Antoninho

ANTÔNIO DA ROCHA MARMO
(12 anos)
Considerado Santo do Povo

* São Paulo, SP (19/10/1918)
+ São Paulo, SP (21/12/1930)

Antoninho foi uma criança católica paulista a quem se atribuía o dom de predizer acontecimentos futuros. Teria inclusive previsto a própria morte. Antoninho tornou-se objeto de veneração e passou a ser conhecido como Santo Antoninho. Hoje em dia, é conhecido como o Santo do Povo.

Desde pequeno, Antoninho brincava de fazer altares e simular missas, era um grande amigo da mãe e muito inteligente quanto a assuntos polêmicos. Foi considerado um santo pela população de São Paulo, por agraciar os pedidos de curas. Faleceu vítima de tuberculose aos 12 anos. Foi sepultado no Cemitério da Consolação. Seu túmulo está localizado na Quadra 80, Terreno 6, e é constantemente visitado por devotos que lhe pedem auxílio.

Antoninho nasceu numa época tormentosa que ficou assinalada na historia. Enquanto, na Europa,  uma longa batalha que se prolongava há cinco anos e os homens matavam-se uns aos outros, no Brasil a Gripe Espanhola dizimava vidas preciosas, numa pavorosa epidemia, que se transformou em calamidade publica.

O calendário marcava o dia 19 de outubro de 1918. E foi naquela casa assobradada da Rua Bandeirantes, 24, no distrito de Santa Efigênia  que seus pais, os paulistas Pamfilo Marmo e Maria Isabel da Rocha Marmo, o receberam com indizível alegria, completando o batalhão ruidoso dos outros maninhos: Maria da Penha, Nair, Ciro e Wanda.

Em 13 de junho de 1920, dia festivo de Santo Antônio, Antoninho foi levado à pia batismal, na igreja de Santo Antonio do Pari, servindo de padrinho o casal Tolens (Drº Oscar Tolens). Antes, porem, fora batizado, sob condição em perigo de vida, salvo a tempo por um misterioso medico, que não se sabe quem era e que entrara de porta a dentro, sem ser chamado e sem dizer o nome, num desses desígnios inexplicáveis de Deus.

Dali por diante passou ele aos cuidados efetivos da boa e dedicada Mariama, como assim era tratada, na intimidade a empregada.

Com seis meses apenas, quando levado pela ama para passear nas ruas da cidade, Antoninho alegrava-se sobremodo e agitava os bracinhos tenros ao avistar alguma igreja, e, se nela tinha ingresso, transfigurava-se e era tomado de profunda unção ao aproximar-se do altar onde estava a hóstia consagrada. Se acontecia de assistir à benção do padre, procurava ficar de pé e imitava o sacerdote, dando a seu modo a benção aos fiéis com as minusculas mãos. Antoninho era, na verdade, rica alma predestinada.

Antoninho Celebrando uma "Missa"
Predizendo o Futuro

Antoninho, desde muito cedo, revelara vivíssima inteligencia, apreendendo facilmente os principais e mais complexos acontecimentos que se desenrolavam ao seu redor.

Tinha cinco anos quando predisse, com grande surpresa, ante a irmã Maria Vicentina, na Santa Casa de São Paulo, que a velha questão romana, entre o Vaticano e a Itália  teria solução definitiva, obtendo vitoria a Igreja, no reinado do Papa Pio XI. Tal fato aconteceu realmente em 1929. Ao saber do ocorrido, tratou de mandar dizer àquela freira da realidade da sua previsão.

Certa manhã, assistiu à primeira missa do padre Olegário da Silva Barata. Na hora do beija-mão do sacerdote, Antoninho ao aproximar-se do padre, atirou-se-lhe nos braços, num amplexo comovido, chegando a molhar-lhe com lagrimas as vestes paramentais. Em palestra, vaticinou, então, que a morte dele, Antoninho, aconteceria, num coincidir bastante expressivo, no mesmo dia do aniversario do sacerdote, no dia 21 de dezembro, o que realmente aconteceu, nessa data, no ano de 1930.

A maior ambição de Antoninho era abraçar a carreira eclesiástica  E ao indagarem da sua vocação, costumava responder sempre:

"Quero ser padre, mas quero pertencer ao clero secular, pois desejo estar mais em contacto com o povo. E se algum dia chegar a ser vigário saberei cumprir com o meu dever."

