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Zanine Caldas

JOSÉ ZANINE CALDAS
(82 anos)
Paisagista, Maquetista, Escultor, Moveleiro, Arquiteto, Designer de Produtos e Professor

☼ Belmonte, BA (25/04/1919)
┼ Vitória, ES (20/12/2001)

José Zanine Caldas foi um paisagista, maquetista, escultor, moveleiro, escultor e designer de produtos e professor, além de também atuar como professor no Brasil e no exterior, nascido em Belmonte, sul da Bahia, no dia 25/04/1919.

Por seu talento incomum foi reconhecido como Mestre da Madeira. Seu trabalho promoveu a integração do artesanato tradicional brasileiro e do modernismo de forma singular.

Zanine desde criança era apaixonado por obras e serrarias. Filho de um médico, com 13 anos ele começou a fazer presépios de Natal para os vizinhos usando caixas de seringa do pai, feitas de papelão. Mais tarde, tomou aulas de desenho com um professor particular e, aos 18 anos, foi para São Paulo, trabalhar como desenhista numa construtora.

Dois anos depois abriu sua própria empresa no Rio de Janeiro para construção de maquetes onde trabalhou entre 1941 e 1948. Por sugestão de Oswaldo Bratke, transfere-o depois para São Paulo, em atividade de 1949 a 1955. O ateliê atendia os principais arquitetos modernos das duas cidades, e era responsável pela maioria das maquetes apresentadas no livro "Modern Architecture In Brazil" (1956), de Henrique E. Mindlin. Do ateliê de Zanine saíam os protótipos de projetos assinados por nomes como Lúcio Costa, Oswaldo Arthur Bratke e Oscar Niemeyer.

Em 1949, em São José dos Campos, SP, uma sociedade entre Zanine, Sebastião Henrique da Cunha Pontes Paulo Mello, gerou a Zanine, Pontes e Cia. Ltda., mais conhecida como Móveis Artísticos Z, que produziu móveis por 12 anos para a classe média. O desenho dos móveis com forte influência modernista foi assinado por Zanine até sair da sociedade em 1953.


Zanine Caldas trabalhou como assistente do arquiteto Alcides da Rocha Miranda na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP), entre 1950 e 1952.

Em São Paulo, desenvolveu projetos paisagísticos até 1958, quando se transferiu para Brasília, onde construiu sua primeira casa, em 1958, e coordenou a construção de outras até 1964.

Indicado por Rocha Miranda a Darcy Ribeiro, ingressou na Universidade de Brasília (UNB) em 1962, e deu aulas de maquetes até 1964, quando perdeu o cargo em virtude do golpe militar. Nesse ano, 1964, viajou pela América Latina e África, e, retornando ao Rio de Janeiro, construiu sua segunda casa, a primeira de uma série construída na Joatinga até 1968.

Em 1968, mudou-se para Nova Viçosa, Bahia, abriu um ateliê-oficina, que funcionou até 1980, e participou do projeto de uma reserva ambiental com o artista plástico Frans Krajcberg, para quem projetou um ateliê em 1971.

Simultaneamente, entre 1970 e 1978, manteve o escritório no Rio de Janeiro, para onde retornou em 1982. Um ano depois fundou o Centro de Desenvolvimento das Aplicações das Madeiras do Brasil (DAM), e o transferiu em 1985 para a Universidade de Brasília (UNB). Nesse período propôs a criação da Escola do Fazer, um centro de ensino sobre o uso da madeira da região para a construção de casas, mobiliário e objetos utilitários para a população de baixa renda.


Em 1975 o cineasta Antonio Carlos da Fontoura fez o filme "Arquitetura de Morar", sobre as casas da Joatinga, com trilha sonora de Tom Jobim, para quem Zanine Caldas projetou uma casa. Dois anos depois, a obra do arquiteto é exposta no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ), no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP), em Belo Horizonte, e no ano seguinte no Solar do Unhão, em Salvador.

Em 1986, a publicação de sua obra na revista "Projeto" nº 90 inicia uma polêmica no Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (CREA) sobre o fato de Zanine Caldas ser auto-ditada. Vários arquitetos saem em sua defesa, entre eles Lúcio Costa, que lhe entrega cinco anos depois, no 13º Congresso Brasileiro de Arquitetura em São Paulo, o título de Arquiteto Honorário dado pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB).

Em 1989 é reintegrado no seu posto na Universidade de Brasília (UNB), mas não chega a dar aulas. Nesse ano vai para Europa, onde projeta residências em Portugal e dá aulas na École d´Architecture de Grenoble, França. O Musée des Arts Decoratifs de Paris mostra suas peças de design em 1989, ano em que recebe a medalha de prata do Colégio de Arquitetos da França.

Perseguido, Zanine chegou a se asilar na embaixada da Iugoslávia, mas no último momento decidiu não viajar para aquele país. Reapareceu ao final dos anos 60. Estabeleceu-se no Rio de Janeiro onde construiu dezenas de casas no bairro de Joatinga, um local de geografia privilegiada, situado entre São Conrado e a Barra da Tijuca. Realizou ali uma arquitetura ao mesmo tempo colonial e moderna, cuja escolha de material privilegiava a preservação do meio ambiente e enfatizava o conceito de autoconstrução.


Nos anos 80, ao estabelecer uma oficina para antigos canoeiros em Nova Viçosa, BA, em sua comunidade "proto-ecológica", reassumiu sua ligação com as técnicas caboclas e reinterpretou as tradições artesanais regionais. À época, Zanine sonhava em transformar Nova Viçosa em uma capital cultural e a sua utopia chegou a reunir nomes como os de Chico BuarqueOscar Niemeyer e Dorival Caymmi. Lá ajudou a construir a residência do artista Franz Krajcberg.

Durante muitos anos, Zanine foi o centro de uma polêmica que tentou impedi-lo de construir por não ser um profissional diplomado. Chegou a ser impedido pelo Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (CREA) de levar adiante a construção de alguns projetos. No entanto, pelo domínio da técnica e materiais Zanine acabou sendo reconhecido como Arquiteto Honoris Causa. Lúcio Costa foi um dos defensores do título, causando polêmica no meio.

Em 1991 Lúcio Costa teve a honra de entregar-lhe o título de arquiteto honorário, atribuído pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB).

No final da década de 80, seu trabalho foi exposto no Museu do Louvre, em Paris, trazendo-lhe o reconhecimento internacional.

Zanine Caldas morreu em Vitória, ES, no dia 20/12/2001, aos 82 anos, vítima de um infarto. Ele já vinha sofrendo de hidrocefalia e apresentava diversas dificuldades de comunicação e raciocínio.

