Clóvis Tavares

SEBASTIÃO CLÓVIS TAVARES
(69 anos)
Professor, Militante da UJC e Espírita 

☼ Campos dos Goytacazes, RJ (20/01/1915)
┼ Campos dos Goytacazes, RJ (13/04/1984)

Sebastião Clóvis Tavares, mais conhecido por Clóvis Tavares, foi um espírita brasileiro nascido no distrito de São Sebastião, em Campos dos Goytacazes, interior do Rio de Janeiro, em 20/01/1915. Era dia de São Sebastião e, por isso, seus pais deram-lhe o nome de batismo em homenagem ao padroeiro, embora sempre tenha sido tratado, em casa e em todos os ambientes, simplesmente por Clóvis.

A família mudou-se para a sede do município quando ele contava com 9 anos de idade. Desde a infância, demonstrou pendores religiosos. Era comum, na região de São Sebastião, ver seus irmãos jogando bola ou brincando de cabra-cega e ele lendo ou rezando em seu oratório particular.

Afeiçoou-se ao padre da Igreja de São Sebastião, chamado Émille Dés Touches, francês de nascimento, de família nobre e abastada. Ele teria abandonado a sua herança para dedicar-se à vida religiosa, tendo decidido vir para o Brasil seguindo uma inspiração ou determinação do Alto. Foi o seu professor de Francês e seu primeiro orientador espiritual. Do padre Émille Dés Touches, o público espírita conhece "Petição de Servo", eivada de beleza e sabedoria espiritual.

Na adolescência, estudando no célebre Liceu de Humanidades de Campos, integrou um grupo de jovens idealistas que decidiram mudar o mundo. Engajaram-se na União da Juventude Comunista (UJC) e viveram um sonho de liberdade.

Dois desses jovens eram Nina Arueira e Clóvis Tavares, que enamoraram-se e tornaram-se noivos. Os dois viviam intensamente a vida partidária, sendo líderes de greves operárias e movimentos estudantis. Inesperadamente, Nina Arueira é acometida de uma febre tifoide e Clóvis Tavares passa a fazer plantão ao seu lado, passando noites acordado, em vigilância, mas sem oração.

Por um destes 'mistérios da vida', ela conheceu, já doente, um homem chamado Virgílio de Paula, que a recebeu em sua casa para prestar-lhe tratamento. Era um profundo conhecedor de Teosofia e Espiritismo. Nina interessou-se inicialmente pela Teosofia. Leu "Do Recinto Interno", de Annie Bésant e decidiu, já no leito, renunciar à política partidária. Contou a Clóvis a sua decisão. Este, que também estava a discordar da direção partidária quanto a rumos decididos que feriam a sua ética, passou a escutar de Nina as lições que ela ouvia do Vovô Virgílio.


Virgílio de Paula, por sua vez, aos poucos introduziu um pouco de Evangelho em suas conversações com Nina. Ela maravilhou-se com a visão de um Jesus Cristo amigo dos pobres e dos sofredores. Um Jesus Cristo amigo da justiça e da caridade e entregou-se, de alma inteira, ao Evangelho, explicado pela racionalidade Espírita. Foram apenas alguns meses, mas ela desencarnou considerando-se espírita.

Após a sua morte é que Clóvis Tavares começou a ler os livros que ela lera no seu estágio derradeiro. E como ocorreu com Nina, ele também apaixonou-se pela cosmovisão espiritista. Quando leu pela primeira vez os versos de Olavo Bilac, Cruz e Souza, Fagundes Varella, Augusto dos Anjos, Castro Alves, João de Deus, Auta de Souza, entre outros, então declarou-se espírita. E com o mesmo afinco que se dedicou há apenas alguns meses à política partidária, passou a militar ativamente no meio espírita. Começou a frequentar o Grupo Espírita João Batista, dirigido pelo Srº Virgílio de Paula e outros companheiros da primeira hora do Espiritismo em Campos.

Em pouco tempo, Clóvis Tavares passou a realizar palestras doutrinárias que a muitos atraíram por sua fluência evangélica e pelo ardor de seu verbo. Paralelamente a essas atividades, fundou uma escola de Doutrina Espírita para crianças, na casa da mãe de sua antiga noiva, Dona Didi Arueira. Passaram a chamar essa casa de Escola Infantil Jesus Cristo.

Mais uma vez, o inesperado ocorreu. Os frequentadores do Grupo Espírita João Batista, somados aos pais das crianças da Escola Infantil, afluíram em número crescente para escutar suas palestras na casa de Dona Didi.

Decide, então, a diretoria do Grupo Espírita João Batista auto-dissolver-se e passar a integrar os quadros da nascente Escola Jesus Cristo, já sem o qualificativo de "Infantil".

Repetiu-se, em escala institucional, o mesmo que acontecera entre João Batista e Jesus Cristo. "É necessário que eu diminua para que Ele cresça", e o Grupo precursor João Batista dissolveu-se e seus seguidores, assim como os seguidores de João, passaram a seguir a Escola Jesus Cristo. Iniciou-se uma nova era para o Espiritismo local, até então conhecido apenas pelas sessões mediúnicas.

