Cyll Farney


CILÊNIO DUTRA E SILVA
(77 anos)
Ator

* Rio de Janeiro, RJ (14/09/1925)
+ Rio de Janeiro, RJ (14/03/2003)

Cyll Farney, nome artístico de Cilênio Dutra e Silva, foi um ator brasileiro, nascido no Rio de Janeiro na Rua Júlio Otoni.

Estreou em "A Escrava Isaura" em 1949 e destacou-se nas chanchadas da Atlântida nos anos 40 e 50 e e em filmes como "Copacabana Palace" e "Chico Viola Não Morreu".

Cyll Farney trabalhou durante pouco tempo na TV e chegou a fazer algumas telenovelas. Nos últimos anos, dedicava-se a sua própria produtora de filmes. Sua última aparição na televisão foi na minissérie "Hilda Furacão", da TV Globo.

Cyll Farney era irmão do músico Dick Farney, morto em 04/08/1987.

Tinha estudado farmácia nos Estados Unidos e tocava bateria na banda do irmão. E foi de Dick Farney que Cyll Farney tirou seu nome artístico.

"Meu pai inventava estas coisas. Farney veio de Farnésio, o nome do Dick. Por causa dele, adotei também", disse ele numa entrevista em 1999.

Depois de deixar a carreira de ator, em 1972, continuou ligado às câmeras, trabalhando como produtor em 14 filmes. Cyll Farney continuou na ativa administrando seu estúdio, Tycoon, locado muitas vezes para a Rede Globo no período anterior à inauguração do Projac, e uma série de documentários biográficos enfocando nomes como Francisco Alves, Orlando Silva e outros grandes nomes da música brasileira, resgatando a memória de artistas de sua geração.


Morte

O mais famoso galã romântico do cinema brasileiro na década de 50, morreu na madrugada de 14/03/2003, aos 77 anos, no Hospital Adventista Silvestre. Ele estava internado desde quarta-feira (12/03/2003) no Centro de Tratamento Intensivo do hospital e sofreu uma Parada Cardiorrespiratória.

O corpo do ator Cyll Farney foi sepultado às 17:00 hs, no Cemitério do Caju, na zona norte do Rio de Janeiro, onde foi realizado o velório.

Filmografia

  • 1949 - A Escrava Isaura
  • 1950 - Um Beijo Roubado
  • 1950 - O Pecado de Nina
  • 1951 - Aí Vem o Barão
  • 1951 - Tocaia
  • 1952 - Amei Um Bicheiro
  • 1952 - Areias Ardentes
  • 1952 - Barnabé Tu És Meu
  • 1952 - Carnaval Atlântida
  • 1952 - Três Vagabundos
  • 1955 - Colégio De Brotos
  • 1955 - Chico Viola Não Morreu
  • 1955 - Nem Sansão Nem Dalila
  • 1955 - Paixão Nas Selvas
  • 1956 - Guerra Ao Samba
  • 1956 - Vamos Com Calma
  • 1957 - De Vento Em Popa
  • 1957 - Garotas e Samba
  • 1957 - Papai Fanfarrão
  • 1958 - É a Maior
  • 1958 - E o Espetáculo Continua
  • 1958 - O Jovem Drº Ricardo
  • 1959 - O Homem Do Sputnik
  • 1960 - Os Dois Ladrões
  • 1960 - Quanto Mais Samba Melhor
  • 1961 - Entre Mulheres e Espiões (Participação)
  • 1962 - Copacabana Palace
  • 1963 - Und Der Amazonas Schweigt
  • 1967 - A Espiã Que Entrou Em Fria
  • 1968 - Juventude e Ternura
  • 1968 - O Rei da Pilantragem
  • 1968 - Rio Dos Diamantes
  • 1969 - Impossível Acontece
  • 1969 - Believe It Or Not
  • 1969 - Incrível, Fantástico, Extraordinário
  • 1972 - A Infidelidade Ao Alcance De Todos
  • 1972 - Janaina - A Virgem Proibida
  • 1973 - Um Virgem Na Praça
  • 1974 - Assim Era a Atlântida
  • 1976 - O Pai Do Povo
  • 1976 - Tem Folga Na Direção
  • 1977 - Este Rio Muito Louco


Fonte: Wikipédia
Indicação: Reginaldo Monte

Vera Abelha


VERA ABELHA
(47 anos)
Atriz e Travesti

* (1955)
+ (2002)

Vera Abelha era um travesti que circulava em São Paulo, nos anos 70 e 80, na região do Largo do Arouche. Ela usava colar de pérola, cabelo chanel e scarpin salto cinco. Vera Abelha fez muito sucesso na noite paulistana. Era chique e chegou a ser atriz, sendo protagonista de uma peça de Darcy Penteado, no Teatro Augusta.

