Nhô Totico

VITAL FERNANDES DA SILVA
(92 anos)
Radialista e Humorista

☼ Belém do Descalvado, SP (11/05/1903)
┼ São Paulo, SP (04/04/1996)

Nhô Totico, nascido Vital Fernandes da Silva, foi um radialista e humorista brasileiro que ao lado de nomes como Silvino Neto tornou-se um dos ícones do humor radiofônico no Brasil.

O Museu Público Municipal de Descalvado possui um acervo com aproximadamente 5 mil objetos, entre móveis, documentos, fotografias, prêmios e cartas trocadas com celebridades e autoridades políticas de importância nacional e com amigos e fãs da cidade-natal.

Vital Fernandes da Silva nasceu em 11/05/1903 na cidade de Descalvado, interior do Estado de São Paulo, cidade na qual viveu até os 10 anos de idade. Último de seis filhos da italiana Adelina Mandelli da Silva e do baiano João Fernandes da Silva, logo ganhou o apelido de Totó. Desde muito jovem tinha tendências para as artes influenciado por seu pai. João Fernandes da Silva era um músico hábil que tocava vários instrumentos, mas adorava o violão, tanto que o próprio Vital escreveu tempos depois:
"Mas virtuose mesmo ele o era no violão, instrumento que tocava por música. Causa muita admiração porque, além de dominar completamente o instrumento, sendo canhoto, não invertia as cordas do mesmo, como habitualmente fazem os canhotos. Uma singularidade: só tocava com inteiro agrado no violão que ele mesmo fabricasse. Nossa casa era um arsenal de instrumentos musicais. Piano, harpa, saxofone, clarinete, requinta, violão, bandolim, flauta, violino e até um 'celo' (violoncelo) de fabricação caseira."
Bom musico, o pai de Vital, se empregou no cinema da cidade fazendo acompanhamento das seções de filmes mudos, e com empenho conseguiu sociedade no cinema. O que seria ótimo para Vital e um grupo de amigos que passaram a produzir os sons, como  uma espécie de sonoplastia para as fitas, atrás das telas. Tudo sob a regência de Vital.

Com dez anos, Vital foi com a família para São Paulo, capital, onde ficou pouco tempo, pois logo ingressou no Seminário Salesiano de Lavrinhas, onde viveu por um ano e depois retornou a São Paulo. De volta, começou a trabalhar para ajudar a família e através de um amigo conheceu a professora Leonor de Campos que o apresentou aos Frades do Convento de São Francisco. Na instituição Vital expandiu suas atividades artísticas encenando, dirigindo e muitas vezes fazendo às vezes de cenógrafo.

Alguns anos mais tarde fundou a Associação dos Amigos de Santo Antônio, com sede no próprio convento. As atividades artísticas capitaneadas por ele iam tão bem que a verba conseguida com os festivais teatrais possibilitaram a reforma do Salão de Atos, a compra de um projetor de cinema e o lançamento do jornal "Mensageiro da Paz".

Vital passou a ser o animador oficial de eventos promovidos pelas obras assistenciais do Convento de São Francisco de Assis, ao lado da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Em breve ganhou o cargo de humorista oficial da turma de direito do diretório estudantil XI de Agosto, mas ainda não tinha conseguido seu grande sonho que era ser "artista".

Para ganhar a vida conseguiu um emprego na Repartição de Águas e Esgotos, mas continuou tentando decolar com sua carreira. Neste meio tempo começou a Revolução de 32 e como a maioria dos jovens ingressou nas tropas paulistas.

Vital manteve um diário onde narrava as atividades das batalhas e as impressões dos locais por onde passou:
"Diário de Campanha do soldado nº 135, adido do 5º R.C.D. Vital Fernandes da Silva, residente em São Paulo - Butantã à Rua Fernão Dias 93. Filho de João Fernandes da Silva e dona Adelina Mandelli da Silva. Nascido em 11 de maio de 1903 em Belém do Descalvado, Estado de São Paulo. Fui designado para seguir  para Cruzes ao 16 de agosto, para onde segui em 19 de agosto. Custou-me separar-me dos meus.  Despedi-me dos amigos e da minha 'Ex' da qual me lembrei ao passar por Taubaté, por ter visto ao lado da linha férrea uma laranjeira coberta de flores brancas... flores brancas... casamento. Quanta recordação... Recordar é viver. Ao chegar em Cruzes encontrei muitos colegas, todos mais moços que eu, todos incorporados. Pensei nas laranjeiras, no casamento, na impossibilidade de realização desse meu sonho e... incorporei-me sem grande contentamento dia 20/08 incorporei-me no 5º R.C.D" 
(Paulo Fernandes, 2002)


