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Lygia Clark

LYGIA PIMENTEL LINS
(67 anos)
Pintora e Escultora

☼ Belo Horizonte, MG (23/10/1920)
┼ Rio de Janeiro, RJ (25/04/1988)

Lygia Clark, pseudônimo de Lygia Pimentel Lins, foi uma pintora e escultora brasileira contemporânea que se autointitulava "não artista", nascida em Belo Horizonte, MG, no dia 23/10/1920.

Lygia Clark iniciou seus estudos artísticos em 1947, no Rio de Janeiro, sob a orientação de Roberto Burle Marx e Zélia Salgado.

Em 1950, Lygia Clark viajou a Paris, onde estudou com Arpad Szènes, Dobrinsky e Fernand Léger. Nesse período, a artista dedicou-se à realização de estudos e óleos tendo escadas e desenhos de seus filhos como temas. Após sua primeira exposição individual, no Institut Endoplastique, em Paris, no ano de 1952, a artista retornou ao Rio de Janeiro e expôs no Ministério da Educação e Cultura.

Lygia Clark é uma das fundadoras do Grupo Frente, em 1954: Dedicando-se ao estudo do espaço e da materialidade do ritmo, ela se uniu a Décio Vieira, Rubem Ludolf, Abraham Palatnik, João José da Costa, entre outros, e apresentou as suas "Superfícies Moduladas" (1955-57) e "Planos em Superfície Modulada" (1957-58). Estas séries deslocavam a pintura para longe do espaço claustrofóbico da moldura. É o que Lygia Clark queria como linha-luz, como módulo construtor do plano. Cada figura geométrica projeta-se para além dos limites do suporte, ampliando a extensão de suas áreas. Lygia Clark ainda participou, em 1954, com a série "Composições", da Bienal de Veneza, fato que se repetiu em 1968, quando foi convidada a expor, em sala especial, toda a sua trajetória artística até aquele momento.


Em 1959, integrou a I Exposição de Arte Neoconcreta, assinando o Manifesto Neoconcreto, ao lado de Amilcar de Castro, Ferreira Gullar, Franz Weissmann, Lygia Pape, Reynaldo Jardim e Theon SpanudisLygia Clark propôs com a sua obra, que a pintura não se sustenta mais em seu suporte tradicional. Procurou novos vôos.

Nas "Unidades" (1959), moldura e espaço pictórico se confundiram, um invadindo o outro, quando Lygia Clark pintou a moldura da cor da tela. É o que a artista chama de "Linha Orgânica", em 1954: A superfície se expande igualmente sobre a tela, separando um espaço, se reunindo nele e se sustentando como um todo.

As obras querem ganhar o espaço. O trabalho com a pintura resulta na construção do novo suporte para o objeto. Destas novas proposições nascem os "Casulos" (1959). Feitos em metal, o material permite que o plano seja dobrado, assumindo uma busca da tridimensionalidade pelo plano, deixando-o mais próximo do próprio espaço do mundo.

Em 1960, Lygia Clark criou a série "Bichos": Esculturas, feitas em alumínio, possuidoras de dobradiças, que promovem a articulação das diferentes partes que compõem o seu corpo. O espectador, agora transformado em participador, é convidado a descobrir as inúmeras formas que esta estrutura aberta oferece, manipulando as suas peças de metal. Com esta série, Lygia Clark torna-se uma das pioneiras na arte participativa mundial.
Da Série "Bichos"
Em 1961, ganhou o prêmio de melhor escultura nacional na VI Bienal de São Paulo, com os "Bichos".

Lygia Clark deixou de lado a matéria dura (a madeira), passou pelo metal flexível dos "Bichos" e chegou à borracha na "Obra Mole" (1964). A transferência de poder, do artista para o propositor, tem um novo estágio em "Caminhando" (1964). Cortar a fita significava, além da questão da poética da transferência, desligar-se da tradição da arte concreta, já que a "Unidade Tripartida" (1948-49), de Max Bill, ícone da herança construtivista no Brasil, era constituída simbolicamente por uma fita de Moebius. Esta fita distorcida na "Obra Mole" agora é recortada no "Caminhando". Era uma situação limite e o início claro de num novo paradigma nas Artes Visuais brasileiras. O objeto não estava mais fora do corpo, mas era o próprio corpo que interessava a Lygia Clark.

A trajetória de Lygia Clark fez dela uma artista atemporal e sem um lugar muito bem definido dentro da História da Arte. Tanto ela quanto sua obra fogem de categorias ou situações em que podemos facilmente embalar. Lygia Clark estabeleceu um vínculo com a vida, e podemos observar este novo estado nos seus "Objetos Sensoriais" (1966-1968": A proposta de utilizar objetos do nosso cotidiano (água, conchas, borracha, sementes), já aponta no trabalho de Lygia Clark, por exemplo, para uma intenção de desvincular o lugar do espectador dentro da instituição de Arte, e aproximá-lo de um estado, onde o mundo se molda, passa a ser constante transformação.

"Contra Relevo" foi arrematada em 2013, em New York, por US$ 2,2 milhões (R$ 4,5 milhões)
Em 1968 apresentou, pela primeira vez, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ), "A Casa é o Corpo", uma instalação de oito metros, que permite a passagem das pessoas por seu interior, para que elas tenham a sensação de penetração, ovulação, germinação e expulsão do ser vivo. Nesse mesmo ano, Lygia Clark mudou-se para Paris. O corpo dessexualizado é apresentado na série "Roupa-Corpo-Roupa: O Eu e o Tu" (1967). Um homem e uma mulher vestem pesados uniformes de tecido plastificado e capacetes que encobrem os seus olhos: O homem, veste o macacão da mulher e ela, o do homem. Tateando um ao outro, são encontradas cavidades. Aberturas, na forma de fecho ecler, que possibilitam a exploração tátil, o reconhecimento do corpo: "Os fechos são para mim como cicatrizes do próprio corpo", disse a artista, no seu diário.

Em 1972, foi convidada a ministrar um curso sobre comunicação gestual na Sorbonne. Suas aulas eram verdadeiras experiências coletivas apoiadas na manipulação dos sentidos, transformando estes jovens em objetos de suas próprias sensações. São dessa época as proposições "Arquiteturas Biológicas" (1969), "Rede de Elástico" (1974), "Baba Antropofágica" (1973) e "Relaxação" (1974). Tratam de integrar arte e vida, incorporando a criatividade do outro e dando ao propositor o suporte para que se exprima.


Em 1976, Lygia Clark voltou definitivamente ao Rio de Janeiro. Abandonou, então, as experiências com grupos e iniciou uma nova fase com fins terapêuticos, com uma abordagem individual para cada pessoa, usando os "Objetos Relacionais": Na dualidade destes objetos (leves/pesados, moles/duros, cheios/vazios), Lygia Clark trabalhou o arquivo de memórias dos seus pacientes, os seus medos e fragilidades, através do sensorial. Ela não se limitou apenas ao campo estético, mas sobretudo ao atravessamento de territórios da arte. Lygia Clark deslocou-se para fora do sistema do qual a arte é parte integrante, porque sua atitude incorpora, acima de tudo, um exercício para a vida. Como afirma:

"Se a pessoa, depois de fizer essa série de coisas que eu dou, se ela consegue viver de uma maneira mais livre, usar o corpo de uma maneira mais sensual, se expressar melhor, amar melhor, comer melhor, isso no fundo me interessa muito mais como resultado do que a própria coisa em si que eu proponho a vocês."
(O Mundo de Lygia Clark, 1973, filme dirigido por Eduardo Clark, PLUG Produções)

Em 1981, Lygia Clark diminui paulatinamente o ritmo de suas atividades.

Em 1983 foi publicado, numa edição limitada de 24 exemplares, o "Livro Obra", uma verdadeira obra aberta que acompanha, por meio de textos escritos pela própria artista e de estruturas manipuláveis, a trajetória da obra de Lygia Clark desde as suas primeiras criações até o final de sua fase neoconcreta.

