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Moise Safra

MOISE YACOUB SAFRA
(80 anos)
Banqueiro e Filantropo

* Beirute, Líbano (05/04/1934)
+ São Paulo, SP (15/06/2014)

Moise Yacoub Safra foi um banqueiro e filantropo libanês, naturalizado brasileiro, co-fundador do Banco Safra junto aos irmãos Edmond e Joseph.

A família Safra está no mercado financeiro desde o século 19, quando foi fundada a financeira Safra Frères, em Alepo, na Síria, instituição que financiava comerciantes e empresários da região.

Em 1920, Jacob Safra fundou o primeiro banco do clã em Beirute, no Líbano.

Após a Segunda Guerra Mundial, com a perseguição aos judeus no Oriente Médio, Jacob se mudou para o Brasil com a família e, junto com os filhos Edmond, Joseph e Moise, todos naturalizados brasileiros, fundou o Banco Safra em 1955.

Seu pai, Jacob Safra, geriu a criação do conglomerado financeiro. No Brasil, o Banco Safra foi gerido pelo pai e pelos três filhos por muitos anos.


Moise Safra e Chella Safra
Edmond, porém, ficou pouco tempo no país. Ele vendeu sua fatia no banco aos irmãos e ergueu o império financeiro da família no exterior. Em Genebra, na Suíça, fundou o banco Trade Development Bank, que anos mais tarde foi vendido à American Express. Viveu também em New York, onde criou o Republic National Bank Of New York, que chegou a ser o 20º maior banco americano e foi vendido ao HSBC. O acordo ocorreu em maio de 1999, meses antes de o banqueiro morrer de forma trágica em seu apartamento em Monte Carlo, Mônaco, vítima de um incêndio criminoso.

Com a morte de Edmond, os negócios internacionais do Grupo Safra passaram a ser geridos por Joseph e seu filho mais velho, Jacob.

Entre seus investimentos, estão participações na Aracruz Celulose (papel e celulose), uma empresa telefônica em Israel e diversos bancos espalhados pelo mundo. Foi considerado um dos principais bilionários brasileiros por revistas especializadas.

Em 2006, o empresário vendeu sua parte no Banco Safra ao irmão Joseph, por uma quantia avaliada em 2 bilhões de dólares.

Moise Safra e o filho Jacob Moise Safra
A mais recente empreitada dele deu-se em 2013, quando, associado à magnata chinesa Zhang Xin, adquiriu 40% do General Motors Building, edifício situado em Manhattan, erguido pela General Motors Corporation em 1964, um dos edifícios corporativos mais caros dos Estados Unidos.

O negócio aumentou ainda mais o valor de mercado do imóvel, para cerca de US$ 3,4 bilhões. A transação foi estimada em cerca de US$ 700 milhões. A participação restante de 60% do empreendimento pertence à Boston Properties, que controla o edifício.

Apesar de discretos, o casal Moise SafraChella Safra estampavam com frequência as colunas sociais, quase sempre participando de eventos beneficentes. A construção do auditório do Hospital Albert Einstein, por exemplo, foi custeada por ele.

A fortuna de Moise Safra era avaliada em US$ 2,2 bilhões, o que o colocava como o 26º homem mais rico do país pelo ranking da "Forbes".

Seu irmão Joseph ocupa a segunda posição no ranking, atrás apenas de Jorge Paulo Lemann, da Ambev.


Morte

Moise Safra morreu na manhã de domingo, 15/06/2014, aos 79 anos, em São Paulo. Ele estava internado no Hospital Israelita Albert Einstein, onde lutava contra um câncer e sofria do Mal de Parkinson, doença que seu irmão Edmond tinha quando faleceu em um incêndio em 1999, em Mônaco. Ele deixou a esposa Chella Safra e os filhos Jacob, Ezra, Edmundo, Esther e Olga.

O sepultamento ocorreu no Cemitério Israelita de São Paulo.

