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Eduardo Chapot-Prévost

EDUARDO CHAPOT-PRÉVOST
(43 anos)
Médico, Cientista e Professor

☼ Cantagalo, RJ (25/07/1864)
┼ Rio de Janeiro, RJ (19/10/1907)

Eduardo Chapot-Prévost foi um médico-cirurgião, cientista e professor brasileiro nascido em Cantagalo, RJ, no dia 25/07/1864. Ele foi uma das mais ilustres e notórias personalidades da medicina brasileira, cujo nome tornou-se mundialmente famoso pela marcante e bem sucedida operação que realizou, no final do século XIX, separando as irmãs siamesas Maria e Rosalina.

Filho de Louis Chapot-Prévost, cirurgião dentista, de nacionalidade francesa, e de Louisa Lend Chapot-Prévost, de nacionalidade belga, professora de línguas. Cursou os preparatórios no Colégio Pedro II.

Vocacionado aos estudos médicos, Eduardo Chapot-Prévost matriculou-se na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Colou grau em 1885, defendendo a tese sobre "Formas Clínicas do Puerperismo Infeccioso e seu Tratamento", na Bahia.

No magistério, foi Professor Adjunto de Anatomia, em 1886, e de Histologia, em 1888, tendo logrado conquistar a cátedra de Histologia em 1890, com uma tese sob o título "Pesquisas Histológicas Sobre a Inervação das Vias Biliares Extra-Hepáticas".

Eduardo Chapot-Prévost participou de diversas comissões, entre elas a que foi a Berlim estudar o processo proposto do Doutor Robert Koch para a cura da tuberculose, em 1890, a que foi identificar uma suposta epidemia de cólera no Vale do Paraíba, em 1894, e outra, presidida por Domingos Freire, para debelar a febre amarela, em 1899. Ainda em 1899, chefiou a comissão da Diretoria Geral de Saúde Pública que foi a Santos investigar e combater um surto de peste bubônica, da qual fez parte Oswaldo Cruz. Dessa empreitada nasceriam o Instituto Soroterápico Federal, no Rio de Janeiro, e o Instituto Soroterápico do Estado de São Paulo.

Eduardo Chapot-Prévost integrou a comissão que foi a Berlim estudar o processo do Drº Robert Koch para cura da tuberculose, e a que reuniu no Rio de Janeiro, sob a presidência do professor Domingos Freire, para debelação da febre amarela. Foi patrono e membro titular da cadeira nº 81 da Academia Nacional de Medicina. É, também, o Patrono da Cadeira 60 da Academia de Medicina do Estado do Rio de Janeiro.

Notoriedade Mundial

Em 30/05/1900, o Drº Eduardo Chapot-Prévost realizou, pela primeira vez, na história da medicina, uma intervenção operatória que constituiu um marco na evolução da cirurgia mundial: A separação das meninas toracoxifópagas, Maria e Rosalina, de 7 anos de idade, cuja cirurgia durou apenas 90 minutos.

Drº Eduardo Chapot-Prévost, após realizar os mais minuciosos estudos sobre a operabilidade desse caso de toracoxifopagia, esgotando os métodos de investigação e exame possíveis, para a época, criou processos originais para as várias fases da inovadora cirurgia.

Drº Eduardo Chapot-Prévost e a esposa ao lado de Rosalina
Vida e Família

Eduardo Chapot-Prévost casou-se com Laura Caminhoá, filha do Comendador da Ordem da Rosa, Joaquim Monteiro Caminhoá, doutor em medicina pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e professor de Botânica e Zoologia, e de sua esposa, Delmira Monteiro Caminhoá.

Da união, nasceu um único filho, falecido em tenra idade.

Após longa enfermidade, Eduardo Chapot-Prévost faleceu em 19/10/1907, aos 43 anos de idade.

Maria e Rosalina

As irmãs Maria e Rosalina, ligadas pelo fígado, nasceram em 21/04/1893, em Cachoeiro do Itapemirim, ES, filhas de João Antônio Davel e Rosalina Pinheiro Davel. Entretanto, os poucos recursos da medicina do final do século XIX não permitiram aos médicos descobrir como e, por onde, elas estavam unidas.

O tempo foi passando e até que, quando tinham 5 anos de idade, os pais foram convencidos de que só no Rio de Janeiro seria possível resolver o caso. Poucos dias depois, rumaram para o Rio de Janeiro, onde o Drº Pinheiro Júnior apresentou os pais das irmãs toracoxifópagas ao Drº Álvaro Ramos, que decidiu realizar a operação.

Durante um ano, estiveram as crianças aos cuidados desse médico, em observação. A primeira tentativa de operação fracassou quando o Drº Álvaro Ramos descobriu que as meninas não estavam ligadas apenas por músculos ou cartilagem, como inicialmente se pensara.

Diante desse resultado frustrado, o Drº Pinheiro Júnior decidiu consultar o Drº Eduardo Chapot-Prévost sobre o caso. Ficou surpreso com a resposta do cientista que declarou estar disposto a assumir a responsabilidade da intervenção. Entretanto, como, na época, nem radiografias existiam, o decidido médico Eduardo Chapot-Prévost foi obrigado a mais de um ano de pesquisas.

Aplicando remédios para uma das irmãs a fim de verificar se a outra sentia os efeitos, foi que ele chegou à conclusão de que o órgão que ligava as duas era o fígado. Foram necessários vários meses de experiências para descobrir se elas possuíam um único fígado ou não.


Para preparar a operação, o Drº Eduardo Chapot-Prévost foi obrigado a esculpir em gesso, em tamanho natural, o modelo das duas crianças e a desenhar uma mesa de operação especial, que se dividia em duas, para permitir que ele, depois de separadas as toracoxifópagas, atendesse a uma delas, enquanto os assistentes concluíam a operação da outra. Inclusive, um aparelho especial para a sutura do fígado foi desenhado e construído pelo médico.

A Equipe Médica chefiada pelo Drº Eduardo Chapot-Prévost, na Operação de Toracoxifopagia, era composta por 13 médicos assistentes: Drº Paulino Werneck, Drº Pinheiro Junior, Drº Azevedo Monteiro, Drº Ernani Pinto, Drº Figueiredo Rodrigues, Drº João Gonçalves Lopes, Drº Amaro Campello, Drº Jonathas Campello, Drº José Chapot-Prévost, Drº Silvio Muniz, Drª Paula Rodrigues, Drº Dias de Barros e Drº Chardinal d’Arpenans.

Em 1900, o Drº Eduardo Chapot-Prévost usou, pela primeira vez no mundo, as máscaras de gaze, só dezenas de anos depois generalizadas pelos cirurgiões de todos os continentes, em seus atos operatórios. Para a hemostasia (interrupção fisiológica de uma hemorragia) do fígado, separado em larga ponte de conexão entre Maria e Rosalina, o Drº Eduardo Chapot-Prévost utilizou método e aparelhos originais, aceitos na técnica cirúrgica, após a publicação do seu trabalho: "Chirurgie dês Thoracopages", em Paris, no ano de 1901.

Durante o procedimento cirúrgico, a população estava acompanhando o drama de bondade e de amor que se representa na Casa de Saúde de São Sebastião.

Acabada a operação, suspensa a ação anestésica do clorofórmio, quando um silêncio trágico reinava naquela sala em que acabava de ser afirmada a glória da ciência humana, a Mariasinha, a que mais sofrera, a que mais sangue perdera, a que mais receios devia dali por diante inspirar, logo ao despertar, agitou uma das mãos no ar, e disse adeus à irmã.

A cirurgia feita por Eduardo Chapot Prévost
Um cronista na pressa de transmitir aos leitores as suas impressões pessoais, não soube compreender toda a significação desse adeus. Pareceu a essa alma apressada que havia ali, naquele gesto eloqüente da pequenina, a manifestação da primeira saudade, da primeira mágoa da separação, do primeiro desgosto do apartamento… Não era isso, não. Aquilo era um adeus aliviado e consolado, com que o galé se despede do calceta, com que o acusado se despede do banco dos réus, com que a alma da gente se despede de uma preocupação dolorosa, com que um devedor ameaçado de penhora se despede de uma dívida, com que todos os que sofrem se despedem do sofrimento.
"Como quereríeis vós que se amassem aquelas pobres almas, condenadas ao eterno convívio? Como quereríeis vós que não se repelissem aqueles dois corpos, condenados ao eterno contato?"
(Trecho apócrifo de texto encontrado junto aos documentos dos descendentes dos familiares de Eduardo Chapot-Prévost)

Infelizmente, Maria, uma das xifópagas, faleceu cinco dias e quatorze horas após a cirurgia, vitimada, conforme ficou provado pelo laudo da necropsia oficial, solicitada pelo próprio cirurgião, por uma pleuropericardite, quadro infeccioso para cuja debelação a medicina da época não dispunha de eficazes recursos.

