Eduardo Coutinho

EDUARDO DE OLIVEIRA COUTINHO
(80 anos)
Cineasta

* São Paulo, SP (11/05/1933)
+ Rio de Janeiro, RJ (02/02/2014)

Eduardo Coutinho foi um cineasta brasileiro, considerado um dos mais importantes documentaristas da atualidade. Seu trabalho caracterizava-se pela sensibilidade e pela capacidade de ouvir o outro, registrando sem sentimentalismos as emoções e aspirações das pessoas comuns, sejam camponeses diante de processos históricos, "Cabra Marcado Para Morrer" (1984), moradores de um enorme condomínio de baixa classe média no Rio de Janeiro, "Edifício Master" (2002), metalúrgicos que conviveram com o então sindicalista Luis Inácio Lula da Silva, "Peões" (2004), dentre outros.


Formação

Eduardo Coutinho cursou Direito em São Paulo, mas não concluiu. Em 1954, aos 21 anos, teve seu primeiro contato com cinema no Seminário promovido pelo Museu de Arte de São Paulo (MASP) e dirigido por Marcos Marguliès.

Trabalhou como revisor na revista Visão, entre 1954 e 1957, e dirigiu, no teatro, uma montagem da peça infantil "Pluft, o Fantasminha", de Maria Clara Machado. Ganhou um concurso de televisão respondendo perguntas sobre Charles Chaplin. Com o dinheiro do prêmio, foi para a França estudar direção e montagem no Institut Des Hautes Études Cinématographiques (IDHEC), onde realizou seus primeiros documentários.


Centro Popular de Cultura

De volta ao Brasil em 1960, teve contato com o grupo do Cinema Novo e integrou-se ao Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC da UNE). No núcleo dirigido por Chico de Assis, trabalhou na montagem da peça "Mutirão Em Nosso Sol", apresentada no I Congresso dos Trabalhadores Agrícolas que aconteceu em Belo Horizonte em 1962.

Foi gerente de produção do primeiro filme produzido pelo Centro Popular de Cultura, o longa-metragem de episódios "Cinco Vezes Favela" (1962).

Escolhido para dirigir a segunda produção do Centro Popular de Cultura, Eduardo Coutinho começou a trabalhar num projeto de ficção baseado em fatos reais, reconstituindo o assassinato do líder das Ligas Camponesas João Pedro Teixeira, a ser interpretado pelos próprios camponeses do Engenho Cananéia, no interior de Pernambuco, inclusive a viúva de João Pedro, Elizabeth Teixeira, que faria o seu próprio papel. O filme se chamaria "Cabra Marcado Para Morrer", e chegou a ter duas semanas de filmagens, até o Golpe Militar de 1964. Parte da equipe foi presa sob a alegação de comunismo e o restante se dispersou, interrompendo a realização do filme por quase 20 anos.


Filmes de Ficção

Em 1966, Eduardo Coutinho constituiu, com Leon Hirszman e Marcos Faria, a produtora Saga Filmes. Dirigiu um episódio do longa "ABC do Amor", foi diretor substituto em "O Homem Que Comprou o Mundo" (1968) e realizou uma adaptação de William Shakespeare para o cangaço brasileiro, em que o personagem Falstaff tornou-se "Faustão" (1970).

Especializando-se em roteiro, foi co-roteirista de vários títulos importantes do cinema brasileiro, como "A Falecida" (1965) e "Garota de Ipanema" (1967) de Leon Hirszman, "Os Condenados" de Zelito Viana (1973), "Lição de Amor" de Eduardo Escorel (1975) e "Dona Flor e Seus Dois Maridos" (1976) de Bruno Barreto.


Globo Repórter

Em 1975, passou a integrar a equipe do programa "Globo Repórter", da TV Globo, juntamente com Paulo Gil Soares, João Batista de Andrade e outros. Permaneceu no programa até 1984, sempre rodando em 16 mm, com uma liberdade editorial surpreendente para a época, e acabou descobrindo sua vocação de documentarista em trabalhos inovadores como "Teodorico, o Imperador do Sertão" (1978), sobre o líder político nordestino Theodorico Bezerra.


Cabra Marcado Para Morrer

Em 1981, Eduardo Coutinho reencontrou os negativos de "Cabra Marcado Para Morrer", que haviam sido escondidos da polícia por um membro da equipe, e resolveu retomar o projeto. Conseguiu localizar Elizabeth Teixeira em São Rafael, no interior do Rio Grande do Norte, mostrou-lhe o que havia sido filmado em 1964 e filmou o depoimento dela sobre a dispersão de sua família após a interrupção do filme.

A partir daí, a "ficção baseada em fatos reais" transforma-se num dos mais extraordinários documentários jamais filmados, retratando e acompanhando as tentativas de Elizabeth Teixeira por reencontrar seus filhos, em diferentes pontos do país, e refletindo sobre o que aconteceu com a sociedade brasileira no longo período da ditadura militar. O filme ficou pronto em 1984 e ganhou 12 prêmios em festivais internacionais, no Rio de Janeiro, Havana, Paris, Berlim e Setúbal.


