugar), "Berrante de Ouro" (2º lugar) e "Brasil Viola" (3º lugar).

Ainda em 1979, a Secretaria do Trabalho do Estado de São Paulo, oficializou "O Hino do Trabalhador Brasileiro", de José Fortuna e Carlos Cezar.

"Berrante de Ouro", por exemplo já tem mais de setenta regravações. Isto tudo ocorreu em meio a festivais onde participavam mais de 13.600 concorrentes, durante um período de seis meses, com eliminatórias em todas as Capitais e grandes cidades brasileiras.

Em 1981, também no Festival da Rádio Record, concorrendo com mais de dez mil composições, obteve o primeiro lugar com a música "O Vai e Vem do Carneiro", além de ganhar, juntamente com Carlos Cezar, os troféus de melhor letra, melodia, orquestração, interpretação e arranjo.

Zé Fortuna & Pitangueira
No âmbito da música sertaneja pode-se afirmar que não há um intérprete que não tenha gravado obras de José Fortuna, desde Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo, João Paulo & Daniel, Milionário & José Rico, Tião Carreiro & Pardinho, Tonico & Tinoco, estes inclusive gravaram um LP com doze faixas só com obras de José Fortuna, homenageando o compositor, Sérgio Reis, Roberta Miranda, Cezar & Paulinho, Mococa & Paraíso, enfim, todos os intérpretes do gênero sertanejo, têm com certeza em seu repertório passado ou recente, obras musicais de José Fortuna.

Um fato curioso acontecido em sua vida, foi quando da inauguração da cidade de Brasília, ocasião em que José Fortuna teve o prazer de receber das mãos do então Presidente da República Juscelino Kubitschek de Oliveira, um cartão de congratulações e mérito por sua composição "Sob o Céu de Brasília", tida como o Hino Inaugural de Brasília.

O Rádio também foi outra de suas grandes paixões. Foi radialista durante toda a sua vida artística, e apresentou o "Programa José Fortuna" em quase todas as rádios da capital: TupiPiratiningaGazetaJornalRecordNove de JulhoSão PauloCometaNacionalDifusoraGloboMorada do Sol, entre outras.

Ao longo de sua vida, teve o prazer de receber inúmeros troféus, títulos e congratulações, destacando-se dentre estes:

  • Título de Cidadão Osasquense
  • Cartão de Prata e a Medalha Anchieta por iniciativa da Câmara Municipal do Estado de São Paulo
  • Título de Cidadão Paulistano
  • A Sala José Fortuna no Museu de sua cidade natal, Itápolis
  • A Avenida José Fortuna na sua cidade natal, Itápolis, inaugurada por ele apenas vinte dias antes do seu falecimento.

Outras cidades que o homenagearam, dando o seu nome à algumas praças e ruas são: São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, Guarulhos, São Paulo, São Miguel Paulista, Osasco, Blumenau em Santa Catarina, São Carlos, Mogi das Cruzes e Mogi-Mirim.

A última foto de José Fortuna
Morte

José Fortuna faleceu no dia 10 de novembro de 1983, em sua casa, na cidade de São Paulo, vítima da Doença de Chagas que o acompanhou durante toda a sua vida, deixando sua esposa Durvalina e suas duas filhas Iara e Marlene. Está sepultado no Cemitério do Morumbi, São Paulo, e em sua campa há uma estrofe de um poema seu musicado, que se intitula "O Silêncio do Berranteiro":

"Aqui estou meus velhos companheiros
Olhem pra cima, pra me ver passando
Em meu cavalo, Raio de Luar
Pelo estradão de estrelas galopando
O meu berrante hoje são trombetas
Que os anjos tocam chamando a boiada
De nuvens brancas no sertão do espaço
Vindo ao curral azul da madrugada"

José Fortuna deixou inéditas perto de novecentas obras musicais, que foram sendo musicadas e gravadas por seus diversos parceiros, dentre estes destacando-se com maior afinco Paraíso, co-autor juntamente com José Fortuna de inúmeras obras musicais, tais como "O Ipê e o Prisioneiro", "Avenida Boiadeira", "Atalho" e "Raízes do Amor", sendo também o responsável pela administração de todo o repertório atual de José Fortuna.

