Vó Maria

MARIA DAS DORES SANTOS CONCEIÇÃO
(104 anos)
Cantora e Compositora

☼ Mendes, RJ (05/05/1911)
┼ Rio de Janeiro, RJ (16/05/2015)

Cantora e compositora, foi levada, ainda criança, para o Rio de Janeiro por uma família amiga de seus pais, passando a morar com eles até os 20 anos no bairro do Grajaú.

Em 1931 casou-se com Sebastião Maciel Francisco dos Santos. Cinco anos depois ficou viúva, o marido faleceu em um acidente automobilístico, assim como seu pai, e passou a criar sozinha a filha Nilza Santos Oliveira, Cachucha, de apenas três anos. Nessa época, passou a trabalhar como tarefeira na Fábrica de Rendas, no bairro da Muda. Casou-se pela segunda vez com o jornalista e professor de inglês João Conceição, tendo sua casa, no bairro do Maracanã, transformado-se em um dos palanques do Movimento Negro, tendo passado por lá o senador Abdias do Nascimento, o sociólogo Guerreiro Ramos, o pesquisador Haroldo Costa, a advogada Sebastiana Arruda, entre outros, com os quais o jornalista João Conceição fundou o jornal "A Redenção".

Na década de 60 casou-se com Donga. Ela foi a terceira esposa do compositor, autor do clássico "Pelo Telefone" (Donga e Mauro de Almeida), o primeiro samba gravado, em 1917.

Vó Maria presenciou a criação de boa parte dos clássicos da Música Popular Brasileira através das reuniões em sua casa, nas quais compareciam Pixinguinha, Xangô da Mangueira, Aniceto do Império Serrano, Walter Rosa, Jorginho Pessanha, Jacob do Bandolim, João da Baiana e os iniciantes Martinho da Vila, Clara Nunes, João Nogueira, entre outros.

No ano 2000 apresentou-se pela primeira vez em público na roda de samba "Segunda dá Samba", organizada por Zilmar Basílio.

Em 2001 tornou-se presença constante nas rodas de samba do Museu da Imagem e do Som (MIS) do Rio de Janeiro, na qual era uma das convidadas da presidente da instituição, Marília Trindade Barbosa. Fez diversos shows coletivos ao lado de Dona Ivone Lara e Tia Eulália. Foi uma das atrações convidadas a apresentar-se no evento "Chorando no Rio", festival de choro do Estado do Rio de Janeiro, promovido pela Secretaria de Cultura do Governo de Estado do Rio de Janeiro com apoio da Sala Cecília Meireles e da TVE/Rede Brasil, com apresentação de Ricardo Cravo Albin. Neste mesmo ano, participou do "Encontro Nacional de Pesquisadores da MPB", na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), novamente promovido pelo Museu da Imagem e do Som (MIS).


Em 2003, ao completar 92 anos, fez o show "Maxixe Não é Samba", no Bar Dama da Noite. Nesse mesmo ano, lançou o CD "Maxixe Não é Samba". O disco, com produção artística de Marília Trindade Barbosa, contou com arranjos e direção musical de João de Aquino e com as composições "Braço de Cera""Cabide de Molambo" (João da Baiana), "Coisa da Antiga"  (Wilson Moreira e Nei Lopes), "Com Que Roupa?" (Noel Rosa), "Disse-me-Disse" (Claudionor Cruz), "Eu Sou a Outra" (Ricardo Galeno); "Jura" (Sinhô), "Meu Amor Vou Lhe Deixar" (Orlando Vieira), "Moro na Roça" (Domínio Público), com participação de Xangô da Mangueira e João de Aquino"Mulher de Malandro" (Heitor dos Prazeres), "Pelo Telefone" (Donga e Mauro de Almeida), "Pergunte ao João" (Helena Silva e Milton Costa) e "Yaô" (Pixinguinha e Gastão Vianna). No encarte do CD, Ricardo Cravo Albin escreveu:

"O Instituto Cultural Cravo Albin se sente honrado em editar - junto com o MinC - esse primeiro disco de Vó Maria. Por todos os prismas, todas as maneiras, todos os motivos. E para não ter que alinhavar aqui (nem há espaço...) um arrazoado quase infinito de razões, que vão desde as históricas, passando pela estéticas, limito-me a algumas mais essenciais e mais objetivas:
1. Vó Maria representa uma inestimável referência cultural para este país, por vezes ingrato com a memória, especialmente dos artistas do povo e dos negros. Ela é viúva de Donga, o pioneiro que assinou o primeiro samba, embora amaxixado, o até hoje antológico "Pelo Telefone", em 1917. Mas não só, porque Vó Maria viu, participou e cantou (nunca profissionalmente, contudo) quase de tudo de lá pra cá.
2. Este é o primeiro disco (e logo um CD!) que ela grava - pimpona, lépida e fagueira - aos 92 anos de idade. Logo ela, que poderia (e deveria) ter registrado sua voz, a partir dos anos 20 (numa bolacha de cera, feita em gravação mecânica). Portanto, trata-se da mais antiga cantora do mundo a estrear em disco (recorde, quero crer, a ser registrado até no Guiness).
3. Este disco, que foi produzido pela paixão de Marília T. Barboza (biógrafa de CartolaCaymmiPaulo da Portela, entre outros) e pela competência de João de Aquino (que fez os arranjos, a direção musical, além de participar como violonista exímio que é) só pôde ser feito porque o Ministério da Cultura, através da Secretaria de Música e Artes Cênicas, o alavancou e o abrigou. Finalmente, e faço o registro com enorme prazer pessoal, está sendo lançado por Gilberto Gil, herdeiro dessas nobres tradições que vão do maxixe ao samba, à testa do Ministério da Cultura."