Maria, caso tivesse acatado a dieta recomendada, também se salvaria. Muito voluntariosa, porém, e cheia de caprichos, não quis se submeter aos rigores que indicavam somente a ingestão de caldos e coisas leves. A enfermeira resolveu contrariar o conselho médico e deu-lhe um mingau de tapioca, que causou grave infecção intestinal.

A sobrevivência de Rosalina, a outra xifópaga, foi suficiente para atestar a magistral proficiência e o êxito do ato operatório, bem como para consagrar, no Brasil, e perante a ciência médica mundial, o nome de Eduardo Chapot-Prévost, cientista, mestre da medicina e imortal pioneiro deste tipo de cirurgia. Rosalina Henriques, depois de visitar toda a Europa, serviu de tema a várias conferências médicas.

Rosalina, aos 75 anos, com o marido Wantuil Henriques e os netos
Rosalina relatou, em diversos jornais da década de 1930, como ela e sua irmã Maria viveram presas, uma a outra, durante 7 anos. Havia entre elas profundas diferenças de gênio e de vontades. Maria era voluntariosa, caprichosa e, isso, causava rusgas constantes. Uma não queria satisfazer as vontades da outra e principiava a briga da qual sempre Rosalina levava a pior parte, pois, mais cordata, calma e ponderada, cedia aos caprichos da irmã. Resumindo: Rosalina gostava mais do sossego e Maria de brincadeiras mais movimentadas. Essas divergências eram constantes e manifestavam-se, inclusive, na hora de dormir. Uma queria ir para o leito e a outra não, porque não tinha sono. E como era difícil acomodarem-se no leito. A deformação no rosto da sobrevivente foi proveniente da posição a que era obrigada no leito. Maria também apresentava deformação idêntica, mas em sentido inverso porque as suas faces se encostavam, e, de tanto se tocarem, estabeleceram perfeita junção das partes em contato.

O vestido tinha que ser de feitio todo especial. Da cintura para cima, com duas blusas; para baixo, uma saia somente. Comiam, cada qual no seu prato, mas sentadas numa só cadeira.

Rosalina disse que seus pais tiveram, depois, mais 10 filhos, todos eles perfeitos, e que o seu caso foi o único fenômeno que se registrou na sua família e na de seus parentes. Rosalina contou que depois de operada, passou a morar com o Drº Eduardo Chapot-Prévost, que mais tarde se tornou seu padrinho e lhe arranjou educação gratuita num colégio de irmãs de caridade, em Botafogo. Seu grande bem feitor tratava-a como filha.

Quando o padrinho morreu, tinha Rosalina 14 anos de idade e, muito embora a família do médico não quisesse, deixou a casa e foi morar com os pais. Educada, porém, não se habituou àquela vida de privações, no interior do Espírito Santo. Assim, ela voltou para o Rio de Janeiro e, depois, passou a residir com a família de Sebastião Lacerda, na vila que hoje tem seu nome e que se chamava Commercio.

Em Sebastião Lacerda, perto de Vassouras, conheceu o homem que viria a ser seu esposo. Dos seus 6 filhos, os 2 primeiros nasceram em maternidades do Rio de Janeiro, pois, os médicos temiam qualquer complicação no parto. Os outros 4, em mãos de parteiras, naquele lugarejo fluminense.

 Rosalina viveu mais de 80 anos.

Obras
  • 1890 - Pesquisas Histológicas
  • 1892 - A Bouba e a Sífilis
  • 1900 - O Carbúnculo no Matadouro
  • 1901 - Novo Xifópago Vivo
  • 1901 - Cirurgia dos Toracópagos
  • 1902 - Xifópago Operado
  • 1905 - Teratópago Brasileiro Vivo


Adib Jatene

ADIB DOMINGOS JATENE
(85 anos)
Médico, Professor, Inventor e Cientista

* Xapuri, AC (04/06/1929)
+ São Paulo, SP (14/11/2014)

Adib Domingos Jatene foi um médico (cirurgião torácico), professor universitário, inventor e cientista brasileiro. Filho de imigrantes árabes, formou-se em medicina na Universidade de São Paulo (USP), onde viria se tornar depois professor.

Conhecido e respeitado internacionalmente, além das dezenas de inovações no meio médico, como o inventor de uma cirurgia do coração, que leva seu nome, para tratamento da transposição das grandes artérias em récem-nascidos, e do primeiro coração-pulmão artificial do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Trabalhou com o professor Euryclides de Jesus Zerbini.

Vida

Filho de imigrantes libaneses, Adib Jatene nasceu em Xapuri no Acre. Aos dois anos perdeu seu pai, que era comerciante e fornecia os seringais. Terminou o curso primário no Acre, logo após foi para Uberlândia, MG, onde fez o ginásio e o primeiro ano científico. Depois foi para São Paulo, estudar engenharia no Colégio Bandeirantes, onde logo após acabou desistindo de cursar engenharia e resolveu cursar medicina.

No quarto ano do curso de medicina começou a adquirir vivência em cirurgia, e entrou no grupo do professor Euryclides de Jesus Zerbini, inclusive em maio de 1951, quando Zerbini operou o primeiro doente de estenose mitral e Adib Jatene o instrumentou.

Adib Jatene fez toda sua pós-graduação no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, com o professor Zerbini.

Em 1957 esteve em Uberaba onde foi professor de Anatomia Topográfica, onde também logo após montou seu primeiro modelo de coração artificial que utilizava um oxigenador de disco e uma bomba de rolete.

Adib Jatene foi secretário estadual de Saúde no governo Paulo Maluf e duas vezes ministro da Saúde, durante o Governo Collor e, a última delas, no governo de Fernando Henrique Cardoso. Era membro da Academia Nacional de Medicina.

CPMF

Adib Jatene é considerado por alguns o "pai" da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), pois ele foi buscar a aprovação da contribuição com a promessa do então presidente Fernando Henrique Cardoso de que ela seria um recurso a mais para a saúde. A promessa não foi cumprida e o Ministério da Saúde perdeu mais recursos do que os que conseguiu com a CPMF.

Quando perguntado se sua saída do Governo Fernando Henrique Cardoso teve relação com a CPMF, Adib Jatene respondeu:

"Teve relação direta. Eu disse ao presidente Fernando Henrique que precisava de recursos. Ele pediu para falar com o Pedro Malan (ministro da Fazenda). O Malan me disse que, em dois ou três anos, daria o dinheiro que eu precisava. Não podia esperar tanto tempo. Propus a volta do imposto sobre o cheque, que se chamava IPMF e havia sido extinto em 1994. O presidente disse: 'Você não vai conseguir aprovar isso!'. Respondi: 'Posso tentar?'. Ele autorizou. Pedi o compromisso dele de que o orçamento da Saúde não seria reduzido. A CPMF entraria como o adicional. E ele: 'Isso eu posso te garantir'. Depois da aprovação, a Fazenda reduziu o meu orçamento. Voltei ao presidente. Disse: 'No Congresso, me diziam que isso ia acontecer. Eu respondia que não, porque tinha a sua palavra. Se o senhor não consegue manter a sua palavra, entendo a sua dificuldade. Mas me faça um favor. Ponha outro no meu lugar. Foi assim que eu saí, em novembro de 1996'”

Morte

O cardiologista e ex-ministro da Saúde Adib Jatene, um dos maiores nomes da medicina no Brasil, morreu na noite de sexta-feira, 14/11/2014, aos 85 anos. Ele estava internado desde 22/09/2014 no Hospital do Coração (HCor), do qual era diretor-geral, após sofrer um infarto.

O ex-ministro já havia sofrido um ataque cardíaco em 2012. Após recuperar-se, escreveu um depoimento à Revista Veja São Paulo no qual relatou ter diagnosticado o seu próprio infarto.

"Peguei o telefone e não tive dúvida: liguei para o (Instituto) Dante Pazzanese e falei com o médico José Eduardo Sousa. Falei: 'Preciso de você. Estou infartando e teremos de fazer o cateterismo que deveríamos ter realizado semanas atrás!'"

Adib Jatene deixa sua mulher, Aurice, quatro filhos - os médicos Ieda, Marcelo e Fábio e a arquiteta Iara - e dez netos.

