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Ely Barbosa

ELY RUBENS BARBOSA
(69 anos)
Autor de Histórias em Quadrinhos e Publicitário

☼ Vera Cruz, SP (15/03/1937)
┼ São Paulo, SP (19/01/2007)

Ely Rubens Barbosa, mais conhecido como Ely Barbosa, foi um autor de histórias em quadrinhos e publicitário brasileiro. Nasceu em Vera Cruz, São Paulo, filho de Otávio e Aurora Barbosa e irmão do novelista Benedito Ruy Barbosa. Desde pequeno teve tendência a seguir o caminho das artes, modelando, aos sete anos, bonecos de cera para o presépio da cidade.

Mudando-se para São Paulo, tornou-se publicitário, fundou seu próprio estúdio, onde fez desenhos dos personagens para o gibi dos Trapalhões, para a Editora Bloch.

A partir de 1976, começou a trabalhar com algumas de suas criações: Turma da Fofura, Tutti-Fruttis e Turma do Gordo, todos reunidos na revista em quadrinhos "Cacá e Sua Turma". A revista foi publicada pela Editora Abril de fevereiro de 1977 à junho de 1978, do número 1 ao 8, quando passou a ser publicada pela Rio Gráfica Editora à partir de fevereiro de 1980 à agosto de 1982 em 25 edições quando foi definitivamente cancelada.


Em julho de 1987 lançou a revista mensal "Turma da Fofura" pela Editora Abril com 27 edições até agosto de 1989 acrescida de mais 4 com numeração reiniciada a partir de outubro de 1989 à janeiro de 1990. As quinzenais "O Gordo & Cia." circularam no mesmo período em 38 e 34 edições, respectivamente. 

Em 1983, criou na TV Bandeirantes, o programa "TV Tutti Frutti", pelo qual recebeu o Prêmio APCA, da Associação Paulista dos Críticos de Arte. Recebeu ainda o prêmio Ângelo Agostini por suas criações.

Em 1994, lançou o musical "Um Passeio no Cometa", com a Turma da Fofura. Seus personagens estamparam diversos produtos.

Em 1997 "Sítio do Pica-Pau Amarelo" voltaria ao ar, apresentado pela TV Cultura. Os herdeiros de Monteiro Lobato assinam então um contrato com Ely Barbosa, que assim voltou a trabalhar com os personagens do "Sítio do Pica-Pau Amarelo".


Nos anos 70, ele e Silvio Santos se associaram para produzir um desenho animado de longa metragem, mas o projeto não foi adiante. A idéia agora era explorar comercialmente essa volta à TV, através do lançamento de uma série de novos produtos.

Mas, com os malfadados planos econômicos do início dos anos 90, as revistas de Ely Barbosa são canceladas e seu estúdio fecha.

No início de 2002, Ely Barbosa lançou seu site pessoal, www.elybarbosa.com.br onde pretendia dar vazão às suas criações engavetadas.

Até o final da vida, Ely Barbosa se dedicou à publicidade e publicou diversos livros infantis e alguns romances.

Ely Barbosa faleceu em 19/01/2007, em São Paulo, SP, aos 69 anos, vítima do Mal de Parkinson.

Fernando Bonini

FERNANDO ANTÔNIO BONINI DA SILVA
(50 anos)
Desenhista e Quadrinista

☼ Niterói, RJ (17/09/1955)
┼ Valinhos, SP (08/10/2005)

(Por Bruno Machado - Edição U-turn - Dezembro de 2011)

Fernando Bonini, de nome completo Fernando Antônio Bonini da Silva, foi um criador de histórias em quadrinhos brasileiro. Fernando Bonini se tornou conhecido por ter sido um dos principais desenhistas de Zé Carioca e Urtigão.

Franco de Rosa entra no estreito quarto de pensão que recebeu seu último hóspede há pouco mais de quatro meses. A cama está desfeita, o lençol amarrotado pela última noite de sono. "Foi-se tranqüilo", pesaria ele seis anos depois, de frente para mim, em uma cafeteria no Centro. Certamente, seu velho amigo desenhista vagara por ali, algumas décadas antes. Recolhe alguns objetos pessoais que, no momento, não se recorda quais são e deixa o pequeno aposento.