Clóvis Tavares, Carlos Vítor e Hilda Mussa Tavares, em 1957
Com Clóvis Tavares, alvoreceu, em 1935, o Espiritismo da cultura e da prática da caridade. Clóvis sempre priorizou na Escola Jesus Cristo o serviço de amor ao próximo e o estudo doutrinário. Na Escola Jesus Cristo, ele fundou dois orfanatos: um de meninas, dirigido inicialmente pela filha de Virgílio de Paula, Inaiá de Paula, e outro para meninos, dirigido por ele mesmo e por seu companheiro de ideais, Medeiros Correia Júnior. Fundou, ainda, um Culto de Assistência, onde um grupo de irmãos visitava duas favelas de Campos, para distribuição de gêneros e para a realização de um culto de Evangelho no Lar dos assistidos.

Fundou, ainda, a Sopa dos Domingos com a ajuda dos irmãos portugueses Inocêncio Noronha, Bonifácio de Carvalho, Dona Candinha e Dona Mariquinhas, portugueses que sempre estiveram presentes na história da Escola Jesus Cristo.

Surge, ainda, por seu ideário, o Curso Elzinha França para orientação espiritual às crianças. A escolha do nome Elzinha França deveu-se ao fato de que a Mocidade Espírita de Campos, da qual fazia parte a jovem Hilda Mussa, com quem se casaria mais tarde, e sua amiga Zenith Pessanha, visitava as famílias pobres da Escola Jesus Cristo na busca do sofrimento a fim de mitigá-lo. Numa dessas peregrinações, na favela, encontram desvalida menina recém-nascida, abandonada. Como não havia, na época, nenhum órgão oficial de amparo à criança e nem de longe pensava-se no Estatuto da Criança e do Adolescente, decidiram trazer a menina para a Casa da Criança. Apesar de Clóvis Tavares ter providenciado todos os cuidados médicos, a menor desencarnou em pouco tempo.

Todavia, em uma de suas habituais viagens a Pedro Leopoldo para encontrar-se com Chico Xavier, obteve do médium a informação de que o visitava um espírito de muita luz, chamado Elzinha França. Clóvis Tavares, a princípio pasmo, contou ao médium quem era a menina, que Chico Xavier identificou como sendo uma professora que estava integrando a equipe espiritual de serviço na Escola Jesus Cristo e que trabalharia na educação dos menores.

Chico Xavier e Clovis Tavares
Clóvis Tavares fundou o Clube da Fraternidade, espaço artístico e lúdico para a realização de jogos infantis, teatros e coros musicais nos domingos à tarde, numa época em que não havia televisão.

Passou a visitar semanalmente os presos, recordando o ensino de Paulo aos hebreus: "Lembrai-vos dos encarcerados, como se vós mesmos estivésseis presos com eles. E dos maltratados, como se habitásseis no mesmo corpo com eles." (Hb, 13:3).

Uma vez por ano, pregava o Evangelho Consolador no cemitério, no dia 2 de novembro, iniciando uma prática consoladora e esclarecedora na nossa Terra.

Outra particularidade da Escola Jesus Cristo foi abrigar em suas dependências, na década de 60, uma escola de educação formal: o Instituto Allan Kardec.

Paralelamente a essa atividade espírita, Clóvis Tavares lecionava História em duas escolas e Direito Internacional Público na Faculdade de Direito de Campos. Foi autor de livros espíritas, renunciando, todavia, aos direitos autorais, pois, aprendeu com Chico Xavier a doá-los às editoras que se dedicavam à difusão doutrinária.

Tornou-se amigo íntimo de Chico Xavier, com quem conviveu por 50 anos, o que é relatado nos referidos livros do parágrafo anterior. Frequentava com assiduidade as reuniões do Grupo Meimei, em Pedro Leopoldo. Visitou, também, Belo Horizonte várias vezes, onde travou contato com Arnaldo Rocha, Joaquim Alves, Cícero Pereira e tantos outros que dignificaram o Espiritismo em Minas Gerais.

Na década de 1950, passou a se corresponder com o sábio italiano Pietro Ubaldi, a quem promoveu duas vindas ao Brasil - a última das quais, definitiva. Traduziu do italiano os seguintes livros do referido autor: "As Noúres, Ascese Mística, Grandes Mensagens" e "Fragmentos de Pensamento e Paixão".

Clóvis Tavares veio a casar-se somente 20 anos após da desencarnação de Nina Arueira, e a jovem Hilda Mussa, que o ajudava na pesquisa sobre a vida dos santos católicos, passou a ser também a sua fiel colaboradora nos trabalhos da Escola Jesus Cristo. Deste matrimônio nasceram cinco filhos: Carlos Vítor, que faleceu aos 17 anos, após uma vida de sofrimentos para ele e para os pais - que está relatado no livro: "A Morte é Simples Mudança" - , Margarida, Flávio, Luís Alberto e Celso Vicente.

Clóvis Tavares faleceu, vítima de parada cardíaca no hospital Santa Casa de Campos, no dia 13/04/1984.

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