Em 1986, realizou-se, no Paço Imperial do Rio de Janeiro, o IX Salão de Artes Plásticas, com uma sala especial dedicada a Hélio Oiticica e Lygia Clark. A exposição constituiu a única grande retrospectiva dedicada a Lygia Clark ainda em atividade artística.

Lygia Clark faleceu aos 67 anos, vítima de um ataque cardíaco, no Rio de Janeiro, RJ, no dia 25/04/1988.

Homenagens

Em 23/10/2015, em seu 95º aniversário de nascimento, Lygia Clark foi homenageada pelo Google através de um Doodle.

Superfície Modulada nº 4
Recorde de Valores

Em maio de 2013, a obra "Contra Relevo" foi arrematada, em New York, por US$ 2,2 milhões (R$ 4,5 milhões), tornando-se até aquele momento, a obra mas valiosa de um brasileiro vendida num leilão.

Em agosto de 2013, novamente uma obra sua, a "Superfície Modulada nº 4", foi arrematada num leilão na Bolsa de Arte de São Paulo por R$ 5,3 milhões, batendo o recorde e tornando-se ate aquele momento, a obra mas valiosa de um brasileiro vendida num leilão.

Zanine Caldas

JOSÉ ZANINE CALDAS
(82 anos)
Paisagista, Maquetista, Escultor, Moveleiro, Arquiteto, Designer de Produtos e Professor

☼ Belmonte, BA (25/04/1919)
┼ Vitória, ES (20/12/2001)

José Zanine Caldas foi um paisagista, maquetista, escultor, moveleiro, escultor e designer de produtos e professor, além de também atuar como professor no Brasil e no exterior, nascido em Belmonte, sul da Bahia, no dia 25/04/1919.

Por seu talento incomum foi reconhecido como Mestre da Madeira. Seu trabalho promoveu a integração do artesanato tradicional brasileiro e do modernismo de forma singular.

Zanine desde criança era apaixonado por obras e serrarias. Filho de um médico, com 13 anos ele começou a fazer presépios de Natal para os vizinhos usando caixas de seringa do pai, feitas de papelão. Mais tarde, tomou aulas de desenho com um professor particular e, aos 18 anos, foi para São Paulo, trabalhar como desenhista numa construtora.

Dois anos depois abriu sua própria empresa no Rio de Janeiro para construção de maquetes onde trabalhou entre 1941 e 1948. Por sugestão de Oswaldo Bratke, transfere-o depois para São Paulo, em atividade de 1949 a 1955. O ateliê atendia os principais arquitetos modernos das duas cidades, e era responsável pela maioria das maquetes apresentadas no livro "Modern Architecture In Brazil" (1956), de Henrique E. Mindlin. Do ateliê de Zanine saíam os protótipos de projetos assinados por nomes como Lúcio Costa, Oswaldo Arthur Bratke e Oscar Niemeyer.

Em 1949, em São José dos Campos, SP, uma sociedade entre Zanine, Sebastião Henrique da Cunha Pontes Paulo Mello, gerou a Zanine, Pontes e Cia. Ltda., mais conhecida como Móveis Artísticos Z, que produziu móveis por 12 anos para a classe média. O desenho dos móveis com forte influência modernista foi assinado por Zanine até sair da sociedade em 1953.


Zanine Caldas trabalhou como assistente do arquiteto Alcides da Rocha Miranda na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP), entre 1950 e 1952.

Em São Paulo, desenvolveu projetos paisagísticos até 1958, quando se transferiu para Brasília, onde construiu sua primeira casa, em 1958, e coordenou a construção de outras até 1964.

Indicado por Rocha Miranda a Darcy Ribeiro, ingressou na Universidade de Brasília (UNB) em 1962, e deu aulas de maquetes até 1964, quando perdeu o cargo em virtude do golpe militar. Nesse ano, 1964, viajou pela América Latina e África, e, retornando ao Rio de Janeiro, construiu sua segunda casa, a primeira de uma série construída na Joatinga até 1968.

Em 1968, mudou-se para Nova Viçosa, Bahia, abriu um ateliê-oficina, que funcionou até 1980, e participou do projeto de uma reserva ambiental com o artista plástico Frans Krajcberg, para quem projetou um ateliê em 1971.

Simultaneamente, entre 1970 e 1978, manteve o escritório no Rio de Janeiro, para onde retornou em 1982. Um ano depois fundou o Centro de Desenvolvimento das Aplicações das Madeiras do Brasil (DAM), e o transferiu em 1985 para a Universidade de Brasília (UNB). Nesse período propôs a criação da Escola do Fazer, um centro de ensino sobre o uso da madeira da região para a construção de casas, mobiliário e objetos utilitários para a população de baixa renda.


Em 1975 o cineasta Antonio Carlos da Fontoura fez o filme "Arquitetura de Morar", sobre as casas da Joatinga, com trilha sonora de Tom Jobim, para quem Zanine Caldas projetou uma casa. Dois anos depois, a obra do arquiteto é exposta no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ), no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP), em Belo Horizonte, e no ano seguinte no Solar do Unhão, em Salvador.

Em 1986, a publicação de sua obra na revista "Projeto" nº 90 inicia uma polêmica no Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (CREA) sobre o fato de Zanine Caldas ser auto-ditada. Vários arquitetos saem em sua defesa, entre eles Lúcio Costa, que lhe entrega cinco anos depois, no 13º Congresso Brasileiro de Arquitetura em São Paulo, o título de Arquiteto Honorário dado pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB).

Em 1989 é reintegrado no seu posto na Universidade de Brasília (UNB), mas não chega a dar aulas. Nesse ano vai para Europa, onde projeta residências em Portugal e dá aulas na École d´Architecture de Grenoble, França. O Musée des Arts Decoratifs de Paris mostra suas peças de design em 1989, ano em que recebe a medalha de prata do Colégio de Arquitetos da França.

Perseguido, Zanine chegou a se asilar na embaixada da Iugoslávia, mas no último momento decidiu não viajar para aquele país. Reapareceu ao final dos anos 60. Estabeleceu-se no Rio de Janeiro onde construiu dezenas de casas no bairro de Joatinga, um local de geografia privilegiada, situado entre São Conrado e a Barra da Tijuca. Realizou ali uma arquitetura ao mesmo tempo colonial e moderna, cuja escolha de material privilegiava a preservação do meio ambiente e enfatizava o conceito de autoconstrução.


Nos anos 80, ao estabelecer uma oficina para antigos canoeiros em Nova Viçosa, BA, em sua comunidade "proto-ecológica", reassumiu sua ligação com as técnicas caboclas e reinterpretou as tradições artesanais regionais. À época, Zanine sonhava em transformar Nova Viçosa em uma capital cultural e a sua utopia chegou a reunir nomes como os de Chico BuarqueOscar Niemeyer e Dorival Caymmi. Lá ajudou a construir a residência do artista Franz Krajcberg.

Durante muitos anos, Zanine foi o centro de uma polêmica que tentou impedi-lo de construir por não ser um profissional diplomado. Chegou a ser impedido pelo Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (CREA) de levar adiante a construção de alguns projetos. No entanto, pelo domínio da técnica e materiais Zanine acabou sendo reconhecido como Arquiteto Honoris Causa. Lúcio Costa foi um dos defensores do título, causando polêmica no meio.

Em 1991 Lúcio Costa teve a honra de entregar-lhe o título de arquiteto honorário, atribuído pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB).

No final da década de 80, seu trabalho foi exposto no Museu do Louvre, em Paris, trazendo-lhe o reconhecimento internacional.

Zanine Caldas morreu em Vitória, ES, no dia 20/12/2001, aos 82 anos, vítima de um infarto. Ele já vinha sofrendo de hidrocefalia e apresentava diversas dificuldades de comunicação e raciocínio.

Casado por seis vezes, deixou seis filhos, entre eles o arquiteto José Zanine Caldas Filho, o designer Zanini de Zanine Caldas, que em seus desenhos tem como inspiração os projetos do pai, também ganhando notoriedade por móveis

Indicação: Paulo Roberto Santos

Tunga

ANTÔNIO JOSÉ DE BARROS CARVALHO E MELLO MOURÃO
(64 anos)
Escultor, Desenhista e Artista Performático

☼ Palmares, PE (08/02/1952)
┼ Rio de Janeiro, RJ (06/06/2016)

Antônio José de Barros Carvalho e Mello Mourão, conhecido como Tunga, foi um escultor, desenhista e artista performático brasileiro. É considerado uma das figuras mais emblemáticas do cenário artístico nacional.