"Era um homem muito afetivo, uma pessoa dotada de uma sensibilidade instintiva, para quem a palavra amor era um exercício do cotidiano. Ele conseguia conciliar a visão de um empresário com a de um humanista. É uma perda muito grande. Moise era um grande doador do Einstein e eu o considerava meu conselheiro. Muitas vezes conversei com ele sobre questões do hospital e ele nos apoiava em todas as nossas obras."
(Cláudio Lottemberg, presidente do Hospital Albert Einstein)


"Moise Safra foi o homem mais generoso que eu conheci na minha vida. Ele era bondoso, meigo, humilde e simples. Seu dinheiro não lhe subiu à cabeça. Era um amigo muito próximo. Ele tinha fineza, e tinha fineza de espírito. Estou realmente abalado e vou sentir muito a falta de Moise Safra, um homem insubstituível."
(Rabino Henry Sobel)

Pérola Byington

PÉROLA ELLIS BYINGTON
(83 anos)
Filantropa e Ativista Social

* Santa Bárbara, SP (03/12/1879)
+ Nova York, Estados Unidos (06/11/1963)

Filha dos americanos Mary Ellis McIntyre e Roberto D. McIntyre, descendentes de famílias que imigraram dos Estados Unidos após a Guerra Civil, Pearl Byington nasceu em 03 de dezembro de 1879, na Fazenda Barrocão, em Santa Bárbara do Oeste, SP. Além da filha Pearl, que mais tarde adotaria o nome de Pérola, o casal teve as meninas Mary e Lillian.

Em Piracicaba, SP, Pérola iniciou os estudos. Foi aluna do Jardim de Infância da Escola Americana, fundada e dirigida por Miss Watts e a professora e médica belga Maria Renotte, que além de ter sido, na última década do século XIX, a primeira e única médica na capital paulista por mais de uma década e haver se dedicado à criação de uma filial da Cruz Vermelha em São Paulo, como defensora dos direitos femininos participou da fundação da Aliança Paulista Pelo Sufrágio Feminino, tendo sido uma das vice-diretoras. Mais tarde Pérola tranferiu-se para o colégio fundado por sua mãe.

Aos catorze anos, completou os preparatórios para a Escola Normal. Contudo, como não tinha ainda a idade mínima para inscrição que era de dezesseis anos, foi impedida de matricular-se. Recebeu então aulas particulares, com exceção de latim, que aconteciam em uma escola masculina. Pérola ficava atrás de um biombo para não atrapalhar a aula do professor. Apenas em 1899 obteve o diploma de professora.

Ainda na Escola Normal, fez os preparatórios no Curso Anexo da Academia de Direito de São Paulo. Sua intenção não foi bem recebida pelos acadêmicos, então desfavoráveis à abertura do curso ao sexo feminino e Pérola não foi aprovada no exame de geografia.

Casou-se em 1901, com um dos pioneiros da indústria brasileira, Alberto Jackson Byington, com quem teve dois filhos, Alberto e Elizabeth. Em 1912 o casal partiu para os Estados Unidos, para onde haviam levado os filhos para estudar. Como consequência da Primeira Guerra Mundial a família não pode voltar ao Brasil e Pérola passou a colaborar com a Cruz Vermelha americana captando recursos.

Hospital Pérola Byington
Ao retornar ao país na década de 20, deparam-se com a cidade de São Paulo em efervescente desenvolvimento econômico e social. Encontraram também os contrastes econômicos e sociais que caracterizavam a população. Pérola então passou a trabalhar na Cruz Vermelha, ao lado de Maria Renotte, sua antiga conhecida, chegando a exercer o cargo de diretora do Departamento Feminino.

Em 1930, aos cinqüenta anos, junto à educadora sanitária Maria Antonieta de Castro, fundou a Cruzada Pró-Infância, em São Paulo, entidade voltada ao combate da mortalidade infantil, cujos índices eram assustadores então. Pérola foi eleita diretora geral e assim permaneceu por 33 anos.

O programa de ações da entidade incluía, inclusive, tentar junto aos poderes públicos a concretização obtenção de leis favoráveis à gestante e à criança, além de criar dispensários com serviços de clínica geral, higiene infantil, pré-natal, fisioterapia, dietética e odontologia. 

A criação de uma casa para abrigar mães solteiras, em uma época em que eram discriminadas, e casadas sem apoio familiar foi iniciativa pioneira. Pérola compreendia ser a maternidade função social do estado e defendia a assistência à mãe solteira como uma forma de enfrentamento dos problemas sociais. Era combativa defensora da educação sexual.

Como consequência, projetos infantis e creches com serviços de psicologia foram implantados. O hospital-infantil inaugurado em 1959 oferecia, ainda, cursos para estagiários acadêmicos. O funcionamento da Cruzada dependia da participação de todos. Pérola e seu grupo conseguiram constituir uma rede de solidariedade. Profissionais famosos atuavam voluntariamente no Ambulatório-Central, enquanto outros atendiam gratuitamente os pacientes nas residências. Laboratórios realizavam exames sem cobrar aos pacientes e algumas farmácias doavam medicamentos.