Casado por seis vezes, deixou seis filhos, entre eles o arquiteto José Zanine Caldas Filho, o designer Zanini de Zanine Caldas, que em seus desenhos tem como inspiração os projetos do pai, também ganhando notoriedade por móveis

Indicação: Paulo Roberto Santos

Toninho do PT

ANTÔNIO DA COSTA SANTOS
(49 anos)
Arquiteto, Professor e Político

☼ São Paulo, SP (14/06/1952)
┼ Campinas, SP (10/09/2001)

Antônio da Costa Santos, mais conhecido como Toninho do PT, foi um arquiteto, professor universitário e político brasileiro. Filiado ao Partido dos Trabalhadores (PT), exercia o cargo de prefeito de Campinas, SP, quando foi assassinado a tiros, às 22:15 hs do dia 10/09/2001.

Toninho estava há apenas oito meses no cargo de prefeito de Campinas. Sua atuação contra o crime organizado e as reduções em até 40% nos valores pagos em contratos a empresas de serviços como merenda escolar e limpeza urbana, somadas à insistência do prefeito em desalojar casas para a ampliação do aeroporto de Viracopos lhe renderam várias ameaças, o que reforçou a hipótese de crime político.

Um inquérito policial concluiu que o prefeito, durante uma viagem que fazia de automóvel, foi morto sem nenhum motivo além do fato de cruzar por acaso com um bando de criminosos que na ocasião passava pelo local. O carro do prefeito teria inadvertidamente fechado o veículo dos bandidos e por causa disso eles atiraram na direção do prefeito. A última das três balas atingiu Toninho na artéria aorta, matando-o instantaneamente. Minutos antes, ele passara em uma loja do Shopping Iguatemi para retirar ternos que havia comprado.

A família de Toninho não se conformou com o resultado do inquérito policial e pediu novas investigações. Os familiares do prefeito morto acreditam que o crime teve motivação política, bem como colegas de partido como José Genoíno, que declarou na ocasião que o assassinato de Toninho fora motivado por suas enérgicas ações contra o narcotráfico campineiro.

Curiosamente, Toninho teve um mau pressentimento pouco antes de sua morte. Num discurso no Palácio dos Jequitibás, a sede da Prefeitura de Campinas, ele reafirmou que, caso algo lhe acontecesse, a primeira pessoa a assumir o cargo seria sua vice-prefeita, Izalene Tiene. Outro detalhe é que a cobertura de sua morte foi quase completamente ofuscada pelos ataques de 11/09/2001 aos Estados Unidos, ocorridos na manhã seguinte ao dia da sua morte.

Em 2011, nas celebrações que marcaram 10 anos de seu assassinato, a antiga Estação Ferroviária de Campinas recebeu o nome de Estação Cultura Prefeito Antônio da Costa Santos.

Casa Grande e Tulha

Em 1978, Antônio da Costa Santos adquiriu o lote que continha o conjunto arquitetônico e histórico conhecido como Casa Grande e Tulha, vindo a restaurá-lo e a residir nela, utilizando-a como fonte de pesquisa para estudar a evolução urbana da cidade. A propriedade veio a ser tombada em nível nacional pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 2011.

Fonte: Wikipédia

Lina Bo Bardi

ACHILLINA BO BARDI
(77 anos)
Arquiteta

☼ Roma, Itália (05/12/1914)
┼ São Paulo, SP (20/03/1992)

Achillina Bo Bardi, mais conhecida como Lina Bo Bardi, foi uma arquiteta modernista ítalo-brasileira. Foi casada com o crítico de arte Pietro Maria Bardi e é conhecida por ter projetado o Museu de Arte de São Paulo (MASP).

Lina Bo estudou na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Roma durante a década de 30 mas mudou-se para Milão, onde trabalhou para Giò Ponti, dono de uma casa chamada Domus. Ganhou certa notoriedade e estabeleceu escritório próprio, mas durante a II Guerra Mundial enfrentou um período de poucos serviços, chegando a ter o escritório bombardeado em 1943.

Conheceu o profissional e arquiteto Bruno Zevi, com quem fundou a revista semanal A Cultura Della Vita. Neste período Lina Bo ingressou no Partido Comunista Italiano e participou da resistência à invasão alemã em 1943.

Casou-se com o jornalista Pietro Maria Bardi em 1946 e neste ano, em parte devido aos traumas da guerra e à sensação de destruição, partiu para o Brasil, país que a acolheu como lar e onde passou o resto de sua vida. Em 1951 naturalizou-se brasileira.

No Brasil, Lina Bo encontrou uma nova potência para suas idéias. Existia, para a arquiteta, uma possibilidade de concretização das idéias propostas pela arquitetura moderna, da qual Lina Bo inseriu-se diretamente, num país com uma cultura recente, em formação, diferente do pensamento europeu.


Ao chegar no Brasil, Lina Bo desejou morar no Rio de Janeiro. Encantou-se com a natureza da cidade e o edifício moderno do Ministério da Educação e Saúde Pública, Edifício Gustavo Capanema, projetado por uma equipe de jovens arquitetos liderados por Lúcio Costa que tiveram consultoria de Le Corbusier. Instala-se porém em São Paulo, projetando e construindo, mais tarde, uma casa no bairro do Morumbi, a Casa de Vidro.

No Brasil, Lina Bo desenvolveu uma imensa admiração pela cultura popular, sendo esta uma das principais influências de seu trabalho. Iniciou então uma coleção de arte popular e sua produção adquiriu sempre uma dimensão de diálogo entre o Moderno e o Popular. Lina Bo falava em um espaço a ser construído pelas próprias pessoas, um espaço inacabado que seria preenchido pelo uso popular cotidiano.

Os Bardi tornam-se personagens constantes na vida intelectual do país, relacionando-se com personalidades diversas da cultura brasileira. Tendo conhecido Assis Chateaubriand neste período, Lina Bo aceita o pedido do projeto da sede um museu sugerido pelo jornalista.

No final dos anos 50, aceitando um convite de Diógenes Rebouças, vai para Salvador proferir uma série de palestras. É o início de uma temporada na Bahia, onde dirigiu o Museu de Arte Moderna e fez o projeto de recuperação do Solar do Unhão. Dona Lina, como os baianos a chamavam, permaneceu em Salvador até 1964.

No final da década de 70 executou uma das obras mais paradigmáticas, o SESC Pompéia, que se tornou uma forte referência para a história da arquitetura na segunda metade do século XX.

Pietro Maria Bardi e Lina Bo Bardi, 1951
Esteve em Salvador ainda na década de 80, período de redemocratização do país, quando elaborou projetos de restauração no centro histórico de Salvador, reconhecido pela United Nations Educational, Scientific And Cultural Organization (UNESCO) como Patrimônio da Humanidade. Nesta ocasião os projetos para a Casa do Benin e do Restaurante na Ladeira da Misericórdia contaram com a parceria do arquiteto João Filgueiras Lima.

Lina Bo manteve intensa produção cultural até o fim da vida, em 20/03/1992. Faleceu realizando o antigo sonho de morrer trabalhando, deixando inacabado o projeto de reforma da Prefeitura de São Paulo.

