My Boy

MOACIL FILGUEIRA PINTO
Sonoplasta

☼ Maranhão
┼ Rio de Janeiro, RJ (08/06/2016)

Moacil Figueira Pinto chegou ao Rio de Janeiro vindo do Maranhão aos 14 anos de idade. De família pobre como a maioria dos retirantes nordestinos, saiu de sua terra em busca de sonhos e oportunidades. O primeiro emprego de Moacil foi de guia de cegos no Cenaclo Protetor dos Cegos ainda existente no bairro do Riachuelo.

Depois de algum tempo começou a trabalhar como entregador de jornais no antigo Correio da Manhã, onde seu turno iniciava às 00h00 com término às 07h00. Nesse período sua incumbência era à entrega de 240 jornais que, ao fim do turno corria direto para o seu segundo trabalho localizado na Av. Rio Branco nº 13, onde exercia o cargo de Office Boy num escritório.

Para sua infelicidade, alguns meses depois da família estar estabelecida no Rio de Janeiro, seu pai foi atropelado, aonde veio a falecer. Moacil que já entregava todo seu salário à sua mãe para ajudar nas despesas da casa, com a falta do pai aumentou ainda mais sua responsabilidade. Por dois anos essa foi a luta do menino Moacil, que era arrimo de família. Todavia, sua luta estava apenas começando.

Havia a necessidade de conciliar os seus horários de trabalho para se dedicar aos estudos, pois, ganhou uma bolsa em uma escola na Vila da Penha. Foi quando passou a frequentar as aulas todos os dias das 20h00 às 21h30, horário em que saía do escritório.

Ao término de três anos conseguiu uma vaga de trabalho no Palácio do Itamaraty, onde seu salário melhorou. Foi nessa época que o adolescente com quase 18 anos pode dormir um pouco mais. Até então levava uma vida tão cheia de responsabilidades, que já nem se lembrava de sua idade.

Esse emprego que conseguiu no Palácio do Itamaraty era um mundo completamente novo, pois, Moacil jamais havia servido mesas. A principio, começou como garçom de funcionários, porém não tardou a destacar-se, pois sua vontade de aprender superava qualquer dificuldade. E foi servindo mesas de gente importante que ganhou confiança, e teve seu trabalho reconhecido. Sem contar as gordas gorjetas que ganhava por desempenhar bem seu trabalho, passando a ser o preferido para o atendimento a algumas pessoas de destaque.

Permaneceu ali até à época da Revolução, quando teve que ir à luta novamente por outro emprego, caminho natural de crescimento para pessoas que não aceitam qualquer migalha e almejam ser alguém na vida, não se acomodando. Através de amigos ouviu dizer que a Rádio Guanabara estava precisando de um discotecário e programador.

E aí não deu outra! Ousadia naquele menino não faltava, isso ele tinha de sobra. Candidatou-se ao cargo de discotecário, lhe deram um prazo de 15 dias para organizar e catalogar todo o acervo da rádio, sem ao menos ter noção de como fazer aquilo.

Uma das coisas que ele sabia fazer muito bem eram suas amizades, sempre foi uma pessoa cativante, tinha amigos por todos os lados. E nessa empreitada recorreu a um amigo que trabalhava na Rádio Nacional para ajudá-lo a entender o funcionamento de seu novo trabalho.

E como fazer para conciliar esse aprendizado com seus horários tão apertados? Moacil passou a acompanhar o seu amigo nas madrugadas ao seu trabalho na Rádio Nacional... Aprendeu tudo o que precisava e ao término dos quinze dias estava contratado, e com louvor. 

Em pouquíssimo tempo estava organizando um acervo de 240 mil discos de vinil.

Durante os intervalos em seu trabalho procurava se inteirar do funcionamento da rádio, de como se operava o som, por exemplo. E seis meses depois passou a ser Programador de Som da Rádio Guanabara.

Moacil, um sobrevivente vindo do Nordeste, com uma história de vida que poderia ter um desfecho igual a tantos outros. Seu destino seria a construção civil, ajudante geral em um porão de alguma fábrica, no máximo concluir a quarta série primária, ou o antigo curso ginasial, envelhecer e viver da miséria que é a aposentadoria pra quem teve esse histórico de trabalho.

Surgiu uma oportunidade na TV Tupy  do Rio de Janeiro onde teve a honra de fazer os programas de Flávio Cavalcanti, "Esta é a Sua Chance", e também "O Céu é o Limite" com J. Silvestre, chances tais que agarrou com unhas e dentes.

"Desaforado como sempre fui, pegava logo os programas principais da casa... Nunca disse não, mesmo que não soubesse fazer!"
(My Boy)

Logo em seguida, no ano de 1971, My Boy foi trabalhar na Rede Globo de Televisão, com nada mais, nada menos que Chacrinha "O Velho Guerreiro".