Apesar de tanto em comum, Franco de Rosa é sincero: diz não ter grandes saudades do amigo, em parte por conta de sua melancolia. Lembra-se dele, sorridente entre outros cartunistas, nas mesas de bar. Sempre com o copo a mão, para que não bebessem da sua cerveja. Em outros momentos, entregava-se a uma tristeza profunda, esmurrava paredes, amassava desenhos. Mas não era agressivo com os outros. Franco de Rosa, inclusive, confessa que Fernando Bonini chegava a apanhar da mulher. Eles dois, inclusive, chegaram a dividir a mesma mulher: Fernando Bonini se casou, certa vez, com a ex-esposa de Franco e Rosa.

O que sobrou de sua tragicômica existência - bonequinhos de durepoxi e presentes recebidos pelo aniversário de 50 anos, recém-completos - está guardado em uma caixa de sapatos num apartamento na Avenida São Luís. O apartamento do editor e desenhista Franco de Rosa, com quem converso, a poucos metros de sua casa, entre uma e outra xícara de café. É um sábado ensolarado e frio, e poderia muito bem lembrar o dia em que Fernando Bonini foi enterrado, há seis anos, em Valinhos, no interior de São Paulo. A conversa por vezes não flui de maneira elucidativa: mesmo Franco, que conviveu com Fernando Bonini por tantos anos às vezes não parece atravessar o simples esboço desse rosto fluminense estreito, de poucas fotos, o farto bigode, sotaque da baixada, chiados nervosos herdados de Niterói.

Foram amigos e por muitas vezes, colegas de trabalho. Fizeram parcerias e tiveram vidas ligadas por coincidências - das quais Franco se lembra com alegria, mas sem sentimentalismo. Filho de um homem que se alternara e se desdobrara em diversas profissões, como barbeiro e palhaço, Fernando Bonini cresceu vendo os filmes de Jerry Lewis, de quem tiraria muito de sua inspiração para criar histórias. Muitas das situações que viveu também lembrariam muito os esquetes do comediante americano.

Em São Paulo, Franco de Rosa e Fernando Bonini foram vizinhos na infância, mas nunca souberam disso. Embora morassem um em frente ao outro, numa rua da pacata Santana, jamais jogaram bola juntos na rua e estudaram em escolas separadas. Dois completos estranhos, com uma paixão em comum, e que ainda se esbarrariam um punhado de vezes pela vida dos estúdios de quadrinhos.

Fernando Bonini tinha 15 anos quando foi descoberto por Primaggio Mantovi, que chegara ao Brasil com a derrota italiana na Guerra. Primaggio Mantovi era o mentor, Fernando Bonini o assistente de arte. Na extinta Rio Gráfica Editorial (RGE), desenhou tirinhas do "Recruta Zero" e do "Sacarrolha". Nessa época, ele ainda trabalhou com outros importantes nomes como Walmir AmaralGutenberg Monteiro e Evaldo.

Era início da década de 70, e fazia pouco mais de uma década que o desenho havia se instalado profissionalmente no país, graças às agências de publicidade e aos estúdios de Histórias em Quadrinhos, importadas diretamente dos Estados Unidos.  A função dos desenhistas brasileiros, nessa época, reduzia-se a fazer o que Franco chama de decoração: finalizar cada quadrinho, fazer pequenas adaptações para o público brasileiro. A produção nacional ainda era bastante incipiente, o que mudaria na década seguinte com artistas sedentos por mostrar um trabalho de cunho mais autoral e até experimental. Fernando Bonini era um desses artistas.

Foi na revista "Spektro" que Fernando Bonini  mostrou seus primeiros trabalhos autorais. Era final dos anos 70, quando surgiram seus personagens de traços duros, verticais, de queixos sempre muito grandes em histórias de terror e erotismo. A revista durou até 1982 com histórias que versavam sobre anjos, macumbas, demônios e encontros sexuais sobrenaturais.

Como todo desenhista, produzia melhor pela manhã, mas muitas vezes passava também a madrugada rabiscando originais.  Quando terminava uma história, dava-se férias de dois a três dias. Raramente escrevia um roteiro quadro-a-quadro de suas histórias. Simplesmente pegava a folha em branco com um rascunho mental do que iria fazer. Dali saíam os desenhos e a narrativa, sem qualquer organização formal prévia.

Os tempos de "Spektro", contudo, não duraram muito. Na verdade, Fernando Bonini não parava quieto em nenhum emprego. "Ele não queria ser funcionário, queria liberdade!", brinca Franco. Mal sabia ele que, anos depois, essa liberdade encontraria seu paroxismo nas ruas de São Paulo.