Martinho da Vila, Vó Maria e Ricardo Cravo Albin
Em 22/09/2003 lançou oficialmente o CD "Maxixe Não é Samba" na Sala Cecília Meirelles, no Rio de Janeiro. O show reuniu diversos convidados, entre eles Nelson SargentoXangô da MangueiraBeth CarvalhoDiogo NogueiraDalmo CasteloWilson MoreiraNei LopesCaio MárcioEliane Faria e Áurea Martins. O espetáculo contou com direção musical e arranjos de João de Aquino, além de apresentação e direção de Ricardo Cravo Albin.
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Das várias homenagens que recebeu, destacam-se:
  • Honra ao Mérito, pelo deputado estadual Jamil Haddad (em seu aniversário de 90 anos)
  • Mulheres Herdeiras de Zumbi, pela vereadora Jurema Batista
  • Medalha Pedro Ernesto, pelo vereador Edson Santos, na Câmara Municipal do Rio de Janeiro

Em 14/01/2004 submeteu-se à prova da Ordem dos Músicos tendo sido aprovada com nota 10, por unanimidade, sendo aceita no Sindicato dos Músicos Profissionais do Estado do Rio de Janeiro. Ainda em 2004 recebeu a "Moção de Aplausos e Reconhecimento", pela vereadora Edith Coimbra Braga Montebrunhuli, da Câmara Municipal de Mendes. A homenagem fez parte do "Projeto Flores em Vida", da Fundação Cultural de Mendes, com realização da Secretaria Municipal de Turismo e Desenvolvimento Econômico, sob o patrocínio da Prefeitura Municipal. Neste mesmo ano foi agraciada com a "Ordem do Mérito Cultural" das mãos do presidente Lula e do ministro da Cultura Gilberto Gil, em Brasília.

Foi homenageada com a "Medalha de Honra da Mulher" pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro no Dia Internacional da Mulher, com a "Medalha Nossos Griots", pelo Dia Internacional da Mulher Negra da América Latina e Caribe, com a "Medalha Pedro Ernesto", recebida das mãos do vereador Edson Santos.

Vó Maria e Monarco
Ainda em 2004 recebeu como convidada a cantora Mart'nália no show e projeto "Da Idade do Mundo", no Centro Cultural Banco do Brasil, em Brasília. Ao lado de Tânia Malheiros participou do projeto "Clássicos do Samba", no Teatro Municipal de Niterói, no Rio de Janeiro e acompanhada pelo grupo Passagem de Nível apresentou-se projeto "Choro na Praça", em Mendes, sua cidade natal. Na ocasião foi homenageada pelo projeto "Flores em Vida", da Fundação Cultural de Mendes. Ao lado de Dorina foi a convidada do projeto "Na Descendência do Samba", no Estudantina Café, em roda de samba comandada por  Diogo NogueiraMarcel Powell e Zé Inácio. Apresentou-se também ao lado de seu bisneto Felipe Santos, do neto Marcos Basílio e do Grupo Samba Urbano.

Em 2007 no evento "Da Cachaça ao Champanhe", criado pelo Instituto Cultural Cravo Albin (ICCA) celebrando os 70 anos da gravação do samba "Pelo Telefone", foi a figura central sendo brindada com cachaça e champanhe, acompanhada por, entre outros, Luiz Carlos da Vila e Carmélia Alves.

No ano de 2013, aos 102 anos de idade, foi homenageada na edição do "5° Concurso Nacional de Samba de Quadra", realizado no palco do Circo Voador, na Lapa, no centro do Rio de Janeiro. O concurso, no qual constavam em seu corpo de jurados, presidido por Ricardo Cravo Albin, Geraldo Carneiro e Paulo Roberto Direito, contou com apresentação da homenageada interpretando alguns sambas antológicos, inclusive, "Pelo Telefone". Em comemoração aos seus 102 anos, foi homenageada com uma exposição no Instituto Cultural Cravo Albin e o relançamento de seu disco "Maxixe Não é Samba".

Ainda em 2013, a jornalista Rosa Cass assinou a matéria "Benção, Vó do Samba!", na Revista Carioquice, do Instituto Cultural Cravo Albin. No ano seguinte, foi capa da Revista Carioquice, na qual foi incluída a matéria "Oh, Senhora Majestade", de Mônica Sinelli, com sete páginas dedicadas à cantora. A revista foi lançada no Instituto Cultural Cravo Albin, em evento promovido por sua neta Sônia Maria, intitulado "Viva a Vida", ocasião em que a homenageada cantou músicas de seu disco, além de interpretar composições inéditas de sua autoria.

Morte

Vó Maria morreu aos 104 anos, no Rio de Janeiro. Ela havia caído em casa e precisou fazer uma cirurgia no fêmur. De acordo com a assessoria de imprensa de Vó Maria. Ela chegou a ser operada no Hospital Salgado Filho, mas morreu ao chegar em casa, pouco depois de ter alta.

O velório ocorrerá no domingo, 17/05/2015, no Memorial do Carmo, Caju, entre 13:00 hs e 17:00 hs. Vó Maria será cremada na segunda-feira, 18/05/2015, às 12:00 hs.

Discografia

  • 2013 - Maxixe Não é Samba (Reedição - ICCA, CD)
  • 2003 - Maxixe Não é Samba (ICCA, CD)

Indicação: Miguel Sampaio

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