Vera Abelha fez uma participação marcante no filme "Eu Te Amo" no ano de 1981, dirigido por Arnaldo Jabor. No filme, Vera Abelha interpretou ela mesma durante um encontro com o personagem vivido pelo ator Paulo César Pereio dentro de um carro. Vera Abelha, no filme, o travesti-psicanalista, tem por Paulo César Pereio um amor de mãe.

Ed Lincoln

EDUARDO LINCOLN BARBOSA SABÓIA
(80 anos)
Compositor, Instrumentista, Arranjador e Produtor Musical

* Fortaleza, CE (31/05/1932)
+ Rio de Janeiro, RJ (16/07/2012)

Ficou conhecido no Brasil, a partir da década de 1960, como "O Rei dos Bailes". Dono de um estilo inconfundível, através de seu instrumento, o órgão, fez um sucesso imensurável nos anos 1960 e 70 com sua banda que reunia sempre os melhores músicos do Rio de Janeiro. Ed Lincoln foi expressão musical à época ao lado de nomes como Walter Wanderley, Djalma Ferreira e Lafayette.

Mais conhecido como Ed Lincoln, em Fortaleza, CE, onde nasceu, começou a vida como revisor e depois como redator no Jornal do Povo. Foi para o Rio de Janeiro em 1951 onde iniciou a carreira artística tocando contrabaixo em clubes e Jam Sessions. Depois passou para piano e depois Órgão Hammond. Trabalhou com Luiz Eça e Dick Farney na década de 50 e fez parte de conjuntos de casas noturnas.

Sua estréia fonográfica foi em 1955, como contrabaixista do LP "Uma Noite no Plaza", do Trio Plaza. No mesmo ano, Ed Lincoln formou seu conjunto e gravou seu primeiro disco solo, interpretando "Amanhã Eu Vou" e "Nunca Mais".

De 1955 a 1958, seu conjunto tocou na Boate Drink, sendo dirigido por Djalma Ferreira. No início dos anos 60, além de comandar seu conjunto, criou um estilo na execução de órgão, que se tornou moda em bailes da época. Depois gravou LPs pela Musidisc, gravadora da qual foi diretor musical e arranjador. Depois fundou seu próprio selo, o DeSavoya. Nos anos de 1970 lançou um LP pela CID.

Em toda a sua carreira, foi acompanhado por músicos consagrados como Bebeto Castilho, Wilson das Neves, Durval Ferreira, Humberto Garin, Celinho, Cláudio Roditi, Luiz Alves, Paulinho Trompete, Alex Malheiros e Márcio Montarroyos.

Em 1963, Ed Lincoln sofreu um grave acidente de carro, e ficou afastado de suas atividades artísticas por 7 meses. Seu substituto nessa época foi Eumir Deodato.

Em 1989, Ed Lincoln lançou o album "Novo Toque", uma coletânea com regravações de grandes sucessos, gravada em um microcomputador "Commodore 64".

Em 2000, Ed Lincoln participou da gravação da faixa "Conversa Mole", para o disco "Segundas Intenções" de Ed Motta, e em 2007 da gravação de "Sem Compromisso", para o disco do DJ Marcelinho da Lua.

Em 2010 cineasta Marcelo Almeida filmou o documentário "Ed Lincoln - O Rei do Sambalanço".


Morte

Depois de anos sofrendo com limitação de movimentos devido à um acidente, Ed Lincoln, o "Rei dos Bailes", faleceu no Rio de Janeiro, na segunda-feira, 16/07/2012, aos 80 anos de idade, após dez dias internado, vítima de Insuficiência Respiratória. Foi sepultado no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro.