Com o fim de Riograf e da Vecchi, um novo pólo do desenho se instalou no país, no começo da nova década. Curitiba é a capital dos novos sonhos dos artistas de quadrinhos do país: a Grafipar, que anteriormente apenas publicava livros decidiu entrar no ramo. Para tanto, decidiu convocar um verdadeiro time de talentos que se estabeleceu nos limites da capital paranaense. Morando contiguamente, formaram o que se chamou na época de Vila dos Desenhistas. Eram Gustavo Machado - com quem Fernando Bonini dividia a moradia -, o próprio Franco de Rosa, Itamar Gonçalves, Watson Portela e Claudio Seto, este último, conhecido como o pioneiro do mangá no Brasil.

Ao que parece, a década de 80, a década perdida, parece ter sido a mais memorável de Fernando Bonini. É quando seu talento parece florescer, quando surgem seus melhores trabalhos e histórias. Um ser humano e um artista que atinge sua maturidade e se prepara para o declínio, pessoal e profissional.

Franco de Rosa se lembra com certa saudade dessa época, e numa frase solta, como se ligasse as pontas do passado e do presente, reitera: "Hoje nossos filhos são amigos. O filho dele vive por aí, é tatuador".

É nessa época que a faceta humorística de Fernando Bonini apareceu. Sua própria vida se revestiu de um tom de paródia rocambolesca, que se refletiu nos seus trabalhos posteriores, marcados pelo duplo-sentido, pelo quadrinho que mescla o erótico com o engraçado, com a situação absurda, com o humor de Lewis e seus filmes preto e branco.

Empilham-se as histórias cômicas deste período, e é dele que Franco de Rosa tem a imagem que se cristalizou na sua memória: o Fernando Bonini falante, rodeado de desenhistas, copo em punho para que os outros não tomassem da sua cerveja; a imagem de repente toma outra cor, e o artista torna-se introspectivo, com uma forte tendência para a contemplação melancólica da vida.

A cabeça de Fernando Bonini doía em mais de um lugar quando acordou na enfermaria do clube. Mal passara a dor e o sangue parara de lhe descer testa abaixo, quando deram com ele deitado na maca. Estendia olhares sedutores à enfermeira, acanhada ante o carinho que ganhava no pulso. Calculara mal o salto na piscina e dera com a cabeça no azulejo.

Fora algumas noites depois que chegou bêbado em casa na companhia de duas mulheres. Os vizinhos se constrangeram com a algazarra noturna. O som de algo que se despedaça na noite assombrada da Curitiba oitentista: Fernando Bonini acorda com a prancheta quebrada e um prejuízo em dinheiro. Levar mulheres pra casa? Nunca mais. Ou até a semana seguinte. Até recuperar o dinheiro que duas prostitutas roubaram.

Dorme em qualquer lugar.  Às vezes esquece onde mora, urina na rua. Não tem dinheiro para subir num ônibus, muito menos para apanhar o táxi. A cidade dorme deserta a noite fria, enquanto Fernando Bonini atravessa a rua. Não sabe se dorme, se sonha, se delira, mas dois olhos grandes o chamaram do outro lado. Um estranho parece requerer sua ajuda. A ficarem a dois palmos de distância, a revelação.

No dia seguinte, como explicar aos amigos? Perdeu o dinheiro, as chaves de casa. Limparam-lhe a carteira. Tinha algo nas mãos de certo, mas não conseguiria lembrar do que se tratava. A probabilidade de ter sido assaltado com um revólver, uma faca, uma colher ou um dedo é a mesma.

Risadas, risadas e mais risadas de um jovem grupo de desenhistas. Os anos 80 ardem-lhe feito febre, o talento doado ao desenho, ao rabisco, a música alta, a cerveja. A menina de muletas lhe chama a atenção. Ela está esquecida num canto da boite barulhenta e melancólica. A cabeça nas nuvens, a perna bamba. A perna dele, a perna dela. A noite inteira foi em vão, o esforço hercúleo. Ouviu apenas um monótono e sequenciado não. As pernas parecem feitas de borracha mole, prontas para se desafazerem-se no chão.  Foi-se o dinheiro das bebidas, os xavecos vencidos, repetidos, a conversa sem sentido, os sorrisos, as muletas. Tentaria mais uma vez, mas ela parece querer ir embora. Que ideia, sair à noite de muletas.  Não conseguira um beijo ou mesmo um abraço. Como ela poderia abraçar-lhe se mal consegue parar no chão sem precisar se apoiar em algo ou alguém? Na hora da saída, Fernando Bonini não resiste, e numa cena de Jerry Lewis, atrapalhado, gag de cinema, Moe Larry Curly,  risadas de auditório, esbarra nas muletas. A garota vai ao chão.