Praça Pérola Byington
Pérola foi também, uma das pioneiras na cobrança da divulgação causas da alta mortalidade no parto e pós-parto, objetivando melhorar a qualidade do pré-natal. Por uma de suas cobranças públicas, ocorrida em julho de 1938, na Semana das Mães, recebeu críticas das autoridades. Sua persistência para a institucionalização do Dia e da Semana da criança visava não motivos comerciais, mas acreditava que seria uma importante forma de chamar a atenção sobre os problemas da infância.

Colaborou ainda para ajudar a eleger Carlota Pereira de Queiroz, médica paulistana e primeira mulher eleita deputada federal no Brasil, na Constituinte de 1934.

Por sua atuação essencial à história da assistência à infância, Pérola foi alvo de várias homenagens. Em 1947 recebeu o título de Membro Honorário da Sociedade Brasileira de Pediatria. Até a ocasião, a única não-pediatra, a merecer tamanha distinção.

Emprestou seu nome ao antigo Hospital da Cruzada, batizado de Pérola Byington após seu falecimento, em 1963, e também à praça localizada em frente ao hospital, na Avenida Brigadeiro Luiz Antonio, região central da cidade de São Paulo. Em 1978 seu busto foi inaugurado na praça.

A maior homenagem certamente à Pérola, contudo, é a forma como seu hospital hoje em dia é conhecido pela população: Hospital da Mulher.

Laura Alvim

LAURA AGOSTINI DE VILALBA ALVIM
(83 anos)
Benemérita

* Rio de Janeiro, RJ (02/11/1900)
+ Rio de Janeiro, RJ (22/03/1984)

Laura Alvim foi uma benemérita, protetora das artes que lutou pelo sonho de transformar a sua casa em Ipanema em um centro cultural.

Laura Alvim nasceu em 2 de novembro de 1900 no bairro de Botafogo, Rio de Janeiro. Era filha do médico precursor da radiologia no Brasil,  Álvaro Freire de Vilalba Alvim e Laura Agostine de Vilalba Alvim, e neta de Angelo Agostini, abolicionista, pintor e renomado caricaturista do período imperial que desenhou a primeira charge infantil do Rio de Janeiro para a revista O Tico-Tico. Pertencia, portanto, a uma influente família carioca.

Laura cresceu num ambiente pleno de cultura. Dada a sua beleza, e traços finos, é considerada por muitos a primeira Garota de Ipanema. Inteligente e irreverente, Laura tentou seguir a carreira artística, mas a oposição familiar e os preconceitos da época impediram-na de subir aos palcos.

Após a morte de seu pai, Laura dedicou-se a transformar sua casa em uma casa de cultura para homenageá-lo e também para sua própria realização, já que sempre foi apaixonada pelo teatro, mesmo nunca tendo tido coragem de segui-lo. Seu maior sonho era ser atriz.

Com a morte dos pais, Laura passou por momentos financeiros difíceis mas não a ponto de fazê-la desistir de seu sonho, mesmo após receber propostas milionárias pela casa.

Decidiu, então, transformar sua casa em uma espécie de teatro, onde apresentava, para os amigos e pessoas do seu círculo social, recitais em que declamava em francês. Nos seus salões realizou grandes festas, apoiando artistas novos e reunindo a intelectualidade nacional.

Muitos ainda devem se lembrar dela, sempre vestida de negro com as longas unhas vermelhas e chapéu de abas largas escondendo os olhos. Belíssima, culta e charmosa, despertou muitas paixões e, apesar de ter recebido 49 pedidos de casamento, nunca aceitou nenhum. Mas amou muito, e isso para ela era o mais importante. Tinha personalidade forte e ficou conhecida por sua irreverência e espírito de contestação. Passou da fortuna à miséria, da exuberante beleza ao aspecto que lhe deixou reclusa durante os últimos anos de sua vida, por conta de uma doença de pele. No final de seus dias passou a morar no porão do palacete e, para sobreviver, alugava quartos a turistas estrangeiros. Vendeu tudo o que tinha para promover as reformas na casa que queria transformar em espaço público, mas era com simpatia que cedia o pátio para que os pipoqueiros do bairro guardassem suas carrocinhas. Podia ter vendido também a propriedade, de 2 mil metros quadrados, mais preferiu doá-la à cidade.
 