Fonte: Wikipédia e Veja 
Indicação: Fadinha Veras

Carlos Chagas

CARLOS JUSTINIANO RIBEIRO CHAGAS
(56 anos)
Médico, Cientista e Bacteriologista

* Oliveira, MG (09/07/1878)
+ Rio de Janeiro, RJ (08/11/1934)

Carlos Justiniano Ribeiro Chagas foi um médico sanitarista, cientista e bacteriologista brasileiro, que trabalhou como clínico e pesquisador. Atuante na saúde pública do Brasil, iniciou sua carreira no combate à malária. Destacou-se ao descobrir o protozoário Trypanosoma Cruzi, cujo nome foi uma homenagem ao seu amigo Oswaldo Cruz e a Tripanossomíase Americana, conhecida como Doença de Chagas. Ele foi o primeiro e o único cientista na história da medicina a descrever completamente uma doença infecciosa: o patógeno, o vetor (Triatominae), os hospedeiros, as manifestações clínicas e a epidemiologia.

Foi diversas vezes laureado com prêmios de instituições do mundo inteiro, sendo as principais como membro honorário da Academia Brasileira de Medicina e Doutor Honoris Causa da Universidade de Harvard e Universidade de Paris. Também trabalhou no combate à leptospirose e às doenças venéreas, além de ter sido o segundo diretor do Instituto Oswaldo Cruz.

Infância e Juventude

Carlos Justiniano Ribeiro Chagas nasceu no município de Oliveira, Minas Gerais, em 9 de julho de 1878, filho de José Justiniano Chagas e Mariana Cândida Ribeiro de Castro Chagas. O lugar de seu nascimento foi na Fazenda Bom Retiro, onde seus antepassados, de ascendência portuguesa, se enraizaram.

Seu pai, cafeicultor, morreu quando Carlos Chagas tinha quatro anos de idade, ficando a cargo de sua mãe a administração do cultivo de café e da criação dele e de seus outros quatro irmãos: Maria Rita, José (que morreu com três anos de idade), Marieta e Serafim. Eles foram morar em outra propriedade da família, a Fazenda Boa Vista, próxima a Juiz de Fora, também no estado de Minas Gerais.

Em Oliveira, teve convivência direta com três tios maternos, Cícero, Olegário e Carlos. Os dois primeiros eram advogados formados em São Paulo e incentivaram o sobrinho a se dedicar aos estudos. Porém, o último, era formado em medicina e organizou uma casa de saúde na cidade. As ações desse tio o influenciaram para seguir a carreira médica.

Aos oito anos de idade e já alfabetizado, foi matriculado no Colégio São Luís, dirigido por jesuítas, em Itu, interior de São Paulo, mas fogiu do internato em 1888, para ir ao encontro da mãe, em Juiz de Fora, ao saber que os escravos recém-libertados estariam depredando fazendas. A punição para essa fuga foi a expulsão de Carlos Chagas do colégio pelos padres jesuítas.

Após encerrar os estudos secundários, Carlos Chagas ingressou no curso preparatório para a Escola de Minas de Ouro Preto por vontade de sua mãe, que gostaria de vê-lo formado em engenharia. Aí, com a companhia de colegas do curso, aderiu a vida boêmia. Adoentado, em 1896, depois de reprovado nos exames, voltou para Oliveira.

Estudos

Durante o tempo de recuperação em sua cidade-natal, seu tio Carlos fortaleceu a vontade de Carlos Chagas em ser médico e ajudou-o a vencer a barreira de sua mãe, que acabou aceitando a opção de seu filho. Seguiu então para São Paulo, para obter os diplomas básicos exigidos para matrícula no curso médico. Conseguindo tal certificado, em fevereiro de 1897, seguiu para o Rio de Janeiro a fim de entrar à Faculdade de Medicina.

Aos 18 anos, passou a cursar a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, onde este mesmo tio trabalhava, em abril de 1897. Tal faculdade vivia uma "revolução pasteuriana", pois havia adquirido as teses de Louis Pasteur e estava passando por um processo de renovação. Carlos Chagas, assim, também leva essas idéias adiante em seu trabalho.

Ao longo do curso, dois professores exerceram grande influência em sua carreira: Miguel Couto, que apresentou a Carlos Chagas as noções e as práticas da clínica moderna e com quem passaria a ter uma estreita amizade, e Francisco Fajardo, que colocou Carlos Chagas no estudo de doenças tropicais, especialmente da malária, e que seria de grande importância para sua futura carreira. Assim, esses dois professores apresentaram os dois caminhos que se abriram para Carlos Chagas no decorrer de seu curso médico: a clínica e a pesquisa científica.

Concluído o curso, em 1902, para elaborar sua tese, pré-requisito para o exercício da medicina, dirigiu-se ao  Instituto Soroterápico Federal, na Fazenda de Manguinhos, levando uma carta de apresentação de seu professor, Miguel Couto, a Oswaldo Cruz, diretor do Instituto, onde teve seu primeiro contato com aquele que veio a trabalhar, ser seu grande mestre e tornar-se amigo.

Aceito e orientado por  Oswaldo Cruz, Carlos Chagas começou a trabalhar no Instituto Soroterápico Federal, que após 1908 passou-se a chamar Instituto Oswaldo Cruz, e elegeu como tema de sua tese o ciclo evolutivo da malária na corrente sangüínea". Assim, em março de 1903, estava concluído a sua tese, o "Estudo Hematológico do Impaludismo" e em maio do mesmo ano terminou seus estudos.

Oswaldo Cruz, que assumiu simultaneamente a direção de Manguinhos e a Diretoria Geral de Saúde Pública, nomeou Carlos Chagas como médico do instituto, cargo que foi recusado por preferir, em 1904 trabalhar como clínico no Hospital de Jurujuba, em Niterói. Nesse ano instalou seu laboratório particular no Rio de Janeiro e casou-se com Íris Lobo, que dessa união nasceriam seus dois filhos, Evandro (1905) e Carlos Filho (1910). Ambos seguiriam a carreira médica do pai.

Combate a Malária

Devido à tese de doutorado sobre a malária, em 1901 foi recrutado por Oswaldo Cruz para missão de controlar a doença em Itatinga, interior de São Paulo, que atacava a maioria dos trabalhadores da Companhia Docas de Santos, que construía uma represa na região, causando a paralisação das obras. Assim, realizou a primeira ação bem-sucedida contra a malária no Brasil, colocando em prática procedimentos que mais tarde se tornariam corriqueiros nas outras campanhas.

Segundo ele, para se impedir a propagação da doença em regiões em que não havia ações sistemáticas de saneamento, fazia-se necessário concentrar as medidas preventivas nos locais onde viviam os homens e os mosquitos infectados com o parasito da malária. Seguindo tal orientação, em cinco meses Carlos Chagas conseguiu debelar o surto da doença - fato que serviu de base para o efetivo combate à moléstia no mundo inteiro.

De volta ao Rio de Janeiro, Carlos Chagas continuou servindo a Diretoria Geral de Saúde Pública e, em 19 de março de 1906, transferiu-se para o Instituto Oswaldo Cruz. Foi solicitado, no ano seguinte, pela Diretoria Geral, a organizar o saneamento na Baixada Fluminense, onde estava acontecendo obras para a captação e bombeamento de água ao Rio de Janeiro. Junto com Arthur Neiva, seguiu para Xerém, e os resultados positivos que conseguiu nessa obra confirmaram a sua teoria da infecção domiciliar da malária.

Doença de Chagas

Em junho de 1907 Carlos Chagas foi enviado pelo Instituto Oswaldo Cruz à cidade de Lassance, Minas Gerais, perto do Rio São Francisco, para combater uma epidemia de malária entre os trabalhadores de uma nova linha de trem da Estrada de Ferro Central do Brasil, instalando-se durante dois anos num vagão de trem, montando um pequeno laboratório e um consultório para atendimento dos doentes.

Neste tempo, capturou, classificou e estudou os hábitos dos anofelinos, mosquitos transmissores da doença, e examinou o sangue de animais em busca de parasitas. Assim, Carlos Chagas identificou no sangue de um sagüi uma nova espécie de protozoário, ao qual deu o nome de Trypanosoma Minasensis. Um engenheiro da ferrovia alertou-o para a infestação de um inseto hematófago nas residências rurais, da espécie Triatoma Infestans, conhecido como Barbeiro, assim chamado porque suga o sangue das pessoas durante a noite, atacando o rosto delas. Carlos Chagas levou alguns deles ao seu laboratório e percebeu que nos seus intestinos havia outros Trypanosoma Minasensis, já numa fase evoluída.

