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Rose Marie Muraro

ROSE MARIE MURARO
(83 anos)
Escritora, Editora, Intelectual e Feminista

* Rio de Janeiro, RJ (11/11/1930)
+ Rio de Janeiro, RJ (21/06/2014)

Rose Marie Muraro foi uma intelectual, escritora e feminista brasileira. Aprendeu desde cedo a lutar contra as dificuldades, físicas e sociais, com força. Nasceu praticamente cega, e somente aos 66 anos conseguiu recuperar parcialmente a visão com uma cirurgia. Estudou Física, foi escritora e editora de livros, assumindo a responsabilidade por publicações polêmicas e contestadoras.

Ao longo da vida, escreveu 44 livros, como "Os Seis Meses Em Que Fui Homem" (1993), "Por Que Nada Satisfaz As Mulheres E Os Homens Não As Entendem" (2003), que venderam mais de 1 milhão de exemplares.

Nos anos 70, foi uma das pioneiras do movimento feminista no Brasil. Nos anos 80, quando a Igreja adotou uma postura mais conservadora, passou a ser perseguida pelos ideais. A atuação intensa no mercado editorial é fruto de uma mente libertária cuja visão atenta da sociedade pode ser comparada a de muito poucos intelectuais da atualidade.

As idéias refletem-se na vida pessoal desta mulher notável: Há pouco tempo, Rose Marie Muraro desafiou os próprios limites quando, aos 66 anos, recuperou a visão com uma cirurgia e viu seu rosto pela primeira vez.

"Sei hoje que sou uma mulher muito bonita!"


Oriunda de uma das mais ricas famílias do Brasil nos anos 30/40, aos 15 anos, com a morte repentina do pai e consequentes lutas pela herança, rejeitou sua origem e dedicou o resto da vida à construção de um novo mundo: mais justo, mais livre. Nesse mesmo ano conheceu o então padre Helder Câmara e se tornou membro de sua equipe. Os movimentos sociais criados por ele nos anos 40 tomaram o Brasil inteiro na década seguinte. Nos anos 60, o golpe militar teve como alvo não só os comunistas, mas também os cristãos de esquerda.

A Editora Vozes foi um capítulo à parte na vida de Rose. Lá, trabalhou com Leonardo Boff durante 17 anos e das mãos de ambos nasceram os dois movimentos sociais mais importantes do Brasil, no século XX: O movimento de emancipação das mulheres e a teologia da libertação - até hoje, base da luta dos oprimidos.

Nos anos 80, presenciou a virada conservadora da Igreja, e em 1986, Rose e Boff foram expulsos da Vozes, por ordem do Vaticano. Motivo: a defesa da teologia da libertação, no caso de Boff e a publicação, por Rose, do livro "Por Uma Erótica Cristã".

Ela introduziu a questão da classe social no estudo de gênero, ela foi a primeira mulher a estudar de forma sistemática a sexualidade da mulher brasileira a partir da situação ou classe social - disse Boff. - Ela inaugurou esse discurso, nem Freud ou qualquer analista europeu atingiram esse ponto. Tudo isso foi resultado de uma ampla e minuciosa pesquisa de campo.

Juntos, Rose Marie e Boff assinaram, em 2002, o livro "Masculino / Feminino", onde investigaram juntos a relação entre os gêneros.

"Rose elevou a questão do gênero a um novo patamar, pois não considerava o masculino e o feminino como realidades que se contrapõem, mas como instâncias fundamentais, onde cada um é completo em si mas voltado para o outro, numa relação de reciprocidade e construção conjunta."
(Leonardo Boff)


Em trecho do documentário "Memórias De Uma Mulher Impossível", lançado em 2009 por Márcia Derraik, Rose Marie explicou:

"O assunto mulher era um assunto sem importância para os militares e para a sociedade como um todo. O pessoal não sabia da existência do feminino. Ah, essa daí lida com mulher, essa daí não é perigosa, tem filhos pequenos, só tá na igreja, então essa daí não vamos perseguir. Já nos anos 60 eu dizia: eu também quero pôr fogo no mundo. Fui pôr fogo no mundo, fui ser editora. E eu vi que eram os livros que punham fogo no mundo."

Rose Marie Muraro foi eleita, por nove vezes, A Mulher do Ano. Em 1990 e 1999, recebeu, da revista Desfile, o título de Mulher do Século. E da União Brasileira de Escritores, o de Intelectual do Ano, em 1994.

O trabalho de Rose, como editora, foi um marco na história da resistência ao regime militar. Devido a este trabalho, recebeu, do Senado Federal, o Prêmio Teotônio Vilela, em comemoração aos 20 anos da anistia no Brasil.

Foi palestrante nas universidades de Harvard e Cornell, entre tantas outras instituições de ensino americanas, num total de 40. Editou até o ano 2000 o selo Rosa dos Tempos, da Editora Record.


Foi Cidadã Honorária de Brasília (2001) e de Cidadã Honorária de São Paulo (2004). Ganhou o Prêmio Bertha Lutz (2008), e principalmente, pela Lei 11.261 de 30/12/2005 passada pelo Congresso Nacional foi nomeada Patrona do Feminismo Brasileiro.

Em 1999, ela contou sua história na autobiografia "Memórias De Uma Mulher Impossível".

Na última entrevista de Rose para o jornal Correio Braziliense, no dia 18/08/2003, a intelectual relatou como os problemas de saúde estavam limitando a produção de novas publicações. Ela contava com a ajuda de amigos e parentes para conseguir manter os tratamentos e a estrutura que a possibilitava continuar o exercício da atividade intelectual.

"Atualmente sou uma meia-pessoa. Semi-cega, porque vejo vultos, e semi-paralítica, porque não consigo andar com o andador, mas preciso de cuidados 24 horas por dia, e de uma secretária para escrever o que eu dito, pois estou escrevendo dois livros no momento. Um sobre a traição e outro sobre amor."
(Rose Marie Muraro)


Uma das cinco filhas de Muraro, Tônia, cuida do Instituto Cultural Rose Marie Muraro (ICRM), que foi criado em 2009. O órgão tem o objetivo de salvaguardar o acervo da intelectual, que têm mais de 4 mil publicações.


Morte

Rose Marie Muraro, a Patrona do Feminismo Brasileiro, morreu na manhã de sábado, 21/06/2014, aos 83 anos, no Rio de Janeiro, em consequência de problemas respiratórios. Ela tinha câncer na medula óssea há cerca de 10 anos e, desde o dia 12/06/2014, estava na CTI do Hospital São Lucas, em Copacabana. No dia 15/06/2014, entrou em coma e acabou acometida por uma infecção.

O velório de Rose Marie Muraro começará às 08:00 hs de domingo, 21/06/2014, no Memorial do Carmo, no Caju, e a cremação está marcada para as 16:00 hs.

Rose Marie Muraro tinha 5 filhos e 12 netos, frutos de um casamento de 23 anos.


Alguns Livros:

  • 2007 - Educando meninos E Meninas Para Um Mundo Novo
  • 2007 - História do Masculino E Do Feminino
  • 2007 - Uma Nova Visão Da Política E Da Economia
  • 2007 - História Do Meio Ambiente
  • 2007 - Para Onde Vão Os Jovens
  • 2007 - A Mulher Na Construção Do Futuro
  • 2006 - O Que As Mulheres Não Dizem Aos Homens
  • 2006 - Diálogo Para O Futuro
  • 2006 - Mais Lucro
  • 2004 - Espírito De Deus Pairou Sobre As Águas
  • 2003 - Por Que Nada Satisfaz As Mulheres E Os Homens Não As Entendem
  • 2003 - Um Mundo Novo Em Gestação
  • 2003 - Amor de A A Z
  • 2003 - A Paixão Pelo Impossível
  • 2002 - Masculino / Feminino
  • 2001 - As Mais Belas Orações De Todos Os Tempos
  • 2000 - Textos Da Fogueira
  • 1999 - A Alquimia Da Juventude
  • 1999 - Memórias De Uma Mulher Impossível
  • 1996 - As Mais Belas Palavras De Amor
  • 1996 - Sexualidade Da Mulher Brasileira
  • 1993 - Seis Meses Em Que Fui Homem
  • 1993 - A Mulher No Terceiro Milênio
  • 1990 - Poemas Para Encontrar Deus


Indicação: Miguel Sampaio

Henriqueta Martins Catharino

HENRIQUETA MARTINS CATHARINO
(82 anos)
Educadora e Feminista

* Feira de Santana, BA (12/12/1886)
+ Salvador, BA (21/06/1969)

Henriqueta Martins Catharino foi uma educadora, pioneira do feminismo e responsável direta pela formação de um dos mais ricos acervos memoriais de vestuário, cultura popular e histórico da Bahia, e um dos mais importantes do Brasil.