Nascido em Palmares, PE, Tunga escolheu viver no Rio de Janeiro, onde se formou em arquitetura e urbanismo e começou a desenvolver sua carreira artística. Ele era filho do jornalista e poeta Gerardo de Mello Mourão e de Léa de Barros, que foi uma das mulheres que posou para o célebre quadro "As Gêmeas" de Guignard.

Tunga começou a carreira nas artes plásticas ainda na década de 70, com desenhos e esculturas. Traçava imagens figurativas com temas ousados, como na série de imagens do "Museu da Masturbação Infantil", de 1974. Ainda na mesma década, ele começou a fazer instalações de diferentes materiais.

Tunga foi o primeiro artista contemporâneo do mundo e o primeiro brasileiro a ter uma obra exposta no icônico Museu do Louvre em Paris. Tem obras em acervos permanentes de museus como o Guggenheim de Veneza, e galerias dedicadas à sua obra no Instituto Inhotim.


Na década de 80, Tunga montou a instalação "Ao", em que mostra um filme feito no túnel Dois Irmãos. O trecho se repete, como se a câmera andasse em círculos pelo caminho, não encontrando saída e nem entrada dentro daquela estrutura sem comunicação com o ambiente exterior.

Neste período, o artista plástico também abordou as ciências naturais em seu trabalho, mas também representava a fuga da normalidade. A obra "Les Bijoux de Mme. Sade", de 1983, é um exemplo disso, onde ele construiu um círculo com a forma de um osso.

Ao longo da década de 90, Tunga explorou as relações entre diferentes metais e figuras que fizeram história em sua obra. É o caso de "Lúcido Nigredo", de 1999.

Considerado um dos maiores nomes da arte contemporânea nacional, ele foi o primeiro a ter uma obra exposta no museu do Louvre em Paris. Tunga também expôs na Bienal de Veneza. Sua obra era carregada de simbolismo, com uso de ossos, crânios, dedais e agulhas.


Para criar seus trabalhos, Tunga investigava áreas do conhecimento como literatura, psicanálise, teatro e ciências exatas e biológicas. Utilizava em suas esculturas e instalações materiais como correntes, fios elétricos, lâmpadas, feltro e borracha. Além disso, sua obra era carregada de simbolismo, com uso de ossos, crânios, dedais e agulhas.

Colaborador da revista Malasartes e do jornal A Parte do Fogo, realizou, na década de 1980, conferências no Instituto de Filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Santa Úrsula e na Universidade Cândido Mendes.

Recebeu o Prêmio Governo do Estado por exposição realizada no Museu de Arte do Rio Grande do Sul, em 1986. No ano seguinte, realizou o vídeo "Nervo de Prata", feito em parceria com Arthur Omar.

Em 1990, recebeu o Prêmio Brasília de Artes Plásticas e, em 1991, o Prêmio Mário Pedrosa da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) pela obra "Preliminares do Palíndromo Incesto"

Morte

Tunga morreu na segunda-feira, 06/06/2016, aos 64 anos, vítima de um câncer na garganta. Ele estava internado no Hospital Samaritano, em Botafogo, na Zona Sul do Rio de Janeiro, desde o dia 12/05/2016.

Trabalhos no Exterior

Sua obra acabou por ganhar repercussão internacional, levando-o a expor em importantes espaços destinados às artes plásticas ao redor do mundo.

  • 1982 - Divide o Pavilhão Brasileiro da 41ª Bienal de Veneza com o escultor Sérgio Camargo.
  • 1989 - Realiza exposições individuais no Museu de Arte Contemporânea de Chicago.
  • 1989 - Participa de uma mostra coletiva no Stedelijk Museum, na Holanda.
  • 1989 - Realiza exposições individuais na Whitechapel Gallery, em Londres.
  • 1992 - Participa de uma mostra coletiva no Jeu de Paume, em Paris.
  • 1993 - Participa de uma mostra coletiva no Moma, em New York.
  • 1993 - Participa de uma mostra coletiva no Ludwig Museum, na Alemanha.
  • 1994 - Realiza exposições individuais no Museu de Arte Contemporânea de New York.
  • 1994 - Participa da bienal de Havana, em Cuba.
  • 1997 - Participa da Documenta Kassel, Alemanha.
  • 1999 - Realiza exposições individuais no Centro Cultural Recoleta, em Buenos Aires.
  • 2000 - Participa da bienal de Kwang-Ju, na Coréia.
  • 2000 - Participa da bienal de Lyon, na França.
  • 2001 - Realiza exposições individuais no LarJeu de Paume, em Paris.
  • 2002 - Realiza exposições individuais na Luhring Augustine Gallery, em New York.
  • 2005 - Realiza exposições individuais na Pirâmide do Louvre, em Paris.
  • 2007 - Realiza exposições individuais no no Museu de Arte Moderna (MoMA), de New York.


Prêmios e Honrarias

  • 1985 - Prêmio Museu de Arte Moderno de Caracas - Caracas, Venezuela (Venceu)
  • 1986 - Prêmio da Trienal Latinoamericana de Arte Sobre Papel - Buenos Aires, Argentina (Venceu)
  • 1986 - Prêmio Governo do Estado do Rio Grande do Sul - Exposição realizada no Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Venceu)
  • 1990 - Prêmio Brasília de Artes Plásticas (Venceu)
  • 1991 - Prêmio Mário Pedrosa Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA), pela obra Preliminares do Palíndromo Incesto (Venceu)
  • 1997 - Prêmio Aquisição - Museu de Arte Contemporânea, Niterói (Venceu)
  • 1997 - Prêmio Aquisição - Museu de Arte Moderna da Bahia (Venceu)
  • 1997 - Prêmio Aquisição - Museu de Arte Moderna de Recife (Venceu)
  • 1997 - Prêmio Embratel - Museu de Arte Moderna de São Paulo (Venceu)
  • 1997 - Prêmio de 30 anos - Museu de Arte Moderna de São Paulo (Venceu)
  • 1998 - Johnny Walker Prize - Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro (Venceu)
  • 2000 - Hugo Boss Award - Guggenheim Museum, New York (Indicado)
  • 2005 - Artes Mundi Prize - Wales, Inglaterra (Venceu)


Vídeos e Livros

  • 1997 - Sua obra é retrata no vídeo "Tunga: 100 Redes e Tralhas", de Roberto Moreira.
  • 1997 - Sua obra é retrata no livro "Tunga: Barroco de Lírios", lançado editora Cosac & Naify.
  • 2007 - É publicada a caixa "Tunga", constituída de sete volumes de diferentes formatos (textos, fotografias, vídeos), que documentam a trajetória do artista.

Fonte: Wikipédia e G1
Indicação: Miguel Sampaio

Lasar Segall

LASAR SEGALL
(66 anos)
Pintor, Escultor e Gravurista

* Vilnius, Lituânia (21/07/1891)
+ São Paulo, SP (02/08/1957)

"Tinha somente a convicção de estar enamorado desse país e que a dedicação que eu lhe devotava, era demais profunda e violenta para ser superficial."
(Lasar Segall)

Lasar Segall - em russo, Лазарь Сегал, em lituano, Lozarius Segalas, foi um pintor, escultor e gravurista nascido na Lituânia e naturalizado brasileiro. O trabalho de Segall teve influências do impressionismo, expressionismo e modernismo. Seus temas mais significativos foram representações pictóricas do sofrimento humano: a guerra e a perseguição.

No ano de 1923, aos 32 anos, Lasar Segall mudou-se definitivamente para o Brasil. Já era um artista conhecido. Contudo, foi aqui que, segundo suas próprias palavras, sua arte ficou como o "Milagre da Luz e da Cor". Foi um dos primeiros artistas modernistas a expor no Brasil.

