Carmélia Alves

CARMÉLIA ALVES CURVELLO
(89 anos)
Cantora

* Rio de Janeiro, RJ (14/02/1923)
+ Rio de Janeiro, RJ (03/11/2012)

Terceira filha do casal Raimundo, nascido no Ceará e Adelina, nascida na Bahia. Carmélia Alves nasceu no bairro carioca de Bangu numa quarta-feira de cinzas. Ainda bem pequena, seus pais mudaram-se para a localidade de Areal, em Petrópolis, onde foi criada.

Seu pai, funcionário do escritório do Departamento de Estradas de Rodagem era muito festeiro, tendo formado conjuntos de baile e organizado blocos carnavalescos e festas juninas. Costumava adormecer embalada pelas cantigas nordestinas cantadas pelo pai.

Com 17 anos voltou ao Rio de Janeiro para estudar indo morar na casa de parentes. Por essa época, começou a interessar-se por música, encantando-se de ouvir no rádio as músicas cantadas por  Carmem Miranda, da qual tornou-se fã, acompanhando seus programas na Rádio Tupi e recortando suas fotografias de revistas.

Recebeu muito incentivo do irmão mais velho, Manoel, que também gostava de cantar e achava que a irmã cantava bem. Durante o período de ginásio, tomou parte em diversos programas de calouros, tendo sido aprovada em todos eles, inclusive, no mais temido de todos, o de Ary Barroso, onde o assistente Macalé fazia soar o gongo eliminando seguidamente os concorrentes.


Convidada por Manoel de Nóbrega, outro grande incentivador, participou de seu programa de calouros na Rádio Ipanema. Fez parte do programa "Estrada do Jacó", comandado por Ary Barroso, onde ele apresentava seus melhores calouros.

Terminado o curso ginasial, optou por seguir a carreira artística.

Sua carreira artística teve início nos anos 1940, quando foi contratada por Barbosa Júnior para apresentar-se com cachê fixo no programa "Picolino", cantando músicas do repertório de Carmem Miranda. Em meados dos anos 1940, obteve chance no conhecido programa "Casé", substituindo uma cantora que havia faltado. Cantou músicas de Carmem Miranda, que nesta época havia viajado definitivamente para os Estados Unidos.

Ouvida por César Ladeira, diretor da Rádio Mayrink Veiga, foi contratada por essa rádio, que buscava uma substituta para a estrela Carmem Miranda. Ganhou um programa semanal, recebendo 800 mil-réis por mês, uma verdadeira fortuna para a época.

Em 1941, foi contratada como crooner pelo Copacabana Palace, recebendo 100 mil-réis por dia, apresentando no programa "Ritmos da Panair", apresentado ao vivo por Murilo Neri, sendo transmitido para todo o Brasil pela Rádio Nacional. Nesse mesmo ano, foi considerada pela crítica especializada do Rio de Janeiro a melhor crooner.


Por essa época, conheceu no Copacabana Palace, o paulista de Franca, José Andrade Nascimento Ramos, que apresentava-se cantando músicas americanas, com o nome artístico de Jimmy Lester, e com quem se casou em apenas três meses.

Sua carreira ganhou espaço nesse momento, sendo frequentemente convidada para apresentar-se em outros locais, entre os quais, o "Programa do Chacrinha", na Rádio Fluminense. Participou no coral de várias gravações de outros artistas, entre os quais na gravação de "Aurora", feita por Joel e Gaúcho. Participou, também, de inúmeras gravações de Benedito Lacerda na RCA Victor, sempre participando do coro.

Em 1943, gravou seu primeiro disco, o qual teve que financiar com 400 mil-réis de suas economias. Contou com a ajuda do amigo Benedito Lacerda, que acompanhou a gravação com os músicos de seu regional, que nada cobraram pelo trabalho. Participaram do coro inúmeros artistas, que depois se tornariam famosos, Elizeth Cardoso, Cyro Monteiro e Nélson Gonçalves.

Apesar do sucesso obtido com a gravação, teve que afastar-se um tempo dos discos, pois sendo novata, criara involuntariamente uma situação constrangedora, já que naquele momento de guerra, muitos artistas consagrados não conseguiram gravar. Preferiu, então, excursionar pelo Brasil com o marido. Durante quatro anos apresentou-se em diversas cidades brasileiras. Retornou ao Rio de Janeiro em 1948, retomando seu lugar na Rádio Mayrink Veiga.


Em 1949, gravou com Ivon Curi a toada "Me Leva", de Hervé Cordovil e Rochinha, com orquestração e regência do maestro Radamés Gnattali, que tornou-se seu primeiro grande sucesso e a rancheira "Gauchita", de Luíz Gonzaga e Humberto Teixeira.

Em 1951, ela e o marido Jimmy Lester, em viagem ao Nordeste, descobriram o acordeonista Sivuca, atuando na Rádio Comércio do Recife e o levaram para o Rio de Janeiro. Gravou na mesma época, com Jimmy Lester, os baiões "Adeus Maria Fulô", de Humberto Teixeira e Sivuca, e "Saudade É De Matar", de Hervé Cordovil e Manezinho Araújo. Com Sivuca gravou o pot-pourri "No Mundo Do Baião", com baiões de diferentes autores.