Não demorou muito e My Boy passou para o programa "Globo de Ouro", que foi um dos maiores sucessos da TV Globo. Em 1986 passou para o "Programa da Xuxa", viajando com toda equipe para as gravações dos programas com sede na Argentina. O sucesso foi tão estrondoso que faziam programas diários no Rio de Janeiro ás 04h40, e no mesmo formato, também diários, eram exibidos em Buenos Ayres e transmitidos para 18 países latinos, onde tinham que ser visitados em 12 meses, para entrevistas e shows.

Além do Brasil, Argentina e os 18 países latinos, passaram a fazer "Xuxa Park" na Tele-5 em Madrid, programa semanal. Nos dias que seriam de folgas, haviam as turnês da Xuxa pelo Brasil e Argentina. Nenhum programa de sucesso da TV Globo ele deixou de fazer. My Boy pertencia ao staff principal da TV Globo.

My Boy nunca deixou de cumprir uma tarefa ou algo para o qual fora contratado. A obstinação fazia parte de sua personalidade. Jamais mediu esforços para realizar seus planos ou correr atrás de seus sonhos. Queria fazer todos os programas que pudesse, assim, bem como os shows, e gostava de desafios.

Os desafios fora a mola propulsora de sua vida. Tanto que um dia, com a Xuxa em Los Angeles, através de um amigo da TV Globo Internacional, conseguiu fazer uma inscrição para um suposto vestibular sobre Produção, Técnica de Som e Sonoplasta com mais três mil pessoas e apenas ele de Brasileiro. Conseguiu se formar pela Universidade de Los Angeles com uma Bolsa ofertada por amigos daquela época.

Se tornou um Técnico de Som de Programação ao Vivo e com a maior dinâmica de criação rítmica do Brasil. Abriu sua própria Empresa de Eventos, a Fire & Earth Produções Artística Ltda. que paralelo a TV Globo, faz produções de shows, gravações de DVDs e Produções de CDs. Além de produções, fazia  parte do trabalho da empresa, Assessoria de Imprensa.

Depressão

My Boy, estava em estado vegetativo persistente - quando o paciente fica durante um ano sem responder aos estímulos. My Boy estava entubado, se alimentava por sonda e não expressava qualquer reação. Fernanda França, sua filha, visitava o pai uma vez por mês. Uma das irmãs de My Boy ia semanalmente visitá-lo.

Um médico explicou que o cérebro do sonoplasta parou no tempo em 03/07/2012, quando ele tentou suicídio ingerindo um poderoso veneno, popularmente chamado de chumbinho, para matar ratos, e deixou uma carta culpando a TV Globo por seu ato, já que ele estava de licença, há alguns anos, por problemas de saúde.

My Boy enviou um e-mail para diretores e funcionários da TV Globo avisando que iria se suicidar. No texto intitulado "Não Suporto Mais"My Boy culpou a TV Globo pelo seu atual estado de depressão, afirmando que a emissora o abandonou quando ele ficou mais velho.

"Hoje por um erro de alguns Diretores com mais de 66 e 75 anos de idade, eles estão afastando quem tem 60 anos de idade da empresa como se 60 anos um ser humano perdesse o conhecimento aprendido durante toda a sua vida profissional.
Estou sofrendo há muito tempo e lutando contra uma forte depressão 'criada Pela Globo Participação' Rede Globo."
(My Boy disse no e-mail)

A Central Globo de Comunicação se manifestou sobre o assunto, dizendo:

"A TV Globo está acompanhando e dando a ele todo o apoio necessário, como faz com todos os funcionários. Ele estava em licença para tratamento psiquiátrico."

A TV Globo continuava pagando o plano de saúde de My Boy e deu a promoção para a filha do sonoplasta como forma de indenização.

Morte

Moacil Filgueira Pinto, o My Boy, morreu na manhã de quarta-feira, 08/06/2016, às 9h15. Ele estava internado no Hospital Quinta D'Or, na Zona Norte do Rio de Janeiro, e há quatro anos estava inconsciente. My Boy deixou uma filha, Fernanda França, produtora da Rede Globo.

A filha de My Boy, Fernanda França, escreveu uma homenagem ao pai no Instagram.

"Você foi minha força, minha base, minha segurança..."

O apresentador Luciano Huck também lembrou de My Boy.

"Hoje perdemos o My Boy! Parte da história dos programas de auditório da tv brasileira! Parte da história do #caldeirão! Deixo meu carinho a toda a família!"
(Escreveu Luciano Huck nas redes sociais)

Indicação: Miguel Sampaio

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