Fonte: José Fortuna Site Oficial
Indicação: Miguel Sampaio

Tia Amélia

AMÉLIA BRANDÃO NERY
(86 anos)
Compositora e Pianista

* Jaboatão, PE (25/05/1897)
+ Goiânia, GO (18/10/1983)

Nascida em Jaboatão, PE, em 25 de maio de 1897, começou a ter contato com o piano aos 4 anos de idade. Seu pai era maestro da banda da cidade de Jaboatão, e também clarinetista e solista de violão. Sua mãe tocava piano. Aos seis anos, Amélia começou a estudar música, mas, seu pai exigiu-lhe que se dedicasse aos clássicos. Com doze anos, ela compôs sua primeira música, a valsa "Gratidão".

Com 17 anos, ela se casou e seu esposo a impediu de seguir carreira como pianista, os planos que ela acalentava. Indo morar em uma fazenda nos arredores de Jaboatão, Amélia tocava somente nas festas de amigos. Ela aproveitou para estudar o folclore musical das cercanias da cidade. Com três filhos, e aos 25 anos, ela ficou viúva. Para criá-los, ela abraçou a carreira artística profissionalmente.

A Rádio Clube de Pernambuco a contratou e lá, ela começou a fazer sucesso.

Por volta de 1929, foi ao Rio de Janeiro resolver algumas questões de direitos autorais com a gravadora Odeon. Logo, foi convidada a dar recital no Teatro Lírico, com grande êxito. Era chamada de a coqueluche dos cariocas. Devido a esse sucesso, ainda se apresentou na Rádio Mayrink Veiga, Rádio Sociedade e Rádio Clube do Brasil.

Ao voltar para Recife, continuou na Rádio Clube de Pernambuco e retomou suas pesquisas sobre a música folclórica pelo interior do estado.

Em 1930, vários intérpretes de nossa música popular gravaram composições suas: Elisa Coelho, Vicente Cunha, Elsie Houston, Alda Verona, Jararaca, Stefana de Macedo e Silene Brandão Nery (sua filha).

Voltou ainda ao Rio de Janeiro para algumas apresentações, quando o Itamarati, em 1933, a convidou para excursionar pelas Américas ao lado de sua filha, Silene, para que elas apresentassem composições inspiradas no folclore brasileiro.

Na Venezuela, o governo local a convidou para permanecer dois anos no país estudando o folclore venezuelano. Ela recusou o convite e partiu para os Estados Unidos, onde foi contratada por uma emissora de rádio de Schenactady, apresentando-se durante cinco meses sob o patrocínio da General Eletric.

Apresentou-se em New York e em New Orleans. Em Hollywood, ela e a filha foram convidadas para participar de um filme da RKO Pictures ao lado da orquestra de Rudy Vallée, mas não quis apresentar-se cantando e recusou.

Ela e a filha excursionaram pelo Brasil em 1939. Quando Silene se casou, ela resolveu abandonar a carreira, apresentando-se uma única vez no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, antes de se aposentar.

Foi morar em Marília, interior de São Paulo, e, depois, em Goiânia. Lá, na casa de sua filha, conheceu a cantora Carmélia Alves, que era uma grande admiradora do talento de Amélia. Foi Carmélia Alves quem a convenceu voltar a se apresentar. Depois de 17 anos, ela voltou apresentando-se no Rio de Janeiro e em São Paulo, com um repertório de chorinhos de sua autoria, agora com o nome artístico de Tia Amélia.

Trabalhou na Rádio Nacional, no Clube da Chave e em outros clubes cariocas, e em São Paulo atuou durante três meses na TV Record, TV Tupi e TV Paulista, hoje TV Globo. Viajou, em seguida, para Pernambuco trabalhando na Rádio Clube de Pernambuco e Rádio Jornal do Comércio, de Recife.