"Eu tenho projetado algumas casas, mas só para pessoas que eu conheço. Tenho horror em projetar casas para madames, onde entra aquela conversa insípida em torno da discussão de como vai ser a piscina, as cortinas (...) Gostaria muito de fazer casas populares."
(Lina Bo Bardi)

A frase mostra o estilo pessoal de Lina Bo e o seu horror à futilidade. Seus projetos, como a Casa Valéria Cirell e o SESC Pompéia, refletem essa marcante característica. Completamente antifeminista, afirmava:

"Como ser feminista? As feministas tem voz de galinha e falta de conteúdo!"

Principais Obras

Além das obras de arquitetura, Lina Bo produziu para o teatro, cinema, artes plásticas, cenografia, desenho de mobiliário, entre outros. Também participou da curadoria de diversas exposições. No campo da arquitetura, entre suas obras de destaque se encontram:

  • 1951 - Instituto Pietro Maria Bardi, São Paulo (Originalmente a residência do casal, o edifício é conhecido como a Casa de Vidro).
  • 1958 - Museu de Arte de São Paulo (MASP), São Paulo (Considerada sua obra prima).
  • 1963 - Casa da Cultura de Pernambuco, Recife (Não acompanhou as atividades da reforma do prédio, que abrigava a antiga detenção da cidade).
  • 1976 - Igreja do Espírito Santo do Cerrado, Uberlândia, MG.
  • Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador.
  • 1990 - Teatro Oficina, São Paulo.
  • 1990 - SESC Pompéia - Fábrica.
  • 1992 - Reforma do Palácio das Indústrias, São Paulo (Inconclusa).
  • 1986 - Reforma do Teatro Politeama, Jundiaí (Concluído em 1996).

Fonte: Wikipédia

Sérgio Rodrigues

SÉRGIO RODRIGUES
(86 anos)
Arquiteto e Designer

* Rio de Janeiro, RJ(1927)
+ Rio de Janeiro, RJ (01/09/2014)

Sérgio Rodrigues arquiteto e designer de móveis, ingressou em 1947 na Faculdade Nacional de Arquitetura (FNA) da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro.

Em 1949, atuou como professor assistente de David Xavier de Azambuja, que, em 1951, o convidou a participar da elaboração do projeto do Centro Cívico de Curitiba, com os arquitetos Olavo Redig de Campos e Flávio Regis do Nascimento, por intermédio de quem, conhece Lúcio Costa.

Sérgio Rodrigues formou-se em arquitetura em 1951. Transferiu-se para Curitiba, onde criou a Móveis Artesanal Paranaense, em sociedade com os irmãos Hauner, que em 1954 contratam-no para comandar o setor de criação de arquitetura de interiores de sua nova empresa, a Forma S.A., em São Paulo. Nesse período, entrou em contato com a produção de diversos designers europeus, conheceu Gregori Warchavchik e Lina Bo Bardi.

Em 1955, pediu demissão da Forma S.A., e voltou ao Rio de Janeiro. Alimentou a idéia de criar um espaço de produção e comercialização do design brasileiro, que se concretizou com a abertura da Oca, em 1955.

Criou na década de 50 a Poltrona Mole, Cadeira Lúcio Costa e Poltrona Oscar Niemeyer.

"De fato, nesse momento ele fez coexistir o Brasil-brasileiro com o Brasil-de-Ipanema, cantada mais tarde, em 1962, por Tom Jobim e Vinicius de Morais na célebre 'Garota de Ipanema'"
(Oscar Niemeyer)


De 1959 a 1960, fez os primeiros estudos do SR2 (Sistema de Industrialização de Elementos Modulados Pré-Fabricados Para Construção de Arquitetura Habitacional em Madeira). Os protótipos das construções são expostos no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ). O sistema foi utilizado na construção do Iate Clube de Brasília e de dois pavilhões de hospedagem e restaurante da Universidade de Brasília (UNB) em 1962.

Com uma variação da Poltrona Mole, recebeu o primeiro prêmio no Concorso Internazionale Del Mobile (Concurso Internacional do Móvel), em 1961, em Cantù, na Itália, escolhido entre mais de 400 convidados de 35 países. Tal premiação deu projeção internacional a sua carreira como designer de móveis. Produzida na Itália pela ISA, a poltrona foi exportada para vários países com o nome de Sheriff.

Com o objetivo de comercializar móveis produzidos em série a preços acessíveis, criou em 1963 a empresa Meia-Pataca, que se manteve no mercado até 1968. Nesse ano, vendeu a Oca e montou ateliê no Rio de Janeiro, onde trabalhou com arquitetura de interiores para residências, escritórios e hotéis e realizou projetos para o Banco Central em Brasília e a sede da Editora Bloch, no Rio de Janeiro, além de desenvolver linhas de móveis para produção industrial. Participou da exposição Mobiliário Brasileiro - Premissas e Realidade, no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP).

Recebeu o Prêmio Lapiz de Plata na Bienal de Arquitetura de Buenos Aires pelo conjunto de sua obra, em 1987. Participou com Lúcio Costa e Zanine Caldas da Mostra Brasile 93 - La Costruzione de Una Identità Culturale (Brasil 93 - A Construção de uma Identidade Cultural), em Brescia, Itália.

Apresentou em 1991, na exposição Falando de Cadeira no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ), diversos trabalhos realizados desde os anos 50.

Obteve em 2006, o 1º lugar na categoria mobiliário na 20ª edição do Prêmio Design do Museu da Casa Brasileira, em São Paulo, com a Poltrona Diz.

Comentário Crítico

Um dos mais importantes designers de móveis do Brasil, ao lado de nomes como Joaquim Tenreiro e Zanine Caldas, Sérgio Rodrigues tem um papel decisivo na história do mobiliário brasileiro. Autor de vasta obra, iniciou a carreira como designer na década de 50, no Rio de Janeiro, período de consolidação da arquitetura moderna. Em expressa crítica ao ecletismo, desenvolveu móveis condizentes com os novos espaços da arquitetura.

São de 1956 duas criações bastante conhecidas, a Cadeira CD-7 ou Lúcio Costa, de madeira maciça torneada e assento em palhinha - assim apelidada em homenagem ao arquiteto, grande incentivador do trabalho de Sérgio Rodrigues - e a Poltrona PL-7Jockey ou Oscar Niemeyer, com estrutura de madeira e trançado de palhinha, braços esculpidos como peças únicas, com desenho anatômico, solução construtiva considerada autenticamente brasileira por Lúcio Costa, embora possam ser percebidas semelhanças com certos trabalhos do arquiteto e designer dinamarquês Finn Juhl.

Num período em que os critérios de nacionalidade e originalidade pautam os julgamentos estéticos na arquitetura e nas artes visuais, diversos comentadores das realizações de Sérgio Rodrigues, entre eles Lúcio Costa, difundem uma interpretação de seu trabalho como exemplar da singularidade brasileira.