Por Lassance não ter condições para uma pesquisa mais aprofundada, enviou alguns exemplares de barbeiros para Oswaldo Cruz, pedindo que os alimentasse em sagüis. Um mês depois, foi comunicado da presença de tripanossomos no sangue dos animais. Voltou ao Rio de Janeiro para confirmar a pesquisa, e descobriu que não se tratava dos Trypanosoma Minasensis, mas de uma nova espécie. Carlos Chagas chamou esse novo parasita de Trypanosoma Cruzi e mais tarde batizou de Schizotrypanum Cruzi, em homenagem a Oswaldo Cruz.

Retornando a Lassance, Carlos Chagas suspeitava que o parasita poderia causar algum mal aos outros animais e aos humanos, visto que o barbeiro estava sempre em lugares freqüentados por pessoas e o hábito desse inseto em mordê-las. Recolheu amostras de sangue de um gato infectado em 14 de fevereiro de 1909 e, em 23 de abril do mesmo ano, descobriu o Trypanosoma em uma menina de três anos, chamada Berenice, que apresentava febre e anemia. Tal tripanossoma foi o segundo descoberto a causar uma doença, a Tripanossomíase Americana, pois até então o único confirmado é o causador da doença do sono, ou Tripanossomíase Africana, transmitida pela picada da mosca tsé-tsé.

Também observou inclusões parasitas no cérebro e no miocárdio dela, que poderiam explicar algumas manifestações clínicas em pessoas doentes. Para completar seu trabalho sobre a patologia da nova doença, o cientista descreveu 27 casos de formas agudas e realizou mais de cem autópsias de pacientes que tinham a forma crônica da doença. Se concluiu, então, o ciclo da doença, tendo identificado o vetor (barbeiro), o agente causal (Trypanosoma Cruzi), o reservatório doméstico (gato), a doença nos humanos (o caso de Berenice) e suas complicações. Ao longo da pesquisa, Carlos Chagas propôs algumas complicações da doença que, mais tarde, mostraram-se equivocadas. Exemplo disso foi ao anunciar que o bócio era um sintoma da Tripanossomíase Americana. O trabalho que Carlos Chagas realizou foi o primeiro e o único na história da medicina, descrevendo completamente a nova doença infecciosa: anatomia patológica, o meio de transmissão (Triatoma Infestans), etiologia, suas formas clínicas e sua epidemiologia.

Carlos Chagas também foi o primeiro a descobrir o gênero Pneumocystis, um fungo parasita nos pulmões dos animais experimentalmente infectados com tripanossoma. Nessa altura ele não o reconheceu como um organismo distinto e portanto ele descreveu o gênero Schizotrypanum de modo a acomodar ambos os ciclos de vida, que ele ilustrou. Porém, a sua descoberta levou outros a aprofundar a investigação e descrever Pneumocystis como um gênero distinto, que agora é reconhecido como um fungo. Carlos Chagas, seguia atentamente a literatura e rapidamente confirmou a distinção, pelo que novamente adotou o nome Trypanosoma Cruzi que havia originalmente cunhado. Pneumocystis é agora associado a uma outra doença, PCP ou Pneumocistose, causada por uma espécie (P. Jirovecii), mas a espécie original de Pneumocystis, observada por Carlos Chagas em espécies de porquinho-da-Índia, não foi ainda nomeada como uma espécie separada.

Repercussão da Descoberta

A descoberta da doença foi levada ao conhecimento da comunidade científica através de uma nota prévia escrita por Carlos Chagas em 15 de abril de 1909 e publicada na Revista Brasil-Médico em 22 de abril. No mesmo dia, Oswaldo Cruz anunciou formalmente a Academia Nacional de Medicina, que decidiu levar a Lassance uma comissão para verificar o trabalho. Miguel Couto, presidente da comissão, sugeriu que a nova doença se chamasse Doença de Chagas, mas o próprio Carlos Chagas preferia chamar a doença como Tripanossomíase Americana.

Na Europa o trabalho teve repercussão em revistas científicas, em especial na Alemanha e na França, pois esses países tinham interesses em doenças tropicais, visto que a Tripanossomíase Africana vinha prejudicando o plano imperialista em tal continente.

Em agosto de 1909 Carlos Chagas publicou o primeiro volume da revista do Instituto de Manguinhos, "Memórias do Instituto Oswaldo Cruz", um estudo completo sobre a Doença de Chagas e o ciclo evolutivo do protozoário que causa da doença. Esse trabalho garantiu a ascensão do cientista na instituição, sendo promovido a "chefe de serviço" em março de 1910.

Em 26 de outubro de 1910, a Academia Nacional de Medicina reconheceu formalmente o trabalho realizado pelo cientista e o recebeu como membro honorário, já que tal entidade não dispunha de lugares vagos no momento. Nessa solenidade, Carlos Chagas proferiu a primeira conferência sobre a doença. Em 1911 divulgou os resultados à Sociedade de Medicina e Cirurgia de Minas Gerais e, em agosto, uma segunda conferência à Academia Nacional de Medicina. Nesse mesmo ano ocorreu a Exposição Internacional de Higiene e Demografia, em Dresden, Alemanha, onde, no pavilhão brasileiro, foi mostrado a doença, que despertou grande público. Em 1912 foi a vez da classe médica paulista recebê-lo para uma apresentação sobre a doença descoberta em Lassance.

O estudo da moléstia avançou nas décadas de 1940 e 1950 através do Instituto Oswaldo Cruz, no município mineiro de Bambuí.

Expedição à Amazônia

Na década de 1910, o Instituto Oswaldo Cruz promoveu viagens científicas no interior brasileiro, com o objetivo de investigar os problemas médicos do país. Em 1912, com a crise do extrativismo da borracha na Amazônia, o governo federal firmou parceria com a instituição para verificar as condições de salubridade do vale do Rio Amazonas e elaborar um plano de exploração racional dos recursos naturais.

Assim, em agosto de 1912, Carlos Chagas liderou um grupo que incluía mais dois cientistas e um fotógrafo, onde visitaram a população ribeirinha do Rio Solimões, Rio Negro e Rio Purus, e analisaram as condições de moradia, abastecimento de água, esgoto, alimentação e assistência médica. Também realizaram observações clínicas sobre as epidemias que assolavam a região, em especial a malária. Também foram recolhidas amostras de plantas de cunho medicinal, insetos causadores de doenças e peixes foram analisados em busca de novos parasitas.

A expedição encerrou-se em março de 1913, e os resultados encontrados foram expostos por Carlos Chagas em outubro daquele ano, na Conferência Nacional da Borracha, organizada pelo Senado Federal no Rio de Janeiro. Com tal conferência e o relatório escrito por Oswaldo Cruz e entregue para o Ministério da Agricultura, foi possível formar um panorama da situação de abandono social que a região vivia, sem assistência do Governo Federal. Também foi possível viabilizar o desenvolvimento econômico da região. Tal expedição foi fundamental para fortalecer o movimento que, ao longo da década de 1910, buscou alertar o governo para a importância do saneamento rural do país e para a necessidade de uma ampla reforma dos serviços de saúde pública brasileiros.

Gripe Espanhola

A Gripe Espanhola chegou ao Brasil em 1918 e, no Rio de Janeiro, tal enfermidade atacou dois terços da população (por volta de seiscentos mil habitantes) e fez onze mil vítimas, devido às precárias condições de higiene e saneamento, além da falta de assistência médica. Tal quadro fez com que o então presidente da República Wenceslau Braz convidasse Carlos Chagas a assumir o controle da situação.

Tal ação não foi fácil, pelo fato do próprio estar doente, além de sua mulher e de seus filhos. Porém, dentre suas atitudes, criou um serviço especial de postos de atendimento à população em vinte e sete pontos diferentes da cidade. Ao mesmo tempo que providenciou tal tarefa, criou cinco hospitais emergenciais e publicou cartazes e panfletos de alerta aos habitantes e buscando apoio de profissionais da sua área, conseguindo ajuda da maioria dos clínicos cariocas e de vários membros da Academia Nacional de Medicina.

No Instituto Oswaldo Cruz, incentivou a pesquisa da doença, como causa da infecção, meio de contágio e diagnóstico. Carlos Chagas trabalhou integralmente para o desaparecimento da doença, em novembro do mesmo ano.