Documentarista

Após o sucesso de "Cabra Marcado Para Morrer", Eduardo Coutinho afastou-se do "Globo Repórter" e passou alguns anos trabalhando com documentários em vídeo para o Centro de Criação da Imagem Popular (CECIP), com temas ligados a cidadania e educação.

São dessa época projetos como "Santa Marta" e "Boca de Lixo", visões humanistas e pessoais sobre indivíduos e populações marginalizadas. Também escreveu roteiros para séries documentais da TV Manchete, como "90 Anos de Cinema Brasileiro" e "Caminhos da Sobrevivência", sobre a poluição em São Paulo.

Em 1988, com o centenário da Abolição da Escravatura, foi estimulado pela então Secretária de Cultura do Rio de Janeiro, Aspásia Camargo, a realizar um documentário sobre a população negra na História do Brasil.

"O Fio da Memória" (1991), centrado na figura do artista popular Gabriel Joaquim dos Santos, só viria a ser concluído três anos mais tarde, com o apoio das emissoras de televisão francesa, La Sept, e a inglesa Channel Four.

Em 2004, a pesquisadora Consuelo Lins publicou, pela Editora Zahar, "O Documentário de Eduardo Coutinho".


Morte

Eduardo Coutinho foi assassinado a facadas no domingo, 02/02/2014, por volta das 11:50 hs dentro de casa, no bairro da Lagoa, zona sul do Rio de Janeiro. O filho, Daniel Coutinho, é tido como o principal suspeito, segundo a polícia.

De acordo informações da Divisão de Homicídios, ele também seria o responsável por esfaquear a mãe e, em seguida, teria tentado se matar.

A mulher do cineasta, Maria Oliveira Coutinho, de 62 anos, foi socorrida pelos bombeiros no apartamento onde mora a família, e internada em estado grave no Hospital Municipal Miguel Couto, na Gávea, zona sul do Rio de Janeiro. O filho também foi levado para lá, com ferimentos menos graves, segundo a assessoria de imprensa da Polícia Civil.

Segundo vizinhos do cineasta, Daniel Coutinho, que morava com os pais, sofria de esquizofrenia.

O corpo de Eduardo Coutinho foi encaminhado ao Instituto Médico Legal (IML), onde foram feitos exames que constataram a morte por ação de objeto perfuro-cortante.



Filmografia

  • 1966 - O Pacto (Episódio do longa "ABC do Amor")
  • 1968 - O Homem Que Comprou o Mundo
  • 1970 - Faustão
  • 1976 - O Pistoleiro de Serra Talhada (Média-Metragem)
  • 1976 - Seis Dias em Ouricuri (Média-Metragem)
  • 1978 - Teodorico, o Imperador do Sertão (Média-Metragem)
  • 1979 - Exu, Uma Tragédia Sangrenta (Curta-Metragem)
  • 1980 - Portinari, o Menino de Brodósqui (Média-Metragem)
  • 1984 - Cabra Marcado Para Morrer
  • 1987 - Santa Marta - Duas Semanas no Morro (Média-Metragem)
  • 1989 - Volta Redonda, o Memorial da Greve (Média-Metragem)
  • 1989 - O Jogo da Dívida (Média-Metragem)
  • 1991 - O Fio da Memória
  • 1992 - A Lei e a Vida (Média-Metragem)
  • 1993 - Boca de Lixo (Média-Metragem)
  • 1994 - Os Romeiros de Padre Cícero (Média-Metragem)
  • 1999 - Santo Forte
  • 2000 - Babilônia 2000
  • 2002 - Edifício Master
  • 2004 - Peões
  • 2005 - O Fim e o Princípio
  • 2007 - Jogo de Cena
  • 2009 - Moscou
  • 2011 - As Canções



Premiações

  • Melhor Filme de 2007 segundo a Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA).
  • 2007 - Kikito de Cristal, no Festival de Gramado pelo conjunto da obra.
  • Prêmio Multicultural Estadão 2003, ganhador na categoria criadores.
  • Kikito de Ouro de Melhor Documentário, no Festival de Gramado, por "Edifício Master" (2002).
  • 2000 - Prêmio de Melhor Documentário, no Grande Prêmio BR de Cinema, por "Babilônia 2000".
  • Prêmio de Melhor Documentário - Crítica, na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, por "Edifício Master" (2002).
  • Troféu Passista de Melhor Fotografia, no Festival de Recife, por "Babilônia 2000" (2000).
  • Prêmio Especial do Júri, no Festival de Gramado, por "Santo Forte" (1999).
  • Prêmio de Melhor Filme, no Festival de Brasília, por "Santo Forte" (1999).
  • Prêmio de Melhor Roteiro, no Festival de Brasília, por "Santo Forte" (1999).
  • Prêmio Fédération Internationale de la Presse Cinématographique (FIPRESCI), no Festival de Berlim, por "Cabra Marcado Para Morrer" (1984).


Indicação: Miguel Sampaio

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