Sua criação mais famosa é a Poltrona Mole, de 1957. Confortável e robusta, é considerada um símbolo do design nacional. Tal viés de brasilidade é reforçado pelo comentário do relatório do concurso em Cantù, em 1961, que justifica o 1º prêmio dado à peça pelos critérios de modernidade e expressão de regionalidade. O desejo de conceber um móvel que expressasse a identidade nacional é professado pelo próprio autor e enfatizado por vários comentadores e estudiosos, que associam a poltrona a um modo brasileiro de sentar, a idéias como preguiça e relaxamento, e enfatizam a sintonia dos móveis de Sérgio Rodrigues com a descontração, informalidade e contestação de um novo estilo de vida da juventude dos anos 60. Consideram-na uma originalidade, embora a Poltrona Mole remeta a criações como a 670, de Charles Eames. De fato, o móvel contrasta com os padrões da época, dos delgados pés palitos, trazendo a grossura e a robustez da estrutura de madeira torneada, com correias de couro que formam uma cesta para receber os almofadões, também de couro, o que possibilita ao usuário moldar o corpo anatomicamente ao sentar-se. A poltrona, que integra o acervo do Museum Of Modern Art (MoMA) de New York, é até hoje um sucesso de vendas.


Sérgio Rodrigues recebeu em 1958 um convite para elaborar peças do mobiliário para o edifício do Congresso Nacional, em Brasília, então em construção. Para a sala de espera, projetou a Poltrona PO-3, que recebeu mais tarde o nome de Beto, com estrutura de aço cromado e braço de madeira de lei, assento e encosto de espuma. Produziu, em 1960, a mesa que ficou conhecida como Itamaraty, para o Ministério das Relações Exteriores de Brasília, projeto de Oscar Niemeyer. Com pequenas variações, o mobiliário foi usado na Embaixada do Brasil em Roma.

"Naquela época, no início de Brasília, não se tinha tempo de pensar em desenhar móvel nenhum. Nós usamos móveis correntes no mercado, selecionando como o Palácio exigia. O principal designer a quem solicitei móveis foi Sérgio Rodrigues."
(Lúcio Costa)

A convite de Darcy Ribeiro, então reitor da Universidade de Brasília (UNB), criou em 1962 os assentos do Auditório dos Candangos, projetado pelo arquiteto Alcides da Rocha Miranda, para o que encontrou uma criativa solução construtiva: o uso de balancins, que conferiram mais conforto e facilitam a passagem de transeuntes. De concepção semelhante é a poltrona criada em 1965 para o auditório do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB/DF), de Brasília, menção honrosa no concurso do IAB naquele ano, utilizada em vários auditórios brasileiros, como o Anhembi e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), em São Paulo.

Outra poltrona célebre é a Tonico, criada em 1963 para a empresa Meia-Pataca, com almofada roliça para apoio do pescoço, sustentado por cintas reguláveis.

De 1973 é a Poltrona Leve Kilin PL-104, de madeira maciça e assento e encosto de lona ou couro, premiada pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) em 1975.


Na década de 80, elaborou projetos para hotéis, como a cadeira DAAV e a Poltrona Júlia.

Nos anos 90 continuou a desenhar móveis, como as cadeiras Chico e Adolpho, feitas para a sala de reuniões da Editora Bloch.

A irreverência que marcava seus projetos o acompanhou ao longo de mais de 50 anos de carreira ininterrupta, notada em projetos, como a espreguiçadeira Nina, de 1992, cujo desenho remete a uma caravela de Pedro Álvares Cabral, na qual ressalta a busca pelo conforto do repouso, com direito a um apoio para livros.

O exame de sua vasta produção de mobiliário permite perceber a preferência pela madeira como material principal, utilizada muitas vezes combinada com o couro ou a palhinha, outras com estofados de tecidos de fibras naturais, como o algodão e a lona e, em menor freqüência, com metal. Vale ressaltar, além do caráter inovador das peças produzidas para a Oca, a importância dessa empresa para o desenvolvimento da indústria de móveis modernos no Brasil, por sua contribuição na difusão do design brasileiro e sua aceitação no mercado. Criada em 1955 como um estúdio de arquitetura de interiores, e galeria de arte, a Oca surgiu estimulada pela excelente fase por que passava a arquitetura nacional.

De sua atuação como arquiteto, relativamente obliterada pela notoriedade como designer de móveis, destaca-se a idealização do SR2 (Sistema de Industrialização de Elementos Modulados Pré-Fabricados Para Construção de Arquitetura Habitacional em Madeira). Na década de 1960, foram produzidas e montadas centenas de unidades, muitas delas na floresta amazônica, entre casas, conjuntos habitacionais, pousadas, clubes, restaurantes e postos ambulatoriais.

"O móvel não é só a figura, a peça, não é só o material de que esta peça é composta, e sim alguma coisa que tem dentro dela. É o espírito da peça. É o espírito brasileiro. É o móvel brasileiro."
(Sérgio Rodrigues)

Morte

Sérgio Rodrigues morreu na manhã de segunda-feira, 01/09/2014, aos 86 anos. Segundo funcionários de seu escritório, a morte foi em casa, em Botafogo, na Zona Sul do Rio de Janeiro, vítima de insuficiência hepática. Sérgio Rodrigues já estava sendo submetido a tratamento por complicações no fígado, mas não resistiu. Ele será cremado no Cemitério Memorial do Carmo, no Caju, na quarta-feira, 03/09/2014. Sérgio Rodrigues deixa mulher, Vera Beatriz, três filhos, além de netos e bisnetos.

A morte do designer foi lamentada pela presidente Dilma Rousseff. Em nota, ela disse:

"Rodrigues elevou o designer do nosso mobiliário aos mais altos padrões de criatividade e qualidade internacionais, sem perder um profundo toque de brasilidade. Sua morte entristece a todos. Meus sentimentos a sua família, amigos e admiradores."

Cronologia

  • 1952 - Se formou na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo na Universidade Federal do Rio de Janeiro.
  • 1953 - Formou juntamento com os imãos Hauner a primeira loja de arte e móveis modernos em Curitiba a Móveis Artesanal Paranaense.
  • 1954 - É contratado para trabalhar na loja de móveis Forma S.A. desenvolvendo projetos de móveis modernos.
  • 1955 - Fundou a Indústria Oca, um dos estúdios de arquitetura de interiores e cenografia mais importantes para a indústria do mobiliário brasileiro expondo mais de mil criações de móveis ao longo dos anos, onde ficou até 1968.
  • 1961 - Ganhou o primeiro prêmio no Concurso Internacional do Móvel, na Itália.
  • 1968 - Montou seu próprio ateliê no Rio de Janeiro de design de móveis e arquitetura onde realizou vários projetos nacionais e internacionais como a Embaixada do Brasil em Roma, o Palácio dos Arcos e o Teatro Nacional de Brasília.
  • 1973 - Montou a empresa Sérgio Rodrigues Arquitetura no Rio de Janeiro produzindo linhas de móveis e projetos de arquitetura e ambientação de hotéis, residências e escritórios, além de sistemas de casas pré-fabricadas. A empresa funciona até hoje no bairro de Botafogo.