Direção do Instituto Oswaldo Cruz

Três dias após a morte de Oswaldo Cruz, em 14 de fevereiro de 1917, Carlos Chagas foi nomeado para a direção do Instituto de Manguinhos através de um decreto presidencial. Ao assumir o cargo, buscou consolidar o modelo estabelecido por Oswaldo Cruz semelhante ao Instituto Pasteur, onde a autonomia administrativa e financeira eram as características principais, além de estreitar a relação entre a pesquisa, o ensino e a fabricação de produtos medicinais e veterinários.

No campo da pesquisa, sua administração ficou marcada pela investigação das principais epidemias que assolavam a zona rural brasileira em sua época, e com o objetivo de controlá-las, inaugurou em 1918 o Hospital Oswaldo Cruz, nas dependências do Instituto, para constituir em um centro de estudos para os pesquisadores do Instituto. Mais tarde, em 1942, o hospital passaria a ser chamado Hospital Evandro Chagas.

Carlos Chagas foi responsável pela criação de seções científicas independentes, separando-as por áreas de conhecimento, com o intuito de estabelecer uma divisão de trabalho mais nítida no Instituto. Assim, são instaladas seções de Química Aplicada, Micologia, Bacteriologia, Zoologia, Anatomia, Protozoologia e Fisiologia. Quanto ao ensino, o cientista amplia o programa dos Cursos de Aplicação do Instituto, oferecidos desde 1908 como especialização em Microbiologia.

Na área de produção, Carlos Chagas diversificou os medicamentos e produtos fabricados no Instituto, com a estimulação do comércio dos mesmos e a renda gerada por eles tornou-se fundamental para o funcionamento da instituição. Uma medida para a expansão da área de Produção foi a criação do Serviço de Medicamentos Oficiais, destinado para produzir, entre outros medicamentos, a quinina, usada no combate à malária. Na década de 1920 o Instituto ficou responsável por verificar o controle de qualidade dos produtos utilizados na medicina brasileira, tanto os fabricados em laboratórios nacionais quanto os importados. Outra iniciativa foi a incorporação do Instituto Vacinogênio Municipal, ficando a cargo do Instituto Oswaldo Cruz a fabricação da vacina antivaríola.

Em 1920 a autonomia administrativa do Instituto ficou preservada, mesmo que estivesse subordinada ao Ministério da Justiça e Negócios Interiores. Financeiramente, a autonomia assegurou-se graças ao regulamento criado por Carlos Chagas e aprovado em 1919, onde toda a receita gerada por trabalhos realizados em Manguinhos a pedido de particulares seria dividida igualmente entre a instituição e os funcionários que os executassem.

Porém, com o aumento das atividades do Instituto, no decorrer da década de 1920, acarretou num acúmulo de problemas financeiros, além das limitações orçamentárias agravadas pela crise econômica de 1929. Isso prejudicou o aperfeiçoamento tecnológico e a manutenção das instalações físicas da instituição, com uma conseqüente perda da qualidade dos produtos.

Tal quadro se agravou na década de 1930, onde, com a criação do Estado Novo e a ditadura de Getúlio Vargas, aos poucos pôs-se o fim da autonomia administrativa e um aumento da intervenção do Estado. A nova ordem política brasileira trouxe conseqüências diretas a estrutura e o funcionamento de Manguinhos, que, sob a denominação de Departamento de Medicina Experimental, passou à jurisdição do recém-criado Ministério da Educação e Saúde. A partir desse momento até a sua morte, em 1934, Carlos Chagas enfrentou os efeitos da perda do modelo institucional criado por Oswaldo Cruz.


Direção do Departamento Nacional de Saúde Pública

Ao tomar posse em 1919, para reorganizar a saúde pública nacional, o presidente Epitácio Pessoa nomeou Carlos Chagas para a então Diretoria Geral de Saúde Pública (DGSP), acumulando a função com aquela praticada em Manguinhos. Um ano seguinte tal instituição se chamaria Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP), ligado ao Ministério da Justiça de Negócios Exteriores.

Sua primeira atitude, exposta na Bilbioteca Nacional em fevereiro de 1921, foi a centralização das atividades, que até então o  Departamento Nacional de Saúde Pública vinha trabalhando com a descentralização, onde os estados e municípios brasileiros tinham maior liberdade de organizar seus sistemas sanitários. Acordos com os mesmos foram essenciais para a segunda ação - a interiorização, em busca da erradicação das epidemias rurais, principalmente malária, ancilostomose e tripanossomíase americana. Em paralelo a esse projeto, criou um minucioso de medidas referentes à higiene pública.

Com apoio da Fundação Rockefeller, Carlos Chagas criou o Serviço de Enfermagem Sanitária e, com o desdobramento desse serviço, fundou, em 1923, a Escola de Enfermagem Anna Nery, introduzindo o ensino profissionalizante de Enfermagem no Brasil. Os alunos foram instruídos também no Hospital São Francisco de Assis, fundado também por Carlos Chagas para tal finalidade.

Carlos Chagas também foi responsável pela criação do primeiro curso de Higiene e Saúde Pública do Brasil, onde garantia vagas nos cargos federais aos aprovados. Como diretor do  Departamento Nacional de Saúde Pública, representou o país no Comitê de Higiene da Liga da Nações, associação sediada em Genebra e percussora da Organização Mundial de Saúde (OMS). O médico permaneceu à frente do órgão até novembro de 1926, ao fim do mandato do presidente Arthur Bernardes. O Departamento Nacional de Saúde Pública foi transferido para o Ministério da Educação e Saúde, em função da reforma política do Estado Novo.

Ensino Médico

Carlos Chagas acreditava que a ciência médica era sustentada por dois pilares: o primeiro defende uma estreita articulação entre o ensino e a pesquisa. O segundo dá importância de introduzir nos cursos de Medicina o estudo específico de doenças tropicais e o combate dos problemas de saúde pública brasileira, como malária, ancilostomose e tripanossomíase. Com isso, o país teria profissionais qualificados para tratar dos probelmas sanitários.

Em 1925, o Ministério da Justiça e Negócios Exteriores promoveu a reforma na educação brasileira, permitindo a Carlos Chagas pôr em prática o seu objetivo, criando a especialização em Higiene e Saúde Pública e a cadeira de Doenças Tropicais na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro no ensino médico oftalmologista.

Morte

Carlos Chagas faleceu aos 55 anos de idade, na cidade do Rio de Janeiro vítima de um Infarto do Miocárdio.

Prêmios e Homenagens

Idealizador do Centro Internacional de Leprologia, Carlos Chagas recebeu diversas homenagens: uma herma na Praia de Botafogo foi construída em sua memória, de autoria do escultor Modestino Kanto. Um município do estado de Minas Gerais recebeu seu nome, além de cédulas de Cruzado e depois Cruzado Novo, terem circulado com sua imagem durante a década de 1980.

Quanto aos prêmios recebidos, em 1912 chegou o primeiro, o Prêmio Schaudinn, cedido pelo Instituto de Moléstias Tropicais de Hamburgo, Alemanha. Em 1921 foi nomeado Artium Magistrum, Honoris Causa, da Universidade de Harvard, Estados Unidos. Em 1923 ganhou o Prêmio Hors-Concours, na conferência comemorativa sobre o centenário de Louis Pasteur, em Estrasburgo, França, e em 1925 o Prêmio Kummel, da Universidade de Hamburgo, Alemanha. Ainda receberia em 1926, 1929 e 1934 outros títulos Honoris Causa, vindos da Universidade de Paris, Universidade de Lima e Universidade Livre de Bruxelas, respectivamente.

Recebeu diplomas da Universidade Nacional de Buenos Aires (1917), da Faculdade de Medicina da Universidade de Hamburgo (1925) e da Cruz Vermelha Alemã (1932). Foi nomeado membro da Academia Brasileira de Medicina em 1910, assim que o estudo foi divulgado. Como não havia vagas na época, foi decretado que ele seria um membro honorário. Também pertenceu à Société de Patologie Exótique da França (1919), à Physicans Club of Chicago, dos Estados Unidos (1921), à Associação Médica Panamericana (1922), da Sociedade de Artes Médicas das Índias Orientais Neerlandesas (1924), à Academia de Medicina de New York e à Kaiserlich Deutsch Akademie de Naturforscher zur Halle (1926), à Real Sociedade de Medicina Tropical e Higiene de Londres (1928), da Sociedade de Biologia de Buenos Aires e Academia de Medicina de Paris (1930).