Em 1952 reforçou o direcionamento de sua carreira em direção aos ritmos regionais, embora continuasse a gravar sambas. Começou, também, a ingressar no cinema cantando números avulsos e ganhou o título de "Rainha do Baião", integrando uma verdadeira corte, sendo Luíz Gonzaga , o "Rei", Luiz Vieira, o "Príncipe" e Claudette Soares, a "Princesa", cantando repertório de Carmélia Alves, já conhecida como a "Rainha do Baião".

Recebeu inúmeros convites para apresentar-se em diversos lugares, inclusive na Argentina, onde viu lançado seu grande sucesso "Sabiá Na Gaiola".

De 1950 a 1954, manteve-se na gravadora Continental, na Rádio Nacional e no topo das paradas como a "Rainha do Baião". Depois de apresentar-se com enorme sucesso na Argentina, viajou com a caravana de Humberto Teixeira indo apresentar-se na Alemanha, onde fez sucesso, sendo convidada a gravar um LP pela Telefunken. O mesmo acontece em outros países onde se apresentou. Em Portugal, seu repertório passou a ser utilizado por ranchos regionais. Na então União Soviética, fez um show para 150 mil pessoas.

Luiz Gonzaga, Carmélia Alves e Jaime Santos
Durante a Jovem Guarda, chegou a apresentar-se com o grupo vocal Golden Boys, no Programa Silvio Santos, na televisão.

Em 1977, após 15 anos sem se apresentar para o público carioca, fez antológico show ao lado de Luíz Gonzaga no Teatro João Caetano reabrindo a série "Seis E Meia". Na ocasião interpretou "Qui Nem Jiló", "Trepa No Coqueiro", "Sabiá Lá Na Gaiola" e "Cabeça Inchada", além dos duetos com Luíz Gonzaga em "Reis Do Baião", "Lorota Boa" e "Forró Do Mané Vito".

Na década de 1990, integrou o conjunto Cantoras do Rádio ao lado de Nora Ney, Zezé Gonzaga, Rosita Gonzales, Ellen de Lima e Violeta Cavalcanti.

Em 1993 teve relançado em CD o seu show realizado no Teatro João Caetano ao lado de Luíz Gonzaga.

Em 1998, com a morte de seu marido, Jimmy Lester, entrou em depressão, permanecendo isolada em sua residência de Teresópolis. Mas em dois anos já estava de volta às lides, participando de vários shows em São Paulo, inclusive, no projeto "O Botequim do Cabral" ao lado do crítico Sérgio Cabral.


Em 1999, lançou pelo selo CPC-UMES o CD "Carmélia Alves Abraça Jackson do Pandeiro e Gordurinha" no qual interpretou clássicos como "Chiclete Com Banana", de Gordurinha e José Gomes, "Um a Um", de Edgard Ferreira e "Sebastiana", de Rosil Cavalcanti. Esse disco contou com a participação de Inezita Barroso, Luiz Vieira e Elymar Santos. O lançamento do CD aconteceu através de uma série de shows por todo o Brasil.

Em 2001, apresentou-se no Teatro de Arena ao lado das cantoras Ellen de Lima, Violeta Cavalcanti e Carminha Mascarenhas, no show "Cantoras do Rádio - Estão Voltando As Flores", com apresentação, roteiro e direção de R. C. Albin e que foi gravado em CD pela Som Livre. O espetáculo que teve excelente aceitação, atingindo um público de mais de dez mil pessoas, que aplaudiam de pé, tornou presente diversas memórias da era do rádio, revivendo, por exemplo, logo no início, o prefixo do programa de César de Alencar, apresentado, nos anos 50 na Rádio Nacional.

Em 2002, foi lançado o CD "Estão Voltando As Flores", com Violeta Cavalcanti, Carminha Mascarenhas e Ellen de Lima, onde ela canta, entre outras, as músicas "Ninguém Me Ama", "Feitiço Da Vila" e "Kalu". Como programação do lançamento do CD, o mesmo espetáculo voltou à cena no Teatro Rival BR em agosto de 2002, com grande sucesso de crítica e público.

Em 2004, apresentou, em temporada no Teatro Ipanema, Rio de Janeiro, o espetáculo "Tra-lá-lá-Lalá é Cem", com direção, roteiro e apresentação de R. C. Albin. O espetáculo fez parte das comemorações do centenário do nascimento do compositor Lamartine Babo. Neste show, Carmélia Alves dividiu o palco com Ellen de Lima, Carminha Mascarenhas e O jovem cantor Márcio Gomes, interpretando canções consagradas, em coro e em solo, do renomado compositor . Ainda no mesmo ano, o mesmo espetáculo ganhou temporada no palco do Teatro João Caetano, no projeto "Seis e meia", obtendo entusiasmo da platéia.

A partir de 2010, recolheu-se ao Retiro dos Artistas, onde passou a viver.


Morte

Carmélia Alves faleceu em 03/11/2012 aos 89 anos. O corpo da cantora foi velado no domingo, 04/11/2012, domingo no Cemitério do Pechincha, próximo ao Retiro dos Artistas. A cantora, que tinha Alzheimer e morava há dois anos no Retiro, faleceu na noite do sábado vítima de Falência Múltipla dos Órgãos, de acordo com o boletim do Hospital das Clínicas de Jacarepaguá, onde estava internada há um mês.

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