Em 1983 Laura prova sua sanidade mental, e em perfeitas condições, doou ao estado do Rio de Janeiro seu casarão na Avenida Vieira Souto, na praia de Ipanema. Seu objetivo era transformá-lo em um centro cultural.

Morreu cinco meses depois de oficializar esse desejo, no dia 22 de março de 1984, em sua cidade natal. A inauguração se deu dois anos após a sua morte. Seu sonho foi concretizado e o Casa de Cultura Laura Alvim é um endereço obrigatório na agenda cultural do Rio de Janeiro.


Casa de Cultura Laura Alvim

O solar, uma das raras casas do bairro, possui estilo colonial com toques de pós-modernidade. Sua arquitetura é atração no endereço mais valorizado da orla. Quando Laura Alvim realmente começou as primeiras obras, elaborou ela mesma o projeto das reformas e o resultado foi uma grande mistura de estilos, preservando, porém, o chão de pedras.

Com dois mil metros quadrados em endereço nobre de Ipanema, de frente para o mar, a casa tornou-se, em 1986 a Casa de Cultura Laura Alvim. Ao completar 20 anos, passou por uma grande reforma e abriga três salas de cinema, hoje pilotadas pelo Grupo Estação, o Teatro Laura Alvim, com 245 lugares e o Espaço Rogério Cardoso com 70 lugares. O espaço reúne uma galeria de arte, o café do Ateliê Culinário com mesas e ombrelones nas arcadas.  Oferece, ainda, uma série de cursos que variam da interpretação teatral para pintura botânica. No terceiro andar, o Museu de Laura apresenta em exposição permanente móveis e objetos pessoais. O local possui facilidades para idosos e portadores de necessidades especiais. 


Dorina Nowill

DORINA GOUVÊA NOWILL
(91 anos)
Filantropa, Administradora e Pedagoga

* São Paulo, SP (28/05/1919)
+ São Paulo, SP (29/08/2010)

Nascida em 1919, filha de pai português e mãe italiana, Dorina cresceu na Rua Matias Aires, entre a Rua Frei Caneca e a Rua Augusta, região central de São Paulo, e foi matriculada no Instituto Elvira Brandão onde foi contemporânea dos futuros atores Paulo Autran e Célia Biar. Empolgou-se com a Revolução Constitucionalista de 1932 participando da coleta de cigarros e sabonetes para os soldados. Frequentava o Clube Português e era uma menina comportada.

A Aba Bateu em Seu Olho Direito

Em 16 de agosto de 1936 foi com a família à missa das 9h do Colégio São Luiz. Naquela manhã, uma amiga de sua mãe usava um chapéu de abas largas. Ao se despedirem, ela quis dar um beijo em Dorina e a aba bateu em seu olho direito. No dia seguinte de manhã, fechou o olho esquerdo e no outro surgiu uma mancha opaca, bem no centro da visão. A mácula havia sido afetada, não pelo choque, mas por uma razão clínica não traumática como descobriu depois.

O que se seguiu foram visitas a oftalmologistas, exames e mais exames, mas em 14 de outubro: "Vi uma cortina de sangue e nada mais distingui. Era como se eu estivesse vendo uma vidraça com chuva escorrendo. Em vez de água, sangue". Ela, então, soube que não mais poderia enxergar. Sua mãe pediu a Deus: "Se Dorina não puder voltar a ver, que pelo menos se conforme, aceite e possa assim viver."

De 1936 a 1943, Dorina viveu um processo de adaptação a seu novo modo de vida. Foi apresentada ao método braile de leitura e sua mãe pode comemorar o "milagre da aceitação".

Naquele ano, 1943, ela conseguiu uma vitória inédita – ser aceita como aluna regular no Caetano de Campos, para o Curso Normal. Foi a primeira aluna cega a matricular-se em São Paulo numa escola comum de formação de professores.

Ainda estudante, outra conquista foi quando a mesma escola implantou o primeiro curso de especialização de professores para o ensino de cegos em 1945. Em 2008, ela contou como conseguiu não desistir:

"Eu perdi a visão e ao mesmo tempo encontrei o apoio de meus pais em tudo o que eu queria realizar. Devo a eles a forma de encarar com realidade as novas situações e de resolver os problemas sem mistificações, mas dentro de uma proposta real de vida, baseada sempre na verdade. O início foi encarar a realidade como ela se apresenta, pois é aí que encontramos forças para dominar o desânimo e a falta de coragem, depois encontrar soluções mais adequadas, embora diferentes daquelas com que todos nós contamos desde os primeiros dias de vida."

