Samuel Klein

SAMUEL KLEIN
(91 anos)
Empresário

* Lublin, Polônia (15/11/1923)
+ São Paulo, SP (20/11/2014)

Quem esbarra com ele dificilmente vai associá-lo ao empresário que em seis décadas ergueu um dos maiores e mais sólidos empreendimentos do varejo brasileiro. Simples, de camisas pólo e chinelos franciscanos, boa conversa e um vibrante sotaque judaico, Samuel Klein pode ser facilmente confundido com o público - os fregueses, como ele costuma se referir aos milhões de clientes que frequentam suas lojas.

Vendedor nato, Samuel Klein adorava contar histórias do mundo dos negócios. Nem de longe deixava transparecer os horrores vividos durante a Segunda Guerra Mundial, quando abandonou uma Europa ameaçada por regimes autoritaristas e fincou raízes em São Caetano do Sul, na Grande São Paulo. Sobre esse tempo, Samuel Klein parece ter uma memória seletiva. O passado deixou suas marcas, mas não dirige o futuro. "Eu vivo e deixo os outros viverem", costuma dizer.

Samuel Klein e família na famosa charrete
A Origem Humilde

Samuel Klein nasceu em Lublin, na Polônia, o terceiro de nove irmãos, filho de carpinteiro de família judaica. Nascido no dia 15/11/1923, na Polônia, Samuel Klein foi testemunha de um dos capítulos mais cruéis da história da humanidade, o genocídio de judeus pelos  nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

Aos 19 anos foi preso pelos nazistas e mandado com o pai para o campo de concentração de Maidanek, na Polônia. Sua mãe e cinco irmãos mais novos foram para o campo de extermínio de Treblinka, e Samuel nunca mais os viu.

Ao lembrar desses tempos, Samuel afirma que sua sorte foi ser jovem e forte pois isso fez com que os nazistas o mandassem para um campo de trabalhos forçados, onde sobreviveu com suas habilidades de carpinteiro, ofício que havia aprendido com o pai.

Sua sorte começou a mudar em 1944. Aproveitando-se de uma distração dos guardas, Samuel sumiu no mato a caminho da Alemanha. Conseguiu fugir, permanecendo na Polônia até acabar a guerra. Em seguida foi para Munique, na Alemanha, em busca do pai.

Na Alemanha, Samuel fez de tudo para ganhar a vida vendendo produtos para as tropas aliadas. Em cinco anos juntou algum dinheiro e casou-se com uma jovem alemã, de nome Ana.

Em 1951, Samuel decidiu aventurar-se para a América do Sul. Primeiro, enquanto outros irmãos emigraram para os Estados Unidos. Inicialmente foi para a Bolívia, mas ao deparar-se com o país em plena guerra civil, rapidamente mudou o rumo e chegou no ano seguinte ao Brasil, onde, depois de uma rápida passagem pelo Rio de Janeiro, viajou para São Paulo, instalando-se em São Caetano do Sul, na região do ABC Paulista. A esposa e o primeiro filho do casal, Michael, então com um ano de idade, o acompanharam. Na bagagem, além da família, trazia o sonho de prosperar em um país onde, principalmente, se podia viver em paz.

O Primeiro Endereço da Casa Bahia
O Começo

Com US$ 6 mil no bolso, Samuel comprou uma casa e uma charrete. Com a ajuda de um conhecido que transitava bem pelo comércio do Bom Retiro, reduto dos imigrantes judeus e árabes na década de 50, adquiriu uma carteira de 200 clientes e mercadorias - roupas de cama, mesa e banho. De porta em porta, começou a mascatear pelas ruas de São Caetano do Sul. Quando alguém dizia que não podia pagar, Samuel logo lhe oferecia condições: ficar com o produto e pagar em prestações, tudo no crediário, cuja contabilidade era executada pela mulher.

Cinco anos depois, em 1957, já tinha capital suficiente para dar mais um passo em direção ao futuro. A primeira loja foi adquirida em 1957 e ficava no Centro de São Caetano, no número 567 da Avenida Conde Francisco Matarazzo. Ela recebeu o nome de Casa Bahia em homenagem aos nordestinos que se deslocaram para o ABC para atuar na indústria. Com a ampliação para outras unidades, o nome da primeira loja ganhou o plural, Casas Bahia, e batizou o empreendimento.

No endereço de número 567, da Avenida Conde Francisco Matarazzo, Samuel aumentou a variedade de produtos e começou a negociar com móveis, colchões de algodão, entre outros itens. A clientela não demorou a frequentar a loja para pagar suas prestações e, lógico, adquirir novas mercadorias. Era o início de um império que foi conquistando cada vez mais clientes e mercados até se transformar na potência dos dias de hoje.

Sua história de superação está entre as mais marcantes trajetórias dos grupos empresariais brasileiros e a empresa fundada por ele, a Casas Bahia, transformou-se em ícone na comercialização de produtos para as classes de baixo poder aquisitivo.