O seu grande sucesso, entretanto, foi o programa "Velhas Estampas", que manteve durante 14 meses na TV Rio, no qual, além de tocar piano e apresentar suas composições, contava histórias dos velhos tempos de sua juventude. A convite da Odeon gravou o LP "Velhas Estampas", interpretando ao piano diversas composições de sua autoria, entre elas os chorinhos "Dois Namorados", "Chora, Coração", "Sem Nome", "Bordões ao Luar" (nome escolhido pelo poeta Vinícius de Moraes), "Sorriso de Bueno" e algumas valsas, acompanhada pela Banda Vila Rica.

Com esse disco, grande sucesso de vendagem, recebeu o prêmio de melhor solista e compositora do ano. Lançou depois novo LP pela Odeon, "Musicas da Vovó no Piano da Titia", e em julho de 1960 foi contratada pela TV Tupi, do Rio de Janeiro, para fazer um retrospecto da época áurea do choro brasileiro, semelhante ao que já fizera no programa "Velhas Estampas".

Tia Amélia fez sua última gravação em 1980, aos 83 anos, pelo selo Marcus Pereira, com o LP "A Benção Tia Amélia", onde interpretava 12 composições inéditas, entre valsas e choros.

Nessa época, o historiador musical José Ramos Tinhorão escreveu sobre ela:

"Assim, quando se ouve o som atual de Tia Amélia, pode-se dizer que é toda a história do piano popular brasileiro que soa em sua interpretação."

Amélia Brandão Nery, a Tia Amélia, faleceu em Goiânia, GO, em 18 de outubro de 1983, aos 86 anos de idade.


A Casa de Tia Amélia

A casa onde residiu a famosa pianista Amélia Brandão localiza-se no final da Rua Duque de Caxias, em frente a Praça Santos Dumont, próximo aos Correios de Jaboatão Centro e à Primeira Igreja Batista de Jaboatão. Ela é bastante conhecida de todos, pois destaca-se por sua volumetria e arquitetura que indicam ser uma casa bastante antiga. O que poucos sabem é que ela foi residência de umas das artistas mais importantes e conhecidas surgidas em nossa terra: Amélia Brandão.

Apesar da importância que Amélia Brandão teve para a música brasileira, sua antiga residência encontra-se hoje abandonada e correndo sérios riscos de ser demolida. Isso está acontecendo por causa de um impasse jurídico sobre a propriedade da casa que está impedindo que os verdadeiros donos assumam a posse da residência. Enquanto a lenta justiça brasileira não resolve a questão, mais um patrimônio do povo jaboatonense vai desaparecendo.

Para quem quiser conhecer mais, é só consultar o livro "Relembrando Tia Amélia" de Adiuza Vieira Belo disponível no Instituto Histórico de Jaboatão.

Discografia

  • 1980 - A Benção, Tia Amélia
  • 1960 - Cuíca no Choro / Bom dia Radamés Gnattali
  • 1960 - As Músicas da Vovó no Piano da Titia
  • 1959 - Valência / Revoltado
  • 1959 - Velhas Estampas

Marçal de Souza

MARÇAL DE SOUZA
(62 anos)
Líder da Etnia Guarani-Nhandevá, Enfermeiro e Intérprete

* Ponta Porã, MS (24/12/1920)
+ Antônio João, MS (25/11/1983)

Marçal de Souza ou Marçal Tupã-I (Deus Pequeno), por muitos chamado de Marçal Guarani, foi um líder da etnia guarani-nhandevá (que habita o oeste do Brasil, nas fronteiras com Argentina, Bolívia e Paraguai), enfermeiro e intérprete da língua Guarani. Recentemente foi condecorado com a honra de Herói Nacional do Brasil pelo Governo Federal.

Marçal de Souza, foi defensor incansável dos povos nativos da América do Sul e um dos líderes precursores das lutas dos guaranis pela recuperação e pelo reconhecimento de seus territórios ancestrais, onde estão hoje Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná e São Paulo, principalmente. Foi também um dos criadores do Movimento Indígena Brasileiro, tendo sido um dos fundadores e participado da primeira diretoria da União das Nações Indígenas (UNI), entidade que congrega indígenas brasileiros, fundada em 1980.