Recebeu o título, em 1920, de Cavaleiro da Ordem da Coroa da Itália. Em 1923 de Comendador da Coroa da Bélgica e de Cavaleiro da Ordem Nacional da Legião de Honra da França. Em 1924 o Grau de Oficial da Ordem de São Thiago, de Portugal. Em 1925 o de Comendador da Ordem de Afonso XII, Espanha. Em 1926 Comendador da Ordem de Isabel, a Católica da Espanha e em 1929 Cavaleiro da Ordem da Coroa da Romênia. Além disso, Carlos Chagas recebeu duas indicações para o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia, embora não tenha sido laureado.

Publicações
  • 1903 - Estudo hematológico do impaludismo, trabalho de tese para Doutorado, Rio de Janeiro.
  • 1909 - Nova espécie de tripanossoma humano, boletim da Société de Pathologie Exotique, Paris.
  • 1909 - Nova tripanossomíase humana, Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro.
  • 1913 - As formas do novo tripanossoma.
  • 1913 - Revisão do ciclo de vida do tripanossoma cruzi, nota suplementar, Rio de Janeiro.
  • 1916 - Processos patogênicos da tripanossomíase americana, Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro.
  • 1921 - Tripanossomíase americana: estudo do parasita e sua transmissão, The Chicago Medical Recorder, Chicago.
  • 1925 - Tripanossomíase americana, doença de Chagas, Berlim.
  • 1928 - Aspectos evolutivos do Trypanosoma cruzi e do inseto transmissor, notas da Société Biologique, Paris.
  • 1928 - Aterações decorrentes da doença de Chagas, Paris.
  • 1929 - Tripanossomíase americana, Doença de Chagas, En: Enrico Villela e H. da Rocha Lima, publicado na Handbuch der Tropenkrankheiten, Berlim.

Fonte: Wikipédia

Bartolomeu de Gusmão


BARTOLOMEU LOURENÇO DE GUSMÃO
(39 anos)
Sacerdote, Cientista e Inventor

* Santos, SP (1685)
+ Toledo, Espanha (18/11/1724)

Bartolomeu Lourenço de Gusmão, foi um sacerdote secular, cientista e inventor nascido na então colónia portuguesa do Brasil, Capitania de São Vicente, em Santos, jesuíta, famoso por ter inventado o primeiro aeróstato operacional, a que chamou de Passarola. Cognominado "O Padre Voador", é uma das maiores figuras da história da aeronáutica mundial.

Primeiros Anos

Foi batizado com o nome simplesmente de Bartolomeu Lourenço, em 19 de dezembro de 1685, na Igreja Paroquial da vila de Santos pelo padre Antônio Correia Peres. Era o quarto filho de Francisco Lourenço Rodrigues e Maria Álvares. Mais tarde, em 1718, que adota o apelido de Gusmão em homenagem ao preceptor e protetor jesuita Alexandre de Gusmão.

O casal teria tido ao todo doze descendentes, seis homens e seis mulheres, um dos quais, Alexandre de Gusmão, viria a se tornar importante diplomata no reinado de Dom João V. Já a maioria dos seus irmãos optou ou foi orientada pelos pais a devotar-se à vida eclesiástica, dentre esses, Bartolomeu.

O menino cursou as primeiras letras provavelmente na própria Capitania de São Vicente, no Colégio São Miguel, então o único estabelecimento educacional da região. Prosseguiu os estudos na Capitania da Baía de Todos os Santos. Aí ingressou no Seminário de Belém, em Cachoeira, onde teria início a sua profícua carreira de inventor.

A edificação, situada sobre um monte de cem metros de altura, possuía precário abastecimento de água, que tinha que ser captada e transportada em vasos a partir de um brejo subjacente. Percebendo o problema, Bartolomeu inteligentemente planejou e construiu um maquinismo para levar a água do brejo até o seminário por meio de um cano longo. O invento, testado com absoluto sucesso, foi considerado admirável e de grande utilidade, inclusive pelo próprio reitor e fundador do seminário, o renomado sacerdote Alexandre de Gusmão.

Terminado o curso no Seminário de Belém em 1699, Bartolomeu transferiu-se para Salvador, capital do Brasil à época, e ingressou na Companhia de Jesus, de onde saiu antes de ser ordenado, em 1701. Viajou para Portugal, onde chegou já famoso pela memória extraordinária, ficando hospedado em Lisboa, na casa do 3º Marquês de Fontes, que se impressionara com os dotes intelectuais do jovem. Contava ele então com apenas dezesseis anos.

Em 1702, Bartolomeu retornou ao Brasil e deu início ao processo de sua ordenação sacerdotal. Três anos depois ele requereu à Câmara da Bahia a patente para o seu aparelho inventado anos antes - invento para fazer subir água a toda a distância e altura que se quiser levar. A patente foi expedida em 23 de março de 1707 pelo rei Dom João V. Foi essa a primeira patente de invenção outorgada a um brasileiro.

Em 1708, já ordenado padre, Bartolomeu embarcou mais uma vez para Portugal. Logo após sua chegada, em 1 de dezembro, matriculou-se na Faculdade de Cânones da Universidade de Coimbra. Passados alguns meses, contudo, abandonou a faculdade para instalar-se em Lisboa, aonde foi recebido com sumo agrado pelo Rei Dom João V e pela Rainha Maria Ana da Áustria, apresentado que fora aos soberanos por um dos maiores fidalgos da Corte, Dom Rodrigo Anes de Sá Almeida e Menezes. Esse homem era ninguém menos que o 3º Marquês de Fontes, o mesmo que o havia recolhido à sua casa quando da sua primeira estada em Portugal.

Na capital portuguesa o padre Bartolomeu pediu patente para um "instrumento para se andar pelo ar" - que se revelaria ser, mais tarde, o que hoje se conhece por aeróstato ou balão -, a qual foi concedida no dia 19 de Abril de 1709. O sacerdote era recém-chegado do Brasil, sua terra natal, onde já era conhecido como inventor. Mas aquela criação era de uma ousadia inédita. Bartolomeu de Gusmão queria voar, e conseguiu. Ele criou um objeto capaz de deslizar pela atmosfera sem apoio nenhum. "Pela primeira vez na história, um aparelho construído pelo homem venceu a gravidade", disse Araguaryno Cabrero dos Reis, brigadeiro reformado da Força Aérea Brasileira.

Anos antes, ao examinar o comportamento de uma chama, não se sabe se de uma vela ou fogueira, Bartolomeu de Gusmão percebeu que o ar quente podia elevar pequenos objetos. Por falta de documentos históricos, é difícil saber como tudo realmente ocorreu. Especula-se que a descoberta tenha se dado quando uma pequena bolha de sabão, ao passar sobre uma vela, foi fortemente jogada para as alturas. O fenômeno pode ter ocorrido ainda com pedaços de papel que, queimados, transformaram-se em fuligem e ascenderam. Foi isso que inspirou o padre a projetar o primeiro aeróstato, um aparelho parecido com nosso balão de São João.

Bartolomeu de Gusmão (Benedito Calixto)
As Experiências Com Balões

Em agosto, finalmente, Bartolomeu de Gusmão fez perante a corte portuguesa cinco experiências com balões de pequenas dimensões construídos por ele: na primeira, realizada no dia 3 na Casa do Forte, Palácio Real, o protótipo utilizado pegou fogo antes de subir; na segunda, feita no dia 5 noutra dependência do palácio, a Casa Real, o aeróstato, provido no fundo duma tigela com álcool em combustão, se elevou a 4 metros, quando começou a arder ainda no ar, sendo imediatamente derrubado por dois serviçais armados de paus, receosos de um incêndio aos cortinados do recinto; na terceira, feita no dia 6 novamente na Casa do Forte, o balão, contendo no interior uma vela acesa, logrou fazer um vôo curto, mas se queimou no pouso; na quarta, feita no dia 7 no Terreiro do Paço, hoje Praça do Comércio, o balonete elevou-se a grande altura, pousando lentamente minutos depois; na quinta, feita no dia 8 na Sala das Audiências, no interior do Palácio Real, o globo subiu até o teto do aposento, aí se demorando, quando enfim desceu com suavidade.

Em 3 de outubro de 1709, na ponte da Casa da Índia, o padre fez nova demonstração do invento. O aparelho utilizado era maior que os anteriores, mas ainda incapaz de carregar um homem. A experiência teve êxito absoluto: o aeróstato subiu alto, flutuou por um tempo não medido e pousou sem estrépito.

Cinco testemunhas registraram essas experiências: o cardeal italiano Miquelângelo Conti, eleito papa em 1721 sob o nome de Inocêncio XIII, os escritores Francisco Leitão Ferreira e José Soares da Silva, nomeados membros da Academia Real de História Portuguesa em 1720, o diplomata José da Cunha Brochado e o cronista Salvador Antônio Ferreira, portugueses.

