Roniquito

RONALD RUSSEL WALLACE DE CHEVALIER
(46 anos)
Economista

☼ Manaus, AM (1937)
┼ Rio de Janeiro, RJ (Janeiro de 1983)

Ronald Russel Wallace de Chevalier, mais conhecido por Roniquito, foi um economista nascido em Manaus no ano de 1937.

Filho do escritor Ramayana de Chevalier e irmão da atriz, jornalista, escritora e compositora Scarlet Moon, falecida em 05/06/2013, Roniquito talvez tenha sido o sujeito mais sem censura da história de Ipanema.

Segundo conta Ruy Castro, no livro "Ela é Carioca", o economista Roniquito de Chevalier foi o verdadeiro inventor da palavra "Aspone" (Assessor de Porra Nenhuma).

Ele às vezes entrava num botequim e se anunciava:
"Senhoras e senhores, aqui Ronald de Chevalier. Dentro de alguns minutos... Roniquito!"
Mesas estremeciam. Todos sabiam que aquele rapaz bem-nascido, bem vestido, bem-falante e de profissão economista, que acabara de entrar recitando Shakespeare ou Baudelaire, iria cumprir a ameaça.

Dali a três ou quatro uísques (não havia uma progressão, era de repente), ele se aproximava de alguém (o queixo proeminente quase espetando a cara do outro) e dizia alguma coisa tão ofensiva que fazia o outro espumar e partir para assassiná-lo. Talvez porque o que ele dissesse fosse a verdade.

Certa vez o cartunista Jaguar tentou acompanhá-lo por uma noite: Foram expulsos de quatro bares.

Scarlet Moon não lembra o ano exato, apenas que o fato se deu no começo da década de 70. Ladrões invadiram o Antonio's, principal reduto da boemia carioca, dominaram os frequentadores e começaram a esvaziar os caixas. Assustados, todos ficaram em silêncio, exceto um homem franzino, que interrompeu a ação diversas vezes insistindo para que os ladrões levassem também uma lista de pessoas e valores ao lado da caixa registradora: Era a relação dos devedores do bar, o "pendura".

Esse homem era Ronald Russel Wallace de Chevalier, o Roniquito, e a história é uma das muitas que cercam um dos personagens ao mesmo tempo mais amados e odiados da Ipanema dos anos 60 e 70. 

Roniquito era tão corajoso quanto frágil fisicamente. Escapou centenas de vezes de ser desmembrado ou de ter os ossos da face transformados em paçoca por punhos poderosos. Muitas vezes foi salvo pelos amigos, que brigavam por ele. Em outras, apanhou de verdade e aguentou firme.

Conta-se que, numa dessas, o sujeito que o espancava perguntou-lhe: "Chega ou quer mais?". E Roniquito, no chão, com o sapato do brutamontes sobre seu pescoço, ainda conseguiu olhar para cima e articular: "Cansou, filho da puta?".

Roniquito dizia o que pensava para qualquer um, não importava o cargo, a idade, a cor, o sexo, ou o tamanho da pessoa.

Umas dessas foi o cronista Antônio Maria, que, sozinho, seria capaz de massacrar vinte Roniquitos. Numa discussão no Bottle’s Bar, no Beco das Garrafas, em 1962, Roniquito provocou Antônio Maria ao duvidar de sua competência como homem de televisão. Para ele, homem de televisão era seu amigo Walter Clark, então diretor comercial da TV Rio e que estava calado na mesa, temendo o pior.

Roniquito ofendia Antônio Maria e pedia o testemunho do boêmio dentista Jorge Arthur Graça, o "Sirica", também sentado com eles. Antônio Maria aguentou enquanto pôde, até que Roniquito soltou a frase final: "Antônio Maria, você foi parido por um ânus!".

Ao ouvir isso, Antônio Maria ficou vermelho e atirou-se enfurecido sobre RoniquitoWalter Clark e quem mais estivesse por ali. A muito custo, foi contido por Jorge Arthur Graça e mais uns dez.

Walter Clark e Roniquito eram amigos de adolescência em Ipanema. Conheceram-se no Colégio Rio de Janeiro, depois de uma prova de redação na qual Walter Clark, recém-chegado de São Paulo, teria tirado 10. A primeira frase de Roniquito para Walter Clark foi: "Você é o garoto que tirou 10? Você me parece bem medíocre...". Nunca mais se separaram.