Após diplomar-se, viajou para os Estados Unidos, com uma bolsa de estudos patrocinada pelo governo americano, pela Fundação Americana Para Cegos e pelo Instituto Internacional de Educação. Frequentou um curso de especialização na área de deficiência visual na Universidade de Columbia. Ao voltar ao Brasil, Dorina mergulhou no trabalho para implantar a primeira imprensa braile de grande porte no país. Também foi convidada a organizar o Departamento de Educação Especial da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo. Esse cargo foi fundamental para ela e seus amigos comemorarem quando a educação para cegos se transformou em atribuição do governo por força de lei. Em 1953, em São Paulo, e em 1961, em todo o país.

Companheiro de Toda Uma Vida

Em fevereiro de 1950, casou-se com Alexandre Nowill, companheiro de toda uma vida, com quem teve cinco filhos e viveu uma relação de companheirismo em todas as atividades em que acabou se envolvendo.

Dorina foi convidada para dirigir o primeiro órgão nacional de educação de cegos no Brasil, criado pelo Ministério da Educação, em que permaneceu de 1961 a 1973 tocando projetos que implantaram serviços para cegos em diversos estados do país, além de campanhas para a prevenção da cegueira.

"Aprendi que eu mesma teria de resolver como manter as minhas aspirações dentro de um nível capaz de me satisfazer, mas nunca pensei em desistir e fui resolvendo grandes problemas, mesmo com elementos diferentes do início da minha vida."

O reconhecimento pelo trabalho de Dorina Nowill foi além de nossas fronteiras. Ocupou cargos em organizações internacionais de cegos. Em 1979, foi eleita presidente do Conselho Mundial dos Cegos. Em 1981, Ano Internacional da Pessoa Deficiente, discursou na ONU. E ainda batalhou com ardor pela criação da União Latino-Americana de Cegos (ULAC).

Certa vez, viajou sozinha a Nova York e, depois de esbarrar em muita lata de lixo, aprendeu a se virar com a bengala.

"Sem força interior não se encontram soluções. Viver tem que ser real, não pode ser uma história, é preciso viver e 'viver é realizar'. A realidade, muitas vezes, é dura, mas é preciso enfrentá-la."

O Primeiro Centro de Reabilitação

Em 1989, Dorina registrou mais uma vitória, quando o Congresso Nacional ratificou a Convenção 1599 da Organização Internacional do Trabalho, que trata da reabilitação, do treinamento e da profissionalização de cegos, resultado de mais uma luta, que havia começado 18 anos antes com o primeiro centro de reabilitação criado pela Fundação.

O Centro de Memória da Fundação guarda a história de luta pela inclusão social em sua sede, na Vila Clementino, em São Paulo. Ali, uma exposição aberta ao público orienta museus a receberem pessoas com deficiência visual e, desde 2006, promove o programa de formação em acessibilidade para museus. Estudantes cegos de todo o Brasil estudam com os livros produzidos na Fundação. Eles imprimem ainda a Revista Veja e Cláudia, além de outras específicas sob demanda. A Biblioteca Circulante de Livro Falado da Fundação Dorina Nowill Para Cegos possui um acervo com cerca de 900 títulos em áudio de obras de diversos autores, desde clássicos da literatura brasileira aos mais variados best-sellers internacionais. Esse serviço está disponível gratuitamente para pessoas com deficiência visual de todo o Brasil.

"Acreditamos que a educação seja o melhor caminho para a inclusão social. Para a pessoa com deficiência visual, ter acesso garantido à literatura, ao estudo ou ao entretenimento é questão primordial em seu desenvolvimento pessoal. Anualmente são produzidas milhares de páginas em braile de livros didático-pedagógicos, paradidáticos, literários e obras específicas solicitadas pelos deficientes visuais... A natureza é sábia. O rico potencial do ser humano procura suprir quaisquer perdas. É preciso enfrentá-las em toda a sua realidade. Muito difícil para uns, um pouco menos para outros, fácil para ninguém."