Era uma dos 14 filhos do rico comerciante e industrial Bernardo Catharino, português que emigrou ainda jovem, e de Úrsula Costa Martins Catharino, de família tradicional da cidade do interior baiano. Seu pai tornou-se, na primeira metade do século XX, o maior empresário do estado da Bahia. A mãe, por sua vez, possuía uma forte formação católica.


A grande riqueza permitiu que Henriqueta tivesse em casa a melhor educação disponível à época, quando poucas eram as mulheres que estudavam. Foi orientada pela professora Cândia Campos de Carvalho, que dirigia-lhe os estudos, que contavam ainda com aulas de alemão, inglês e francês - este último o idioma mais falado da época - com a preceptora alemã, Fräulein Louise von Schiller. Tinha, ainda, aulas de piano com Maria Eulina e Sílvio Fróes, e de artes, com Vieira de Campos.

Fez muitas viagens à Europa, sobretudo a Paris, então o principal centro cultural do mundo.

Junto à médica Francisca Praguer Fróes, uma das primeiras feministas do Brasil, seu nome figura dentre as que primeiro se preocuparam com o papel ativo da mulher na sociedade. Se Francisca Praguer Fróes, uma das primeiras médicas do país, lutava pela ampliação dos direitos civis, tais como o direito ao voto, Henriqueta Catharino cuidou de inseri-las de forma efetiva no mercado de trabalho.

Henriqueta Catharino recebe em doação da Família Real, vestido utilizado pela Princesa Isabel.
Ativismo

Seu espírito de iniciativa manifestou-se ainda antes de completar os 30 anos, com a fundação, na capital baiana de uma biblioteca, chamada Propaganda da Boa Leitura, na primeira década do século XX. Também organizava as chamadas "Tardes de Costura", atividade filantrópica onde senhoras cosiam para as pessoas pobres.

Em 1923 criou a Casa São Vicente, junto ao monsenhor Flaviano Osório Pimentel, e que viria a ser o núcleo do Fundação Instituto Feminino da Bahia.

Ali passou a abrigar, em diversas sedes, que adquiriu com sua parte na herança materna, morta em 1924, e depois com a antecipação da paterna. Diversas coleções foram sendo doadas, objetos eram adquiridos, de forma que além dos cursos, a entidade passou a abrigar dois museus, além de biblioteca e cursos.

Para além das atividades que se perpetuaram na preservação memorial, labutou no auxílio a pessoas do povo, mesmo aquelas vítimas do preconceito, como o fundador de uma das primeiras entidades de defesa racial, a Frente Negra, em Santos, SP, e na Bahia (1932), Marcos Rodrigues dos Santos.

Sobre seu trabalho, o escritor Érico Verissimo, registou, no Jornal da Bahia, em 1951:

"Não conheço coisa igual em todos os colégios do Brasil por onde andei e visitei. E não sei se vi pelo menos igual nos Estados Unidos"

Família Marthins Catharino
Homenagens

Henriqueta Catharino é nome de colégio e rua no bairro da Federação, na Capital baiana. Mas a maior e mais importante homenagem é a nomeação, na década de 1980, do museu que idealizou e ajudou a fundar, hoje um dos mais importantes espaços memoriais do estado brasileiro. Há também um edifício situado no centro da cidade, que leva o nome de Henriqueta Catharino. Essa atribuição deve-se ao fato de que nesse local funcionava o antigo Instituto Feminino da Bahia, cuja proprietária era Dona Henriqueta.

Esta mulher extraordinária faleceu em Salvador, BA, no dia 21/06/1969.

Fonte: Wikipédia

Armanda Álvaro Alberto

ARMANDA ÁLVARO ALBERTO
(81 anos)
Educadora e Militante Feminista

* Rio de Janeiro, RJ (10/06/1892)
+ Rio de Janeiro, RJ (05/02/1974)

Armanda Alvaro Alberto nasceu no Rio de Janeiro em 1892, falecendo na mesma cidade em 1974. Pertencia a uma família de classe média alta, sendo que ela e o irmão não frequentaram escolas na infância, pois a mãe se responsabilizou por sua educação escolar.

Aos 36 anos, casou-se com Edgar Süssekind de Mendonça, não adotando o sobrenome do marido, por defender posição de setores do movimento feminista brasileiro.

A educadora empreendeu iniciativas inovadoras na área educacional. Projetou-se no cenário educacional, em 1921, graças a uma experiência desenvolvida em Duque de Caxias, distrito de São João de Meriti, na Escola Proletária de Meriti, fundada em 13/02/1921, numa comunidade rural, sem condições de vida e bastante precária. Em 1923, esta escola passou a denominar-se Escola Regional de Meriti, e ficou conhecida como "Mate com Angu", por ter sido uma das primeiras escolas da América Latina a servir merenda escolar. A inovação demonstrou a preocupação de Armanda com o bem-estar e a saúde das crianças. Eram seus princípios, explicitados em documento redigido em abril de 1925: saúde, alegria, trabalho e solidariedade.

A merenda não era a única novidade. Influenciada pelo Método Montessori e antecipando a chegada das teorias da Escola Nova no Brasil, a diretora procurou transformar o espaço num laboratório educacional. Os alunos ficavam na escola no horário integral e ajudavam no cultivo de hortas e criação de animais como o bicho-da-seda.

O trabalho ali desenvolvido propiciava uma oportunidade das mulheres contribuírem para a formação da nacionalidade, participando da cruzada cívica de combate ao analfabetismo. A escola era mantida por sócios contribuintes, benfeitores e fornecedores da Fundação Álvaro Alberto.

A despeito das transformações sofridas nas cinco décadas de funcionamento, a instituição permaneceu fiel a suas características de servir à população até que foi absorvida, após enfrentar sérios problemas financeiros, por uma organização denominada Instituto Central do Povo, em 1971. Atualmente, a Escola funciona vinculada à rede municipal de Duque de Caxias, no mesmo local de sua criação, sob o nome Escola Municipal Drº Álvaro Alberto.

Cabe lembrar que Armanda estava entre os signatários do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, de 1932, cujo objetivo era determinar diretrizes para a educação nacional. No Conselho Diretor da Associação Brasileira de Educação, junto com Edgar Sussekind de Mendonça e Francisco Venâncio Filho, defendeu uma postura de neutralidade política e religiosa da entidade. Armanda também foi quem criou a primeira biblioteca de Duque de Caxias.

Militância

Por suas lutas políticas em prol da educação laica e dos direitos da mulher, a imprensa nacional a identificou como subversiva e comunista, na década de 30 do século passado, e o mesmo acontecendo com seu marido Edgar Süssekind de Mendonça.

Nesta época, já presidente da Associação Brasileira de Educação (ABE) e integrante da Aliança Nacional Libertadora (ALN), Armanda militou na Liga Anticlerical do Rio de Janeiro, ao lado do marido, Edgar Süssekind de Mendonça.

Ao lado de Eugênia Álvaro Moreyra, fundou a União Feminina do Brasil (UFB), da qual foi a primeira presidente.

À frente da União Feminina do Brasil (UFB), defendeu uma união entre "mulheres educadoras, intelectuais e tralhadoras", e criticou outras associações feministas como "inócuas, outras ligadas a correntes partidárias explorando a angustiosa situação da mulher, pregando um estreito feminismo que consiste em cumular o homem em si e nele ver um 'inimigo' da mulher".

Tanto a União Feminina do Brasil (UFB) quanto a Aliança Nacional Libertadora (ALN) eram alvo de perseguição por parte da Delegacia Especial de Segurança Política e Social (DESPS) do Estado Novo. As duas organizações foram postas na ilegalidade pelo Decreto 229, de 1935.

Em outubro de 1936, foi presa como suspeita de ligação com o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e de participação na Revolução Comunista de 1935. Permaneceu na Casa de Detenção do Rio de Janeiro até junho de 1937, tendo como companheiras de cárcere Olga Benário PrestesMaria Werneck de Castro, entre outras.

De Volta à Escola

Depois de sair da prisão, Armanda procurou retomar as atividades na direção da Escola Regional de Meriti. Em 1938, porém, as autoridades impediram a assembleia anual da Fundação Álvaro Alberto, que reunia os mantenedores da escola. A alternativa encontrada foi promover atividades na Biblioteca Euclydes da Cunha, como forma de mobilização da comunidade.

Após a redemocratização do país, foi aos poucos retomando as atividades públicas, colaborando com manifestos e reivindicações.