Móveis Mais Famosos

  • 1956 - Cadeira Oscar
  • 1957 - Poltrona Mole
  • 1962 - Poltrona Aspas "chifruda"
  • 1973 - Poltrona Killin
  • 1997 - Banco Sônia
  • 2001 - Poltrona Diz

Indicação: Miguel Sampaio

Jorge Wilheim

JORGE WILHEIM
(85 anos)
Urbanista, Arquiteto, Administrador Público, Político e Ensaísta

* Trieste, Itália (23/04/1928)
+ São Paulo, SP (14/02/2014)

Jorge Wilheim foi um dos principais urbanistas brasileiros. Com atuação política, que atravessou diversas siglas partidárias, foi um expressivo defensor, no Brasil, do chamado "planejamento estratégico", criado pelos teóricos catalães Manuel Castells e Jordi Borja. A propósito, foi o próprio Manuel Castells quem o definiu, à sua imagem e semelhança, como um "visionário pragmático, sempre interessado nos grandes debates intelectuais, mas também desconfiado da aristocrática alienação de certos teóricos de esquerda".

Tal vocação urbanística começou a se definir precocemente a partir do projeto para Angélica, em 1954, no Mato Grosso: uma cidade nova no meio de uma floresta, entre Campo Grande e Dourados, hoje no atual estado do Mato Grosso do Sul.

Com apenas 26 anos de idade, recém-formado arquiteto, aplicou a doutrina funcionalista de Le Corbusier (1887-1965) e criou uma separação funcional, com zonas comerciais e residenciais que se assemelham às superquadras propostas três anos depois por Lúcio Costa para o Plano Piloto de Brasília.

Jorge Wilheim é responsável por um legado inestimável de emblemáticos projetos, obras e conceitos, entre os quais vários cartões postais paulistanos, como o Vale do Anhangabaú (Primeiro entre 94 em concurso público para a reurbanização, 1981-91), o Parque Anhembi (1967-1973), em São Paulo, cujas instalações incluíram o Pavilhão de Exposições, o Palácio das Convenções e um hotel, e o Pateo do Collegio (Projeto de reurbanização, 1975).

Vale do Anhangabaú
Formou-se em 1952 pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Venceu, nesse ano, concurso fechado para a elaboração do projeto hospitalar da Santa Casa de Jaú, então abriu escritório próprio para desenvolvê-lo. Depois foi convidado a projetar em Mato Grosso duas clínicas em Campo Grande e, em 1954, a conceber o projeto urbanístico da cidade de Angélica, para 15 mil habitantes, atualmente as duas cidades localizadas no estado do Mato Grosso do Sul.

Em 1957, participou do concurso para a realização do ante-projeto de plano diretor de Brasília, com Maurício Segall, Pedro Paulo Poppovic, Péricles do Amaral Botelho, Riolando Silveira, José Meiches, Rosa Kliass, Arnaldo Tonissi, Odiléia Helena Setti e Alfredo Gomes Carneiro. Cinco anos mais tarde, associado a Carlos Millan e Maurício Tuck Schneider, venceu o concurso para a construção do Edifício Jockey Club de São Paulo, no Largo do Ouvidor.

A partir de meados da década de 60, realizou inúmeros planos diretores para cidades em desenvolvimento, como Curitiba, PR e Joinville, SC, em 1965. Osasco, SP, em 1966. Natal, RN, em 1967. Goiânia, GO, 1968, e lançou também seu primeiro livro: "São Paulo Metrópole 65".

Em 1970 ingressou na vida pública como secretário estadual de Economia e Planejamento, na gestão Paulo Egydio Martins, entre 1975 e 1979.

Pateo do Collegio
Em 1981, associado a Rosa Kliass e Jamil Kfouri, venceu o concurso para a reurbanização do vale do Anhangabaú, construído e inaugurado dez anos mais tarde. O partido do projeto era a construção de um túnel para o tráfego motorizado, criando na cota do vale uma grande laje para a circulação de pedestres, que ganhou o caráter de uma extensa "praça pública". Contudo, dada a magnitude e relevância da obra para a cidade, o chamado Parque Anhangabaú revelou aspectos particulares da reflexão urbanística de Jorge Wilheim, tal como certa valorização da vida a pé, e uma associação esquemática, já um tanto anacrônica, entre identidade cívica e espaço aberto.

No governo Mário Covas, de 1983 a 1986, foi o titular da Secretaria Municipal de Planejamento (SEMPLA), e coordenou a elaboração do plano diretor de São Paulo de 1984 (não efetivado).

Em 1985, auxiliado por Jonas Birger, projetou o Centro de Diagnósticos do Hospital Albert Einstein, e tornou-se, no mesmo ano, presidente da Fundação Bienal de São Paulo.

No governo Orestes Quércia, de 1987 a 1991, foi nomeado secretário estadual do Meio Ambiente e, na administração seguinte, de Luiz Antônio Fleury Filho, entre 1991 e 1994, ocupou a presidência da Empresa Metropolitana de Planejamento da Grande São Paulo (EMPLASA).

Duas das suas principais marcas no Governo do Estado de São Paulo foram a criação do Programa de Proteção e Defesa do Consumidor (PROCON)  e do "Passe do Trabalhador", hoje conhecido como Vale Transporte.


Em 1994, a convite da Organização das Nações Unidas (ONU), mudou-se para Nairóbi, no Quênia, e assumiu o cargo de secretário-geral adjunto da Conferência Mundial Habitat 2, realizada em 1996, em Istambul, Turquia. De volta ao Brasil, retomou projetos de planos diretores para cidades como Campos do Jordão, SP, em 2000, e Araxá, MG, em 2002, além de realizar o projeto da cidade industrial de Londrina, PR, em 1997.

Retornou à vida pública na administração da prefeita Marta Suplicy, entre 2001 a 2004, novamente como presidente da Secretaria Municipal de Planejamento (SEMPLA), e coordenou a elaboração do plano diretor estratégico de 2002. Nesse período, publicou o livro "Tênue Esperança no Vasto Caos: Questões do Proto-Renascimento do Século XXI", em que procurou sistematizar sua experiência no campo do urbanismo, lançando perspectivas para o futuro das cidades.

No decorrer de sua carreira, Jorge Wilheim foi paulatinamente substituindo a cartilha funcionalista dos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (CIAMS), por um contextualismo mais voltado para a dimensão humana e para a unidade tipológica, próprias à uniformidade humanista das cidades europeias do século XV ao XIX. Vem daí a sua defesa teórica de um "Renascimento do século 21", bem como sua metáfora da essência do espaço público como um simples "banco de praça".

No campo da arquitetura, Jorge Wilheim projetou e construiu obras importantes, como a sede da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e do Serviço Social das Indústrias (SESI) da Vila Leopoldina, em 1974, a fábrica da Novelprint, 1975, o Centro de Diagnósticos do Hospital Albert Einstein, 1978-1985, e, sobretudo, o conjunto do Parque Anhembi, em 1969, em colaboração com Miguel Juliano, no qual se destacam o Palácio das Convenções, abrigando 3,5 mil lugares, e o Pavilhão de Exposições, com uma área de 67 mil metros quadrados. Com a estrutura metálica tubular em treliça espacial, a imensa cobertura é inteiramente montada no chão e erguida por 25 guindastes durante apenas oito horas. Com cálculo do engenheiro anglo-canadense Cedric Marsh, fornecida e montada pela empresa francesa Fichet Schwartz-Hautmont, representa até hoje "a maior estrutura metálica construída no solo e levantada numa só peça em poucas horas."