Nos anos 60, Walter Clark contratou Roniquito para trabalhar na administração da TV Rio e toureou os insultos que Roniquito disparava contra o próprio chefe, Péricles do Amaral.

Quando Walter Clark saiu para fazer a TV Globo, em 1965, levou Roniquito com ele. Com o estrondoso sucesso da TV Globo a partir de 1970, a máquina começou a andar sozinha e Roniquito e o próprio Walter Clark pareceram ficar sem função. Dizia-se que a única utilidade de Roniquito era beber uísque com Walter Clark durante o expediente - em xícaras de chá, para dar menos na vista.

Foi quando, ao ser perguntado sobre o que fazia na TV Globo, Roniquito respondeu com a expressão depois popularizada por Carlinhos de Oliveira:
"Sou aspone. As-po-ne. Assessor de porra nenhuma!"
A palavra, consagrada nacionalmente, ainda não chegou ao Dicionário Aurélio.

Mas não era bem assim. Na própria TV Globo, sua atuação esteve longe de ser a de um "Aspone". Numa época de crise, por exemplo, ajudou a equacionar uma pesada dívida da TV Globo para com a Receita Federal.

Roniquito era um economista brilhante, ex-aluno de Octávio Gouveia de Bulhões, Roberto Campos e Mário Henrique Simonsen, e fora o orador da sua turma, da qual fazia parte Maria da Conceição Tavares.

Em fins dos anos 50, saiu da faculdade para um emprego na Comissão Econômica Para a América Latina (CEPAL). Mário Henrique Simonsen, por sinal, vivia consultando-o sobre questões econômicas, antes, durante e depois de ser Ministro do Planejamento do governo de Ernesto Geisel - e sendo derrotado por ele no xadrez.

Sóbrio, Roniquito trabalhava também no Ministério da Fazenda, escrevia uma coluna semanal no Correio Braziliense e dava palestras em universidades e cursos de pós-graduação. E, sóbrio ou ébrio, passava a impressão de ser íntimo de todos os livros do mundo: Falava inglês e francês, sabia poetas inteiros de cor e conhecia muita literatura, sendo apaixonado por William Faukner.

Suas estantes eram impecáveis, com os livros organizados por assunto, todos sempre à mão. Em música Roniquito era capaz de assobiar até os clássicos. Parte dessa erudição lhe vinha de família: Seu pai, o amazonense Walmik Ramayana de Chevalier, era poeta e médico. O Ramayana do nome era uma referência ao célebre poema hindú.

Walmik Ramayana de Chevalier carimbou seus filhos com nomes bonitos, mas, para brasileiros, estrambóticos: Roniquito era Ronald Russel Wallace de Chevalier. Dois de seus irmãos eram Stanley Emerson Carlyle de Chevalier e, claro, Scarlet Moon de Chevalier.

Por intermédio do pai, Roniquito ainda usava calças curtas quando se sentou para beber pela primeira vez com Vinícius de Moraes e Paulo Mendes Campos. Ou seja, já começou entre os profissionais. Na mesma época, para exibir Roniquito, o pai mandou-o imitar Ruy Barbosa para Lúcio Cardoso. Roniquito imitou Ruy Barbosa à perfeição, com todos os pronomes no lugar. Lúcio Cardoso ficou fascinado: "Nunca vi um menino de dez anos beber tão bem!".

Muitos anos depois, Lúcio Cardoso deu-lhe para ler os originais de seu romance "Crônica da Casa Assassinada" e pediu-lhe sua opinião.

Mas, quando Lúcio Cardoso o enxotou de uma festa em seu apartamento por ele estar zombando do namoro secreto de Paulinho Mendes Campos com Clarice Lispector, Roniquito foi para debaixo da janela de Lúcio Cardoso e começou a gritar o insulto que, na sua opinião mais o ofenderia: "Faukner do Méier! Faukner do Méier!".

A relação de Roniquito com os escritores era cruel. Ao cruzar com Fernando Sabino num restaurante, Roniquito perguntou-lhe: "Fernando Sabino, quem escreve melhor, você ou Nelson Rodrigues?".