Em 1949, representou a Associação Brasileira de Educação na organização do III Congresso Infanto-Juvenil de Escritores. Na ocasião, dirigiu suas principais críticas às histórias em quadrinhos, que considerava "sub-literatura" e nociva à formação das crianças. Ao mesmo tempo, defendia a valorização de autores brasileiros, como Monteiro Lobato. Sete anos depois, porém, ela mesma assinaria um parecer da Comissão de Meios Auxiliares ao Ensino recomendando a Enciclopédia dos Quadrinhos (1956).

Em 1964, diante das dificuldades para manter a Escola Regional de Meriti, tentou transferi-la para o governo estadual. No entanto, não houve consenso para a manutenção da instituição nos moldes em que fora concebida, e a negociação foi encerrada.

Após a morte de Armanda, a Escola Regional de Meriti foi doada para o Instituto Central do Povo. Atualmente é mantida em parceria com a prefeitura e tem o nome de Escola Municipal Drº Álvaro Alberto.

Fonte: Wikipédia e Faculdade de Educação Universidade Federal do Rio de Janeiro

Gilka Machado

GILKA MACHADO
(87 anos)
Poetisa e Feminista

* Rio de Janeiro, RJ (1893)
+ Rio de Janeiro, RJ (1980)

Poetisa, sufragista e feminista carioca, pioneira na utilização do erotismo na poesia feminina brasileira. Fez parte do grupo que fundou o Partido Republicano Feminino, em 1910. Publicou vários livros de poesia, como "Mulher Nua" e "Sublimação". Em 1979, recebeu o Prêmio Machado de Assis, concedido pela Academia Brasileira de Letras.

Gilka Machado tinha sangue de artista nas veias: a mãe, Thereza Christina Moniz da Costa, era atriz de teatro e de rádio-teatro, e a filha, Eros Volúsia, foi bailarina consagrada e pesquisadora das danças nativas brasileiras. Além disso, sua família incluía poetas e músicos famosos.

Gilka Machado casou com um artista: o poeta, jornalista e crítico de arte Rodolfo Machado, em 1910, que morreria dali a 13 anos, deixando a esposa com dois filhos, Eros Volúsia e Hélios.

Desde criança Gilka Machado fazia versos, e com 13 anos ganhou um concurso pelo jornal A Imprensa, arrebatando os 3 primeiros prêmios, com poemas assinados com seu próprio nome e com pseudônimos. Mas somente em 1915, aos 22 anos, publicou seu primeiro livro intitulado "Cristais Partidos". Seguiram-se outros, ao longo da década de 1920, como "Estados d’Alma" (1917), "Mulher Nua" (1922), "Meu Glorioso Pecado" (1928), "Amores Que Mentiram, Que Passaram" (1928).

No início da década de 1930 sua popularidade aumentou ao ter poemas traduzidos para o espanhol, tanto em antologia quanto em volume com poemas só seus. E no ano seguinte sua popularidade foi testada: ganhou, com grande margem de votos, um concurso promovido pela revista O Malho, quando então foi aclamada como a maior poetisa brasileira, selecionada entre 200 intelectuais. Em seguida viajou para a Argentina, onde foi recebida com carinho pelo público leitor. Fez outras viagens ao longo da década de 1940, para os Estados Unidos e para a Europa, além das que fez pelo interior do Brasil.

Seus poemas foram também republicados em outros volumes: os dois primeiros livros, em "Poesias", de 1918; e alguns, escolhidos, em "Carne e Alma", de 1931, em "Meu Rosto", de 1947, e em "Velha Poesia", de 1965, antes que as "Poesias Completas" ganhassem duas edições: em 1978 e em 1991.

Poderia ter sido a primeira mulher a fazer parte da Academia Brasileira de Letras quando, após mudança do estatuto que proibia o ingresso de mulheres, lhe teria sido possível candidatar-se, atendendo a convite que lhe foi dirigido por Jorge Amado e apoiado por outros acadêmicos. Mas recusou o convite. Recebeu, contudo, da Academia Brasileira de Letras, em 1979, o Prêmio Machado de Assis, pela publicação do volume de suas "Poesias Completas".

Encerrou sua carreira com o poema "Meu Menino", escrito por ocasião da morte do filho Hélios, ocorrida em 1976.

Como se pode perceber a partir dos títulos de seus livros, sua poesia se detém nas experiências de uma intimidade sensível, que manifesta, explicitamente, suas sensações, emoções e desejos eróticos. Aliás, lembre-se que em 1916 fez conferência sobre "A Revelação dos Perfumes"... Para expressar tais sensações, usou nos poemas um vocabulário inusitado: empregou, por exemplo, a palavra "cio". E mostrou a mulher esvaída em sensualidade, numa poesia que se constrói tanto segundo a rigidez formal de tradição parnasiana quanto dando vazão às ondas de languidez que atravessam o seu verso à moda simbolista. Daí uma reação dupla por parte do público, pois causa tanto a admiração, por parte de uns, em que se incluem as mulheres que encontram aí uma porta-voz na representação de experiências da intimidade, até então proibida, quanto a rejeição severa por parte de uma crítica moralista conservadora.

Para os que a defenderam, como Henrique Pongetti, Humberto de Campos, Agrippino Grieco, foi preciso separar a Gilka Machado dos domínios da arte (a poeta) da Gilka Machado dos domínios da vida (mãe virtuosa), com o intuito de inocentá-la de uma sensualidade pecadora.

Mas foi justamente por essa força reivindicadora patente na mistura bem dosada de rigor formal e sensualidade ousada, que sua poesia ganhou força e até hoje permanece, enquanto marco na história de resistência à situação de alienação da mulher. Firmou-se, assim, como precursora na luta pelos direitos de acesso à representação do prazer erótico na poesia feminina brasileira.

Selo Postal (1993)
Centenário de Nascimento de Gilka Machado

Publicações


  • 1915 - Cristais Partidos
  • 1916 - A Revelação dos Perfumes
  • 1917 - Estados de Alma
  • 1918 - Poesias, 1915/1917
  • 1922 - Mulher Nua
  • 1928 - O Grande Amor
  • 1928 - Meu Glorioso Pecado
  • 1931 - Carne e Alma
  • 1932 - Sonetos y Poemas de Gilka Machado (Na Bolívia)
  • 1938 - Sublimação
  • 1947 - Meu Rosto
  • 1968 - Velha Poesia
  • 1978 - Poesias Completas

Prêmios


  • 1933 - A Maior Poetisa do Brasil (Revista O Malho - Rio de Janeiro)
  • 1979 - Prêmio Machado de Assis (Academia Brasileira de Letras)

Anna Amélia

ANNA AMÉLIA DE QUEIROZ CARNEIRO DE MENDONÇA
(75 anos)
Poetisa, Tradutora e Feminista

* Rio de Janeiro, RJ (17/08/1896)
+ Rio de Janeiro, RJ (1971)

Anna Amélia nasceu no Rio de Janeiro no dia 17 de agosto de 1896,  filha do engenheiro e colecionador José Joaquim de Queiroz Júnior. Passou a infância em uma fazenda no interior de Minas Gerais, onde recebeu instruções de professoras estrangeiras: aprendendo inglês, francês e alemão. Dos 12 aos 14 anos, começou a escrever versos, publicados em 1911, com o título de "Esperanças". Em 1922, publicou seu segundo livro de poemas, "Alma", em 1926, "Ansiedade", em 1936, "A harmonia das Coisas e dos Seres", em 1939, "Mal de Amor", em 1951, "50 Poemas de Anna Amelia" e em 1957, "Todomundo".

Para além de suas atividades literárias, Anna Amélia foi profundamente ativa para o reconhecimento da mulher no Brasil. Dirigiu durante dois anos a página feminina do Diário de Notícias. Foi a primeira mulher a ser membro do Tribunal Eleitoral (1934), fazendo parte também de uma mesa apuradora. Foi nomeada por Getúlio Vargas representante do Brasil no I Congresso Feminista Internacional, da Woman League International, em Istambul, 1935. Nesta época era vice-presidente da Federação Brasileira Pelo Progresso Feminino. Foi delegada do Brasil de 1941 a 1943 na Comissão Interamericana de Mulheres.

Entre estas atividades, Anna Amélia fundou em 1939 a Casa do Estudante do Brasil, sendo por este motivo eleita a "Rainha dos Estudantes Brasileiros". Com sede especialmente construída, a Casa do Estudante do Brasil era uma instituição voltada para o intercâmbio cultural entre os estudantes. Reunindo alguns residentes e muitos associados, o prédio possuía um restaurante, salão de festa e conferência, auditórios para cursos de extensão universitária, biblioteca, apartamentos para professores visitantes, consultórios médico e dentário, farmácia e barbearia. Tinha ainda uma publicação chamada "Rumo", onde eram publicados artigos sobre o ensino, história do Rio de Janeiro e do país, debates de temas atuais e textos literários.