O seu passatempo predileto constituía em "celebrar missa", num altarzinho portátil  improvisado no quintal da casa dos pais. O ilustre bispo paulista, Dom Epaminondas, por intermédio do padre Ascanio Brandão, foi quem o presenteou com aquele altar, acompanhado de paramentos. Para o pequeno Antoninho, aquilo constituiu um régio presente. Dali, por diante, passou, circunspectamente, a "celebrar sua missa" todas as manhãs, e depois da "missa" se seguia a pregação feita a meia duzia de fedelhos da sua idade e a outros maiores, a quem ensinava a doutrina do catecismo.

Antoninho e Seu Cãozinho de Estimação
Amigo e Protetor dos Humildes

Antoninho tinha coisas excepcionais, próprias de adultos e era um menino diferente dos outros, um menino prodígio.

Doente gravemente, viu-se obrigado a procurar o clima ameno de São José dos Campos e de Campos do Jordão, a fim de tentar a cura de uma tuberculose que se apossara valentemente do seu débil corpo. Enfraquecera-se, a principio, sob violenta erupção de sarampo. Depois veio a enfermidade insidiosa, para que se tornaram vãos todos os apelos à medicina. Ele mesmo previra que os maiores esforços seriam inúteis contra a doença.

Mesmo atormentado pelos dolorosos sofrimentos, jamais esqueceu os humildes. Um dia, em Campos do Jordão, soube que fora detido um pobre homem, surpreendido com o porte irregular de um revolver, achado no mato. Antoninho interessou-se pelo caso e foi à delegacia, a fim de falar ao delegado que era, então, o Drº Caio Machado Leite Sampaio. Não o encontrou e falou com o carcereiro. Pediu-lhe que transmitisse por favor à autoridade a sua solicitação:

"Diga ao delegado assim que chegar que Antoninho quer a liberdade do preso."

E como lembrete desenhou uma caricatura qualquer sobre a escrivaninha do delegado.

"Faço esta careta no caso do Srº esquecer-se de transmitir meu recado. O delegado, vendo-a, há de perguntar quem a fez. O Srº dirá então que fui eu e fará o meu pedido."

E assim aconteceu. A autoridade ali chegando achou estranho o desenho. Interpelou o carcereiro, que lhe contou tudo. O Drº Caio Machado, com aquela bondade que lhe era peculiar, foi em pessoa a procura de Antoninho, que lhe contou do interesse em favor do seu "constituinte". O delegado, que não o conhecia, achou curioso os modos do garoto. E declarou-lhe que mandaria por em liberdade o detido. Assim o fez, porem, por medida de precaução, despachou-o para Pindamonhangaba.

O homem, profundamente reconhecido ao gesto de Antoninho, regressou a Campos, em áspera travessia a pé, a fim de agradecer-lhe pessoalmente, trazendo de presente uma cabra e dois cabritinhos. O garoto enternecido com a atitude do pobre camponês, fez-lhe ver que a Deus devia agradecer e não a ele, e negou-se a receber o presente, aconselhando-o a vende-lo, pois era pobre e necessitava de dinheiro.

Conformado com a morte próxima, Antoninho piorava cada dia mais nos últimos meses da sua rápida existência. Conhecia perfeitamente o precário estado de sua saúde e mostrava-se conformado com a vontade de Deus.

Uma tarde, vendo a pobre mãe tristonha por causa da sua moléstia, interpelou-a assim:

- Por que está tão triste, mamãe?
- Por nada, meu filho. Eu nunca estou triste ao seu lado.
- Mamãe, precisa fazer a vontade de Nosso Senhor! Nosso Senhor precisa de mim!

E após uma pausa:

- A senhora está vendo aquele pintassilgo naquela árvore? Se eu fizer com que ele venha pousar no meu dedo e cantar, a senhora acredita que é por vontade de Nosso Senhor?
- Acredito, sim, meu filho!
- Então veja! Pintassilgo, passarinho querido, em nome de Deus Nosso Senhor, vem pousar aqui no meu dedo e canta!

Realmente, o lindo passarinho veio obediente ter sobre a mão de Antoninho, e cantou um canto mavioso e doce.

- Então, mamãe, ouviu o canto da vontade de Nosso Senhor?
- Sim, meu filho, ouvi e acredito!
- Vai, vai, meu amiguinho, para a tua árvore e lá continua a cantar!

E assim aconteceu. A ave voou e foi cantar na árvore de onde descera. Voltaram mãe e filho para casa. Horas depois, interpelava ele:

- Está ainda pensando no passarinho, mamãe?
- Sim, é verdade, meu filho...