Fernando Sabino gaguejou: "Bem... Nelson Rodrigues, é claro!".

Mas Roniquito fulminou: "E quem é você para julgar Nelson Rodrigues?".

Roniquito fez pior com o suave Antônio Callado, a quem perguntou se já tinha lido FaulknerAntônio Callado disse que, evidentemente, já tinha lido. Roniquito então disse: "Bem, se já leu Falkner, você sabe que você é um bosta!".

Para Roniquito, segundo a crônica escrita por Ferreira Gullar, a música do amigo Tom Jobim seria uma simples cópia da música do maestro Villa-Lobos. Clarice Lispector surgiria como uma "wannabe" Virginia Woolf.

Amicíssimo de seus amigos, certa vez Roniquito foi ao velório de um deles, entrou na sala errada e, diante da família compungida esbravejou: "Esse defunto é horroroso! O nosso é muito mais bonito!". Sob o mesmo tema escapou de várias surras no circuito Ipanema-Leblon, quando ao chegar nos bares e verificar a ausência dos seus amigos dizia: "O lugar está cheio de ninguém!".

Comemoração de vitória do Fluminense no Antônio's Bar
Na foto, da esquerda para direita, o garçom Marcos Vasconcellos, Roniquito Chevalier, Nelson Motta, Chico Buarque e Lúcio Rangel
Se Roniquito se limitasse a desfeitear os amigos, seria apenas um bebum inconveniente. Mas ele também não tinha a menor cerimônia com o poder, nem mesmo quando esse era o truculento poder militar. Certa vez, numa recepção na TV Globo, Roniquito foi apresentado a um general. Depois de certificar-se de que ele nunca lera Machado de Assis, perguntou-lhe se pelo menos entendia de música. O general hesitou e Roniquito exemplificou: "Nem essa?". E, com a voz e os dedos imitando uma corneta, solou o toque da alvorada.

Em outra visita de autoridades à TV Globo, Roniquito perguntou a Pratini de Moraes, Ministro dos Transportes do governo Emílio Garrastazu Médici, se ele sabia o tamanho de um vergalhão. O ministro vacilou e Roniquito emendou: "Pois devia saber, porque o governo está enfiando um vergalhão no rabo do povo!".

De outra feita, no governo de Ernesto Geisel, quando Roniquito conversava com o seu amigo, o Ministro da Previdência Luiz Gonzaga do Nascimento Silva, outro ministro, Severo Gomes, este da Indústria e Comércio e dono dos cobertores Parahyba, tentou se meter. Roniquito cortou-o: "Não estou falando com fabricante de lençóis!".

Em todas essas ocasiões, Roniquito foi salvo do opróbrio na Globo porque era adorado por Walter Clark e Boni. Chegou a ser posto de quarentena diversas vezes, mas a punição nunca era mais do que simbólica. De certa forma, Roniquito era o que Walter Clark, com todo o seu poder, gostaria de ser: Fino de berço e grosso por opção - Walter Clark era o contrário.

Mas a maior sem-cerimômia de Roniquito para com o poder foi em 1967 e envolveu o Marechal Costa e Silva, já presidente. Segundo a história muito bem contada por Ferdy Carneiro, Roniquito estava ciceroneando um figurão americano convidado do Governo, a pedido de Nascimento Silva. Naquela manhã ele levou o visitante para almoçar no restaurante do Museu de Arte Moderna (MAM). Antes de irem para a mesa, resolveram reforçar-se no bar com alguns uísques.

Por coincidência, na mesma hora, Costa e Silva também estava no Museu de Arte Moderna (MAM) para almoçar. A comitiva presidencial, sem as normas de segurança que depois se tornariam comuns, passou por Roniquito no momento em que este catava seu isqueiro no paletó para acender um cigarro.

Com o cigarro no canto da boca, Roniquito viu o presidente. Avançou, cravou o queixo nas medalhas de Costa e Silva e perguntou: "O senhor tem fogo?".

Os seguranças, como que subitamente acordados de um rigor mortis, pularam sobre ele. O americano, sem entender o que se passava e já incapaz de fazer um quatro, se a isso fosse solicitado, balbuciou qualquer coisa como "Whatthegoddamfuckdoyouthinkyouredoin'" e foi também abotoado.