Toda esta estrutura educacional fora idealizada por Anna Amélia, que foi presidente vitalícia da instituição até a sua morte, em 1971. E em retribuição a sua dedicação, a Casa do Estudante do Brasil ergueu, em 1975, o busto em um largo em frente a sua sede, no Castelo. Este largo, no dia da inauguração do busto passou a ser chamado Praça Anna Amélia. A cerimônia foi concorrida e noticiada em quase todos os jornais da cidade. Estiveram presentes ministros, o prefeito da cidade, o secretário de Educação, várias escolas de primeiro grau, o coral do Colégio Pedro II, a família, amigos intelectuais e os dirigentes da Casa do Estudante do Brasil. No discurso de Paschoal Carlos Magno está explícita a intenção da bronzificação.

"Não faltam por aí pessoas sempre dispostas a fundar instituições que se apresentam como beneficentes e, as mais das vezes, prestam serviços a certo grupo de necessitados. Na maioria dos casos, porém, o objetivo principal consiste em promover os fundadores e mantenedores - seja com propósitos eleitorais, seja com finalidade lucrativa. Bem diferente é o caso da Casa do Estudante do Brasil. Ana Amélia que dirigiu a Casa do Estudante até o seu último dia de vida, era uma poetisa ilustre, uma dama de prestígio social e era rica. Não precisava se promover. Só pensou em servir. Seu busto foi agora colocado à frente da Casa. Ela continua, em espírito eterno e em bronze eterno, no lugar que gostava." 

Anna Amélia casou-se com Marcos Carneiro de Mendonça, goleiro e historiador. A partir de 1944 o casal passou a residir em um palacete do século 19 no bairro do Cosme Velho, conhecido como "Solar dos Abacaxis", por conta dos adornos em ferro fundido que ainda hoje decoram a balaustrada das janelas frontais do solar. A mansão foi erguida em 1843 pelo bisavô de Anna Amélia, o comendador Borges da Costa.

Em seu segundo livro "Alma", em 1922, a poetisa introduziu o tema do futebol na poesia brasileira e colaborou a seu modo para difundir e popularizar esse esporte. Ensinava o jogo aos operários da fábrica de seu pai e dava instruções preciosas durante as partidas. Desde muito jovem era entusiasta do esporte: no seu 12º aniversário, pediu aos pais como presente, uma bola, uma botina de sola grossa e começou a treinar.

Anna Amélia e Marcos tiveram três filhos, sendo a mais nova a crítica teatral Bárbara Heliodora.

Anna Amélia é considerada hoje uma expressão importante da literatura brasileira do século XX. Rever a sua vida é resgatar a importância da mulher para a nossa cultura e arte. 

Fonte: Wikipédia e Bolsa de Mulher

Bertha Lutz

BERTHA MARIA JÚLIA LUTZ
(82 anos)
Bióloga, Advogada, Política e Feminista

* São Paulo, SP (02/08/1894)
+ Rio de Janeiro, RJ (16/09/1976)

Bertha Maria Júlia Lutz, filha da enfermeira inglesa Amy Fowler e do cientista e pioneiro da medicina tropical Adolfo Lutz. É uma das pioneiras da luta pelo voto feminino e pela igualdade de direitos entre homens e mulheres no país.

Desde 1918, Bertha tornou-se uma defensora incansável dos direitos da mulher no país. Publicou na Revista da Semana de 14 de dezembro uma carta denunciando o tratamento dado ao sexo feminino propondo a formação de uma associação de mulheres, visando a "canalizar todos esses esforços isolados".

Bertha empenhou-se na luta pelo voto feminino e junto com outras mulheres, entre as quais Maria Lacerda de Moura, criou, em 1919, a Liga Para a Emancipação Intelectual da Mulher, que foi o embrião da Federação Brasileira Pelo Progresso Feminino. Foi a segunda mulher a ingressar no serviço público brasileiro, após ser aprovada em concurso do Museu Nacional, no Rio de Janeiro - a primeira é Maria José Rabelo Castro Mendes, admitida em 1918 no Itamaraty.

Em 1922, representou as brasileiras na assembléia-geral da Liga das Mulheres Eleitoras, nos Estados Unidos, onde foi eleita vice-presidente da Sociedade Pan-Americana.

O direito de voto feminino foi estabelecido por decreto-lei do presidente Getúlio Vargas apenas dez anos depois, em 1932. Em 1936, Bertha Lutz assumiu o mandato de deputada federal na vaga deixada pelo titular, Cândido Mendes.

Defendeu a mudança da legislação referente ao trabalho da mulher e dos menores de idade, propondo a igualdade salarial, a licença de três meses para a gestante e a redução da jornada de trabalho, então de 13 horas.

Quando a Organização das Nações Unidas (ONU) estabeleceu o ano de 1975 como o Ano Internacional da Mulher, Bertha, já doente, foi convidada pelo governo brasileiro a integrar a delegação do país no I Congresso Internacional da Mulher, realizado na capital do México. Este foi seu último ato em prol da melhoria da condição feminina.

Faleceu no Rio de Janeiro no dia 16 de setembro de 1976.

Fonte: Wikipédia e Mulher Terra

Luz del Fuego

DORA VIVACQUA
(50 anos)
Atriz, Bailarina, Vedete, Naturista, Escritora e Feminista

☼ Cachoeiro de Itapemirim, ES (21/02/1917)
┼ Rio de Janeiro, RJ (19/07/1967)

Dora Vivacqua, mais conhecida pelo nome artístico Luz del Fuego, foi uma dançarina, naturista, atriz, escritora e feminista brasileira nascida em Cachoeiro de Itapemirim, ES, no dia 21/02/1917.

Destacou-se como pioneira na implementação do naturismo no Brasil entre os anos 1940 e 1950, tendo sido a fundadora do primeiro reduto naturista da América Latina e a primeira nudista brasileira. É também reconhecida por sua contribuição na luta pela emancipação das mulheres.

Nascida no Espírito Santo, Dora Vivacqua pertencia a uma família de intelectuais e políticos, que realizava em sua residência reuniões literárias com a presença de relevantes personalidades do modernismo brasileiro, em Belo Horizonte, onde se estabeleceu em 1920.

Bacharelada em Ciências e Letras, optou por apresentar-se no picadeiro de um circo sob o pseudônimo Luz Divina, em 1944, antes de o substituir por Luz del Fuego, dançando com um casal de serpentes enrolado em seu corpo quase sempre nu. As performances da moça logo provocaram furor por todo o país e transformaram-na em uma das principais atrações dos populares teatros de revista. Embora repudiada pelos mais conservadores, que a consideravam "uma ameaça aos bons costumes", Luz del Fuego atraía enorme público para os seus espetáculos e tornou-se uma das vedetes mais conhecidas dos anos 1950 no Brasil, recebendo propostas para excursionar pelo exterior.

Por suas apresentações enfrentou forte repressão das autoridades em algumas cidades, sendo, em várias delas, expulsa ou impedida de entrar.

No final dos anos 1940, começou a expor os seus ideais existencialistas, naturistas, em defesa dos direitos da mulher e da liberdade de expressão, e em combate aos preconceitos sociais. Escreveu dois livros, em um dos quais lançava a teorização do movimento naturista brasileiro e, como resultado, viu-o ser banido das livrarias.

Tentou candidatar-se a deputada federal com um partido político por ela fundado, mas impedido de ser registrado, e aventurou-se esporadicamente em algumas produções cinematográficas ao longo dos anos 1950. Por meio de uma autorização que recebeu da Marinha do Brasil, foi viver em uma ilha por ela rebatizada de Ilha do Sol, onde fundou o Clube Naturalista Brasileiro.

Apesar da popularidade de seus espetáculos, a artista sofreu dificuldades financeiras em seus últimos anos de vida. Luz del Fuego foi assassinada, juntamente com o seu caseiro, por dois pescadores na Ilha do Sol, em 19/07/1967. Seus corpos foram lançados ao mar, mas recuperados em 02/08/1967.

Sua história foi tema do documentário "A Nativa Solitária" (1954), recuperado pelo Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (APEES), de cujo acervo faz parte, bem como de um filme que leva o seu nome lançado em 1982.

Luz del Fuego com uma de suas serpentes, em 1945
Primeiros Anos

Dora Vivacqua nasceu em 21/02/1917, em Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo. Décima-quinta filha de José Antônio VivacquaEtelvina Souza Monteiro Vivacqua, mudou-se com a sua família para Belo Horizonte, Minas Gerais, em 1920, quando tinha 3 anos de idade.