Iniciou seus estudos em 1905, quando entrou para a Academia de Desenho de Vilnius, sua cidade natal. No ano seguinte, mudou-se para Berlim, passando a estudar na Academia Imperial de Berlim, durante cinco anos. Mudou-se, a seguir, para Dresden, estudando na Academia de Belas Artes.

Em fins de 1912, Lasar Segall veio ao Brasil, encontrar-se com seus irmãos, que moravam no país, entre eles a irmã Luba Segall Klabin, que havia se casado com Salomão Klabin e tiveram três filhos: Esther Klabin, Samuel Klabin e Horácio Klabin.

Lasar Segall em seu ateliê
Realizou suas primeiras exposições individuais em São Paulo e em Campinas, em 1913. Pela primeira vez o Brasil vinha a conhecer a arte expressionista europeia. Entretanto a repercussão junto ao público e à crítica foi mínima.

Logo depois ele voltou para à Europa, casando-se, em 1918, com Margarete Quack.

Fundou, com um grupo de artistas, o movimento "Secessão de Dresden", em 1919, realizando, a seguir, diversas exposições na Europa.

Lasar Segall mudou-se para o Brasil em 1923, dedicando-se, além da pintura, às artes decorativas. Criou a decoração do Baile Futurista, no Automóvel Clube de São Paulo, e os murais para o Pavilhão de Arte Moderna de Olívia Guedes Penteado.

Já separado de sua primeira esposa, casou-se em 1925 com Jenny Klabin, filha de Maurício Freeman Klabin, que era irmão de Salomão Klabin, portando Lasar Segall casou-se com a sobrinha do seu cunhado, com quem teve os filhos Maurício Klabin Segall (que se casaria nos anos 50 com a atriz Beatriz de Toledo, posteriormente Beatriz Segall) e Oscar Klabin Segall. Nessa época, passou a viver com a família em Paris, onde se dedicou também à escultura. Suas obras nessa fase remetem à atmosfera familiar e de intimidade. Suas cores fortes procuram expressar as paixões e sofrimentos dos seres humanos. Seus personagens são mulatas, prostitutas e marinheiros. Suas paisagens, favelas e bananeiras. Anos mais tarde dedicou-se à escultura em madeira, pedra e gesso.

Lasar Segall pintando o óleo "Navio de Emigrantes"
Em 1932, Lasar Segall retornou Brasil, vagou por todo tempo, instalando-se em São Paulo na casa projetada pelo arquiteto Gregori Warchavchik, seu concunhado. Essa casa abriga, atualmente, o Museu Lasar Segall. Nesse mesmo ano foi um dos criadores da Sociedade Pró-Arte Moderna (SPAM) na capital paulista.

Sua produção na década de 1930 incluiu uma série de paisagens de Campos do Jordão e retratos da pintora Lucy Citti Ferreira.

Em 1938, Lasar Segall realizou os figurinos para o balé "Sonho de uma Noite de Verão", encenado no Teatro Municipal de São Paulo.

Uma retrospectiva de sua obra no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, foi realizada em 1943. Nesse mesmo ano, foi publicado um álbum com textos de Mário de Andrade, Manuel Bandeira e Jorge de Lima.

Em 1951, Lasar Segall realizou uma exposição no Museu de Arte de São Paulo. Três anos depois, criou os figurinos e cenários do balé "O Mandarim Maravilhoso".

O Museu Nacional de Arte Moderna preparou uma grande retrospectiva de sua obra em 1957, em Paris. Lasar Segall morreu nesse mesmo ano, vítima de problemas cardíacos, em sua casa, aos 66 anos.

Lasar Segall pintando
O Museu Lasar Segall, idealizado por Jenny Klabin Segall - viúva de Lasar Segall - foi criado como uma associação civil sem fins lucrativos, em 1967, por seus filhos Mauricio e Oscar. Está instalado na antiga residência e ateliê do artista, projetados em 1932, por seu concunhado, o arquiteto de origem russa Gregori Warchavchik que era casado com Mina Klabin, irmã de Jenny Klabin, cunhada de Lasar Segall.

Em 1985, o Museu foi incorporado à Fundação Nacional Pró-Memória, integrou até 2009 o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) do Ministério da Cultura, como unidade especial.

A partir de 2010 converteu-se em uma das unidades museológicas do recém criado Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), do Ministério da Cultura.

Além de seu acervo museológico, o Museu constitui-se como um centro de atividades culturais, oferecendo programas de visitas monitoradas para escolas, cursos e oficinas nas áreas de gravura, fotografia e criação literária, programação de cinema. Abriga a Biblioteca Jenny Klabin Segall, que mantém acervo único nas áreas das Artes do Espetáculo (Cinema, Teatro, Rádio e Televisão, Dança, Ópera e Circo) e de Fotografia. A Biblioteca, ainda, possui a mais completa documentação sobre a vida e a obra de Lasar Segall.

O Museu, como órgão federal, é apoiado pela Associação Cultural de Amigos do Museu Lasar Segall (ACAMLS), uma sociedade civil sem fins lucrativos, viabilizada pela colaboração de instituições públicas e privadas, além de pessoas físicas que cooperam com o Museu.

Fonte: Wikipédia

Hélio Oiticica

HÉLIO OITICICA
(42 anos)
Pintor, Escultor e Artista Plástico

* Rio de Janeiro, RJ (26/07/1937)
+ Rio de Janeiro, RJ (22/03/1980)

Hélio Oiticica foi um pintor, escultor, artista plástico e performático de aspirações anarquistas. É considerado por muitos um dos artistas mais revolucionários de seu tempo e sua obra experimental e inovadora é reconhecida internacionalmente.

Hélio Oiticica era filho de José Oiticica Filho, um dos importantes fotógrafos brasileiros, que também era engenheiro, professor de matemática e entomólogo e de Ângela Santos Oiticica. Teve mais dois irmãos, César e Cláudio, nascidos respectivamente em 1939 e 1941.

A educação de Hélio e seus irmãos começou em sua casa, onde tiveram aulas de matemática, ciências, línguas, história e geografia dadas pelo pai e a mãe. Também teve grande influência em sua formação o avô José Oiticica, conhecido intelectual filólogo, professor, escritor, anarquista e jornalista.

No ano de 1947, seu pai, José Oiticica Filho foi premiado com uma bolsa da Fundação Guggenheim. A família se mudou para Washington, Estados Unidos, e seu pai passou a trabalhar no United States National Museum - Smithsonian Institution. Ficaram lá por dois anos e Hélio, então com 10, e seus irmãos foram matriculados pela primeira vez numa escola oficial, a Thomson School. A a proximação com a arte se deu nessa época. Hélio e os irmãos tinham à disposição galerias de arte e museus.

A família retornou ao Rio de Janeiro, em 1950, e, em 1952, Hélio começou a escrever e a traduzir peças de teatro que encenava em casa com os irmãos. Sua tia, a atriz Sônia Oiticica, passou a o incentivá-lo nessa empreitada.


Primeiras Exposições

Durante a II Bienal do Museu de Arte Moderna de São Paulo, realizada em 1953, Hélio Oiticica tomou contato com a obra de Paul Klee, Alexander Calder, Piet Mondrian e Pablo Picasso, e no ano seguinte começou a estudar pintura com Ivan Serpa. Entrou para o Grupo Frente e junto fez a sua primeira exposição no Museu de Arte Moderna. Nessa época começou a conviver com artistas e críticos, como Lygia Clark, Ferreira Gullar e Mário Pedrosa. Sua obra desse período (1955-1957) são pinturas geométricas sob guache e cartão, que resultou em 27 trabalhos nessa técnica, intitulados "Secos", que foram expostos no Rio de Janeiro, na Exposição Nacional de Arte Concreta.

Paralelo a esse evento esteve presente à polêmica conferência proferida por Décio Pignatari, na "Noite de Arte Concreta" na União Nacional dos Estudantes. Esse evento teve grande importância pois lançou as bases da arte concreta e colocou, de um lado, poetas e críticos como Haroldo de Campos, Augusto de Campos, Décio Pignatari e Ferreira Gullar, e de outro, os defensores da arte tradicional.