Em 1843 o escritor Francisco Freire de Carvalho disse haver tomado conhecimento, por intermédio de um ancião chamado Timóteo Lecussan Verdier, de uma outra experiência aerostática, assistida pelo diplomata português Bernardo Simões Pessoa, em que o balão partiu da Torre de São Roque e caiu junto à Costa da Cotovia por detrás do Jardim São Pedro d’Alcântara. Segundo Francisco Freire de Carvalho, Timóteo Lecussan Verdier, por sua vez, assegurava que o relato da ascensão lhe fora transmitido pelo próprio Bernardo Simões Pessoa em tempos muito anteriores ao ano de 1783, quando dos primeiros vôos de balões na França.

Lamentavelmente, todas essas experiências, embora assistidas por ilustres personalidades da sociedade portuguesa da época, não foram suficientes para a popularização do invento. Os pequenos balões exibidos, além de não haverem sido encarados como inovação importante ou útil, por serem desprovidos de qualquer tipo de controle - eram levados pelo vento -, foram considerados perigosos, pois podiam, como se vira, provocar incêndios. Esses fatores desestimularam a construção de um modelo grande, tripulável.

O anúncio sobre a tal máquina de voar inquietou a sociedade de Lisboa no verão de 1709. Em 3 de agosto, Bartolomeu de Gusmão mostrou à família real, fidalgos e autoridades eclesiásticas do que era capaz a sua engenhoca. Durante a primeira tentativa, os ilustres convidados esperavam impacientes na sala de audiências do Palácio, quando veio a frustração. Vítima de suas próprias chamas, o pequeno balão de papel cheio de ar quente foi queimado antes de alçar vôo. O segundo ensaio teria ocorrido dois dias depois. Ansiosa, a platéia da ocasião teve mais sorte: o globo de menos de meio metro de comprimento subiu pouco mais de quatro metros. Alguns criados do Palácio, preocupados com a possibilidade de o invento incendiar as cortinas, lançaram-se contra o balão para que ele não alcançasse o teto.

O mérito de Bartolomeu de Gusmão foi reconhecido somente na terceira tentativa. Dessa vez, no pátio do Palácio, perante o Rei de Portugal, Dom João V, e a Rainha, Dona Maria Anad, o aeróstato ganhou os ares. Ergueu-se lentamente, indo cair, quando esgotada sua chama, no terreiro da casa real. A inédita máquina mais leve do que o ar impressionou o público, mas não cumpriu sequer metade das façanhas que Bartolomeu de Gusmão prometera a Dom João V.

Em seus pedidos de patente, ele anunciava feitos fantásticos. Dizia que sua invenção facilitaria a descoberta de novas terras, fazendo "da nação portuguesa a glória deste descobrimento". Afirmava tratar-se "de um instrumento para se andar pelo ar, da mesma sorte que pela terra e pelo mar, e com muita brevidade, fazendo-se muitas vezes duzentas e mais léguas de caminho por dia". Azar de Bartolomeu de Gusmão. A Corte não estava preocupada com a ciência. Eles queriam era ganhar dinheiro com ouro e ter uma vida suntuosa, diz Henrique Lins de Barros, pesquisador da história da aviação e autor do livro Santos Dumont: O Homem Voa!

"Passarola" - Original no acervo da Torre do Tombo, em Lisboa

A Passarola

Embora não tenha surpreendido os portugueses, o aeróstato aguçou o imaginário do restante da Europa. A notícia que se espalhou rapidamente foi de que um padre havia voado nos ares de Lisboa. A máquina ganhou proporções mitológicas e ficou conhecida, a partir daí, como Passarola. O nome se deve a um desenho apócrifo que surgiu na época. A imagem representava o aeróstato em forma de um pássaro, com uma cabeça de águia e cercado por instrumentos científicos. A ilustração trazia ainda o próprio Bartolomeu de Gusmão a bordo, como se ele tivesse voado dentro de seu engenho. Suspeita-se que o próprio "Padre Voador", que na realidade nunca voou, seria o autor do desenho, junto com seu discípulo e amigo Conde de Penaguião. Uma brincadeira de rapazes, com a qual eles pretendiam despistar possíveis interessados em copiar o experimento de Bartolomeu de Gusmão.

Prova disso é que o desenho da Passarola não mostrava a fonte térmica responsável pela subida do balão, característica imprescindível para que o invento funcionasse. "Ele não dá a chave do problema, que é a fonte de calor, e ainda se coloca dentro do invento. É possível que tenha feito isso para esconder os segredos de sua descoberta", afirma Lins de Barros. Em função da imagem fantasiosa, diversos historiadores europeus e norte-americanos situaram Bartolomeu de Gusmão como um dos muitos precursores da aeronáutica cujos trabalhos não possuíam nenhuma base científica. Depois das especulações desastrosas, ele abandonou completamente seu projeto.


As primeiras ilustrações da Passarola haviam sido na verdade elaboradas pelo filho primogênito do 3º Marquês de Fontes, Dom Joaquim Francisco de Sá Almeida e Meneses, com a conivência de Bartolomeu de Gusmão. O 8º Conde de Penaguião e futuro 2º Marquês de Abrantes contava 14 anos em 1709 e era, então, aluno de matemática do padre, sendo a única pessoa à qual ele permitia livre acesso ao recinto em que o engenho voador era guardado. Como o rapaz vivesse assediado por curiosos, que constantemente lhe faziam indagações acerca da invenção, resolveu ele, para deixar de ser importunado, elaborar o exótico desenho da Passarola, em que tudo era propositadamente falseado. E para preservar o verdadeiro princípio da invenção – o Princípio de Arquimedes –, atribuiu a ascensão da engenhoca ao magnetismo, que era então a resposta para quase todos os mistérios científicos. Esperava dessa maneira melhor proteger o segredo confiado à sua guarda e ludibriar os bisbilhoteiros. Comunicou o plano a Bartolomeu de Gusmão, que o aprovou, e fingiu deixar o desenho escapar por descuido. A Passarola, inspirada ao que parece na fauna fabulosa de algumas lendas do Brasil, acabou sendo rapidamente copiada, logo se espalhando pela Europa em várias versões, para grande riso dos dois embusteiros.

Toda essa trama seria descoberta anos depois por um poeta italiano, Pier Jacopo Martello (1625 - 1727), e revelada por ele na edição de 1723 do livro Versi e Prose, em que fazia um longo e meticuloso histórico das tentativas do homem para voar, das mais antigas às mais recentes daquele tempo.

A Inquisição

Entre 1713 e 1716 viajou pela Europa. Em 1713 registrou na Holanda o invento de uma "máquina para a drenagem da água alagadora das embarcações de alto mar", patente que só veio a público em 2004 graças a pesquisas realizadas pelo arquivista e escritor brasileiro Rodrigo Moura Visoni).

Viveu em Paris, trabalhando como ervanário para se sustentar, até que encontrou seu irmão Alexandre de Gusmão, secretário do embaixador de Portugal na França.

O padre Bartolomeu de Gusmão voltou a Portugal, mas foi vítima de insidiosa campanha de difamação. Acusado pela Inquisição de simpatizar com cristãos-novos, foi obrigado a fugir para a Espanha, no final de setembro de 1724, com um seu irmão mais novo, Frei João Álvares, pretendendo chegar à Inglaterra.

Segundo o testemunho que, mais tarde, João Álvares daria à Inquisição espanhola, Bartolomeu de Gusmão ter-se-ia convertido ao judaísmo, em 1722, depois de atravessar uma crise religiosa. O relato de João Álvares ao Santo Ofício, ainda que deva ser considerado com cautela, mostra, segundo Joaquim Fernandes, aspectos místicos, messiânicos e megalômanos do "Padre Voador".

Família Influente

Um dos motivos para Bartolomeu de Gusmão ter boas relações com a realeza estava na proximidade com seu irmão Alexandre de Gusmão, homem de confiança do rei Dom João V. Alexandre auxiliou o rei durante as negociações do Tratado de Tordesilhas, que definiu as áreas do Novo Mundo entre Espanha e Portugal.

Inventor Incansável

Além do balão e da bomba elevatória de água, Bartolomeu de Gusmão inventou uma forma de drenar embarcações – a criação foi definida na época como um "processo para esgotar água sem gente, dos navios alagados". Anos depois, na Holanda, ele também criou um sistema de lentes para assar carne ao sol.