Oriunda de uma tradicional família de políticos e intelectuais descendente da imigração italiana no Espírito Santo, residiu no chamado Salão Vivacqua nos anos seguintes, onde saraus mensais frequentados por Carlos Drummond de Andrade e Pedro Nava eram realizados.

Em Minas Gerais, descobriu o serpentário da Fundação Ezequiel Dias, que logo se tornou o seu lugar preferido, e começou a participar, aos 4 anos, dos saraus promovidos pela turma modernista de Belo Horizonte. Concluiu o ensino superior e bacharelou-se em Ciências e Letras.

Desde muito cedo, Dora Vivacqua exibiu comportamento rebelde, recusando-se a acatar ordens ou opiniões sobre o que fazia. Costumava caminhar pela praia de Marataízes somente de roupa íntima e bustiê improvisado com lenços. Nos carnavais, sempre aparecia com curtas fantasias confeccionadas por si, e tinha verdadeira aversão às convenções sociais e às ideologias conservadoras que lhe eram impostas. Certa vez, aos 20 anos, fugiu para o Rio de Janeiro, e, após ser encontrada pela família, foi enviada ao Colégio da Imaculada Conceição, em Botafogo, do qual se retirou após atingir a maioridade, à época, 21 anos.

Em 1929, a família retornou para Cachoeiro de Itapemirim, onde, em 19/08/1932, seu pai foi assassinado por um grupo de pessoas que, dias antes, ele expulsara de um dos seus terrenos. Com o falecimento do marido, Etelvina resolveu retornar para Belo Horizonte com as filhas que ainda não tinham casado, mas Dora Vivacqua, pouco tempo depois, foi morar no Rio de Janeiro sob a tutela de Attilio, um de seus irmãos.


No Rio de Janeiro, foi introduzida ao meio artístico e cultural pelo radialista César Ladeira, da Rádio Mayrink Veiga, e, mais tarde, conheceu José Mariano Carneiro da Cunha Neto, no Cassino da Urca, que a levou aos locais frequentados pela elite brasileira.

Embora inicialmente tranquilizada, a família Vivacqua logo enfrentou problemas com o comportamento da garota, especialmente o seu irmão. Contrariando-o, ela ingressou na equipe de um circo aos 15 anos e Atillio, então eleito deputado constituinte, decidiu mandá-la de volta para Belo Horizonte a fim de evitar o envolvimento de seu nome em escândalos.

Após retornar para Belo Horizonte, foi morar com a irmã Angélia e seu marido, Carlos, que começou a assediá-la. Quando flagrado pela esposa, ele convenceu-a de que foi Dora Vivacqua a responsável pelo acontecido e fez a família considerá-la esquizofrênica, o que resultou no internamento da moça no Instituto Raul Soares por um período de dois meses em 1936.

Quando deixou o manicômio, a jovem havia perdido 10 kg e, por sugestão de seu irmão Achilles, que com ela estava preocupado, foi morar na fazenda de Archilau, um outro irmão. Lá, desfrutava de imensa liberdade apesar de sempre estar acompanhada do filho do administrador da fazenda, para quem resolveu aparecer um dia como "Eva", usando apenas três folhas de parreira amarrados aos seios e à região do púbis, e duas cobras-cipós envoltas em seus braços. Ao ser repreendida pelo irmão, Dora Vivacqua agrediu-o e, consequentemente, foi mais uma vez internada em uma clínica psiquiátrica, desta vez na Casa de Saúde Drº Eiras, no Rio de Janeiro. Achiles novamente interveio a seu favor e, após deixar o local, ela foi viver com outra irmã, Mariquinhas, em Cachoeiro de Itapemirim.

O espírito rebelde da jovem, porém, ainda era muito vívido e, em novembro de 1937, Dora Vivacqua fugiu de volta para o Rio de Janeiro, onde reatou o romance com Mariano, mas nunca quis oficializar a relação, que durou 5 anos. Novamente na, à época, capital do país, conseguiu, com o auxílio de Fernando de Sousa Costa, então Ministro da Agricultura, ingressar em um aeroclube para adquirir um brevê e, pouco depois, começou a praticar paraquedismo, mas parou de fazê-lo por exigência de Mariano. As desavenças entre o casal intensificaram-se quando Dora Vivacqua matriculou-se em um curso de dança de Eros Volúsia. Mariano exigia-lhe o abandono das aulas, mas ela o ignorou. Deixou-o após descobrir que ele mantinha uma relação amorosa com outra mulher.

O Sucesso de Luz del Fuego e as Teorias Naturistas

Depois de pôr um fim ao seu romance com MarianoDora Vivacqua decidiu seguir a carreira artística, por volta de 1942. Dizem algumas fontes, sem base documental, que Dora Vivacqua estreara em um circo chamado Pavilhão Azul, em 1944, sob o pseudônimo Luz Divina, de modo que somente adotou o nome artístico com o qual se tornou famosa em 1947, por sugestão de um palhaço chamado Cascudo. Essas informações, amplamente difundidas em biografias on-line e impressas da artista, contradizem os jornais dos anos 1940, que trazem informações sobre a estreia de Luz del Fuego, já com este pseudônimo, no Teatro de Tevista em agosto de 1944. Corrobora esta informação uma entrevista que a artista concedera à revista Carioca, publicada em janeiro de 1944, uma vez mais a utilizar Luz del Fuego, bem como informações divulgadas sobre as suas excursões pelo exterior já como Luz del Fuego e antes de 1947. Porém, na edição de 19/01/1945, um repórter de O Jornal relatou o seguinte: "Luz del Fuego, dizem, já se chamou Luz Divina. Quase esteve em cassinos e a jiboia era sua companheira", o que pode indicar certa veracidade quanto à sua estreia no circo, apesar de o ano em que o fez ainda ser conflitante. É provável, pois, que isto tenha ocorrido entre 1942 e 1943, já que Luz del Fuego, em entrevista ao A Noite, afirmou ter-se lançado à carreira artística em 1942.

Para além da obscuridade acerca da origem de seu nome artístico, o motivo pelo qual incluiu serpentes nos seus espetáculos é também incerto. Encontra-se difundida em publicações a história de que a artista fora inspirada pela leitura de um livro sobre mulheres macedônicas que praticavam a dança com aqueles animais.

Após pesquisar no Instituto Vital Brazil, concluiu serem as jiboias as menos perigosas, portanto, as mais apropriadas para aquela finalidade. Na supracitada entrevista à revista Carioca, em 1944, Luz del Fuego afirmou que tencionava "apresentar coisas novas sem ser excêntrica [...] Idealizei a Tentação de Eva, porém tinha um medo danado das serpentes! Mas, não seria esse o motivo para fazer malograr o meu ideal. Aprendi a domesticar cobras e hoje com elas trato familiarmente!".

Sejam quais forem as origens de seu nome artístico, é fato que a artista estreou oficialmente em 1944, com espetáculos por ela idealizados - como a própria afirma, uma vez mais à revista Carioca, àquele ano -, intitulados "Tentação de Eva", "Lenda da Cobra Grande", "Baile de Cleópatra", "Macumba Para Prender Um Amor", "Frevo" (uma mistura de dança e mímica), "Batuque e Cocktail", para além de "Noturno Carioca", este escrito por Ary Barroso.

A sua primeira exibição no Teatro de Revista ocorreu em agosto de 1944, na peça "Tudo é Brasil", realizada no Teatro Recreio, propriedade de Walter Pinto, no Rio de Janeiro.

Em 1945, Luz del Fuego exibiu-se em casas de espetáculos pelo Panamá, por Uruguai e por Buenos Aires, na Argentina, e, em 1946, estreou nos cinemas nacionais, na produção "No Trampolim da Vida", em que apresentou "números excitantes com cobras vivas", nas palavras de um repórter do periódico A Scena Muda, em dezembro de 1946.


Em 1947, embarcou em uma excursão por Nova York, nos Estados Unidos, onde se apresentou em danceterias noturnas por três meses. Passou uma temporada na América do Norte entre 1947 e 1948, aprimorando os seus estudos de dança moderna. Foi também nesta época em que Luz del Fuego descobriu os filósofos existencialistas e as colônias nudistas da Europa e resolveu aprofundar os seus conhecimentos sobre os temas. Tornou-se adepta do naturismo e decidiu ser a precursora de sua implementação no Brasil, explicando:

"Já Adão e Eva andavam nus. Quando se nasce, não se traz roupa sobre o corpo. As vestes são artifícios dos quais os homens se valem para encobrir coisas naturais!"