O Rei dos Bailes

O movimento é sempre o mesmo. O Brasil gera, depois esquece. Em seguida o estrangeiro descobre e resgata. Só então nós voltamos a dar valor. Com o fortalezense Eduardo Lincoln Barbosa Sabóia, nascido em 31 de maio de 1932, não seria diferente. Após trabalhar como jornalista em sua terra natal, mudou-se aos 19 anos para o Rio de Janeiro para tentar a vida como músico. Começou como baixista, até que assumiu o piano e o órgão eletrônico. E foi aí que ele se consagrou como o "Rei dos Bailes".

Não é a toa que foi este o nome dado ao box lançado recentemente pelo selo Discobertas. Reunindo os seis discos lançados pelo músico entre 1960 e 1966, traz um apanhado de sucessos nacionais e internacionais da época, além de composições próprias, tudo com foco das melhores pistas de dança do Brasil. Lançados originalmente pela Musidisc, da qual foi diretor artístico, os discos de "O Rei dos Bailes" tiveram o som recuperado a partir das fitas originais. As capas originais e os textos escritos à época por Sebastião Fonseca também foram recuperados.


No repertório, jazz, samba e bossa nova, tudo com um forte acento dançante que conquistou as pistas inglesas no início deste século. Enquanto os DJs europeus iniciaram uma garimpagem eletrônica da obra do pianista, o selo inglês Whatamusic.com relançou em Cd o disco "Ed Lincoln", de 1968. "O Amor e a Rosa", "Mulher de Trinta", influência do jazz, são algumas das músicas que encantaram os ingleses e que estão presentes na caixa, com destaque para arranjo soberbo da "Aquarela do Brasil". Por ali, infelizmente não citados numa ficha técnica, também estão muitos dos grandes músicos brasileiros, como Emílio Santiago, Silvio César, Tony Tornado, Durval Ferreira e Wilson das Neves.

"Os músicos eram catados a dedo", confirma o músico Orlandivo, também presente naquelas sessões. Ele, que inclusive co-assina algumas canções como D’Orlan (por questões contratuais), conta que a competição era grande, mas não havia páreo para a banda de Ed Lincoln, que sempre procurava meios para cada músico se desenvolver sozinho. "Por isso as pessoas eram boas. Não tinha ensaio, era só dar o tom".

Orlandivo lembra que outros grupos de baile esperavam os lançamentos de Ed Lincoln pra saber o que ele estava fazendo. "Por que era garantia de sucesso", lembra, apesar de confessar que não era tanto dinheiro que entrava. "Não era tanto dinheiro assim, mas deu pra fazer um pé de meia. Mas olhe, além de eu gostar de fazer, ainda tinha um dinheirinho na mão. Tá bom, Né?", brinca.

Os bailes só diminuíram de frequência em 1963, quando Ed Lincoln sofreu um acidente automobilístico que deixou sentindo dores fortes na coluna e o obrigaram a se apresentar eventualmente usando colete. Com o lançamento no ano seguinte do disco "A Volta", ele deu continuidade à carreira de shows e gravações.

Fonte: WikipédiaÚltimo Segundo IGO Povo On Line e Arquivo do Samba Rock
Indicação: Miguel Sampaio Monte

Leonardo Villas-Bôas

LEONARDO VILLAS-BÔAS
(43 anos)
Humanista e Sertanista

* Botucatu, SP (1918)
+ São Paulo, SP (06/12/1961)

Leonardo Villas-Bôas foi um sertanista brasileiro, o mais jovem dos irmãos Villas-Bôas.

Leonardo Villas-Bôas nasceu em Botucatu SP em 1918. Membro, como os irmãos Orlando Villas-Bôas e Cláudio Villas-Bôas, da expedição Roncador-Xingu, viveu depois, por vários anos, no posto Jacaré, no alto Xingu.

Em 1961 foi encarregado de fundar um posto no alto Kuluene, mas adoeceu e teve de ser retirado do sertão. Pacificou os índios Xikrin, ramo Caiapó, do sudoeste do Pará, e tomou parte na Operação Bananal (1960), organizada no governo de Juscelino Kubitschek. Foi também chefe da base de Xavantina.