Aos 91 anos, com a saúde debilitada e num leito de hospital em São Paulo, a bravíssima Dorina de Gouvêa Nowill lutou pela vida da mesma maneira que a desfrutou - com tranquila consciência. Já não falava e resistia à alimentação. Muito magra, enfrentava problemas nos pulmões e no esôfago. Seus cinco filhos, 12 netos e três bisnetos rezavam por essa mulher, que ganhou o respeito e a admiração de todos os brasileiros.

"Quando perdi a visão, percebi que algo tinha se modificado. Nesse momento tão particular, simplesmente surgiu uma força interior que me impulsionou a encarar a própria vida 'sem ver' e a importância que dei a outras possibilidades foi muito maior que o desespero de ter perdido a visão. Eu tinha de enfrentar as situações como elas se apresentavam e todos esperavam a minha reação. Nesse momento foram surgindo soluções de acordo com meu temperamento e com minhas aspirações. Hoje acredito que não perdi aspirações, apenas tive de modificá-las um pouco, até mesmo para mantê-las, mesmo dentro de situações para as quais não estava preparada integralmente", contou ela em sua autobiografia lançada em 1996, ...E Eu Venci Assim Mesmo, em que conta em detalhes de como cuidou dos filhos, da casa, do casamento e de suas ações sociais ao mesmo tempo.

A pedagoga Dorina Nowill, morreu por volta das 19:30hs de domingo, dia 29/08/2010, em São Paulo. Ela estava internada por conta de uma infecção e sofreu uma Parada Cardíaca no Hospital Santa Isabel.

Ela deixou cinco filhos, doze netos e três bisnetos. O velório aconteceu às 8:00hs de segunda-feira 30/08/2010 na sede da Fundação Dorina Nowill, localizada na Zona Sul de São Paulo. O enterro aconteceu às 15:30hs, no Cemitério da Consolação.

Para conhecer mais a Fundação, visite o site no link: Fundação Dorina Nowill

Fonte: Contigo e R7

Anália Franco

ANÁLIA FRANCO BASTOS
(62 anos)
Professora, Jornalista, Poetisa, Filantropa e Religiosa

☼ Resende, RJ (10/02/1856)
┼ São Paulo, SP (20/01/1919)

Anália Franco Bastos, mais conhecida como Anália Franco, foi uma professora, jornalista, poetisa e filantropa brasileira. Fundou mais de setenta escolas e mais de vinte asilos para crianças órfãs. Na cidade de São Paulo, fundou uma importante instituição de auxílio a mulheres e a região, antes afastada do centro, é hoje o Bairro Jardim Anália Franco.

"Não há vida feliz, individual ou coletiva sem ideal..."
(Anália Franco)

"A verdadeira caridade não é acolher o desprotegido, mas promover-lhe a capacidade de se libertar"
(Anália Franco)

O seu nome de solteira era Anália Emília Franco. Após o seu matrimónio com Francisco Antônio Bastos, o seu nome passou a Anália Franco Bastos.

Diplomada como Normalista, aos 16 anos de idade, em 1872, num concurso promovido pela Câmara de São Paulo, logrou a aprovação para exercer o cargo de professora primária. À época, acabara de entrar em vigor a Lei do Ventre Livre no país (1871) e, tendo tomado conhecimento de que os nascidos de escravas estavam a ser encaminhados à roda dos expostos na Santa Casa de Misericórdia, Anália Franco mobilizou-se, usando o seu talento de escritora para dirigir-se às esposas dos fazendeiros e trocou o seu cargo na capital paulista por outro, no interior, a fim de socorrer as crianças necessitadas.


Graças à ajuda de uma dessas fazendeiras, num bairro de uma cidade no norte do estado de São Paulo obteve uma casa para instalar uma escola primária. Tendo a fazendeira lhe imposto a condição de segregação entre crianças brancas e afro-descendentes para a cessão gratuita do imóvel, Anália Franco recusou-a terminantemente, passando a pagar um aluguel.

Nessa primeira Casa Maternal, passou a receber as crianças que lhe batiam à porta, levadas por parentes ou recolhidas nos caminhos da região. A fazendeira, ressentida com a altivez da jovem professora e vendo que a sua casa, embora alugada, se transformara num albergue, recorreu ao prestígio do marido, um "coronel", e este obteve a remoção de Anália Franco.