Os paulistas são derrotados e Vital voltou a capital paulista e retomou seus contatos com o mundo artístico. Entre eles Oduvaldo Viana Filho e Otávio Gabus Mendes que logo se interessaram pelo rádio teatro, impulsionando esta nova linguagem. Mas embora tão próximo do veículo que o iria consagrar, o jovem Vital só ingressaria no rádio pelas mãos de um parente.

Vital  tinha um cunhado que era saxofonista do "Grupo Sertanejo Cigarra" ligado a revista bastante conhecida na cidade. Um dia o grupo foi convidado a se apresentar nos estúdios da Radio Educadora Paulista, instalada no Palácio das Industrias no Parque Dom Pedro, no centro da capital.

Como o grande sonho de Vital era ser "artista", procurava se infiltrar em todas a manifestações culturais que podia. Assim, aproveitou para ir a Rádio Educadora com o cunhado. Após o programa, os produtores pediram a ele que contasse uma anedota, ação que o jovem interiorano aproveitou.

De improviso contou uma história um pouco picante para os ouvintes da época e por isto, sua estréia foi um fiasco. Logo após o término da piada, ouviu a censura dos colegas e amigos que passaram a ligar para sua casa reclamando do teor da história. 

O próprio Vital contou que ficou muito envergonhado e que há certo tempo "queria que o chão se abrisse" para que pudesse ser engolido e desaparecesse de tanta vergonha. Mas mesmo não dando certo sua tentativa de alegrar os ouvintes, esta foi a primeira vez que utilizou o pseudônimo de Nhô Totico. Nascia ali uma das maiores lendas do rádio paulista.

Ele contou que depois da vergonha continuou tentando a vida artística até que conseguiu iniciar a carreira pelas mãos de um dos estudantes de direito, Enéias Machado de Assis, que já atuava como radialista. Enéias levou Vital para conhecer o jovem Olavo Fontoura, diretor e um dos proprietários de uma rádio clandestina. Na realidade a emissora era resultado de uma brincadeira dos Irmãos Fontoura que chamaram a emissora de DKI A Voz do Juqueri.

Na hora do teste, Vital perguntou o que devia fazer e Olavo Fontoura pediu para que ele repetisse as ações que fazia diante dos estudantes. Vital conclui que não poderia fazer as mesmas brincadeiras, pois eram muito "pesadas" para programação. Ele foi ao microfone e fez um pequeno teatrinho onde revelou sua maior característica: Fez todas as vozes dos personagens e ainda complementou a história com "efeitos especiais" feitos por ele mesmo. Neste momento conseguiu o espaço para fazer o seu primeiro programa, mas ainda sem remuneração.

Nhô Totico desenvolveu inicialmente um programa voltado ao público adulto, "XPTO, Vila de Santo Antonio de Arrelia", ou simplesmente "Vila do Arrelia". O sucesso foi tanto que a rádio se regularizou e Nhô Totico ganhou um contrato.

Já em 1935 na Radio Record de São Paulo, ele apresentava um programa diário com seus personagens, entre as 18h30 e 19h00. Um dia antes de entrar no ar, encontrou com Marcelino de Carvalho, um dos diretores da emissora que tinha acabado de voltar da Europa, onde foi fazer a cobertura da Guerra.

Marcelino disse a Vital que no hemisfério norte as emissoras faziam programa para crianças em horário mais cedo por causa do inverno, para que elas pudesse se deitar ouvindo o rádio. Então o patrão propôs a Vital que fizesse um programa para crianças formatado em um clube de futebol. O humorista se negou afirmando que sobre o esporte não falaria e que era contra o fanatismo que envolvia as crianças contrapondo com a necessidade de estudo. Neste momento tocou a campainha para que Vital entrasse no ar. Marcelino de Carvalho insistiu: "Então vai falar do quê?". Vital respondeu: "Não sei. Mas ouça!".