Morte

Jorge Wilheim faleceu na sexta-feira, 14/02/2014. Ele estava internado desde dezembro de 2013, no Hospital Albert Einstein, no Morumbi, zona sul de São Paulo, em decorrência de um acidente de carro. O corpo foi velado no próprio hospital e o enterro ocorreu no mesmo dia, às 14:30 hs, no Cemitério Israelita do Butantã, em São Paulo.


Paulinho Tapajós

PAULO TAPAJÓS GOMES FILHO
(68 anos)
Cantor, Compositor, Produtor Musical, Escritor e Arquiteto

* Rio de Janeiro, RJ (17/08/1945)
+ Rio de Janeiro, RJ (25/10/2013)

Paulo Tapajós Gomes Filho, mais conhecido como Paulinho Tapajós, foi um compositor, cantor, produtor musical, escritor e arquiteto brasileiro. Era filho do compositor, cantor e radialista Paulo Tapajós, com quem teve as primeiras noções de música, e de Norma Tapajós, e irmão do compositor Maurício Tapajós e da cantora Dorinha Tapajós.

Durante sua infância, costumava frequentar o auditório da Rádio Nacional, emissora da qual seu pai era diretor artístico. Cresceu em um ambiente musical, convivendo desde menino com vários artistas, como Emilinha Borba, Marlene e Radamés Gnattali, que costumavam frequentar a casa de seus pais.

Na adolescência, estudou violão com Léo Soares e Arthur Verocai, que veio a ser seu primeiro parceiro.

Paulinho Tapajós iniciou sua trajetória artística no final da década de 60, quando ainda cursava Arquitetura na Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde se formou em 1971.

Participou, em 1968, do "Música Nossa", projeto realizado com o objetivo de promover encontros entre compositores e cantores em espetáculos realizados no Teatro Santa Rosa, no Rio de Janeiro. Nesse ano, teve pela primeira vez registrada uma música de sua autoria: "Madrugada" (Paulinho Tapajós e Arthur Verocai), incluída no LP "Música Nossa", em gravação de Magda.

Entre 1968 e 1970, destacou-se como compositor premiado em diversos festivais de música, com destaque para sua participação no III Festival Internacional da Canção, no qual obteve o terceiro lugar, na fase nacional, com a canção "Andança" (Paulinho Tapajós, Edmundo Souto e Danilo Caymmi), hoje com quase 300 gravações, e no IV Festival Internacional da Canção, no qual obteve o primeiro lugar na fase nacional e o primeiro lugar na fase internacional, com "Cantiga Por Luciana" (Paulinho Tapajós e Edmundo Souto), hoje com mais de 100 gravações.

Em 1969 começou a atuar também como produtor musical, função que vinha exercendo até hoje.

Na década de 70, participou de trilhas sonoras de novelas de televisão, com as seguintes canções:
  • 1970: "Irmãos Coragem" (Paulinho Tapajós e Nonato Buzar), tema de abertura da novela "Irmãos Coragem" (Rede Globo)
  • 1970: "Tema De Regina" (Paulinho Tapajós e Edmundo Souto) e "Quem Vem De Lá" (Paulinho Tapajós e Arthur Verocai), para a novela "A Próxima Atração" (Rede Globo)
  • 1970: "Assim Na Terra Como No Céu" (Paulinho TapajósNonato Buzar e Roberto Menescal), "Tema De Suzy" (Paulinho Tapajós e Roberto Menescal), "Amiga" (Paulinho Tapajós e Roberto Menescal), e o tema de abertura "Mon Ami (Fatos e Fotos)" (Paulinho Tapajós e José Roberto Bertrami), para a novela "Assim Na Terra Como No Céu" (Rede Globo)
  • 1970: "Onde Você Mora" (Paulinho Tapajós e Edmundo Souto), para a novela "Verão Vermelho" (Rede Globo)
  • 1971: "I Get Baby" (Paulinho Tapajós e Artur Verocai), para a novela "O Cafona" (Rede Globo)
  • 1971: "Tia Miquta" (Paulinho Tapajós e Arthur Verocai), para a novela "Minha Doce Namorada" (Rede Globo)
  • 1972: "É Natural" (Paulinho Tapajós e Antonio Adolfo), para a novela "Tempo De Viver" (Rede Bandeirantes)
  • 1973: "A Donzela" (Paulinho Tapajós e Naire), para a novela "As Divinas E Maravilhosas" (Rede Tupi)


Em 1972, iniciou sua carreira de intérprete, gravando, com sua irmã Dorinha Tapajós, o compacto duplo "Paulinho e Dorinha", contendo suas canções "É Natural" (Paulinho Tapajós e Antonio Adolfo), "O Profeta", "O Triste" (Paulinho Tapajós e Roberto Menescal) e "Vivências" (Paulinho TapajósChico Lessa e Edmundo Souto).

Em 1974, gravou seu primeiro LP, "Paulinho Tapajós", com destaque para "Se Pelo Menos Você Fosse Minha" (Paulinho Tapajós e Roberto Menescal), "Clara" (Paulinho Tapajós e Arthur Verocai) e "Andança" (Paulinho TapajósEdmundo Souto e Danilo Caymmi), entre outras.

Em 1979, lançou o LP "A História Se Repete", destacando-se as canções "Sapato Velho" (Paulinho TapajósMu Carvalho e Claudio Nucci), "Pera, Uva Ou Maçã" (Paulinho Tapajós e Arthur Verocai) e "Cantiga Por Luciana" (Paulinho Tapajós e Edmundo Souto), além da faixa-título, composta em parceria com Sivuca, entre outras.

Na década de 80, voltou a participar de trilhas sonoras de novelas de televisão, com as canções "No Tempo Dos Quintais" (Paulinho Tapajós e Sivuca), para a novela "Água Viva" (Rede Globo, 1980), "Coisas Do Coração" (Paulinho Tapajós e Mu Carvalho), para a novela "Os Ricos Também Choram" (SBT, 1982) e "Minha Pequena Princesa" (Paulinho Tapajós e Mu Carvalho), para a novela "O Direito De Amar" (TV Globo, 1987).

Lançou, em 1981, o LP "Amigos e Parceiros", no qual registrou suas canções "Coisas De Mãe", "O Choro Do Bruno" (Paulinho Tapajós e Abel Ferreira), "Seja O Que Deus Quiser" (Paulinho Tapajós e Ivan Lins), "Abel E Caim" (Paulinho Tapajós e Maurício Tapajós), "Amiga" (Paulinho Tapajós e Roberto Menescal) e "No Tempo Dos Quintais" (Paulinho Tapajós e Sivuca), entre outras.