De volta ao Brasil, em 1948, a dançarina começou a expor seus ideais e tentou resgatar a prática dos primeiros habitantes do Brasil, muito comum em países europeus desde 1903. Com a publicação do livro "A Verdade Nua", que vendeu 1752 volumes em apenas quatro dias, lançava a teorização do movimento naturista brasileiro e defendia o nudismo das acusações de imoralidade. Num trecho da obra, escreveu:

"Um nudista é uma pessoa que acredita que a indumentária não é necessária à moralidade do corpo humano. Não concebe que o corpo humano tenha partes indecentes que se precisem esconder."

Em 1949, iniciou uma série de espetáculos pelas danceterias do Norte e Nordeste do país, tendo sido impedida de apresentar-se pelas autoridades no Maranhão e submetida a restrições em Fortaleza. Embora não dominasse habilmente a dança nem a atuação, Luz del Fuego conquistou imensa popularidade com os seus espetáculos pelo país.

Luz del Fuego retornou aos teatros em maio de 1950, com papel de destaque na peça "Cutuca Por Baixo", ao lado das atrizes Dercy Gonçalves e Linda Batista, novamente no Teatro Recreio, realizando apresentações nudísticas de danças folclóricas com cinco serpentes. A produção rendeu muitos lucros, teve mais de duzentas apresentações e atraiu 195.393 espectadores em apenas dois meses de exibição.

"Era atração de bilheteria! Toda gente queria ver como era a moça das cobras!", afirmou Agnello Macedo, do Correio da Manhã, em agosto de 1950.

Luz del Fuego foi, então, contratada pelos atores Juan Daniel e Mary Daniel, proprietários do Teatro Follies, em Copacabana, para estrelar "Eva no Paraíso", que se converteu em outro êxito e fez o jornal A Manhã chamar-lhe "A atração máxima do momento".

Apesar de não ser creditada com o seu nome de batismo, a família Vivacqua não ficou contente com a profissão adotada por Dora Vivacqua, especialmente o seu irmão Attilio, que fora eleito senador e considerava a associação prejudicial à imagem dele enquanto político. Numa entrevista com a Revista do Rádio, em 1950, Luz del Fuego apontou os seus familiares como os seus principais "perseguidores", enfatizando Attilio, que se utilizava do cargo para impedi-la de exibir-se em teatros e danceterias.

Em 1951, fundou Naturalismo, a primeira revista do país a exibir genitálias em suas publicações, que teve 21 edições até 1954. Não demorou muito para voltar a sofrer repressões, pois no Brasil, àquela época, nem sequer era permitido o uso de maiô de duas peças nas praias e as suas ideias e apresentações trouxeram-lhe vários problemas, como acusações de atentado ao pudor e aos "bons costumes", diversas multas e intimações a delegacias.

Numa atuação em São Paulo, em 1951, por exemplo, foi detida durante o espetáculo devido aos seus trajes e acabou sendo multada, embora tenha declarado: "Nunca me apresentei tão vestida no palco!".

Numa de suas passagens por Belo Horizonte, em 1952, causou alvoroço entre a população e recebeu ordens do prefeito para deixar a cidade imediatamente.


Em 1953, um grupo católico de Juiz de Fora, MG, liderado pelo bispo Dom Justino José de Sant'Ana, da arquidiocese local, conseguiu fazer com que as autoridades não a permitissem apresentar-se no município. Casos semelhantes foram registrados em outras regiões, como em Sergipe e Valença, tendo sido, em ambas, impedida de atuar. Também em 1953, foi detida e condenada a seis meses de prisão por ultraje ao pudor e desacato à autoridade em uma festa carnavalesca, mas absolvida, e orientada a submeter-se a exames de sanidade mental por um representante do Ministério Público que sugeriu o seu internamento em um manicômio.

Os métodos que utilizava para promover as suas ideias, como uma aparição no Viaduto do Chá, em São Paulo, fantasiada de Iemanjá e completamente sem roupas, ou apresentações seminua em carros abertos na Avenida Atlântica, no Rio de Janeiro, em que dançava e exibia as serpentes aos que ali estivessem presentes, também resultaram em detenções.

Luz del Fuego, porém, tinha amantes influentes - como políticos e militares -, que resolviam quaisquer problemas em que se envolvesse e, quando livre, não hesitava em se dirigir às rádios e praças para tornar públicas as pressões que sofria.

Tentou lançar-se na carreira política com a fundação do Partido Naturalista Brasileiro (PNB), em 07/09/1949, que defendia o estabelecimento de espaços públicos nos quais famílias pudessem criar uma relação harmoniosa com a natureza totalmente despidos e cujo slogan, "Menos roupa e mais pão! Nossa lema é ação!", repercutiu em todo o país. A naturista o promovia durante as suas excursões pelo país, distribuindo panfletos com as escritas: "Para a fome, temos o pão. Para a sede, a água. Para a imoralidade, a nudez!".

O partido conseguiu 50 mil assinaturas apoiando-o, mas não foi registrado devido à perda dos documentos, como revelou a própria Luz del Fuego, em setembro de 1950:

"Já estava quase registrado meu partido. Para que ele fosse realmente forte, eu queria obter a adesão de um grande figurão da política. Por isso, dirigi-me ao senhor Salgado Filho, que me recebeu muito bem, dizendo que ia entender-se com o senador Getúlio Vargas para esse fim. Na última viagem que ele empreendeu ao Sul, levou consigo o meu memorial que continha as 50 mil assinaturas de adeptos do PNB. Faça ideia, agora, como sofri, quando tive noticia do trágico desastre em que pereceu o senador Salgado Filho, pois, como sabia, o documento assinado pelos meus eleitores também havia sido queimado no horrível desastre..."

Embora se tenha noticiado aquilo à época, sabe-se, hoje, que foi Attilio quem pôs fim aos documentos.

No decorrer dos anos 1950, Luz del Fuego realizou diversas apresentações pelas regiões Norte, Sul e Sudeste do país, e recebeu convites para excursionar pelos Estados Unidos e pela Europa, bem como para realizar um espetáculo para o Rei Faruk do Egito. Além disso, continuou a destacar-se nos palcos de teatros como o Teatro Recreio - com as suas apresentações baseadas no folclore brasileiro -, o Teatro República e o Teatro Follies.

Para "O Nu Através dos Tempos", que estreou em 1951, no Teatro República, por exemplo, a dançarina atraiu 293.975 espectadores em apenas um mês. Sobre o espetáculo, um repórter do periódico A Manhã declarou: "De há muito o Teatro República não registra sucesso igual!".

Luz del Fuego e Elvira Pagã foram chamadas "as responsáveis por provocar verdadeiras explosões de gargalhadas" pelo Diário da Noite, em referência ao êxito "Balança Mas Não Cai", do Teatro Carlos Gomes. O sucesso também lhe permitiu protagonizar os filmes "Folias Cariocas", "No Trampolim da Vida" e "Não Me Digas Adeus", fê-la estampar a capa da revista americana Life e consagrou-a como uma das vedetes mais populares de sua época no Brasil.

Em 1959, após 4 meses a atuar em outro êxito, "Mulher... Só Daquele Jeito", no Teatro Carlos Gomes, recebeu propostas para realizar apresentações em Las Vegas, nos Estados Unidos, remuneradas com mil dólares diários - à época, cerca de 150 mil cruzeiros.

Ilha do Sol e o Clube Naturalista Brasileiro

Quando "A Verdade Nua" foi lançada, as autoridades brasileiras conservadoras logo trataram de eliminar quaisquer sinais da publicação nas livrarias, e a obra passou, então, a ser comercializada somente por reembolso postal. Todo o dinheiro arrecadado com as vendas seria utilizado para a fundação do reduto naturalista que Luz del Fuego tanto almejava.

Na primeira metade dos anos 1950, Luz del Fuego obteve uma autorização da Marinha do Brasil para viver na ilha Tapuama de Dentro, que possui mais de oito mil metros quadrados, e a rebatizou de Ilha do Sol. Lá, fundou o Clube Naturalista Brasileiro, em 1951, o primeiro do gênero na América Latina e sobre o qual mantinha rígido controle, não permitindo a entrada de bebidas alcoólicas, proferir palavras de baixo calão nem a prática de relações sexuais na colônia, distinguindo nitidamente naturalismo de libertinagem. Também não era permitida a entrada de menores de idade e, caso uma pessoa fosse comprometida, o parceiro tinha de estar ciente de sua visita à ilha. Luz del Fuego promovia a prática de atividades esportivas, como vôlei, banhos de sol e mar, e exibia aos presentes peças teatrais e filmes, em geral, documentários sobre as colônias nudistas europeias. Pela iniciativa, recebeu uma carta dos organizadores da Confederação Nudista da América do Norte, em 1952, parabenizando-a.