Herdeiros do Padre

Foi só 74 anos depois da criação do padre brasileiro, que um balão tripulado alcançou o céu com sucesso. Depois de seis anos de pesquisas e experiências, os irmãos franceses Joseph Michel e Jacques Étienne Montgolfier conseguiram, em 4 de junho de 1783, na cidade de Annonay, voar dois quilômetros, a uma altitude máxima de 2 mil metros.

Morte

Em Toledo, Espanha, Bartolomeu de Gusmão adoece gravemente, recolhendo-se ao Hospital da Misericórdia daquela cidade, onde veio a falecer em 18 de novembro de 1724, aos 38 anos. Antes de morrer, porém, confessou-se e recebeu a comunhão, conforme o rito católico, e assim foi sepultado na Igreja de São Romão, em Toledo. Foram feitas, ao longo de décadas, várias tentativas para localizar a sua tumba, o que só ocorreu em 1856. Parte dos restos mortais foi transportada para o Brasil e se encontra, desde 2004, na Catedral Metropolitana de São Paulo.

Fonte: WikipédiaGuia do Estudante

Oswaldo Cruz

OSWALDO GONÇALVES CRUZ
(44 anos)
Cientista, Médico, Bacteriologista, Epidemiologista e Sanitarista

* São Luiz do Paraitinga, SP (05/08/1872)
+ Petrópolis, RJ (11/02/1917)

Foi o pioneiro no estudo das moléstias tropicais e da medicina experimental no Brasil. Fundou em 1900 o Instituto Soroterápico Nacional no bairro de Manguinhos, no Rio de Janeiro, transformado em Instituto Oswaldo Cruz, respeitado internacionalmente.

Oswaldo Gonçalves Cruz, nascido no dia 5 de agosto de 1872, na cidade de São Luiz do Paraitinga, foi criado na Gávea, bairro da zona sul do Rio de Janeiro. Filho do médico Bento Gonçalves Cruz e de Amália Taborda de Bulhões, recebeu uma criação muito rígida. Desde cedo, decidiu que profissão seguir, tendo ingressado na faculdade de medicina aos 15 anos de idade. Entretanto, não era um aluno brilhante, mas desde a primeira vez que observou microrganismos ao microscópio, apaixonou-se por eles.

Aos 20 anos de idade casou-se com Emília da Fonseca, sua namorada de adolescência, com quem teve seis filhos. Chamava sua família de sua "tribo" e sua esposa de "minha querida Miloquinha".

Em 1896, viajou para Paris onde estagiou no prestigiado Instituto Pasteur. Para sustentar sua família na cidade francesa, Oswaldo empregou-se em uma clínica de urologia. No entanto, esse ramo não agradava Oswaldo, que arranjou, então, um estágio no laboratório de toxicologia da cidade: investigação criminal.

Essas atividades não afastaram Oswaldo de seu objetivo de interesse, a bacteriologia. Foi muito bem recebido no Instituto Pasteur, sendo até dispensado de pagar pelo material usado nas pesquisas. Também fez estágios em uma fábrica de vidraria para laboratório, tornando-se, posteriormente, o primeiro a fabricar ampolas no Brasil.

Ao retornar ao Brasil, foi designado pela Diretoria Geral de Saúde Pública para investigar casos suspeitos de peste bubônica em Santos. O diagnóstico foi confirmado. O único tratamento para a doença, o soro antipestoso, não era produzido no país. Fora então criados dois institutos soroterápicos, um em São Paulo e outro no Rio de Janeiro. O barão precisava de um diretor técnico e foi ao Instituto Pasteur pedir a indicação de um nome para o cargo, sendo que indicaram um cientista do próprio país, Oswaldo Cruz, que no ano de 1902 assumiu a direção geral do Instituto, de onde só saíra 14 anos depois.

O Rio de Janeiro era assolado por doenças como varíola e febre amarela. Os cortiços eram numerosos e as primeiras favelas já surgiam. Nesse cenário, Oswaldo Cruz foi nomeado diretor geral de Saúde Pública. Para debelar a doença, tomou providências polêmicas. Convicto da eficiência de suas ações (combate a ratos e mosquitos e vacinação obrigatória da população), talvez tenha lhe faltado um pouco de tato.

Em excursão à Amazônia, Oswaldo Cruz e Belisário Penna
A imunização obrigatória, juntamente à reforma urbana que derrubou cortiços e favelas gerou uma grande revolta na população. As manifestações contra a vacina evoluíram para uma rebelião – a Revolta da Vacina. Mesmo achando que poderia ser morto, Oswaldo não deixou de ir trabalhar. Um bilhete de despedida com a sua caligrafia foi encontrado escondido na cartola, caída no chão no meio do tumulto: "Morreu pelo bem do povo, a 10 de novembro de 1904".

Muito Criticado pela imprensa, virou um dos principais alvos de cronistas e cartunistas, tendo guardado todas as caricaturas e notícias publicadas a seu respeito para lembrar-se da injustiça que sofrera, pois tinha certeza de que o valor de suas medidas tomadas seria reconhecido. Tinha razão: no ano de 1908, outro surto de varíola levou a população a formar filas nos postos de vacinação.

Oswaldo Cruz representou o Brasil no 14º Congresso Internacional de Higiene e Demografia de Berlim, em 1907, quando apresentou os trabalhos desenvolvidos no Instituto de Manguinhos. O júri do congresso decide, então, dar - entre os 123 participantes da reunião - o primeiro prêmio ao Brasil (prêmio, aliás, pela primeira vez concedido a uma instituição estrangeira).

Depois de se afastar da Diretoria de Saúde Pública, Oswaldo Cruz aceita, em 1910, o convite para estudar o saneamento da região em que se construía a estrada de ferro Madeira-Mamoré. Passa um mês na região, que percorre minuciosamente, fazendo amplo levantamento das doenças. Graças às suas conclusões, a construção da ferrovia pôde ser levada adiante.

No ano de 1916, Oswaldo deixou o Instituto devido a problemas de saúde que havia previsto. Nove anos antes, já com os primeiros sintomas da nefrite, examinara a própria urina e encontrara albumina, o que não era um bom sinal. Fizera então um testamento e um projeto de seu próprio túmulo, dando ênfase ao isolamento do cadáver: o caixão deveria ser hermeticamente fechado, revestido de bronze e asfalto (projeto que acabou não sendo usado).

Por sugestão do filho, Oswaldo mudou-se para Petrópolis. Foi o primeiro prefeito da cidade, mas sua gestão foi curta, pois a piora de sua saúde o levou a pedir demissão do cargo. Em 11 de fevereiro de 1917, em uma manifestação em frente à casa do sanitarista, os adversários políticos comemoravam a derrota do opositor. Enquanto isso, cercado de amigos, morria Oswaldo Cruz. Falecia o sanitarista, mas a semente deixada por ele estava germinando: o Instituto de Manguinhos.

Homenagens

Na cidade do Rio de Janeiro, uma estação de trem, uma avenida, um bairro e diversas escolas têm o nome de Osvaldo Cruz, além do instituto soroterápico (atual Fundação), por ele fundado. Um município do estado de São Paulo também tem o seu nome.

Em 1909, quando Carlos Chagas descobriu o protozoário causador da Tripanossomíase Americana (popularmente conhecida como Doença de Chagas) batizou-o com o nome de Trypanosoma Cruzi, em homenagem a Osvaldo Cruz.

Homenageado na capital de São Paulo, com o logradouro Praça Oswaldo Cruz, no início da Avenida Paulista.

Em 1913 foi fundado o Centro Acadêmico Oswaldo Cruz, entidade representativa dos estudantes de medicina da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

Em 1936 o sanitarista teve a sua efígie cunhada na moeda brasileira de 400 réis, e, em 1986, impressa nas notas de Cz$ 50,00 (cinqüenta cruzados).


Em 1983, a Marinha do Brasil homenageou-o com o NAsH Oswaldo Cruz (U-18), que opera nos rios da Amazônia a partir da cidade de Manaus.

Em 2003, Marcos Palmeira interpretou o sanitarista no curta metragem de Silvio Tendler, Oswaldo Cruz – O Médico do Brasil.

Academia Brasileira de Letras

Osvaldo Cruz é o segundo ocupante da cadeira 5 na Academia Brasileira de Letras, eleito em 11 de maio de 1912, na sucessão de Raimundo Correia e recebido pelo acadêmico Afrânio Peixoto em 26 de junho de 1913.

Fonte: Info Escola, UOL Educação e Wikipédia