Neste momento adentrou o estúdio da Record e começou seu programa, e acabou criando ali a "Escolinha da Dona Olinda", onde compunha estudantes como personagens oriundos das diversas colônias que existiam na cidade. Nasceu assim o italiano, o japonês, o filho do sírio e do nordestino. Além do inspetor e zelador da escola Srº Joaquim, um negro velho com todas as suas crendices. Nhô Totico afirmava que tudo que fazia era de improviso e sem script. Como ele mesmo dizia "como pastel de chinês" feito na hora.

Randal Juliano, radialista e ouvinte de Nhô Totico afirmava que ele sentia no operador o efeito de suas piadas, e se fosse necessário mudava o sentido do programa na hora bastando perceber que suas falas não haviam empolgado o colega de trabalho.

Vital afirmou várias vezes que para ele este processo de improviso era um "dom divino". Com um raciocino rápido e uma criatividade acima da média Nhô Totico ganhou espaço rápido no rádio paulista em dois horários. Das 18h00 às 18h30 apresentava a "Escolinha da Dona Olinda" e as 23h00 apresentava a "Vila do Arrelia". O primeiro programa voltado as crianças e o segundo aos adultos.  O sucesso foi tanto que logo Vital passou a excursionar pelo país e a dividir o palco com grandes nomes da Música Popular Brasileira.

Como na apresentação em Santos, onde presenciou Carmen Miranda brincar com a irmã Aurora Miranda sobre o namoro com Custódio Mesquita diante dos expectadores.
A competição acirrada pela audiência no final dos anos 30 para os 40 levou a Rádio Cultura, dos Irmãos Fontoura, a expandir a estrutura física da emissora para que as apresentações dos programa de Nhô Totico fossem feitas ao vivo em um auditório.

Inauguram em 1939 o Palácio de Rádio em um ponto privilegiado na Avenida São João, no centro da cidade de São Paulo. O prédio de seis andares possuía um auditório para 400 lugares que passou a lotar com as transmissões dos programas.

Uma característica dos programas de Nhô Totico era que sua formação católica sempre esteve presente. O foco do programa para as crianças era educar e discutir valores de ética e cidadania. Como demonstra o texto publicado no Jornal Folha da Manhã em 1944:
"Conta-se pelos dedos de uma mão o número dos autênticos humoristas que o rádio brasileiro apresentou em vinte anos. Nhô Totico é um deles. É o único, no entanto, entre raros eleitos, cujo humorismo pode e deve ser levado a um público infantil. Falou-se aqui ainda há pouco sobre educação pelo rádio, afirmando-se que  ela não poderia ignorar o lema da escola de Maria Montessori, que é ensinar divertindo e divertir ensinando. O popularíssimo artista de São Paulo segue as pegadas da famosa educadora italiana. Seus programas não se contentam em ser simples passatempos. São também lições de solidariedade humana."  

Mesmo com o sucesso Vital Fernandes da Silva manteve seu emprego na repartição pública e cumpria religiosamente seus horários desempenhando suas funções com empenho e esmero.

Com jornada dupla Vital era assediado por todas as grande emissoras do eixo Rio/São Paulo, mas sempre manteve sua palavra ao amigo Fontoura. Mas a Rádio Record fez novamente uma proposta que não pôs em xeque sua amizade. Nhô Totico manteve seus programas na Rádio Cultura e fez um novo programa na concorrente, evidentemente em outro horário. Nasceu assim, em maio de 1936, mais um programa "Chiquinho, Chicote e Chicória". Mas a vida em três empregos ficou difícil e Vital encerrou seu programa na Rádio Record um ano depois. Seus personagens foram incorporados aos programas da Rádio Cultura para tranqüilidade dos Irmãos Fontoura.

Em breves licenças do serviço público Vital excursionava pelo país fazendo grande sucesso. No Rio de Janeiro fez algumas temporadas na Radio Mayrink Veiga, coordenada na época por César de Alencar, amigo de rádio e de armas de Nhô ToticoCésar de Alencar tinha sido ao lado de Nicolau Tuma e Renato Macedo as vozes da Revolução de 32, sendo transmitidos pela Rádio Record de São Paulo.