Samuel Klein já vendia para Classe C  quando grande parte das empresas desprezava esses consumidores, hoje cobiçados por todos os setores.

Mão de Ferro

Enquanto esteve à frente da Casas Bahia, Samuel Klein era considerado um gestor centralizador e costumava dizer que não queria sócios.

Em 2009, o Grupo Pão de Açúcar anunciou que havia fechado um acordo de fusão com as Casas Bahia. Segundo comunicado divulgado ao mercado na ocasião, o contrato visava a integração dos seus negócios no setor de varejo e de comércio eletrônico. Com isso, a associação uniu as operações do Ponto Frio (Globex), das Casas Bahia e do Extra Eletro (Grupo Pão de Açúcar) em uma única e nova sociedade.

De acordo com a nota, a empresa resultante da operação teria, na época, 1.582 lojas, em 337 municípios, incluindo super e hipermercados. As unidades estão em 18 estados e no Distrito Federal. O faturamento anualizado da Companhia em 2008 com Ponto Frio e Casas Bahia estava ao redor de R$ 40 bilhões.

No site da Via Varejo, a informação atual é de que a rede tem mais de 56 mil funcionários e 620 lojas e está presente em 17 estados (SP, RJ, ES, MG, GO, MT, MS, BA, SC, PR, SE, CE, TO, PE, RN, AL e PB), além do Distrito Federal. A marca Casas Bahia foi avaliada em US$ 420 milhões e é considerada a 6ª marca de varejo mais valiosa da América Latina e a 2ª do Brasil, segundo ranking "Best Retail Brands", divulgado pela consultoria Interbrand.

A fusão da Casas Bahia com o Ponto Frio, do Grupo Pão de Açúcar, foi liderada em 2010 por seu filho mais velho, Michael, a quem ele já havia nomeado como seu sucessor. Saul Klein, outro filho de Samuel e que também desempenhou um importante papel na gestão da varejista, decidiu sair do capital da empresa antes de concretizada a fusão.

Na época, a fusão foi vista como mais uma "tacada de mestre" de Abilio Diniz, herdeiro e líder do Grupo Pão de Açúcar, que conseguiu convencer um dos seus mais antigos concorrentes a fechar um negócio considerado até então pouco provável.

Pensamentos

Ao completar 80 anos, Samuel Klein escreveu sua biografia: "Samuel Klein e a Casas Bahia - Uma Trajetória de Sucesso". No livro Samuel Klein registrou suas memórias. Veja abaixo alguns de seus pensamentos:

"Acredito no ser humano. Caso contrário, não abriria as portas das minhas lojas todos os dias. O que ajuda a me manter vivo é a confiança que tenho no próximo."
"Em nossa vida profissional, não podemos falhar. São justamente nossos erros que estragam nossos acertos."
"Ontem foi ontem, já passou. Hoje é hoje e é o que nos importa. Amanhã, o futuro, a Deus pertence."
"De um bom namoro sai um bom casamento. Da boa conversa, sai um bom negócio."
"Que país abençoado esse Brasil. O povo também é pacato e acolhedor. O Brasil é um país que dá oportunidades para quem quer trabalhar e crescer na vida. Cresci junto com o Brasil. Não fiquei parado vendo o país crescer."
"O segredo é comprar bem comprado e vender bem vendido."
"A riqueza do pobre é o nome. O credito é uma ciência humana, não exata. Não importa se o cliente é um faxineiro ou um pedreiro, se ele for bom pagador, a Casas Bahia dará credito para que ele resgate a cidadania e realize seus sonhos."
"Temos que amar o país em que vivemos. A palavra crise não existe no meu dicionário. Eu sempre comprei por 100 e vendi por 200."
"Meu lema é confiar. Confiar no freguês, nos fornecedores, nos funcionários, nos amigos e, principalmente, em mim."
"Eu vivo e deixo os outros viverem."

Morte

Samuel Klein faleceu na madrugada de quinta-feira, 20/11/2014, aos 91 anos. Segundo informações da assessoria de imprensa da família, o empresário estava internado há 15 dias no Hospital Albert Einsten. A causa da morte foi insuficiência respiratória.

O velório aconteceu pela manhã no Cemitério Israelita do Butantã, onde o empresário foi enterrado no fim do dia em cerimônia fechada para amigos e familiares

Em comunicado divulgado à imprensa, a empresa lamentou o falecimento do fundador e ressaltou seu "espírito empreendedor", destacando sua contribuição para o desenvolvimento do varejo brasileiro.

"Foi a visão e o pioneirismo de Samuel Klein na oferta de crédito às camadas populares da população que possibilitou a realização dos sonhos de milhões de famílias brasileiras", informa a nota.

Fonte: Casas Bahia Institucional, IG Economia e G1
Indicação: Sérgio de Salles Penteado

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