Leonardo Villas-Bôas viveu com a índia Pele de Reclusa entre 1947 e 1953. O jovem Villas-Bôas teria mantido uma relação ilícita, pública e de exclusividade com Pele de Reclusa. A índia era parte da tribo de índios Kamayuráuma e esposa do grande xamã e chefe Kutamapù, uma das mulheres do chefe, o que, entre outras coisas, fez com que ela fosse coletivamente estuprada pelos homens da aldeia como forma de punição.

"Arraia de Fogo" de José Mauro de Vasconcelos, narra perfeitamente o trabalho e as dificuldades dos irmãos Villas-Bôas, ao travar contatos com os índios. Trata-se de um romance, que tem como personagem principal, não Cláudio Villas-Bôas ou Orlando Villas-Bôas, poderia tratar-se de Leonardo Villas-Bôas? Tão pouco citado, mas de grande importância, pois trabalhou arduamente com seus imãos Cláudio e Orlando.

Leonardo Villas-Bôas morreu na cidade de São Paulo em 1961 vítima de Miocardia Reumática.

Leonardo, Orlando e Cláudio
Os Irmãos Villas-Bôas

Os irmãos Villas-Bôas - Orlando Villas-Bôas (1914-2002), Cláudio Villas-Bôas (1916-1998) e Leonardo Villas-Bôas (1918-1961), foram importantes sertanistas brasileiros.

Nascidos na cidade de Botucatu, interior de São Paulo, com a morte dos pais, Agnello e Arlinda Villas-Bôas, a cidade de São Paulo já não os prendia. Vieram do interior paulista para a Capital pois o pai, Agnello, advogado, havia sido convidado por um escritório do ramo. Mudaram-se para uma pensão na Rua Bento Freitas, esquina com a Rua Marquês de Itu.

Fundação Brasil Central - Expedição Roncador Xingu

O lançamento do plano de ocupação do território brasileiro a "Marcha Para o Oeste" no ano de 1938 estava em completa sintonia com os mais recentes e graves acontecimentos políticos que haviam abalado o Brasil. No dia 10 de novembro de 1937, o país ouvira, em cadeia de rádio, a decretação do Estado Novo e Getúlio Vargas (1882-1954) permaneceria na presidência da República até 29 de outubro de 1945. Getúlio Vargas passou a governar através de decretos-lei e mobilizou o país em uma campanha de integração nacional: A "Marcha Para o Oeste". Nas palavras de Getúlio Vargas, pronunciadas naquele primeiro de ano:

"A civilização brasileira a mercê dos fatores geográficos, estendeu-se no sentido da longitude, ocupando o vasto litoral, onde se localizaram os centros principais de atividade, riqueza e vida. Mais do que uma simples imagem, é uma realidade urgente e necessária galgar a montanha, transpor os planaltos e expandir-nos no sentido das latitudes. Retomando a trilha dos pioneiros que plantaram no coração do Continente, em vigorosa e épica arrancada, os marcos das fronteiras territoriais, precisamos de novo suprimir obstáculos, encurtar distâncias, abrir caminhos e estender fronteiras econômicas, consolidando, definitivamente, os alicerces da Nação. O verdadeiro sentido de brasilidade é a 'Marcha Para o Oeste'. No século XVIII, de lá jorrou o caudal de ouro que transbordou na Europa e fez da América o Continente das cobiças e tentativas aventurosas. E lá teremos de ir buscar: - dos vales férteis e vastos, o produto das culturas variadas e fartas; das entranhas da terra, o metal, com que forjar os instrumentos da nossa defesa e do nosso progresso industrial."
(Saudação aos Brasileiros, Pronunciado no Palácio Guanabara e Irradiada Para Todo o País, às 00:00 hs de 31 de Dezembro de 1937)

Orlando Villas-BôasCláudio Villas-Bôas e Leonardo Villas-Bôas tomaram parte desde as primeiras atividades da vanguarda da Expedição Roncador-Xingu criada pelo governo federal no início de 1943 com o objetivo de conhecer e desbravar as áreas mostradas em branco nas cartas geográficas brasileiras. O índio apareceria, mais tarde, diante da expedição como um "obstáculo".