Aos 3 anos mudou-se para a aldeia de Te'ýikue, na cidade de Caarapó. Órfão aos 8 anos, passou a morar na Nhanderoga, nome dado a orfanatos de crianças indígenas, na Missão Caiuá, área indígena de Dourados. Aos 12 anos foi com um casal de missionários para Campo Grande. Conheceu um oficial do Exército que o levou para o Recife, onde realizou trabalho braçal em troca de comida, roupa e estudo.

De volta a Dourados, foi contratado pela Missão Caiuá como professor de crianças órfãs e intérprete de guarani. Em 1959 fez um curso na Organização Mundial de Saúde (OMS) e formou-se atendente de enfermagem, profissão que exerceu até sua morte em 1983.

Desde o início dos anos 70 denunciou a expropriação de terras indígenas, a exploração ilegal de madeira, a escravização de índios e o tráfico de meninas índias. Vítima de perseguições, em 1978 foi expulso de Dourados pela Funai e voltou a morar na aldeia Te'ýikue. Nesse ano, foi novamente transferido pela Funai, vai para a aldeia de Mbarakaju, em Antônio João.


Durante seu trajeto na luta em defesa das questões indígenas Marçal de Souza participou de diversos seminários, congressos e conferencias. Na luta por melhoria nas condições de vida de seu povo.

Em 1980, foi escolhido representante da comunidade indígena para discursar em homenagem ao papa João Paulo II em Manaus na primeira visita do papa ao Brasil. Ele afirmou em discurso ao pontífice. Em seu discurso falou sobre a invasão dos territórios indígenas, disse também, sobre os anseios da comunidade indígena brasileira e pediu para que o papa levasse seu clamor ao mundo:

"Nossas terras são invadidas, nossas terras são tomadas, os nossos territórios são invadidos… Dizem que o Brasil foi descoberto. O Brasil não foi descoberto não, o Brasil foi invadido e tomado dos indígenas do Brasil. Essa é a verdadeira história".

Marçal de Souza participou do congresso nos Estados Unidos da Organização das Nações Unidas (ONU) e do filme "Terra dos Índios".

Por sua rebeldia em denunciar e lutar pelos direitos de seu povo, ganhou diversos inimigos principalmente fazendeiros. No mesmo ano da visita do papa no Brasil, já transferido pela Funai, agora morando na aldeia Pirakuá no município de Antônio João, envolveu-se na luta pela posse de terras na área indígena de Pirakuá, em Bela Vista. A demarcação foi contestada pelo fazendeiro Astúrio Monteiro de Lima e seu filho Líbero Monteiro, que consideram a região parte de sua propriedade que era vizinha a dos índios.

Marçal de Souza foi vitima de perseguição por parte da Funai e ate mesmo por outras lideranças indígenas.

Morte

Após diversas ameaças e agressões, em 1983, Marçal de Souza foi brutalmente assassinado com 5 tiros no rancho de sua casa, na aldeia Campestre. Os acusados do crime, Líbero Monteiro de Lima e Rômulo Gamarra, acabam absolvidos em julgamento realizado somente dez anos depois, em 1993.

Marçal de Souza esta enterrado em Dourados, terra que viveu por bastante tempo e que deixou familiares, seu corpo esta sepultado no Cemitério Santo Antônio de Pádua. A luta de Marçal de Souza alarmou e acendeu a importante valorização e preservação dos povos indígenas.

Marçal de Souza foi um dos vários lideres assassinados na luta pela terra. Pessoa lembrada por Darcy Ribeiro em diversas escritas, foi também membro da igreja presbiteriana, enfermeiro, aculturado, interprete da língua guarani, conhecedor de diversas línguas estrangeiras.

Marçal de Souza já previa seu fim, Um pouco antes da sua morte ele teria dito: "Sou uma pessoa marcada para morrer, mas por uma causa justa a gente morre...".