A Ilha do Sol não foi incluída na lista dos roteiros turísticos do Rio de Janeiro, mas tornou-se extremamente popular e atraiu, inclusive, personalidades do cinema americano, como Errol Flynn, Lana Turner, Ava Gardner, Glenn Ford, Brigitte Bardot e Steve McQueen. Segundo o Correio da Manhã, mais de três milhões de mineiros visitaram a ilha. O local foi incluído nos registros da Federação Internacional Naturalista da Alemanha e conseguiu 240 sócios, mas todos que desembarcassem na ilha apenas podiam permanecer se ficassem completamente despidos. Com a colônia, Luz del Fuego tornou-se a primeira nudista brasileira e, em 1964, foi entrevistada por um correspondente brasileiro para uma matéria que seria publicada pela revista alemã Frieden Leden.

Últimos Anos e Assassinato

Por volta dos anos 1960, Luz del Fuego foi morar na Ilha do Sol. Àquela altura, com mais de 40 anos de idade, ela não atraía mais o interesse de homens influentes como antes e passava por dificuldade financeiras.

Entre 1960 e 1961, atuou em "Carnaval da Ilha do Sol", no Teatro João Caetano, com Wilza Carla e Costinha, e, em 1962, apresentou-se em Campos do Jordão e recebeu propostas para excursionar pela América do Sul. No entanto, afastou-se dos teatros de revista nesse mesmo ano, retornando somente em 1964 com espetáculos em São Paulo.

Numa entrevista concedida à Revista do Rádio, em 1965, Luz del Fuego afirmou ter-se ausentado dos teatros para dedicar-se à reforma da Ilha do Sol, com a qual gastou trinta milhões de cruzeiros em construções, inclusive de um restaurante nudista.

"Quando comprei e fui morar na Ilha do Sol, aquilo não passava mesmo de um recanto deserto, dentro da Baía de Guanabara. Não havia nenhuma casa. Dediquei-me, então, à construção de várias moradias, permanecendo ali meses seguidos sem vir ao Rio!"

Luz del Fuego pretendia reabrir a ilha em março para os festejos do Quarto Centenário do Rio de Janeiro. Ainda em 1965, Luz del Fuego estrelou "Boas em Liquidação", com Sônia Mamede, no Teatro Rival, que registrou boa bilheteria, e foi convidada pela Federação Internacional de Nudistas para viajar à Alemanha, onde concorria ao título de "Mais Bela Nua do Mundo".

Em outubro de 1965, Luz del Fuego queixou-se à polícia da visita de malfeitores à Ilha do Sol. Nela embarcaram os irmãos pescadores Alfredo Teixeira Dias e Mozart "Gaguinho" em busca de fortuna. Meses depois, Luz del Fuego dirigiu-se novamente às autoridades e denunciou-os pela prática de ações criminosas na região, inclusive pelo assassinato de um outro pescador, tendo informado à polícia o local onde Alfredo estava foragido.

Na noite de 19/07/1967, uma quarta-feira, Alfredo convocou o irmão para ir à Ilha do Sol para conversar com Luz del Fuego, porém, revelou durante o percurso que a pretendia assassinar para vingar-se da artista. Quando a dupla chegou à Ilha, os cães da dançarina fizeram alarde e ela apareceu em seguida, portando um revólver. Alfredo, então, disse-lhe que a embarcação por ela utilizada para transporte estava a ser furtada e convenceu-a a ir com ele atrás dos "criminosos". Ao se afastarem da ilha, ele desferiu-lhe violento golpe na região da cabeça, que a fez cair. Em seguida, abriu-lhe o abdome com golpes de arma branca. Os dois retornaram à ilha, onde encontraram o caseiro Edigar Lira e com ele fizeram o mesmo. Alfredo e Mozart, então, amarraram os corpos a pedras, lançaram-nos ao mar e depois retornaram à ilha para saquear a residência da vítima.

O desaparecimento de Luz del Fuego repercutiu nos noticiários de todo o país e chegou a ser encarado como um golpe de publicidade por alguns meios de comunicação. Tal hipótese foi descartada após o delegado Rui Dourado, da 3ª Delegacia Distrital, encontrar, no dia 23/07/1967, a residência da artista em desordem e verificar por meio de um levantamento que objetos de valor haviam sido furtados.

Foram detidos nesse dia Agildo dos Santos, ex-funcionário de Luz del Fuego, e o portuário Hélio Luís dos Santos, ex-amante da artista e apontado como o principal suspeito por tê-la agredido duas semanas antes. Mas os policiais prosseguiram com as buscas pela Ilha do Sol, por Niterói e por ilhas vizinhas, onde acreditavam estar escondido Mozart, o segundo suspeito, visto que havia, meses antes, assaltado a residência da naturista três vezes, e à procura de dois pedreiros que trabalhavam para Luz del Fuego e haviam desaparecido após o acontecido.

No dia 25/07/1967, a embarcação da dançarina foi encontrada próxima à Ilha do Braço Forte por portuários, que perceberam nela manchas de sangue e resolveram comunicar às autoridades. Também os familiares da nudista afirmaram, nesse mesmo dia, não saber onde ela estava. Cada vez mais convencidos de que a atriz havia sido assassinada, os policiais iniciaram buscas pelo mar.

Os corpos de Luz del Fuego e de Edigar Lira foram encontrados apenas em 02/08/1967.

A cerimônia fúnebre de Luz del Fuego ocorreu no dia seguinte, 03/08/1967, no Cemitério São João Batista, e foi realizada por amigos e alguns familiares. Edigar Lira foi sepultado no dia 04/08/1967.

Após ser detido, Alfredo Teixeira Dias, inicialmente, pôs a culpa no ex-amante da artista, Hélio Luís dos Santos. Segundo a sua versão, ele e Mozart "Gaguinho" pescavam quando o portuário os abordou, mostrando-lhes a embarcação em que estavam as vítimas e oferecendo-lhes recompensa para que se desfizessem dos corpos, tendo os dois aceitado a proposta. Já o seu irmão realizou tentativas de fugas, que resultaram em uma troca de tiros com policiais e no assassinato de Júlio Pereira da Silva, investigador de polícia.

Mozart "Gaguinho" entregou-se às autoridades no dia 15/08/1967 por intermédio de seu advogado e, no mesmo dia, foi acareado com Alfredo Teixeira Dias pelo delegado Godofredo Ferreira, revelando toda a verdade sobre o homicídio.

O interrogatório foi realizado no prédio da Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro e Mozart inocentou Hélio Luís dos Santos. Tanto ele quanto o irmão foram condenados a 31 anos de prisão, em 1968.

Legado e Reconhecimento

Naturismo e Feminismo:

Como defende Milton Cunha, colunista do periódico O Dia, Luz del Fuego destacou-se por ser uma mulher muito à frente de seu tempo. Despida de preconceitos, a atriz pregava a volta à natureza, prezava a liberdade de expressão e foi a responsável por trazer ao Brasil movimentos que não existiam à época, como o ecologismo e o naturismo, sofrendo repressão e perseguição dos "defensores da moral".

"Infelizmente, o Brasil ainda é um país onde poucos compreendem o nudismo. Mas é necessário que alguém desperte o povo brasileiro para que compreenda a natureza, assim como Moisés despertou os judeus para a liberdade!"
(Luz del Fuego a um repórter da Revista do Rádio, em 1952)

Por ser a pioneira na prática do naturismo no Brasil, o dia 21 de fevereiro, data de nascimento de Luz del Fuego, é considerado o Dia do Naturismo no país.

Os ideais naturistas da artista permitiram a instituição da primeira área oficial do gênero no país em 1983, na Praia do Pinho, em Santa Catarina.

Em 1988, foi fundada a Federação Brasileira de Naturismo (FBrN), órgão responsável pela organização e controle das atividades naturistas no país e, em 1996, as Normas Éticas do Naturismo Brasileiro foram estabelecidas. Com a fundação do Partido Naturalista Brasileiro, como observou Ricardo Fernandez, do "A Cena Muda", em 1950, a atriz "revolucionou a política, lutando contra os preconceitos sociais", que, nas palavras da própria, constituem empecilhos ao progresso de qualquer nação, e "[por] um programa diferente destinado a libertar os oprimidos". Entre as propostas do partido, estavam a abolição da restrição imposta à prática do espiritismo e das religiões de matriz africana, o direito ao divórcio e o estabelecimento de medidas efetivas de proteção aos animais.