Posteriormente foram designados chefes da expedição. Em face disso foram acelerados todos os trabalhos em andamento, possibilitando assim que fosse vencida a grande e difícil etapa Rio das Mortes - Alto Xingu. A segunda etapa, ainda mais longa Xingu - Serra do Cachimbo - Tapajós, deixou no roteiro uma dezena de campos de pouso. Alguns desses campos - Aragarças, Barra do Garças, Xavantina, Xingu, Cachimbo, e Jacareacanga, foram mais tarde transformados em Bases Militares e em importantes pontos de apoio de rotas aéreas nacionais e transcontinentais pelo Ministério da Aeronáutica. Outros campos intermediários como o Kuluene, Xingu, Posto Leonardo Villas-Bôas, Diauarum, Telles Pires e Kren-Akôro, tornaram-se Postos de assistência aos índios.

LeonardoCláudio e Orlando foram os principais idealizadores e participaram do grupo integrado pelo marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, Heloísa Alberto Torres, diretora do Museu Nacional, Café Filho, vice-presidente da República, brigadeiro Raimundo Vasconcelos de Aboim, Darcy Ribeiro e José Maria da Gama Malcher, diretor do Serviço de Proteção aos Índios, que, pleiteou ao presidente da República a criação do Parque Nacional do Xingu. A criação desse parque visava a preservar a fauna e a flora ainda intocadas da região, assim como resguardar as culturas indígenas da área. Dessa reunião também participou o médico sanitarista Noel Nutels.

Como decorrência dos esforços envidados pelos irmãos Villas-Bôas e pelo auxílio das personalidades citadas, foi criado, em 1961, o Parque Nacional do Xingu, a mais importante reserva indígena das Américas.

No que tange à fauna e à flora, a reserva procuraria guardar para o Brasil futuro um testemunho do Brasil do Descobrimento, considerando-se a descaracterização violenta pela qual vem passando as nossas reservas naturais. Ali, a reserva mostraria ao Sul os últimos descampados e cerrados do Brasil Central - para através de uma transição busca, mostrar ao Norte, com toda a exuberância, a Hileia Amazônica caracterizada pelas seringueiras, cachoeiras, castanheiras e as gigantescas samaumeiras.

Por fim, cabe registrar que no roteiro da Expedição Roncador-Xingu, órgão da vanguarda da Fundação Brasil Central, em toda a sua extensão entre os Rios Araguaia e Mortes, Mortes e Kuluene (região da Serra do Roncador), Kuluene-Xingu (abrangendo extenso vale), Xingu-Mauritsauá, cobrindo ampla região do Rio Teles Pires ou São Manuel, alcançando, ainda, a encosta e o alto da Serra do Cachimbo, nasceram mais de quarenta municípios e vilas, quatro bases de proteção de voo do Ministério da Aeronáutica, dentre as quais se destaca a Base da Serra do Cachimbo.

A permanência efetiva dos irmãos Villas-Bôas na área do sertão foi de 42 anos.

Carta de próprio punho do Marechal Rondon para os Irmãos Villas-Bôas. O marechal só escrevia de próprio punho para sua filha e para os Villas-Bôas. É importante atentar para o encerramento da carta: "afetuoso abraço do velho, seu admirador Cândido M. S. Rondon"

A Política Indigenista Proposta Pelos Irmãos Villas Bôas

O posicionamento dos irmãos Villas Bôas acerca da política indigenista brasileira, foi tributário das idéias do marechal Rondon. Nesse sentido, mostrou-se pautado por uma intensa preocupação protecionista e preservacionista relativamente aos povos indígenas, procurando, contudo, interferir o mínimo possível na vida e na organização social desses povos. Foi com base nessas premissas que eles conduziram pacificamente o contato com todas as tribos indígenas da região do Xingu e lá implantaram uma reserva, Parque Indígena do Xingu, cuja intenção básica foi proteger e resguardar os povos indígenas xinguanos de contatos indiscriminados com as frentes de penetração de nossa sociedade.

Trata-se de um posicionamento que, em linhas gerais, caminha no sentido da orientação pacifista rondoniana, mas que, entretanto, não se restringe a ela, pois a perspectiva dos Villas-Bôas não visava mais a pacificação dos índios com vistas a transformá-los em trabalhadores rurais. Ao contrário, a partir dos contatos e das relações privilegiadas que tiveram com as populações indígenas do Xingu, os irmãos Villas-Bôas puderam apreender toda a riqueza cultural das mesmas, o que os levou a defender não apenas a sua integridade física, mas também sua integridade cultural.