Os dois foram levados para o 3º Distrito, na Rua Santa Luzia, por desacato à autoridade. Diante do delegado, o americano esbravejava com voz pastosa: "I’m an American shitizen! Call the embashy!".

O delegado perguntou: "Quê que o gringo tá falando?".

"Ele tá dizendo que a polícia no Brasil é uma merda!", traduziu Roniquito.

"Ah, é? Pois ele vai ver o que é merda!", bramiu o delegado.

O americano pediu para usar o telefone. Roniquito traduziu: "Ele está dizendo que no Brasil ninguém respeita os direitos humanos!".

"Direitos humanos é o cacete! Ele vai entrar no pau!", ganiu o delegado.

O americano perguntou a Roniquito por que o delegado estava tão brabo.

Roniquito sussurrou para o delegado: "Agora ele está dizendo que o Brasil é uma ditadura facista!".

Por sorte, quando estava prestes a ser apresentado ao pau-de-arara, o americano conseguiu mostrar um documento com o emblema do governo americano. Foi dado o telefonema e, em poucos minutos, chegaram as tropas da embaixada e do Itamaraty para libertar Roniquito e o gringo.

Mas, por causa de Roniquito, concluiu Ferdy Carneiro, por pouco não se declarou uma guerra entre o Brasil e os Estados Unidos, tendo como pivô um palito de fósforo.

Não admira que Roniquito não tenha sido levado a sério quando se ofereceu para ser trocado pelo embaixador Burke Elbrick, sequestrado em 1970.

Roniquito deixou sua marca como boêmio num Rio de Janeiro que não existe mais. Uma boa fonte de assunto para mesa de bar numa sexta-feira. E foi assim certa noite em 1964, quando bebia com Paulo César Saraceni e Armando Costa num bar de Copacabana. Os três esculhambavam o golpe e as Forças Armadas em altos brados. Numa das mesas próximas havia um grupo de militares que se sentiu ofendido. Os militares foram à 13ª Delegacia e convocaram a polícia para prender os difamantes.

Armando Costa estava no banheiro quando os policiais chegaram. Ao se aproximarem da mesa, foram desacatados por Roniquito. Levaram Paulo César Saraceni e ele presos. Armando Costa, saindo do lavabo, tentou ser preso também mas não conseguiu.

Na delegacia, embora Paulo César Saraceni e o delegado tentassem, não conseguiam aplacar a ira roniquitianaPaulo César Saraceni ligou para Tio Pandiá, que chegou prontamente, conversou com o delegado e convenceu-o a liberar os dois.

Conseguiu porque o delegado não aguentava mais o discurso irado de Roniquito. Num determinado momento, Paulo César Saraceni disse que ia embora e levaria o Tio Pandiá com ele, para ver se Roniquito se acalmava e ia junto. Mas Roniquito estava tomado de ódio dos militares e continuava sua peroração. Tio Pandiá e Paulo César Saraceni fizeram menção de partir. Desta vez foi o delegado que estrilou: "Pelo amor de Deus! Não deixa esse cara aqui não!"

Livre dos espíritos, Roniquito era um gentleman. Beijava as mãos das senhoras e encantava-as com sua inteligência e educação. Mas era bom não confiar. A poção que o fazia passar de Drº Jekyll a Mr. Hyde, ou de Drº Roni a Mr. Quito, segundo Marcos de Vasconcelos, vinha em toda espécie de garrafas. Com uma única palavra ele seria capaz de provocar um terremoto.

Uma elegante senhora do Flamengo, que só conhecia o seu lado fino, convidou-o para um jantar em sua casa. Roniquito comportou-se bem no jantar, mas bebeu vinho demais, desmaiou sobre o prato e foi levado roncando para um sofá.

Terminado o jantar, um dos convidados propôs uma brincadeira então na moda, "A palavra é...".

No meio do jogo, Roniquito deu sinais de que estava acordando. A dona da casa achando que ele queria participar da brincadeira, foi até o sofá, de mãos postas e com um sorriso de beatitude: "Roniquito, a palavra é...".

E Roniquito, meio zonzo de sono: "Ca-ra-lho".