Em 1959, convidado por Lygia ClarkFerreira Gullar, integrou o Grupo Neoconcreto do Rio de Janeiro e passou a realizar pinturas a óleo sobre tela e compensado. São obras monocromáticas que incluem pinturas triangulares em vermelho e branco. Nesse mesmo ano participou da V Bienal do Museu de Arte Moderna de São Paulo. Em 1960 trabalhou como auxiliar técnico de seu pai, José Oiticica Filho, no Museu Nacional.


Parangolés e Penetráveis

A partir do início dos anos 60, Hélio Oiticica começou a definir qual seria o seu papel nas artes plásticas brasileiras e a conceituar uma nova forma de trabalhar, fazendo uso de maneiras que rompiam com a ideia de contemplação estática da tela. Surgiu aí uma proposta da apreciação sensorial mais ampla da obra, através do tato, do olfato, da audição e do paladar. Exemplo disso é o penetrável PN1 e a maquete do "Projeto Cães de Caça", composto de cinco penetráveis (1961) e os bólides, que são as estruturas manuseáveis, chamados de B1 Bólide Caixa 1 (1963).

No período de 1964, aproximou-se da cultura popular e passou a frequentar a Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, tornando-se passista e integrando-se na comunidade do morro. Vem dessa época o uso da palavra parangolé que passou a designar as obras em que estava trabalhando naquele momento. Os primeiros parangolés se compunham de tenda, estandarte e bandeira e P4, a primeira capa para ser usada sobre o corpo. São obras que causaram polêmicas e ele definia como "antiarte por excelência". Na exposição Opinião 65, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, foi proibido de desfilar - os passistas da Mangueira vestiam seus parangolés - nas dependências do museu. Hélio Oiticica realizou a apresentação no jardim, com grande aceitação pública.

Hélio Oiticica, além de realizar as sua obras, também teorizava sobre elas em textos como "Os Bólides e o Sistema Espacial Que Neles Se Revela", "Bases Fundamentais Para Definição do Parangolé", e "Anotações Sobre o Parangolé", entre muitos outros, que divulgava mimeografadas.

Em 1965, começou carreira internacional e realizou exposição, Soundings Two, em Londres, ao lado de obras de Duchamp, Klee, Kandinsky, Mondrian, Léger, entre outros.


Em 1967, iniciou suas propostas supra-sensoriais, com os bólides da "Trilogia Sensorial", além dos penetráveis PN2 e PN3 que faziam parte da obra Tropicália, mostrada na exposição Nova Objetividade Brasileira, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

Caetano Veloso usou como cenário a bandeira "Seja Marginal Seja Herói", de Hélio Oiticica, em show na boate Sucata no Rio de Janeiro. A bandeira foi apreendida e o espetáculo suspenso pela Polícia Federal. Essa aproximação com Hélio Oiticica foi de grande importância na definição dos rumos da música brasileira.

Além da militância artística no Brasil, a carreira internacional de Hélio Oiticica passou a tomar grande parte de seu tempo, com exposições e intervenções em Londres, Nova York e Pamplona, a partir dos fins dos de 60 e início dos anos 70.

Em 1972, usou o formato super 8 e realizou o filme "Agripina é Roma - Manhattan". O cinema passou a ser uma referência, e em 1973 criou o projeto Quase-Cinema, com a obra "Helena Inventa Ângela Maria", série de slides que evocam a carreira da cantora Ângela Maria.

Uma nova série de penetráveis intitulados Magic Square e os objetos Topological Ready-Made Landscapes foram mostrados na exposição Projeto Construtivo Brasileiro, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em 1977.

Em 1979, criou o seu último penetrável chamado "Azul In Azul". Neste ano, Ivan Cardoso realizou o filme "HO", retratando a obra de Hélio Oiticica.

No dia 22/03/1980, Hélio Oiticica sofreu um acidente vascular cerebral, vindo a falecer, no Rio de Janeiro.


João Turin

JOÃO ZANIN TURIN
(70 anos)
Escultor

* Morretes, PR (21/09/1878)
+ Curitiba, PR (09/07/1949)

Considerado o precursor da escultura no Paraná, João Turin deixou um considerável acervo que inclui pequenas esculturas e baixos-relevos, pinturas, monumentos históricos e outras obras em locais públicos da capital e municípios paranaenses. João Turin destacou-se e é reconhecido como escultor animalista sendo premiado no Salão Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro em 1944 e 1947.

Também dedicou-se a pintura, porém, nunca almejou ser pintor. Chamava suas pinturas de "emoções" pois pretendia apenas representar lugares e temas que tivessem de alguma forma lhe inspirado.

De formação acadêmica, o artista iniciou seus estudos na Escola de Artes e Ofícios de Antônio Mariano de Lima em Curitiba, onde atuou como aluno e professor.

Aos 27 anos com auxílio do Estado, seguiu para a Bélgica e especializou-se em escultura na Real Academia de Belas Artes de Bruxelas, sob os ensinamentos do reconhecido mestre da estatuária, o belga Charles Van der Stappen. Por merecimento curricular, João Turin conquistou como prêmio um ateliê, carvão para aquecimento e modelo vivo. Dos diversos trabalhos realizados na academia, destaca-se a obra "Exílio".

Retornou ao Brasil em novembro de 1922, centenário da Independência e expos no Rio de Janeiro a estátua de Tiradentes, trabalho executado em Paris, nesse mesmo ano e que recebeu boas referências na imprensa francesa.

João Turin nasceu em Porto de Cima, município de Morretes, Paraná, no dia 21/09/1878 e faleceu em Curitiba, PR no dia 09/07/1949, aos 70 anos.

Fragmentos de Uma Passagem

Corria o ano de 1947. O marechal Eurico Gaspar Dutra vencia as eleições para a presidência da República, pelo Partido Social Democrático (PSD). O povo também elegia governadores para todos os estados e prefeitos para todas as cidades brasileiras. A imprensa noticiava o acontecimento máximo do ano, a visita ao Brasil do presidente dos Estados Unidos, Harry Trumann.

No Paraná, elegia-se pelo mesmo partido de Eurico Gaspar Dutra, Moisés Lupion, governador do Estado. O café ainda era a base da economia brasileira.

João Turin recebia duas premiações, a Medalha de Ouro no Salão Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro com a escultura "Luar do Sertão" e concomitantemente, no Salão Paranaense em Curitiba, com o busto do mestre e filósofo Dario Veloso.

No tempo em que os salões ofereciam medalhas, a de ouro era a láurea e ambição maior do artista. João Turin referiu-se a essa conquista e a sua viagem ao Rio de Janeiro em um dos inúmeros manuscritos que deixou.

"Saí de Curitiba dia 15 de novembro de 1947, às duas horas e vinte minutos no avião da Cruzeiro do Sul, com meu tigre, para expô-lo no Salão Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro. Cheguei às quatro horas e vinte e cinco minutos no Rio. Em toda minha vida só vi um tapete branco sob meus pés. Estava a três mil pés. Só pude ver o Cristo do Corcovado quando cheguei no Rio. O Último dia de entrega dos trabalhos estava fixado para o dia 15 de novembro e, sendo feriado, só pude entregar o tigre na segunda-feira, dia 17. Exposto na sala de entrada do Salão, não podia estar em melhor lugar. Obtive a Medalha de Ouro. Antes tarde do que nunca. Possuísse os meios que tenho hoje, quando estava em Paris, tinha certamente aberto um glorioso caminho, pela vontade e amor que tinha de produzir. Jovem e cheio de vida, tinha que trabalhar para outros que obtinham medalhas no Salão com as obras retocadas por mim. Assim mesmo, depois de tantos anos de esperança, não de receber medalhas, sim de fazer alguma obra que me satisfizesse completamente e que ainda não cheguei a este gozo e satisfação pessoal. Medalhas, diplomas, elogios, me entristecem, porque não fiz nada que possa me satisfazer..."
(Doc. 131 s/d JT - Arquivo da Casa João Turin)

Em 1944, João Turin recebeu no Salão Nacional do Rio de Janeiro com a escultura "Tigre Esmagando a Cobra"  uma Medalha de Prata. O artista vendeu as duas obras à Prefeitura do Rio de Janeiro. Ambas foram colocadas, em espaços públicos da cidade. "O Tigre Esmagando a Cobra", no Zoológico da Quinta da Boa Vista e "Luar do Sertão" na Praça General Osório. Em Curitiba uma reprodução de cada obra foi colocada, a primeira na Avenida Manoel Ribas, entrada do Parque Barigüi e a outra na Avenida Cândido de Abreu, próxima à Prefeitura.