Conforme enfatiza Darcy Ribeiro:

"Os Villas-Bôas dedicaram todas as suas vidas a conduzir os índios xinguanos do isolamento original em que os encontraram até o choque com as fronteiras da civilização. Aprenderam a respeitá-los e perceberam a necessidade imperiosa de lhes assegurar algum isolamento para que sobrevivessem. Tinham uma consciência aguda de que, se os fazendeiros penetrassem naquele imenso território, isolando os grupos indígenas uns dos outros, acabariam com eles em pouco tempo. Não só matando, mas liquidando as suas condições ecológicas de sobrevivência."
(Darcy Ribeiro - "Confissões" - São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p. 194)

O antropólogo americano Shelton Davis, ao analisar os dois principais modelos de política indigenista que se confrontaram no Brasil durante a segunda metade do século XX, ressalta que:

"Quando a Fundação Nacional do Índio (FUNAI) foi criada em 1967, dois modelos opostos de uma política indigenista existiam no Brasil. Um desses modelos, que era radicalmente protecionistas na natureza, foi desenvolvido por Orlando, Cláudio e Leonardo Villas-Bôas no Parque Nacional do Xingu. Segundo este modelo, as tribos indígenas devem ser protegidos pelo governo federal a partir de invasões na fronteira fechada parques indígenas e reservas, e estar preparado gradualmente, como independente, grupos étnicos, para se integrarem na sociedade em geral e a economia do Brasil. Em oposição à filosofia dos irmãos Villas-Bôas era um segundo modelo de política indigenista que foi desenvolvido pelo Serviço de Proteção ao índio brasileiro nos últimos anos de sua existência e, posteriormente, assumido pela FUNAI. Este modelo foi desenvolvimentista na natureza e foi baseada na premissa de que os grupos indígenas devem ser rapidamente integrados, como força de trabalho de reserva ou como produtores de bens transacionáveis  nas economias em expansão regional e rural estruturas de classe do Brasil."
(Shelton Davis - "Vítimas do Milagre de Nova York" - Cambridge University Press, 1977)

Os irmãos Villas-Bôas sustentavam uma política indigenista fundada em dois princípios básicos:


  • Os índios só sobrevivem em sua própria cultura;
  • Os processos integrativos ocorridos historicamente no Brasil teriam, via de regra, conduzido à desagregação das comunidades indígenas e não à sua efetiva participação em nossa sociedade.



Os Índios

No aspecto dos índios, os irmãos Villas-Bôas implantaram uma nova política indigenista, que, basicamente, consistia na defesa dos valores culturais dos índios, como único meio de evitar a marginalização e o desaparecimento dos grupos tribais. A partir da máxima segundo a qual "O índio só sobrevive na sua própria cultura", os irmãos Villas-Bôas conseguiram implantar uma nova forma de relacionamento entre nossa sociedade e as comunidades indígenas brasileiras. Essa política vem sendo esposada por etnólogos e entidades científicas não só nacionais, como estrangeiras.

Os irmãos Villas-Bôas mostraram que a antiga visão que a sociedade nacional tinha acerca do índio era absolutamente equivocada. Não se tratava, portanto, de sociedades selvagens, sem regras e sem estrutura social como se narrava na época do Descobrimento do Brasil. A nova imagem do índio, trazida pelos irmãos Villas-Bôas à nossa sociedade, era a de uma sociedade equilibrada, estável, erguida sobre sólidos princípios morais e donos de um comportamento ético que sustentava uma organização tribal harmônica. A esse respeito Cláudio Villas-Bôas teria dito certa feita:

"Se achamos que nosso objetivo aqui, na nossa rápida passagem pela Terra, é acumular riquezas, então não temos nada a aprender com os índios. Mas se acreditamos que o ideal é o equilíbrio do homem dentro de sua família e dentro de sua comunidade, então os índios têm lições extraordinárias para nos dar."
(Cláudio Villas-Bôas)


Parque Indígena do Xingu

A área do Parque Nacional do Xingu, hoje Parque Indígena do Xingu, que conta com mais de 27 mil quilômetros quadrados, está situado ao norte do estado de Mato Grosso, numa zona de transição florística entre o planalto central e a Amazônia. A região, toda ela plana, onde predominam as matas altas entremeadas de cerrados e campos, é cortada pelos formadores do Xingu e pelos seus primeiros afluentes da direita e da esquerda. Os cursos formadores são os Rios Kuluene, Ronuro e Batoví. Os afluentes, os Rios Suiá Miçu, Maritsauá Miçu, Auaiá Miçu, Uaiá Miçu e o Jarina, próximo da cachoeira de Von Martius.