Fernando Benini foi assaltado incontáveis vezes e ser assaltado não era novidade. Rabiscos, nanquim, papéis pelo chão. Contando trocados. Todos os bares de Curitiba devem conhecer-lhe o nome. Recebe e mal vê o dinheiro. Centavo por centavo que se esvai em bebidas.

Não tardou para que a crise econômica que assolou o mundo chegasse à fria capital curitibana. Foram apenas quatro anos, mas dos mais intensos. Com o fim da Grafipar, chega ao fim também a Vila dos Desenhistas.

De volta a São Paulo, Fernando Bonini e Franco de Rosa parecem sentir no ar que os tempos são outros.  Mas a sorte lhes acena. Pois há empregos. Há desenhos, quadrinhos e revistas surgindo por toda parte. Há de se respirar aliviado, por que não?

É 1987, os títulos estrangeiros, sobretudo da Disney, convivem relativamente bem com a produção nacional de "Sérgio Mallandro", "Os Trapalhões" e "A Turma da Mônica". Embora os tempos sejam mais serenos, seu medo se realiza: Fernando Bonini se torna um funcionário. Pelos próximos anos ele permanecerá na Editora Abril, onde se tornará célebre por ser um principal desenhista dos quadrinhos do "Zé Carioca". Dessa época também são produções que nunca chegaram ao público, outras foram incineradas.

Nesse momento, a memória de Franco de Rosa borra-se de outros momentos, mas ainda é possível recuperar a memória de Fernando Bonini. Em termos. Seria a bebida, a rotina pálida, o peso da vida - uma soma dos três, quem sabe, que fez o desenhista abandonar uma vida que começava a se estruturar e trocá-la pela liberdade... das ruas? Se sua produção nessa época jamais se igualaria, e se ele parecia um artista bem-sucedido, por que largou tudo? Tais perguntas, provavelmente, jamais terão uma resposta satisfatória. Os murros nas paredes, o nervosismo, os episódios de depressão.

O que importa é que no final de 1998, Fernando Bonini passou a existir nas ruas de São Paulo. Chegou a morar dentro de um Fiat sem rodas, que certa vez foi lançado barranco abaixo. Desertas, à noite, as ruas de São Paulo têm regras e donos.

Exausto de tanto andar, novamente não sabe se dorme, se sonha, se delira. Desta vez, não vai até os grandes olhos que divisara do outro lado da rua: foge deles, e há algumas horas. Não saberia calcular o quanto já andara, mas as pernas doem e tudo que quer é um lugar quente para dormir. Mas a perseguição persiste por mais algumas horas. Seu inimigo parece onipresente nas sombras dos edifícios.

Se olhasse para o seu futuro, naquela noite, como em qualquer outra, não saberia dizer. Mas naquela noite tudo parecia pior. É como se andasse nos limites dos domínios da morte. A cidade, como um tabuleiro de xadrez, minunciosamente dividida entre seres invisíveis, seres que como ratos deixavam suas alcovas secretas, subterrâneas para reinar entre a sarjeta e o cheiro de mijo.

Na outra noite, acordara com os pés roxos e doídos. Doidos, haviam roubado-lhe os bens mais preciosos: um par de rotas meias. Houvera o cuidado de lhe devolver os não menos puídos sapatos aos pés, mas ainda era pouco contra o frio. Calor, ainda havia um pouco nos corações mendigos, mais do que num par de pés sujos.

Descalço, naquela noite era a presa. Ofegava entre becos, entre luzes amarelas. Nove de Julho, República, Maria Paula, São Luís - talvez aqui mesmo, onde ocorre esse diálogo, entre colunas de fumaça de cigarros e café - entre uma vitrine e outra, ele parou exausto. De repente os olhos, como dois faróis na noite se apagaram. Deixou-se apagar, não obstante alerta. O coração saindo pela boca. Mesmo os fortes caem no sono e, muitas vezes, falham.