A esta altura, Vital já era uma celebridade nacional tendo status de estrela, conquistando até a disputada imprensa carioca. Como demonstra este trecho do texto de Carlos Cavaco, no Correio da Noite, em outubro de 1941.
"... Totico que é, ao meu ver o primeiro e o mais completo artista do gênero na América do Sul, e que aproveita os seus magníficos programas para educar as crianças e fazer propaganda altiva e inteligente do nosso nacionalismo. É de homens assim, desse talento, dessa cultura, que o rádio precisa; e não dessa enxurrada de nulidades que aparece nas irradiações, atormentando os ouvidos de cinqüenta milhões de criaturas."
Nos anos 50, com a chegada da televisão, os empresários passaram a investir no novo meio e as verbas do rádio começaram a minguar. Embora muitos tenham indicado o fim do rádio, o que aconteceu foi uma acomodação de mercado, onde as emissoras radiofônicas passaram a focar mais suas programações para a prestação de serviço e as televisões ficaram com a maior fatia do entretenimento.

Em 1950, Vital tinha ganho o premio Roquete Pinto, o maior e mais badalado do rádio brasileiro, como melhor humorista. Com todo o seu sucesso no rádio foi natural a tentativa das emissoras de televisão em levar Nhô Totico para suas programações, mas ele sempre preferiu o rádio. Chegou a trabalhar por um breve período na TV Record de São Paulo e voltou a suas origens.

Em 1953, com 21 anos de atuação no rádio, Nhô Totico pensou em parar. Mas acabou assinando um contrato com a Rádio América, onde ficou até 1962, quando efetivamente encerrou sua carreira tendo cumprindo 30 anos de dedicação ao rádio brasileiro.

Nos anos seguintes passou um longo período longe dos palcos e dos microfones. Embora tenha participado de vários programas de rádio e de entrevistas para a televisão, Vital não voltou efetivamente a trabalhar em um veículo até os anos 80.

Entre 1983 e 1985 fez um contrato com a TV Globo para participar trimestralmente do programa "Som Brasil" apresentado por Rolando Boldrin.

As participações serviram para mostrar que Nhô Totico ainda estava em forma, embora com mais de 80 anos. Diante da platéia do programa Vital refazia os personagens que o tornaram famoso nos anos 30 e 40, desta vez com o suporte da imagem. O público delirava ao ver aquele senhor de cabelos brancos fazendo as vozes da "Escola da Dona Olinda" e os personagens da "Vila do Arrelia".

Vital que tinha ficado viúvo no final da década de 30, se casou em 1946 com Jutta Hertel Fernandes da Silva. Ela foi a companheira que iria acompanhar toda a ascensão do artista e ajudá-lo até o fim de sua vida.

Vital Fernandes da Silva faleceu em 04/04/1996, sendo velado na Assembléia Legislativa de São Paulo e enterrado no Cemitério da Consolação, Zona Oeste de São Paulo.

Mesmo tendo alcançado grande sucesso, Vital não ganhou muito dinheiro, sempre manteve seu emprego na repartição pública e após deixar os microfones viveu modestamente em uma casa na capital paulista. Seu acervo que inclui fotos, recortes de jornais, cartas e alguns móveis foi doado pela viúva para a Academia de Letras de Descalvado, cidade natal do artista.

A prefeitura local havia se comprometido a doar um imóvel para abrigar o acervo que conta a história de Nhô Totico, mas até hoje nada foi feito.

Não há registros sonoros gravados de nenhum programa de Vital Fernandes da Silva. Há indícios não comprovados de que algumas gravações da censura teriam sido passadas para discos, mas ninguém sabe dizer onde podem estar. Incêndios e inundações ajudaram a apagar dos arquivos da Radio Cultura de São Paulo os registros da "Escola da Dona Olinda" e da "Vila do Arrelia".

Parte do material que consta neste texto resultado de depoimentos do próprio Vital Fernandes da Silva em eventos do Centro Cultural São Paulo e algumas emissoras de rádio da capital paulista. Outra parte é resultado das pesquisas de Paulo Fernandes, sobrinho neto do humorista que desde 2002 tenta financiamento para fazer um livro sobre o Nhô Totico.

Os Programas

Vital Fernandes da Silva inovou ao fazer vários personagens mudando sua voz para poder caracterizá-los. Dono de uma criatividade ímpar produzia tudo sem script apenas com o improviso e algumas idéias sobre as mensagens que gostaria de passar a seus ouvintes. 