Luz del Fuego também é considerada um ícone para o movimento feminista brasileiro, pois desde os anos 1949 lutava pela emancipação feminina, buscando "amparar a mulher e torná-la independente" e "[tirá-la] do caos (...), dar-lhe altivez pelo trabalho, erguê-la pela honra e pelo direito que lhe cabe no seio da sociedade".

Numa entrevista concedida ao periódico A Cena Muda, em 1950, relatou:

"Defenderei com destemor a causa da mulher brasileira, tornando realidade uma antiga e justa aspiração do povo brasileiro que os preconceitos sociais jamais permitiram!"

Luz del Fuego certa vez declarou ao Diário Carioca que a luta pelos direitos da mulher, muito perseguida pelos preconceitos socais, estava entre os principais objetivos de seu partido político. Ao analisar a sua ideologia, em 1949, um repórter do Diário da Noite declarou:

"Luz del Fuego representa o protótipo da mulher moderna. Com ideias avançadas, querendo libertar-se de preconceitos sociais, idealiza e se joga à aventura, sem considerar as possíveis críticas."

Jória Motta Scolforo, do Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, reconheceu a contribuição de Luz del Fluego para este movimento, dizendo:

"[Luz] possui papel de destaque no Espírito Santo como uma das precursoras na busca por um espaço no qual a mulher pudesse se mostrar e agir conforme as suas convicções e vontades."

Cristina Agostinho, escritora e biógrafa, chamou-a "mulher de vanguarda" por "desafiar os preconceitos da época". Similarmente, Friedmann Wendpap, colunista do Gazeta do Povo, nomeou-a "sagaz" e afirmou que ela "transitava nas bordas da vanguarda", prosseguindo:

"A vedete das vedetes fez do Rio o laboratório das suas inovações e ali encontrou a conjunção de pessoas que moldam o futuro; artistas, intelectuais, loucos de todo gênero que reverberaram os arroubos de Luz del Fuego e os amaciaram para alcançarem a condição de modismos, de coisa prafrentex!"

Luz del Fuego foi homenageada pela cantora Rita Lee, em 1975, em uma canção epônima na qual é chamada "uma mulher sem medos".

Em 2010, a naturista foi incluída na lista "Musas Que Fizeram a História do Rio", elaborada pelo portal G1.

Em 2011, na exposição "Brasil Feminino" - que narrava a trajetória social da mulher brasileira desde o período colonial -, realizada durante o XVI Encontro Nacional do Programa Nacional de Leitura, na Biblioteca Nacional do Brasil, a dançarina foi nomeada uma das "Heroínas do Século XX".

Em 2012, um repórter do Folha de S. Paulo mencionou-a como uma das mulheres históricas do Brasil por "erguer a bandeira do naturismo e zelar pela causa feminina até à morte".

Em 2013, uma colunista do Correio Braziliense escreveu que Luz del Fuego, assim como a francesa Simone de Beauvoir, notabilizou-se por "mostrar que muitas das diferenças entre os gêneros são frutos mais de uma imposição cultural do que biológica".

Numa exposição realizada pela pintora pernambucana Nathália Queiroz, em 2015, a atriz foi considerada, assim como Rita Lee, Nina Simone e a escritora Pagu, uma das representantes do empoderamento feminino. Naquele mesmo ano, durante a exposição "Tarsila e Mulheres Modernas no Rio" - que apresentou mulheres que desempenharam papéis revolucionários em suas áreas entre o fim do século XIX ao término da Segunda Grande Guerra -, realizada pelo Museu de Arte do Rio, Luz del Fuego foi citada entre as mulheres que "atuaram na desconstrução da vida puritana, questionaram a ordem patriarcal da sociedade e advogaram a emancipação da mulher" e promoveram uma "biopolítica de corrosão do poder".

Obras Literárias e Produções Cinematográficas:

No final dos anos 1940, Luz del Fuego escreveu dois livros: o primeiro, "Trágico Black-Out", publicado em 1947, é um romance noir que traz relatos comprometedores sobre a sua vida, como o abuso que sofreu de seu cunhado, Carlos, que a fez ser enviada ao manicômio Casa de Saúde Drº Eiras, e alusões à prostituição, bem como críticas à sociedade conservadora. Com uma tiragem modesta de mil exemplares, o livro teve pouca divulgação e seu irmão, o futuro senador Attilio Vivacqua, conseguiu adquirir mais da metade dos volumes e os queimou.

Na "orelha" a autora anunciava um outro livro a ser publicado, intitulado "Rendez-vous Das Serpentes", o que nunca foi concretizado. Na introdução ela escreveu:

"Ao publicar o meu primeiro livro, a minha sensação é a mesma de quando me desnudei diante do primeiro homem. É a voz do íntimo que aqui se desnuda. Não é o 'manto diáfano da fantasia' que pretendo oferecer ao leitor e sim aquilo que colhi dentro da vida, numa ampliação real dos que vivem e amargam sob um sensualismo incontido, e em volta do qual vibram numa inquietante inveja, numa constante ambição e num angustioso duelo entre o Homem e o Dinheiro."

O segundo livro, "A Verdade Nua", é uma autobiografia que foi publicado no ano seguinte e, como mencionado antes, expõe os ideais de sua filosofia naturista e as suas ideias naturalistas de vegetarianismo e nudismo. A primeira edição da obra foi toda apreendida pela polícia em 1948, mas uma segunda edição foi feita em 1950 e a venda dos exemplares se fez pelo reembolso postal; continha vinte fotos da autora e três das suas cobras.

Luz del Fuego foi tema de um documentário produzido em 1954 intitulado "A Nativa Solitária", que hoje faz parte do acervo do Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (APEES), responsável pela restauração da obra em 2013, e de um filme que leva o seu nome, lançado em 1982, dirigido por David Neves e estrelado por Lucélia Santos. No Festival de Gramado de 1982, a produção venceu os troféus de "Melhor Ator" e "Melhor Atriz" entregues para Walmor Chagas e Lucélia Santos, respectivamente.

A família de Luz del Fuego, no entanto, repudiou a produção por "deturpar a imagem da dançarina" e solicitou a sustação do filme. O roteirista Joaquim Vaz de Carvalho, em entrevista concedida ao Jornal do Brasil, considerou as acusações infundadas e recorreu à liberação da exibição da produção, afirmando que a família "sempre teve interesse em desprezar Luz del Fuego" e apenas objetivava "continuar a abafar qualquer referência a ela".

A biógrafa Cristina Agostinho, autora do livro "Luz del Fuego: A Bailarina do Povo" (1994), também discordou da maneira como Luz del Fuego foi retratada no filme, afirmando que a obra "cometeu uma série de erros de informação e se pautou pela mitologia em torno da prostituta!".

Filmografia

Teatro:
  • 1944 - Tudo é Brasil (Teatro Recreio)
  • 1950 - Cutuca Por Baixo (Teatro Recreio)
  • 1950 - Cutuca Por Baixo (Teatro Santana)
  • 1950 - Festival de Danças Brasileiras (Teatro Recreio)
  • 1950 - Eva no Paraíso (Teatro Follies)
  • 1951 - É Rei, Sim (Teatro Recreio)
  • 1951 - Balança Mas Não Cai (Teatro Carlos Gomes)
  • 1951 - A Fruta de Eva "O Nu Através dos Tempos" (Teatro República)
  • 1952 - A Verdade Nua (Teatro Follies)
  • 1952 - A Verdade Nua (Teatro República)
  • 1952 - É Grande Rei (Teatro Madureira)
  • 1953 - (Teatro Odeon)
  • 1953 - O Que é Que o Bikine Tem? (Teatro Recreio)
  • 1954 - É Sopa no Mel (Teatro República)
  • 1955 - (Teatro João Caetano)
  • 1955 - Esta Mulher é de Morte (Pauliceia)
  • 1959 - Momo e Bambolê (Teatro Paramount)
  • 1959 - Mulher... Só Daquele Jeito (Teatro Carlos Gomes)
  • 1960 - Carnaval da Ilha do Sol (Teatro João Caetano)
  • 1961 - Carnaval da Ilha do Sol (Teatro João Caetano)
  • 1964 - (São Paulo)
  • 1965 - Boas em Liquidação (Teatro Rival)

Cinema:
  • 1946 - No Trampolim da Vida
  • 1947 - Não Me Digas Adeus
  • 1948 - Folias Cariocas
  • 1948 - Poeira de Estrelas
  • 1952 - Saúde e Nudismo
  • 1954 - A Nativa Solitária
  • 1957 - Cururu, o Terror do Amazonas
  • 1959 - Comendo de Colher
  • 1969 - Tarzan e o Grande Rio

Fonte: Wikipédia