Naturalmente, foi expulso pelo filho da anfitriã.

Quem o conhecesse mal, diria que Roniquito tinha um temperamento bélico. Mas era a sua falta de paciência para com os enganadores que o levava a ser radical. Poucos meses depois do golpe de 1964, intelectuais reunidos no Teatro Santa Rosa promoviam um debate emocionado e anódino sobre os "Caminhos da Democracia no Brasil". Propunham "Estratégias de Ação".

Foi quando se ouviu, do fundo da platéia, sua voz característica: "Muito bem. E quem vai fornecer as metralhadoras?". O debate acabou ali.

Roniquito ganhou sua biografia "Drº Roni & Mr. Quito - A Vida do Amado e Temido Boêmio de Ipanema", escrita por Scarlet Moon de Chevalier, sua irmã e lançada em setembro de 2006.

Drº Roni & Mr. Quito
A Vida do Amado e Temido Boêmio de Ipanema

Optando por um andamento cronológico, o livro de Scarlet Moon de Chevalier, que traz no nome uma referência a Drº Jekyll e Mr. Hyde, do livro "O Médico e o Monstro", de Robert Louis Stevenson, apresenta Roniquito, que era alcoólatra, no auge de sua lenda etílica mas também flagra a sua faceta mais sóbria, quando, por exemplo, na qualidade de economista respeitado, dava orientações de investimento a um garçom do Antonio's - que, por conta da ajuda e dos conselhos financeiros do amigo, conseguiu comprar um táxi após o fechamento do lugar.

Um dos fundadores da Banda de Ipanema, Roniquito teve em sua vida postos mais sérios. Trabalhou com Carlos Lessa na Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL), como chefe do Serviço Econômico e Financeiro da Carteira de Cooperativas do Banco Nacional da Habitação (BNH), como assessor de Walter Clark na TV Globo e no Ministério da Fazenda. Nem por disso deixou de carnavalizar a pompa: A ele costuma ser atribuída a cunhagem da palavra "Aspone", diminutivo de "Assessor de Porra Nenhuma", vocábulo já acolhido pelo Dicionário Houaiss. 

Não rejeitando o mito, mas sem o edulcorar, o livro de Scarlet Moon ajuda a deixar ver as possíveis contradições e sofrimentos escondidos na figura pública de Roniquito de Chevalier.

No livro, Scarlet Moon conta, pela primeira vez em público, o episódio de sua prisão por porte de droga, em meados dos anos 70, segundo ela, involuntariamente por culpa do irmão. É o momento mais comovente do livro, pois passar três meses num presídio mudou sua vida e rompeu uma ligação que havia entre os dois.


Na época, ainda sob o impacto da raiva e da mágoa, ela escreveu uma carta ao irmão, que nunca respondeu ou falou do assunto. "Só quando eu fui escrever o livro, minha outra irmã, Bárbara, que havia arrumado as coisas de Roniquito após a morte dele, me entregou a carta. Ele a guardara por mais de cinco anos, sinal de que ficara tocado", disse. "Hoje, relendo aquela carta, me sinto moralista, como se quisesse ensinar a ele como viver".
"Andei sabendo que você anda triste, sem mulher, arrasado e sentindo-se culpado por toda essa situação que estou vivendo. [...] As penas que eu própria busquei, estou dando um jeito, e agindo, para deixá-las. Quanto a você? Tem só se lamentado e enchido a cara! Continua não confiando em seu potencial intelectual e criativo! [...] Inteligência a serviço da vacilação não leva a nada. E olha, cadeia é muito triste!"
Foram dez anos de entrevistas com amigos do irmão, 13 anos mais velho e ciumento da caçula da família, e muitas idas à Biblioteca Nacional para pesquisar os jornais da época, porque Scarlet Moon não se atém nas histórias de sua família, dá um painel da época, de como as coisas aconteciam num passado utópico em que havia uma ditadura, mas as pessoas insistiam em criar e em ser felizes, embora nem sempre fosse possível realizar os dois projetos.