João Turin permaneceu no Rio de Janeiro algum tempo para resolver os trâmites burocráticos referentes à venda das obras. Todas as vezes que ia ao Rio de Janeiro hospedava-se na casa do pintor Theodoro De Bona, marido de sua sobrinha Argentina.

Em 1947, a família De Bona vem para Curitiba passar as férias de verão e João Turin, como de costume, por necessidades profissionais ligadas ao Salão Nacional do Rio de Janeiro, hospeda-se na casa da sobrinha, responsabilizando-se pela segurança da residência e pelos cuidados com o cachorro, apelo constante de De Bona nas cartas enviadas a João Turin.

O calor intenso do Rio de Janeiro de 40º à sombra, abalou a saúde de João Turin. Mesmo sem concluir as negociações com a prefeitura, o artista retornou a Curitiba no início de maio de 1948. As negociações da venda da obra só foram ultimadas em setembro. Theodoro De Bona e Erbo Stenzel resolveram os assuntos pendentes.

A década de 40 foi de muito trabalho e compromissos para o artista, o que por um lado lhe deu segurança financeira e notoriedade, por outro, agravou sua saúde já debilitada. Era visível o abatimento do escultor, havia perdido peso e seu coração cansado dava sinais de alerta.

João Turin morreu trabalhando, deixou obras inacabadas. "As Quatro Estações", encomenda do governador Moisés Lupion, atualmente, reproduzidas em bronze, ficaram no cavalete e quem as retocou foi o escultor Erbo Stenzel.

Nos poucos dias que antecederam à sua morte, recebeu o comunicado de que havia obtido o primeiro lugar no concurso Pró-Monumento a Vicente Machado. Os bustos de João Gualberto, Dulcídio Lacerda e Sarmento de Morais, que deviam ser entregues em curto espaço de tempo para a Polícia Militar do Paraná, nem foram iniciados.

João Turin desejava viver mais. Prognosticou sua morte para 1972, no projeto de seu próprio jazigo. Não deu certo, a matemática da vida subtraiu-lhe vinte e três anos.

Queria fazer muitas fontes para Curitiba, "Dos Amores", "Do Primeiro Beijo", "Da Beleza", "Da Inocência", "Dos Curiosos" e muitas outras. No Paraná mais de vinte monumentos são de sua autoria.

"A arte é expressão de nossa vida, de nossas paixões, de nossos vícios e virtudes", dizia ele. Afirmava também que os artistas que se revoltaram contra o jugo dos pontífices foram os responsáveis pela liberdade e a renovação da arte.

Para ele, depois de Monet e de Cézzane, tudo se anarquizou e não podia admitir a falta de senso crítico daqueles que aceitavam tudo como arte.

João Turin, na Academia Real de Bruxelas, trabalhando na obra Exílio (1910)
Indignado com a demolição do antigo Teatro Guaíra, em 1947, desejou construir um teatro de estilo para Curitiba. Embora o arquiteto João De Mio lhe dissesse em carta para não se preocupar com isso, pois Curitiba estava suja, as ruas malconservadas, a cidade não merecia um teatro, existiam outras prioridades. O Pavilhão Carlos Gomes está muito bom, dizia João De Mio.

A mesma indignação causou a demolição de seu ateliê, no início da década de 50. Construído de acordo com o seu projeto e com características decorativas arquitetônicas próprias, onde a fauna, a flora paranaense e o índio se compunham em perfeita harmonia. Os motivos eram nossos, não precisávamos copiá-los dos modelos europeus, afirmava João Turin.

O pinheiro foi o ícone do estilo paranaense, criado por João Turin, e pelos pintores Lange de Morretes e João Ghelfi.

O Salão Paranaense na antiga sede do Clube Curitibano na Rua XV de Novembro e a residência do Drº Leinig na Rua José Loureiro, ambos em Curitiba, também não foram preservados.

João Turin foi um homem de boas relações e amigos. Era admirado pelo seu temperamento alegre, por sua simplicidade e franqueza, desde os tempos da Europa.

Em 1998, em comemoração aos 120 anos de nascimento do escultor, foi lançado o livro "A Arte de João Turin", projeto da sobrinha-neta do artista, Elisabete Turin, contando a trajetória do homem e do artista que ele foi. O livro também traz textos do professor e crítico de arte, Fernando Bini, do artista plástico Loio Pérsio e do Drº René Ariel Dotti, responsável pela instalação da Casa João Turin, na sua gestão como Secretário de Estado da Cultura.

Em 1999, foi realizado pela Secretaria Municipal de Educação um vídeo sobre a Casa e sobre João Turin, serviço da TV Professor.


Guilherme de Brito

GUILHERME DE BRITO BOLLHORST
(84 anos)
Compositor, Cantor, Pintor e Escultor

* Rio de Janeiro, RJ (03/01/1922)
+ Rio de Janeiro, RJ (26/04/2006)

Guilherme de Brito Bollhorst foi um compositor brasileiro de samba. Nasceu no bairro de Vila Isabel, filho de Alfredo Nicolau Bollhorst e Marieta de Brito Bollhorst. Aos oito anos ganhou um cavaquinho e aos doze anos, com a morte do pai, largou os estudos e conseguiu um emprego na Casa Edison. A Casa Edison foi uma das primeiras gravadoras brasileiras, fundada em 1900 por Frederico Figner no Rio de Janeiro. Inicialmente apenas importava e revendia cilindros fonográficos, utilizados nos fonógrafos de Thomas Edison, e discos, utilizados nos gramofones de Emil Berliner, mas, em 1902, lançou o que é considerada a primeira música brasileira gravada no país, o lundu "Isto é Bom" do compositor Xisto Bahia na voz de Baiano.

Com o tempo, Guilherme de Brito, passou a utilizar mais o violão. Já tinha uma boa produção de músicas quando, em 1955, o cantor Augusto Calheiros gravou um compacto com dois de seus sambas: "Meu Dilema" e "Audiência Divina". Ainda nos anos 1950, conheceu o seu grande parceiro, Nelson Cavaquinho.

A primeira parceria de Guilherme de BritoNelson Cavaquinho, foi um samba denominado "Garça"Guilherme de Brito fez a primeira parte e mostrou a Nelson Cavaquinho, que sem hesitar, fez a segunda parte do samba. Deu-se início a dupla mais poética e lírica da Música Popular Brasileira. A dupla Guilherme de BritoNelson Cavaquinho rendeu vários sucessos, dentre os quais, podemos destacar: A Flor e o Espinho, "Folhas Secas", "Pranto de Poeta", "O Bem e o Mal", "Quando Eu Me Chamar Saudade", entre outras.

Considerado por muitos como o grande poeta do samba, fez versos definitivos como "Tire o seu sorriso do caminho / que eu quero passar com a minha dor", de A Flor e o Espinho. Ou mesmo "Quando eu piso em folhas secas / Caídas de uma mangueira", de "Folhas Secas".

Guilherme de Brito gravou pela primeira vez em 1977. Atuou também como pintor, tendo sido premiado por seus quadros, e como escultor. Expôs no Japão, onde também lançou um CD.

Nelson Cavaquinho, Beth Carvalho e Guilherme de Brito
Morte

Guilherme de Brito foi internado dia 2 de abril de 2006 com problemas respiratórios, teve um infarto e ficou em coma por 15 dias, morrendo dia 26 de abril de 2006, aos 84 anos, vítima de Falência Múltipla dos Órgãos.

Deixou a mulher Nena e dois filhos. Guilherme de Brito foi enterrado no mausoléu do compositor, no Cemitério do Catumbi.