Atualmente, vivem na área do Xingu, aproximadamente 5.500 índios de catorze etnias diferentes pertencentes às quatro grandes famílias linguísticas indígenas do Brasil: Carib, Aruak, Tupi, Jê. Centros de estudo, inclusive a Unesco, consideram essa área como sendo o mais belo mosaico lingüístico puro do país. As tribos que vivem na região são: Kuikuro, Kalapálo, Nafukuá, Matipú, Mehinaku, Awetí, Waurá, Yawalapiti, Kamayurá, Trumái, Suyá (Kisedjê), Juruna (Yudjá), Txikão (Ikpeng), Kayabí, Mebengôkre e Kreen-Akarôre (Panará).

Marco do Centro Geográfico Brasileiro, plantado pelos irmãos Villas-Bôas a pedido do Marechal Rondon
Foi também Orlando Villas-Bôas e seu irmão Cláudio Villas-Bôas quem, por solicitação do marechal Rondon,  plantou o Centro Geográfico Brasil, às margens do rio Xingu, 17.800 metros para o interior.

O estabelecimento de campos de apoio e pontos de segurança de voo  na rota do Brasil central, proporcionou à aeronáutica civil substancial economia em horas de voo, principalmente nos cursos internacionais. E foram esses sem dúvida, os objetivos que levaram à instalação, hoje dos núcleos de proteção de voo de Aragarças, Xavantina, Xingu, Cachimbo (hoje a maior base aérea militar do Brasil) e Jacareacanga. A esses trabalhos estiveram empenhados os irmãos Villas-Bôas que, a partir de Xavantina, foram os responsáveis por toda uma marcha desbravadora, como também, locação dos pontos e dos campos pioneiros. Logicamente, tudo isso foi feito mediante pagamento de pesado tributo, cobrado pelo sertão e suas áreas insalubres. Para testemunhar, duas centenas de malárias que a cada um se registra.

Após encerrarem suas atividades no Parque Indígena do Xingu, os dois irmãos Orlando Villas-Bôas e Cláudio Villas-Bôas, aposentados, continuaram atuando como assessores da presidência da Fundação Nacional do Índio (FUNAI).

Estimativa dos Trabalhos Realizados

  • Expedição Roncador-Xingu - picadas: cerca de 1.500 quilômetros;
  • Rios navegados (explorados): cerca de mil quilômetros;
  • Campos abertos (inclusive aldeias): dezenove;
  • Campos (hoje bases militares para a segurança de vôo): quatro;
  • Rio desconhecidos (levantados e explorados): seis;
  • Marcos de coordenadas: seis;
  • Tribos assistidas (aldeias): dezoito.
  • Esse intenso trabalho exploratório no interior do Brasil permitiu o mapeamento de um território até então desconhecido.



Homenagens

Os irmãos Villas-Bôas receberam diversas homenagens em razão do trabalho desenvolvido, depois do falecimento os irmãos receberam muitas outras láureas, à título póstumo. Destacam-se entre elas:

  • Medalha do Fundador, concedida pela Royal Geographical Society Of London, com a aprovação da Rainha da Inglaterra;
  • As mais altas condecorações brasileiras como o Grau Oficial da Ordem do Rio Branco e Grão Mestre da Ordem Nacional do Mérito, entre outras;
  • Membros do The Explorers Club Of New York";
  • Foi apresentado para o Prêmio Nehhu da Paz bem como para o Prêmio Nobel da Paz com indicações de Julian Huxley e Claude Lévi-Strauss.
  • Receberam, ainda, cinco títulos Doutor Honoris Causa de universidades estaduais e federais brasileiras e algumas dezenas de títulos de cidadãos honorários de todo território brasileiro.