Ivan Lins e Paulinho Tapajós
Em 1983, gravou o LP "Coisas Do Coração", com destaque para as canções "Aguapé" (Paulinho Tapajós e Edmundo Souto), "Cabelo De Milho" (c/ Sivuca), "Canção de esperar neném" (c/ Beth Carvalho) e "Filha da noite" (Paulinho Tapajós e Sivuca), além da faixa-título, composta em parceria com Mu Carvalho.

No ano seguinte, a Escola de Samba Unidos do Cabuçu venceu o Desfile das Escolas de Samba do Grupo 1 do Rio de Janeiro com "Beth Carvalho, A Enamorada Do Samba", samba-enredo de sua autoria, em parceria com Edmundo Souto, Iba Nunes e Luís Carlos da Vila. Ainda em 1984, compôs, com Antonio Adolfo e Xico Chaves, a trilha sonora do musical infantil "Astrofolias" (1984), de Ana Luíza Job, e participou da trilha sonora da peça "Sapatinho De Cristal", encenada por Lucinha Lins, com a música "Juntando Trapinhos" (Paulinho TapajósAry Sperling e Paulinho Mendonça).

Em 1986, publicou uma parte de sua obra, como compositor e letrista, no livro "De Versos", que recebeu ilustrações de Ziraldo. Nesse mesmo ano, assinou, com Antonio Adolfo e Xico Chaves, a trilha sonora do musical infantil "Passa, Passa, Passará", de Ana Luíza Job.

Atuou também na área publicitária, tendo realizado trabalhos de criação e produção de jingles para campanhas de clientes como Mesbla, Caderneta de Poupança Delfin, Du Loren, Classificados do Globo, Mister Pizza, Morumbi ShoppingVila Borghese, entre outros.

Paulinho Tapajós Participou de trilhas sonoras para o teatro, tendo assinado as versões para o espetáculo "Promisses, Promisses".

No cinema, teve músicas de sua autoria incluídas nas trilhas sonoras dos filmes "André, A Cara E A Coragem", "Se Segura, Malandro", "Os Vagabundos Trapalhões", "As Moças Daquela Hora", "Os Trapalhões Na Serra Pelada", "João E Maria", "Os Trapalhões Na Arca De Noé", "O Donzelo", "A Revolta Dos Anjos", "Galinho De Briga", "The Last Fight" e "Xuxa - Duendes 2".


Publicou os seguintes livros infantis: "Verde Que Te Quero Ver" (Paulinho Tapajós e Edmundo Souto) e o didático "Aprenda Com A Turma Do Verde" (Paulinho Tapajós e Edmundo Souto), tematizando a questão ecológica, "Eternos Meninos", "Janjão, O Anjo Doidão", "Pé De Sonhos", "Amor De Índio", "Cometa Coração", "Victor James", "Boi Da Cara Pintada", cujo texto remete ao movimento dos "caras-pintadas" no contexto do impeachment de Fernando Collor, e "Betinho, Corpo Magrinho, Coração Grandão", uma homenagem ao sociólogo Betinho e sua campanha pela cidadania. Adaptou para o teatro, em forma de musical, os livros "Verde Que Te Quero Ver" (Paulinho Tapajós e Edmundo Souto), "Eternos Meninos" e "Janjão, O Anjo Doidão".

As trilhas sonoras de "Verde Que Te Quero Ver" (Paulinho Tapajós e Edmundo Souto) e "Eternos Meninos", foram lançadas em LP. Adaptou Verde Que Te Quero Ver" para televisão, assinando também a produção musical do especial, exibido em 1984 pela Rede Globo, com a participação de Beth Carvalho, A Cor do Som, Lucinha Lins,  Viva Voz, entre outros.

Ainda na área infantil, foi responsável pela produção de "Brinque-Book: Canta E Dança II" (livro e fita cassete), que registrou uma leitura contemporânea de cantigas de roda, com destaque para "O Cravo Brigou Com A Rosa", "Na Mão Direita Tem Uma Roseira", "Meu Limão, Meu Limoeiro", "Trem De Ferro""Marcha Soldado", entre outras. No início da década de 1990, compôs a trilha sonora da peça infantil "Floresta Tenebrosa".

Em 1991, participou do projeto "Poeta Mostra A Tua Cara", criado e dirigido por Solange Kafuri, interpretando suas próprias canções.

Em 1996, lançou o CD "Coração Poeta", que incluiu suas canções "Irmãos Coragem" (Paulinho Tapajós e Nonato Buzar), "Assim Na Terra Como No Céu" (Paulinho TapajósRoberto Menescal e Nonato Buzar), "Tô Com O Diabo No Corpo" (Paulinho Tapajós e Sivuca), além da faixa-título, composta em parceria com Nelson Cavaquinho, e das regravações de "Sapato Velho", "Cantiga Por Luciana", "Cabelo De Milho", "Andança", "No Tempo Dos Quintais""Amiga", entre outras. O disco contou com a participação especial de Ivan Lins, Danilo Caymmi, Fagner, Beth Carvalho, MPB-4Sivuca, João Nogueira e Chico Buarque.


Em 1998, gravou o CD "Reencontro", no qual registrou suas canções "Do Fundo Do Armário" (Paulinho Tapajós e Nelson Cavaquinho), "Meu Braço De Violão" (Paulinho Tapajós e Raul Ellwanger), "Joatinga" (Paulinho TapajósEdmundo Souto e Beth Carvalho) e "Patins" (Paulinho Tapajós e Claudio Nucci), entre outras. A faixa-título, composta em parceria com Edmundo Souto e Danilo Caymmi, remete aos 30 anos de "Andança", canção emblemática na carreira dos compositores. O disco contou com a participação especial de Beth Carvalho, Claudio Nucci, Danilo Caymmi, Fagner, Golden Boys, Ivan Lins, além da Velha Guarda da Mangueira na faixa "Ao Chico, Com Carinho" (Paulinho TapajósEdmundo Souto e Moacyr Luz), uma homenagem ao compositor Chico Buarque.

Em 1999, participou do Festival de Inverno de Conservatória, no Rio de Janeiro. Nesse mesmo ano, apresentou-se, com Guilherme de Brito, no Vinicius Piano Bar, também no Rio de Janeiro. No espetáculo, além de canções próprias, a parceria inédita, "Alma Gêmea".

Paulinho Tapajós participou, no ano seguinte, "Encontro Galego No Mundo - Latim Em Pó", realizado em Santiago de Compostela.

Assinou, em 2002, a produção musical do Acústico de Jorge Benjor (CD, DVD e musical de televisão).

Participou, em algumas gestões, da diretoria da União Brasileira de Compositores (UBC).

Em 2003, foi lançado o CD "O Lirismo De Paulinho Tapajós", contendo canções de sua autoria interpretadas por Gerli e Haroldo Goldfarb. O disco foi contemplado, no ano seguinte, com o prêmio Melhor CD Tributo pelo Jornal das Gravadoras.