Fonte: Wikipédia

Veiga Valle

JOSÉ JOAQUIM DA VEIGA VALLE
(67 anos)
Escultor, Dourador, Pintor e Político

* Arraial da Meia Ponte (Atual Pirenópolis), GO (09/09/1806)
+ Goiás (Cidade de Goiás ou Goiás Velho), GO (29/01/1874)

José Joaquim da Veiga Valle, em geral conhecido simplesmente por Veiga Valle, foi um artista plástico pouco comentado nos livros de História da Arte do Brasil, cujo trabalho de apurado estilo artístico merece, sem dúvida, maior atenção por parte dos estudiosos da arte produzida nesse país tão rico e vasto de diversidade e sincretismo cultural que é o Brasil.

Nascido em Arraial da Meia Ponte, atualmente Pirenópolis, GO, de família simples, mas de projeção local (seu pai exercia várias atividades políticas, religiosas e comerciais), quase nada se sabe sobre sua infância e adolescência. Não frequentou ensino formal e acredita-se que tenha começado a conceber sua obra no fértil ambiente artístico e religioso em que vivia.

José Joaquim da Veiga Valle nos legou grande acervo de esculturas, hoje catalogadas em torno de trezentas peças, produzidas em meio ao sertão do cerrado, isolado das principais escolas artísticas do país.

Seguindo as inúmeras atividades do pai, em 1833 entrou para a Irmandade do Santíssimo Sacramento e, em 1837, foi eleito vereador da cidade. Mudou-se para a cidade de Goiás em 1841, a convite do então presidente da Província, José Rodrigues Jardim, com a função de dourar os altares da matriz da capital. Hospedado na casa do presidente, Veiga Valle casou-se no mesmo ano com a filha desse, Joaquina Porfíria Jardim, com quem teve oito filhos.

Em Goiás iniciou os trabalhos que mais tarde o fariam ser reconhecido como maior escultor da região. Trabalhava quase sempre com madeira cedro, que é macia, cheirosa e de grande durabilidade. Suas esculturas eram feitas em partes separadas, que depois eram encaixadas. A delicadeza de detalhes, proporções reais e impressão de movimento das esculturas são algumas das características de sua obra.

Esculpiu uma enorme variedade de santos, a maioria encomendada pelos moradores da cidade. Os mais populares eram as Madonas (representações de Nossa Senhora), Meninos Jesus, Santo Antônio e São José de Botas, padroeiro dos bandeirantes e desbravadores. Fiel seguidor da estética cristã, fez apenas uma obra profana: um nu artístico, inacabado, que mede 25 cm. Produziu de 1820 a 1873, provavelmente com ajuda de seu filho Henrique, única pessoa a quem transmitiu seus conhecimentos.

"A obra de Veiga Valle é singular por seus aspectos formais e históricos. Suas imagens são eruditas e aparentemente anacrônicas. No século XIX, a província de Goiás não passa de mera 'expressão geográfica' sem peso maior na cultura do Império. Veiga Valle é a sua manifestação isolada: uma arte que recebe a marca do extemporâneo quando referida a um modelo abstrato de estilo."
(Heliana Angotti Salgueiro "A Singularidade da Obra de Veiga Valle" - 1983, p. 25)

Suas imagens podem ser reconhecidas facilmente: a característica de seu estilo, formas e cores é singular, inconfundível, escapa à arte anônima serial que existe na estatuária religiosa. São marcadas por soluções muito particulares, tanto da técnica - desenho, cromatismo, acabamento - quanto da expressividade - fisionomia e gestualidade.

Veiga Valle é o mais destacado artista que viveu em Goiás no século XIX. Há registros de outros artistas, como o pintor Alferes Bento José de Souza, de 1782, anterior a Veiga Valle; passou dezessete anos no local, confeccionando retábulos para igrejas. Há registro de que, no fim do século XIX, o pintor André Antônio da Conceição foi à Cidade de Goiás para pintar o forro da Igreja São Francisco de Paula. Benevenuto Sardinha da Costa foi outro pintor que executou painéis documentados no Museu das Bandeiras, na mesma cidade. Dentre esses artistas, o que maior destaque obteve foi Cândido de Cássia Oliveira, professor de desenho de ornatos e figuras no Liceu de Goiás, em 1872, escultor e profundo admirador da obra de Veiga Valle.

Santa Bárbara - Acervo do Museu de Arte Sacra da Igreja da Boa Morte, Cidade de Goiás
Influências Artísticas

Pouco se sabe a respeito da iniciação artística de Veiga Valle, mas o mais provável é que tenha recebido ensinamentos do padre Manuel Amâncio da Luz. Não há relatos que comprovem os dotes artísticos do padre, e o que se nota é que o aluno superou seu mestre.

Em uma época em que o interior do Brasil encontrava-se totalmente isolado das principais correntes e produções culturais, o acesso aos meios de comunicação era bastante difícil. Desta feita, eram raros os livros, gravuras, desenhos e pinturas em Goiás.

Há registros de que Veiga Valle nunca saiu do interior do Estado, desta forma as fontes de sua inspiração artística foram, sobretudo, as imagens sacras que chegavam de Portugal, do Rio de Janeiro ou da Bahia, em direção às igrejas e oratórios particulares. Haviam também outros ornamentos, como altos-relevos na prataria portuguesa, baiana e carioca que enfeitavam as igrejas, identificados como folhas de acanto, conchas, guirlandas, treliças ou guilhochês, elementos presentes também em algumas de suas obras.

Outras fontes podem ser as porcelanas importadas, os bordados dos paramentos religiosos e da indumentária litúrgica vindas de Portugal, França e Itália, e também os livros de preces e devoção, as Bíblias ilustradas. Desta forma, mantinha contato com a iconografia religiosa, as simbologias e códigos canônicos. Como se pode notar, era vasta sua fonte de inspiração, somando-se a isso um gênio de intensa criatividade, apurado rigor técnico e refinado senso estético.

O professor Bruno Correia Lima, em seu livro "O Genial Santeiro em Goiás", diz que:

"a par de sua extraordinária sensibilidade artística, deve ter sofrido influência também das produções neoclássicas do ambiente em que viveu (…). Provavelmente apoiou-se nos santos existentes, pelo menos quanto à indumentária e simbolismo, além da natural obediência que os artistas devem ter à iconografia cristã."
(
Elder Camargo de Passos "Veiga Valle: Seu Ciclo Criativo" - 
1997, p. 117)

"Veiga Valle é artista do Império. Não obstante, sua escultura é ambivalente: pautando-se por padrões estilísticos do Neoclassicismo, é moderna; prolongando a codificação barroca, está aparentemente deslocada. Singular porque trabalha isolado, desprovido do apoio de prática anterior e local, é escultor de vulto: dominando dois estilos, não raro os combina numa única imagem ( … ) Erudita, não é extemporânea a obra de Veiga Valle. Não é por ser realizada em província estagnada e distante que o seu barroco pode receber o apelativo tardio."
(Heliana Angotti Salgueiro "A Singularidade da Obra de Veiga Valle - 1983, p. 19)

São Miguel Arcanjo - Madeira policromada. Acervo do Museu de Arte Sacra da Igreja da Boa Morte, Cidade de Goiás.
A Técnica

A execução de imagens pode ser dividida em três etapas distintas: primeiro, a estrutura ou o suporte, que são a madeira e o entalhe; segundo, uma base intermediária entre a madeira e a capa de douração e pintura: o aparelho; e por fim a douração, a policromia e o esgrafiado. A separação entre os ofícios de entalhador, dourador e pintor foi menos efetiva no Brasil do que em Portugal, pois como se pode perceber, Veiga Valle ocupava-se de todas as etapas do processo.

Ele esculpia, principalmente, em madeira cedro, pois a considerava macia, cheirosa e de grande durabilidade, mas utilizou também o bálsamo e o jatobá. A madeira era abatida na lua minguante, época em que a seiva encontra-se recolhida na raiz, para evitar a incidência de caruncho. Depois os troncos permaneciam em repouso por cerca de oito meses na sombra, quando eram cortados em tamanhos diversos e então passavam por um processo rudimentar de imunização, cozidos em tacho de cobre, em água misturada a vários vegetais, com o objetivo de retirar as resinas restantes e proporcionar maior dilatação dos poros da madeira, tornando-a mais resistente ao clima árido do cerrado. Após a secagem dos cepos, iniciava-se o processo escultórico.