Indo para a cidade, alugou uma velha casa, consumindo com essa despesa a metade do seu salário. Como o restante era insuficiente para a alimentação das crianças, não hesitou em ir pessoalmente pedir esmolas para prover as crianças, que referia carinhosamente em seus escritos como os "Meus Alunos Sem Mães". Numa folha local anunciou que, ao lado da escola pública, havia um pequeno "abrigo" para as crianças desamparadas. Embora essas práticas chocassem o setor conservador da cidade, Anália Franco obteve o apoio de um grupo de abolicionistas e republicanos.

Desse modo, ao longo do tempo, tendo implantado algumas escolas maternais no interior do estado, voltou para a capital paulista, ainda com o apoio do grupo abolicionista e republicano. O seu prestígio no seio do professorado já era grande quando finalmente foi decretada a Abolição da Escravatura (1888) e a Proclamação da República (1889).

O advento dessa nova era encontrou Anália Franco com dois grandes colégios gratuitos para meninas e meninos. A sua preocupação com as crianças desamparadas, levou-a a fundar uma revista própria, intitulada "Álbum das Meninas", cujo primeiro número veio a público a 30/04/1898. O artigo de fundo desse número inaugural tinha o título "Às Mães e Educadoras".


Pouco depois, com o apoio de vinte senhoras, fundou o instituto educacional que se denominou Associação Feminina Beneficente e Instrutiva, a 17/11/1901, no Largo do Arouche. A Associação Feminina mantinha ainda um bazar na rua do Rosário nº 18, para a venda dos artefatos produzidos nas suas oficinas, e uma sucursal desse estabelecimento na Ladeira do Piques nº 23.

Em seguida criou várias Escolas Maternais e Escolas Elementares, instalando, com inauguração solene a 25/01/1902, o Liceu Feminino, destinado a instruir e preparar professoras para a direção daquelas escolas, com o curso de dois anos para as professoras de Escolas Maternais e de três anos para as de Escolas Elementares.

No curso de sua atuação publicou numerosos folhetos e opúsculos referentes aos cursos ministrados em suas escolas, e tratados sobre a infância, nos quais as professoras encontraram meios de desenvolver as faculdades afetivas e morais das crianças, como parte do processo pedagógico. O seu opúsculo "O Novo Manual Educativo", era dividido em três partes: Infância, Adolescência e Juventude.

Em 01/12/1903, passou a publicar "A Voz Maternal", revista mensal com a tiragem de 6.000 exemplares - expressiva à época -, impressa em oficinas próprias.

Anália Franco mantinha Escolas Reunidas na capital e Escolas Isoladas no interior do estado, Escolas Maternais, Creches na capital e no interior do estado, bibliotecas anexas às escolas, Escolas Profissionais de Arte Tipográfica, Curso de Escrituração Mercantil, Prática de Enfermagem e Arte Dentária, de Línguas (francês, italiano, inglês e alemão), Música, Desenho, Pintura, Pedagogia, Costura, Bordados, Flores Artificiais e Chapéus, num total de 37 instituições.


A sua produção literária compreendeu ainda três romances: "A Égide Materna", "A Filha do Artista", e "A Filha Adotiva", além de numerosas peças teatrais, diálogos e várias poesias, destacando-se "Hino a Deus", "Hino a Ana Nery", "Minha Terra", "Hino a Jesus" e outros.

Em 1911 conseguiu, sem qualquer recurso financeiro, adquirir a Chácara Paraíso, 75 alqueires de terra, parte matas e capoeiras e o restante benfeitorias diversas, entre as quais um velho solar, que havia pertencido a Diogo Antônio Feijó. Nesse espaço fundou a Colônia Regeneradora D. Romualdo, aproveitando o casarão, a estrebaria e a antiga senzala, internando ali sob direção feminina, os rapazes mais aptos para a agricultura, a horticultura e outras atividades agropastoris, recolhendo ainda moças desviadas, conseguindo assim regenerar centenas de mulheres.

Ao final da vida, Anália Franco constituiu 71 Escolas, 2 albergues, 1 colônia regeneradora para mulheres, 23 asilos para crianças órfãs, 1 Banda Musical Feminina, 1 orquestra, 1 Grupo Dramático, além de oficinas para manufatura em 24 cidades do interior e da capital.

Veio a falecer quando havia tomado a deliberação de viajar até ao Rio de Janeiro fundar mais uma instituição, projeto que viria a ser materializado por seu esposo, com a fundação do Asilo Anália Franco.

Anália Franco faleceu vitimada pela Gripe Espanhola.

Fonte: Wikipédia