Acorda do que parece ser um pesadelo para mergulhar em outro. Os faróis agora estão em seus olhos. Quentes e grandes, não apenas menos assustadores que o sorriso desdentado que os emoldura. A enfermeira ri, todos riem. Calculou mal o salto. Sangue. Uma mão de unhas imundas, um cano. A visão parece falha. A cabeça dói. Levanta e caminha, persiste na fuga, e mesmo que morto, vai sobreviver. E sobrevive.

Foi em 2000 que uma voz fraca pediu ajuda do outro lado do telefone. Franco de Rosa retirou o amigo de longa data da rua e deu-lhe novo emprego. Dessa época surgem os trabalhos para a editora Opera Graphica. Franco de Rosa me confessa que são trabalhos bons, e não raro, volumosos. Histórias longas, histórias de caráter quase confessional, um expurgo do sofrimento que aprendeu e arrancou do asfalto. Entre outras histórias mais comerciais, Fernando Bonini passa a desenhar quadrinhos do "Rei Leão" e do "Pica-Pau" para estúdios independentes. Os quadrinhos eróticos, verdadeira obsessão de Franco de Rosa, e um dos talentos de Fernando Bonini perde aceitação de mercado. O jeito é desenhar e escrever para crianças.

Mas novamente Fernando Bonini nos impõe um enigma, pois não tarda a voltar para a rua. Outra ligação, agora de um vizinho, informa Franco de Rosa que ele deixou o estúdio onde vivia provisoriamente. Os seus esforços em manter a cabeça do amigo livre dos fantasmas do asfalto falharam.

Mais um ano na rua, outro hiato na amizade entre Fernando Bonini e Franco de Rosa. Pouco se sabe desse período. Sabe-se, no entanto, que Fernando Bonini chegou a buscar ajuda espiritual, e numa de suas aventuras, embarcou numa viagem com uma seita messiânica até uma região qualquer. Meio do mato. Batida policial, pastores presos. Tráfico de drogas. Perdido no mundo.

Doente, desnutrido, cego de um olho - resultado de uma pancada na cabeça -, passou a vagar por Jacareí, também no interior de São Paulo, onde eventualmente conseguia comida e tomava banho em postos de gasolina. Foi novamente por telefone que pediu ajuda ao amigo pela última vez. Estava internado num hospital, e precisava de alguém que o tirasse de lá.

Franco de Rosa mais uma vez fez pelo amigo, instalando-o numa pensão em Valinhos, onde não permaneceu muito tempo. Não muito antes de morrer, fez seus últimos trabalhos, redesenhos, uma história de cangaceiros no estilo Disney, que importava? Parecia trabalhar quase que automaticamente no seu pequeno quartinho. Vida modesta, sem álcool, abstinência. Desgostoso com o rumo que tudo tomara? Talvez. Talvez pensasse no pai, palhaço e barbeiro. Não fosse desenhista, seria barbeiro, dizia. E de alguma forma, foi palhaço, imitando Jerry Lewis, os Três Patetas, fã de Chaves,  avesso ao rádio. A música o punha triste.

Das histórias que fez, a que Franco de Rosa guarda com mais entusiasmo é a do "Zé Mandioca". Paródia do quadrinho que tornou Fernando Bonini célebre - basta procurá-lo no Google, é assim que a História parece querê-lo, como o principal desenhista do "Zé Carioca" -, são histórias de um papagaio anão que se mete em problemas devido ao pênis muito grande.  Ao que parece, Fernando Bonini só desenhou duas das três histórias que existem. Da última, só há um roteiro.

Da última vez que Franco de Rosa viu Fernando Bonini, foi na noite anterior à morte. Ele parecia bem e há poucos dias havia ganhado sua festa de aniversário de 50 anos. Ganhou presentes numa festinha triste. Sua debilidade ainda era visível. As noites frias nas ruas de Jacareí, sem comida, diriam. Pobre coitado.

No dia da morte, saiu para tomar um café. Voltou e deitou-se na cama. Parece ter falecido no sono. O coração não resistiu. O coração que viveu uma infância quase nômade, os loucos anos 80 curitibanos e o inferno das ruas paulistanas. Fernando Bonini dormia em paz. Com o dinheiro que conseguiu, dos últimos trabalhos, chegou inclusive a pagar o próprio funeral, do qual participaram poucas pessoas.