As suas imagens não se constituíam, na sua maioria, de peças inteiriças: os membros eram esculpidos separadamente e depois encaixados. Após o término do talhe, a peça era preparada para a carnação e a policromia. As falhas na madeira eram cobertas com camadas de gesso e cola à base de clara de ovo ou boldo africano. Após a fase de aplicação e polimento do aparelho, colocava-se o "bolo armênio" ou "francês": óxido de ferro hidratado. Todas as misturas, tintas, colas e banhos eram preparados pelo artista.

Fazia o douramento com folhetas de ouro e prata importados da Alemanha ou vindas do Rio de Janeiro, Bahia e Minas Gerais. A douração e a prateação eram feitas pelo mesmo processo, em que as folhas eram espanejadas com uma broxa fina. Após a secagem fazia-se a brunidura, depois envernizava-se para evitar a oxidação. A fixação das folhetas era feita nos mantos, véus e camisolas, porém algumas de suas peças são totalmente douradas.

A próxima etapa é a pintura, ou policromia, por cima da douração. A pigmentação de sua paleta se compunha de materiais naturais, em maior parte; em menores quantidades, importada da Europa.

Da vegetação - urucum, ruibarbo, açafrão, resinas, etc. - extraía cores como amarelo e vermelho, um pouco de azul e muito raramente o verde. Os matizes eram obtidos pela mistura dos pigmentos. Alguns animais eram usados como fonte de corantes, como um inseto chamado cochonilha, que dá um tom escarlate brilhante, ou moluscos de tom sépia e púrpura. Os corantes minerais mais empregados foram o óxido de ferro, de cor vermelho-escuro, popularmente conhecido como sangue-de-boi, ou terra de cor amarela, violeta e vermelha. Alguns tons mais raros na natureza, como matizes de verde e azul, eram trazidas do Rio de Janeiro: tintas importadas da Europa, uma vez que não haviam, ainda, indústrias no país.

Após a aplicação da tinta na imagem dourada, segue-se para a ornamentação: o esgrafiado ou estofamento. Os desenhos são feitos com o esgrafito, um tipo de estilete, retirando a camada externa de tinta seca e deixando em evidência a camada interna, o "pão-de-ouro" brunido, revelando os ornamentos feitos do contraste entre a pigmentação e o dourado.

No esgrafiado o artista compõe desenhos de traços finos regulares e contínuos, caracteristicamente rococó, onde se observam os buquês de flores, medalhões ovais, volutas, formas de conchas, folhas de acanto, palmas. Há ornamentos planos e em alto relevo, que remetem a trabalhos de ourivesaria, com fineza de execução.

A carnação é o nome dado ao tom de pele que se colocava nas partes descobertas do corpo, como o rosto, braços, mãos, pés e pernas. Os olhos, em uma fase mais avançada, passaram a ser feitos de vidro. A última etapa era o envernizamento. Os vernizes eram feitos de resinas, gomas ou bálsamos em álcool, terebintina ou óleo de linhaça.

São Joaquim com bastão - Madeira policromada
O Estilo

Podemos observar a influência Veiga Valle em outros artistas. Mas, ao que tudo consta, não teve alunos em sua oficina: ele trabalhava sozinho, ou provavelmente com a ajuda de seu filho Henrique.

Sua obra caracteriza-se, sobretudo, pela produção de imagens sacras, que eram produzidas por encomenda da igreja e de particulares. O artista atendia não só ao público local como também recebia encomendas de outros estados. Os santos que esculpia variavam de acordo com o gosto de cada cliente. As imagens de maior destaque eram as madonas, que eram representadas por Nossa Senhora da ConceiçãoNossa Senhora D’AbadiaNossa Senhora dos RemédiosNossa Senhora das DoresNossa Senhora da PenhaNossa Senhora do Bom PartoNossa Senhora das MercêsNossa Senhora da GuiaNossa Senhora do CarmoNossa Senhora do Rosário, etc.

O acervo levantado por Elder Passos comprova que as imagens de Nossa Senhora da ConceiçãoNossa Senhora D’Abadia eram as de maior devoção popular. Segundo o autor, a madona é, por si, um tema barroco por excelência. Os santos são personagens históricos ou legendários, enquanto que a virgem é um ser celestial, de transcendência pura, elevando a devoção ao nível da comunhão com o transcendente, com Deus.

Esse é o traço mais marcante da produção denominada barroca: a supremacia da igreja católica, haja vista que a arte barroca se caracteriza sobretudo pelo tema religioso. Por meio da riqueza e profusão de cores e imagens presentes nas igrejas, atraíam-se os fiéis em busca da salvação. Quando se fala de arte barroca no Brasil estamos, necessariamente, remetendo à arte sacra.

Com uma breve descrição das imagens de Nossa Senhora, observem-se algumas das principais características de Veiga Valle. No ápice da imagem, véu esvoaçante decorado com flores, estrelas, pontos, etc, na beirada dos mantos, como acabamento aparece uma tarja dourada com cunhos de baixo-relevo, emoldurando cabelos castanhos repartidos ao meio. Sobre os ombros, um xale ornado em listras de várias cores e dourado. As túnicas que cobrem as peças prendem-se à cintura com faixas ou cintos decorados com motivos florais variados. Os espaços vazios são preenchidos com linhas horizontais, verticais, transversais, côncavas, de acordo com a dobra do tecido e sua inventividade.

Conforme o tamanho da peça, eram variáveis a decoração e os ornamentos. As peças maiores apresentam túnica com larga faixa desenhada em alto relevo feito de gesso com douramentos. As mangas do vestuário embaixo da túnica são visíveis entre o cotovelo e o punho, de cores e desenhos contrastantes com a tonalidade suave e homogênea da túnica, geralmente em tom rosa-forte com xadrez dourado. As mangas da túnica têm contorno verde metálico. Vendo-se a peça de frente, observa-se a frente e o verso dos mantos, com o verso em tom mais forte criando contraste e dando destaque à beleza do conjunto. A imagem está pisando, geralmente, numa esfera de cor azul-marinho, com aplicações de cabeças de querubins com asas.

O seu período de atividade artística compreendeu a época entre 1820 e 1873. Veiga Valle teve que interromper a produção de suas obras em decorrência da doença que o abalou, vindo a falecer alguns meses depois, aos 68 anos, em 29 de janeiro de 1874, na Cidade de Goiás.

Nas comemorações do centenário de morte, sua sepultura foi transferida para o Museu de Arte Sacra da Boa Morte, onde está exposta boa parte de sua obra.

Imaginário erudito, profundo conhecedor de anatomia, iconografia, valores espaciais, entalhadura, douração, pintura, esgrafiado e dos segredos dos materiais, se o artista não frequentou escolas, isso não o fez menos genial, e a expressão de sua sensibilidade artística é fato comprovado pelo legado de sua obra.

Até o ano de 1940 a arte de Veiga Valle permaneceu no anonimato, e as suas obras eram conhecidas apenas nas igrejas e oratórios em Goiás e Mato Grosso, onde muitas vezes seus proprietários ignoravam o valor artístico de suas peças. Foi quando apareceu em Goiás o artista plástico João José Rescala, que conheceu o trabalho do escultor e ficou admirado pela qualidade das peças. Teve então a iniciativa de organizar a primeira exposição da obra de Veiga Valle, realizando uma catalogação de grande parte do acervo. A partir de então a arte de Veiga Valle começou a se difundir entre os historiadores de arte, realizaram-se exposições e foram editados artigos em revistas e livros, alguns dos quais são utilizados como fonte deste trabalho.

O que se pode observar é que as pesquisas sobre a imaginária brasileira ainda estão incompletas. Há com certeza um rico patrimônio artístico a ser ainda descoberto e estudado, para que se possa ter um panorama cada vez mais abrangente da variedade artística e cultural existente do Brasil.

Fonte: Biapó e Wikipédia