Escolinha da Dona Olinda

A "Escolinha da Dona Olinda" trazia a mescla de raças contidas nas ruas da cidade de São Paulo. Para que os ouvintes visualizassem os personagens de Vital, bastava abrir a janela ou dar um passeio pelas ruas. Como mostra o depoimento do diretor e ator Paulo Afonso Grissolli:
"Na escola e na igreja não se olha para trás”, afirmava a severa, mas bondosa professora Dona Olinda, personagem principal de um programa que influenciou muitos outros que surgiram. Todos os dias, às seis e meia da tarde, pelas ondas da Rádio Cultura, eu ouvia as suas vozes e, por elas e através de sua infindável comicidade, eu aprendia uma generosa lição de vida. D. Olinda era professora de uma escola ímpar, que durava, a cada dia, apenas meia hora. Os demais eram seus alunos (junto comigo):Soko, o japonesinho humilde; Mingau, o ítalo-brasileiro, torcedor do Palmeiras; Mingote o cabeça-chata verborrágico; Manuel o lusitano; Jorginho, o 'turco', Sebastião, o caipirinha maroto; e Minguinho, menino urbano...Com rapidez invencível, ele mudava, num segundo, da voz aguda de dona Olinda para o timbre roufenho e pesado de “seu” Joaquim, o preto velho, bedel da Escolinha  a presença negra necessária para que o quadro étnico-humano de São Paulo se completasse no programa."
(Paulo Fernandes, 2002)

Embora não tenhamos cópias dos programas, Vital ficava feliz em poder representar novamente todos seus personagens sempre que podia. Foi assim que em 10/09/1984 ele participou do evento "O Rádio Paulista no Centenário de Roquete Pinto" no Centro Cultural São Paulo. Na ocasião Vital representou ao vivo e de improviso um pequeno trecho da "Escola da Dona Olinda", diante dos olhos atentos da platéia.

Vila da Arrelia

Na "Vila do Arrelia" a personagem principal era Dona Aqueropita, filha de italianos, solteirona obcecada com a ideia de encontrar um homem solteiro para se casar. Durante as apresentações havia uma interação com os expectadores presentes no auditório que permitia a Nhô Totico desenrolar a trama levando os personagens as compras, ao cinema e as passeios na Vila. Paulo Fernandes afirma que: 

"O humorista fazia sozinho e de improviso todos os outros personagens do programa, entre eles o motorista de praça Sayamoto Kurakami, que conduzia dona Aqueropita pelas ruas da cidade, o negociante de tecidos Salim Kemal Fizeu; Betto Spacca Tutto era o inflexível irmão da Aqueropita, o português Manoel e o nordestino Trinta e Nove, que reapareciam no programa da tarde, como os pais das crianças da Escola de Dona Olinda."
Chiquinho, Chicote e Chicória

O programa foi feito por Nhô Totico na Rádio Record de São Paulo em 1936, por aproximadamente um ano. Período em que o humorista continuou a fazer "A Escola da Dona Olinda" e "A Vila do Arrelia" na Rádio Cultura. Com o fim do trabalho na Rádio Record, Vital continuou com os novos personagens, só que desta vez absorvidos nos outros programas.

O trabalho de Vital Fernandes da Silva demonstra a genialidade do menino de origem humilde em retratar em seus programas a diferenças sócio-culturais das diversas etnias que formou a cultura da capital paulista na primeira metade do século XX. Inovador ao criar um programa de humor voltado as crianças e transgressor ao não utilizar roteiros pré-estabelecidos, Nhô Totico marcou a história do rádio brasileiro. Mesmo com todo o sucesso que alcançou se manteve fiel as suas origens caipiras, mas dando a ela a dimensão cosmopolita trazida pelo desenvolvimento agrário e industrial do Estado de São Paulo. Seu trabalho dá continuidade ao de humoristas da Belle Époque transcendendo seu momento histórico ao retratar os conflitos da chegada do progresso.

Do ponto de vista artístico Vital Fernandes da Silva foi único, jamais outro humorista conseguiu catalisar tantos ouvintes com um produto tão específico para crianças.

Infelizmente pela falta de um política pública para o resgate e manutenção da história no Brasil, estamos perdendo o pouco que resta do acervo de Nhô Totico. Caso não tenhamos um mudança considerável no lidar com os produtos históricos assistiremos a boa parte da história dos veículos de comunicação, especialmente do rádio, ser apagada pelo descaso e ignorância. 

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