Era dia ensolarado e Franco de Rosa fechou a porta do pequeno quartinho pela última vez. Levava consigo alguns objetos, que depositou no caixão do amigo. Lembra-se com carinho de quando, em Curitiba, o amigo chamou um policial loiro de polaca, e não fossem apartados, teria sido preso. Mas os murros nas paredes, a angústia e a dor que Fernando Bonini experimentou talvez indicasse aos mais indiferentes, aqueles que só dele recordavam sorridente, o copo em mãos, o bigode farto contra um rosto estreito, que era estava preso em vida, e nas ruas buscava a liberdade da solidão. Em vão.

Vai ver a morte o seduziu com suas promessas de liberdade e ele assim resolveu segui-la. Com sorriso na cara e os trejeitos de Jerry Lewis.

Fernando Bonini faleceu num sábado, dia 08/10/2005, vítima de um ataque cardíaco, aos 50 anos de idade.. Foi enterrado em Valinhos, no interior do Estado de São Paulo, localidade que residia nos últimos anos.


Desenho à lápis de Fernando Bonini
Obras
  • Desenhou histórias para a Editora Vecchi na revista "Sobrenatural" ("A Namorada do Julinho", "Roupas do Outro Mundo" e "O Melhor Pastel da Cidade").
  • Desenhou histórias eróticas para a Grafipar.
  • Para a Abril trabalhou nas publicações "Gugu", "Os Trapalhões", "Urtigão", "Recruta Zero" e "Sítio do Pica-Pau Amarelo".
  • Em 2002, "Os Exterminadores Sem Futuro", na Opera Graphica.
  • "Álbum Luciano", escrito por Primaggio Mantovi e publicado pela Via Lettera.


Fonte: Revista Babel

Deodato Borges

DEODATO TAUMATURGO BORGES
(80 anos)
Jornalista, Radialista e Quadrinista

* Campina Grande, PB (1934)
+ João Pessoa, PB (25/08/2014)

Deodato Taumaturgo Borges foi um jornalista, radialista e quadrinista brasileiro, criador do super-herói Flama e pai do também quadrinista Mike Deodato Jr.

Em 1963 transpôs o personagem para a revista "As Aventuras do Flama", a primeira do gênero no Nordeste brasileiro. Inspirada em sucessos da época, como "Jerônimo, o Herói do Sertão" e "The Spirit". A publicação tinha 40 páginas, com capa dura e imagens em preto e branco. Surgiu como uma propaganda da série de rádio homônima, comandada por Deodato Borges e transmitida pela Borborema AM, de Campina Grande, PB, em 1961. "As Aventuras do Flama" era dada como brinde aos ouvintes do programa e logo angariou uma legião de fãs. Flama foi um dos primeiros heróis dos quadrinhos brasileiros, segundo a Brasil Comic Con.

Considerado uma lenda dos quadrinhos brasileiros, Deodato Borges estava confirmado como uma das atrações da Brasil Comic Con, que acontecerá nos dias 15 e 16 de novembro de 2014, em São Paulo. Ao lado do filho, ele participaria dos dois dias de evento

Ainda na década de 60, Deodato Borges foi diretor geral dos Diários Associados de Pernambuco.

Em 1973, tornou-se editor de cultura do jornal O Norte, de João Pessoa, no qual introduziu as tiras de quadrinhos. Foi também secretário de Comunicação do Governo da Paraíba.

Deodato Borges e seu filho Mike Deodato Jr.
Morte

Deodato Borges morreu em João Pessoa, aos 80 anos. A morte foi constatada às 12:50 hs de segunda-feira. 25/08/2014, durante uma sessão de hemodiálise em que Deodato Borges teve duas paradas cardíacas. Na segunda, os médicos não conseguiram reanimá-lo.

Segundo informações da nora de Deodato Borges, Ana Paula Falcão,  ele havia sido diagnosticado com câncer no sistema urinário há cerca de dois meses. Ele já estava há aproximadamente 15 dias internado em um hospital particular de João Pessoa e chegou a fazer uma cirurgia para retirar um dos rins na semana passada. Ainda de acordo com ela, ele estava tendo uma melhora significativa depois da cirurgia, mas não resistiu à segunda sessão de hemodiálise.

O velório ocorreu na segunda-feira, 25/08/2014, na Funerária São João Batista, no bairro da Torre em João Pessoa. A família informou que o sepultamento ocorrerá na tarde de terça-feira, 26/08/2014, às 16:00 hs, no Cemitério Jardim Mangabeira, com entrada localizada nas proximidades da Praça do Coqueiral, no bairro de Mangabeira, Zona Sul da Capital.