Dias após, perguntava Antoninho à sua progenitora:

- Minha mãe, que frade foi esse que esteve aqui conversando comigo?
- Frade, meu filho? Eu não vi nenhum frade ao seu lado. Você, com certeza, teve algum sonho...
- Bem, mamãe, não se fala mais nisso...

Logo mais bateram à porta. Era o carteiro e trazia um envelope. Abriram e dentro, o retrato de um frade. Antoninho o reconheceu:

- Este retrato, minha mãe, é de Frei Fabiano de Cristo, que, ainda há pouco, esteve palestrando comigo.

Não era possível aquilo senão por milagre: Frei Fabiano de Cristo falecera já há muitos anos. Aquela fotografia fora enviada por uma irmã do garoto prodigioso.

Hospital Filantrópico Antoninho da Rocha Marmo
A Morte de Um Justo

Antoninho marchava, cada dia, para a morte certa. Ele sabia perfeitamente e era um conformado com a dura realidade. Era a vontade de Deus. Deus o queria. Que se fizesse, então, a vontade de Dele.

Em 19 de dezembro, dois dias antes, ainda armou, com as próprias mãos, num grande esforço, o seu tradicional presépio de Natal. Dali foi carregado pela mãe desvelada, causando tamanho trabalho, até o leito, donde não mais se levantou.

Na manhã do dia 20 de dezembro, foi visitá-lo a Superiora da Santa Casa de Misericordia de São Paulo, acompanhada de outras freiras. Aquela visita foi excepcional motivo de alegria para o doente.

Ali compareceu depois Frei Angelo de Rezende, que lhe ministrou os últimos sacramentos, em altar previamente armado e ornamentado pelo próprio Antoninho, que, da cama, ia orientando tudo. Em dado momento, após a comunhão, supôs o sacerdote que o menino tinha já entregue a alma ao Criador, apresentando-se com os olhos fechados, em atitude de êxtase  Tocou-lhe de leve no ombro. Ele abriu os olhos e falou: "Eu estou rendendo graças a Deus!"

Logo mais, não esquecendo o padre, pediu à mãe que providenciasse um automóvel para reconduzi-lo ao convento e que não o deixasse ir sem tomar uma xícara de café. Depois solicitou um copo d'água e principiou a balbuciar estas frases:

- Que linda estrada... atapetada de flores... como são belas! Quantos anjos! Olha, minha mãe: alguns tocam... outros sorriem! Convidam-me para acompanhá-los... Que belo cortejo!... Eu vou, mamãe... Vou... Sim... Vejo um clarão! Um vulto se aproxima... Olha, mamãe, é meu avozinho... o pai da senhora!

Pediu que acendessem duas velas em torno da imagem de Santo Antônio, junto do leito.

- Antes que estas velas se consumam, eu estarei no céu! Estou cansado... preciso repousar...

Principiou a lenta agonia. Em dado instante, num esforço, abriu os olhos. Circunvagou-os pelo quarto, num meigo sorriso para todos. Um ligeiro tremor de lábios  como se quisesse falar alguma coisa. Depois, mais nada. Estava morto! Morrera como um pássaro!

O relógio marcava 23:30 hs de 21 de dezembro de 1930. Antoninho contava 12 anos de idade.

No dia seguinte, era inumado no jazigo da família no Cemitério da Consolação, na Quadra 80, Sepultura 6, onde a visitação publica o consagrou com a sua admiração e a sua veneração, de então para cá.

A missa de 7º dia foi celebrada sem qualquer pompa, com a encomendação sobre um modesto pano preto, entre quatro velas singelas. Era satisfeita assim a sua ultima vontade.

E, numa curiosa e bem interessante coincidência  conforme uma sua anterior previsão: por acidental engano da empresa funerária, foi seu corpo encerrado num caixão de adulto, carregado num coche de adulto e enterrado numa cova de adulto.

Toda a pequena existência desse grande menino paulista, não há duvida, extraordinária  fora assim revestida de grandes lances: reviveu, em poucos anos, nos dias da atualidade, uma vida beatifica igual à dos santos da antiguidade.

Texto publicado na Folha da Noite, quarta-feira, 12 de março de 1947
(Neste texto foram alterados alguns trechos da grafia original)

Fonte: Banco de Dados Folha e Wikipédia
Indicação: Simone Cristina Firmino

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