Ela não doura a pílula, pois conta que o irmão, alcoólatra que chegou a um estado terminal, levou a cabo três casamentos por não suportar a rotina das pessoas comuns, e sabia ser perverso e destruidor. "No entanto, quando fui conversar com seus filhos, cada um contou uma história mais comovente da convivência com o pai", lembra Scarlet Moon. "Isso se repetiu várias vezes e, mesmo com toda a convivência, me surpreendi com o que descobri de sua vida".

Embora seja personagem dessa biografia, Scarlet Moon quase não aparece no livro e suas histórias só estão lá quando explicam o irmão. E olha que ela tinha casos para contar. Foi modelo aos 14 anos, quando nenhuma menina ainda sonhava com essa profissão, uma das fundadoras do Jornal Hoje, da TV Globo, e, durante quase três décadas, musa e mulher do roqueiro Lulu Santos, que sempre destacou a influência dela em sua música. "Eu não queria falar de mim e sim de Roniquito e de seu tempo".

Morte

Roniquito foi atropelado em dezembro de 1981, em frente ao Antonio’s. Um fusca o acertou, quebrou-lhe as duas pernas, jogou-o longe e fugiu sem socorrê-lo. Um ônibus que vinha atrás viu o acidente e parou. O motorista recolheu Roniquito, colocou-o no ônibus e levou-o para o Hospital Miguel Couto.

Histórias surgiram até em torno desse atropelamento. Segundo uma delas, ao passar voando defronte da varanda do Antonio’s e ao ver o ar assustado dos amigos, Roniquito teria perguntado: "O que foi, porra? Nunca viram o Super-Homem?".

Na verdade, o atropelamento lhe seria fatal. Roniquito quebrou as pernas em vários lugares, teve sequelas graves e foi submetido a seis operações durante o ano de 1982.

Como todo filho de médico, gostava de se automedicar e passou a tomar uma farmácia de remédios. Mas não parou de beber - mesmo de bengala e pé engessado, chegou a ir algumas vezes à Plataforma, fazendo piada com a própria desgraça.

Roniquito também foi visto em restaurantes tomando um líquido que parecia café. Ao ser perguntado, "Tomando café, Roniquito?", respondeu: "Estou. Irish cofee!" (café com uísque). Mas era também asmático e o uso da bombinha, misturado a bebida e remédios, provocou-lhe uma insuficiência cardíaca.

Quando teve um infarto fulminante, em janeiro de 1983, estava sozinho em seu apartamento no Posto 6. Só o encontraram horas depois.

Roniquito foi sepultado com o pé no gesso e de olhos abertos.

O anúncio da sua morte no Jornal do Brasil era uma enciclopédia da vida brasileira. Tinha de ministros de Estado a garçons de botequim. Carlinhos Oliveira disse a seu respeito:
"Ninguém podia ser patife perto dele. Ninguém ousava!"
Paulo Francis escreveu um comovente obituário na Folha de S. Paulo:
"Roniquito fazia o que não temos coragem de fazer - virar a mesa contra os horrores brasileiros. Mas, o leitor dirá, por que então não escrever jornalismo polêmico ou até ficção? É uma boa pergunta. Mas talvez a resposta esteja no Brasil. Nosso horror é de uma tal ordem de vulgaridade que uma resposta vulgar de baderneiro talvez seja mais adequada do que análises ou contra-modelos. Roniquito manteve uma juventude, uma infância de poeta: Protestava em pessoa, pondo a vida em risco tantas vezes, pela gente que desafiava"
Para seu amigo Jaguar, muito mais que um herói-bandido, Roniquito foi um mistério:
"Todos nós morremos de saudade de um sujeito que vivia nos desmoralizando!"
Roniquito viveu pouco e, apesar do muito que aprontou (ou talvez por isso), deixou muitos amigos, famosos como a cantora Nana Caymmi, o jornalista e escritor Sérgio Cabral e o ator Hugo Carvana, e muitos anônimos.

#FamososQuePartiram #Roniquito

2 comentários:

  1. Pelos relatos era inteligentíssimo e brilhante economista. Pena que era um babaca que gostava de aparecer.

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  2. Desde adolescente ouvia as histórias do Roniquito contadas pelos boêmios e frequentadores do Antonio's no Leblon. Muitos o amavam o outros tantos ou mais lhe odiavam.
    Era o famoso fraco abusado, sem papas na língua. Mas entrou para o folclore justamente por ser assim.

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