Mike Deodato Jr. informou sobre a morte do pai nas redes sociais. "O Flama Morreu", publicou. Tendo o pai como referência, Mike Deodato Jr. é ilustrador da Marvel e responsável por quadrinhos como "Os Vingadores".

Fonte: WikipédiaG1
Indicação: Miguel Sampaio

Henfil

HENRIQUE DE SOUSA FILHO
(43 anos)
Cartunista, Quadrinista, Jornalista e Escritor

* Ribeirão das Neves, MG (05/02/1944)
+ Rio de Janeiro, RJ (04/01/1988)

Como outros dois de seus irmãos — o sociólogo Betinho e o músico Chico Mário, herdou da mãe a Hemofilia.

A estreia de Henfil deu-se em 1964 na revista "Alterosa". Em 1965 passou a colaborar com o jornal Diário de Minas, tendo seu trabalho também publicado no Jornal dos Sports, do Rio de Janeiro, e nas revistas Realidade, Revista Visão, Revista Placar e O Cruzeiro. Aí mudou-se para o Rio, onde em 1969 passou a trabalhar no Jornal do Brasil e no jornal O Pasquim.

Com o advento do AI-5 - garantindo a censura dos meios de comunicação, e os órgãos de repressão prendendo e torturando os "subversivos", - Henfil, em 1972, lançou a revista "Fradim" pela editora Codecri, que tornou seus personagens conhecidos. Além dos fradinhos "Cumprido e Baixim", a revista reuniu a "Graúna", o "Bode Orelana", o nordestino "Zeferino" e, mais tarde, "Ubaldo, o paranoico".

Henfil envolveu-se também com cinema, teatro, televisão (trabalhou na Rede Globo, como redator do extinto programa TV Mulher) e literatura, mas ficou marcado mesmo por sua atuação nos movimentos sociais e políticos brasileiros. Ele tentou seguir carreira nos Estados Unidos, mas não teve lugar nos tradicionais jornais estadunidenses, sendo renegado a publicações underground. Ele então retornou ao Brasil, publicando mais um livro.

Henfil passou toda sua vida a defender o fim do regime ditatorial pelo qual o Brasil passava. Quando em 1972 Elis Regina fez uma apresentação para o exército brasileiro, Henfil publicou em O Pasquim uma charge enterrando a cantora, apelidando-a de "regente" - junto a outras personalidades que, na ótica dele, agradariam aos interesses do regime, como os cantores Roberto Carlos e Wilson Simonal, o jogador Pelé e os atores Paulo Gracindo, Tarcísio Meira e Marília Pêra. Elis Regina protestou contra as críticas, e Henfil enterrou-a novamente.

Cronista do Humor

Os escritos de Henfil eram anotações rápidas. Não eram propriamente crônicas, mas um misto de reflexões rápidas, assim como seus traços ligeiros dos cartuns. Célebres eram suas "Cartas à mãe" — título comum em que escrevia sobre tudo e todos, muitas vezes atirando como metralhadora, usando um tom intimista do filho que realmente fala com a mãe — ao tempo em que criticava o governo e cobrava posições das personalidades.

Mesmo seus livros são em verdade a reunião desses escritos, a um tempo memorialistas e de outro falando sobre tudo, sobre a conjuntura política e seu engajamento.

Em "Diário de um Cucaracha", por exemplo, Henfil narra sua passagem pelos Estados Unidos, onde tentou "fazer a América, sonho de todo latino-americano que se preza" (segundo ele próprio). A obra traz um quadro em que o cartunista relata o choque cultural que experimentou, a reação vigorosa do público americano aos seus personagens, classificados como agressivos e ofensivos. Tudo isso escrito em capítulos pequenos, no tom intimista de quem dialoga não com um leitor anônimo, mas com um amigo ou conhecido. No ano de 2009 seu único filho criou o Instituto Henfil.

Obras Publicadas

1976 - Diário de um Cucaracha (1976)
1976 - Hiroxima, Meu Humor (1976)
1984 - Dez em Humor (Coletânea, 1984)
1984 - Diretas Já! (1984)
1984 - Henfil na China (1984)
1984 - Fradim de Libertação (1984)
1984 - Como se Faz Humor Político (1984)

Morte

Após uma transfusão de sangue acabou contraindo o vírus da AIDS. Ele faleceu vítima das complicações da doença no auge de sua carreira, com seu trabalho aparecendo nas principais revistas brasileiras.

Fonte: Wikipédia