Em 2005, lançou o CD "Viola Violão" (Dabliú), em parceria com Marcello Lessa, com releituras de "Andança", "Aguapé", "Cabelo de Milho" e "Menininha do Portão", sendo o restante das composições inéditas, a maioria delas em parceria com Marcello Lessa. Destaque para "Chorinho Pro Meu Violão" e "Bonequinha Sapeca", além da música que dá título ao disco, esta em parceria com Claudio Nucci. Este CD contou com a participação especial de Lucinha Lins, Claudio Nucci e Simone Guimarães. Nesse mesmo ano, publicou, pela editora Nova Fronteira, os livros "A Lenda Da Vitória-Régia" e "A Lenda Do Uirapuru", abrindo a série "Lendas Brasileiras".

Em 2006 lançou, também com Marcello Lessa, o CD "Par Ou Ímpar" pelo selo Kuarup e posteriormente em nova edição pela CID, com releituras de "Sapato Velho", "Irmãos Coragem", "Cantiga Por Luciana", "No Tempo Dos Quintais", "Coisas Do Coração" e "Coração Poeta", além de inéditas em parceria com Marcello Lessa, com destaque para a música que dá título ao disco e ainda "Veludo Azul" e "Baixo Leblon". O disco contou com a participação especial de Wanda Sá, Luis Melodia, Claudia Telles e Eudes Fraga.

No dia 29/08/2007, foi homenageado pelo Instituto Cultural Cravo Albin na série "Sarau Da Pedra", No evento, foi afixada no Mural da Música do instituto uma placa com seu nome, a ele dedicada pela relevância de sua obra musical.

Em 2008, lançou pela CID o CD solo "Preparando A Canção", com releituras de "Pera, Uva Ou Maçã" e "A Velha", sendo o restante do repertório composto de músicas inéditas, com destaque para "Beijos", em parceria com Cartola, "A Companheira", em parceria com Guilherme de Brito, e ainda "Coração Vadio", "Estrela da Manhã", "Forró Pra Namorar" e "Minha Guanabara", em parceria com Claudio Nucci, além da música que dá titulo ao disco, de sua exclusiva autoria.


Morte

Paulinho Tapajós, morreu na sexta-feira, 25/10/2013, no Rio de Janeiro, aos 68 anos. Ele lutava contra um câncer havia anos. O velório será no sábado, 26/10/2013, no Cemitério São João Batista, a partir das 9:00 hs.

O primo de Paulinho Tapajós noticiou a morte no Facebook:

"Nesse momento recebi com muito pesar a notícia de falecimento do meu primo e amigo Paulinho Tapajós. Começamos juntos a carreira musical. Paulinho era um poeta de infinita grandeza. Estou muito triste com essa notícia embora soubesse que era inevitável e o melhor pra ele. Paulinho lutou bravamente contra um câncer. Foram uns seis anos de sofrimento intenso. Meus pêsames Heloísa. Querido amigo descanse em paz e até algum dia. Um beijo de luz na sua alma."

Fonte: Paulinho Tapajós e O Globo

Flávio Império

FLÁVIO IMPÉRIO
(49 anos)
Arquiteto, Artista Plástico, Cenógrafo, Figurinista, Diretor, Professor e Pintor

* São Paulo, SP (19/12/1935)
+ São Paulo, SP (07/09/1985)

Suas experiências na pintura evidenciam o aprendizado da linguagem modernista. Em 1956, entrou na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP) e, concomitantemente, trabalhou como cenógrafo, figurinista e diretor no grupo de teatro amador da Comunidade de Trabalho Cristo Operário, na periferia de São Paulo.

Em 1958, passou a integrar o Teatro de Arena. No ano seguinte, estreou como cenógrafo do grupo em Gente Como a Gente, dando início à parceria artística com Augusto Boal. Em 1960, concebeu os cenários e figurinos de "Morte e Vida Severina" para o Teatro Experimental Cacilda Becker, fazendo uso dos tecidos, das técnicas artesanais e referências à cultura brasileira. Começou em 1962 a trabalhar para o Teatro Oficina, de José Celso Martinez Corrêa.

No Teatro Oficina, participou de "Um Bonde Chamado Desejo", "O Melhor Juiz: o Rei e Andorra", entre outros projetos. Teve ainda importantes realizações no Teatro Arena, como "Arena Conta Zumbi" (1965) e "Arena Conta Tiradentes" (1967). Em 1968, dirigiu e cenografou "Os Fuzis de Dona Tereza", adaptação da obra de Brecht para o Teatro da Universidade de São Paulo (TUSP) e fora do Teatro Oficina, mas ao lado de Zé Celso, criou o cenário e o figurino de "Roda Viva", em que estão presentes o colorido e as referências à cultura pop do Tropicalismo.

Na década de 1970, deu início à parceria com Fauzi Arap em espetáculos teatrais e musicais. Realizou trabalhos elogiados em "Labirinto: Balanço da Vida", "Pano de Boca" e "Um Ponto de Luz", textos e direção de Fauzi Arap, e, também com direção deste, cenografou espetáculos musicais entre os quais se destacam os trabalhos com Maria Bethânia.

Foi professor da Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo (EAD/USP), entre 1962 e 1966. Lecionou, entre 1962 e 1977, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP), escola na qual voltou a dar aulas em 1985. Entre 1964 e 1967, na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), e na Faculdade de Belas Artes de São Paulo, entre 1981 e 1985. No fim da década de 1970 e inicio dos anos 1980, Flávio Império retomou sua atividade como artista plástico, além de desenvolver projetos para o Teatro Popular do Sesi (TPS) como os cenários de "A Falecida" (1979), e de "Chiquinha Gonzaga, Ó Abre Alas" (1983).

Comentário Crítico

Flávio Império era um dos cenógrafos responsáveis, entre as décadas de 1960 e 1980, pela transição do estilo decorativo (voltado simplesmente à ambientação temporal e espacial da peça, acrescido da ideia de "embelezamento") para uma cenografia não-ilusionista, na qual os cenários e objetos evidenciam suas funções simbólicas e estruturais. O trabalho era desenvolvido em conjunto com o diretor e fazia parte de um processo elaborado com base no conceito da encenação. A cenografia passou a refletir uma ideia  ajudou a contar uma história e foi criada simultaneamente aos ensaios e concepção da montagem. O ator e sua presença em cena tinham grande importância para a definição do projeto. Os espetáculos eram encenados em vários espaços e de diferentes formas de acordo com a proposta e muitas vezes se transcendia os limites do palco italiano, em busca de uma maior comunicação com o público.

As obras de Flávio Império em cenografia, figurino e direção mostravam uma pluralidade de linguagens, encaminhamentos e pesquisas. Inicialmente, seus trabalhos faziam referências às ideias de Bertolt Brecht, e essa influência tornou-se cada vez mais frequente em seus projetos, nas décadas de 1960 e 1970. Não existia mais a preocupação em esconder as estruturas e os processos de construção, tanto do espaço cênico quanto dos objetos.

O conjunto das produções de Flávio Império podia ser dividido em três fases: o início, no Teatro de Arena e sob influência de Augusto Boal; a parceria com José Celso e o Teatro Oficina, que lhe permitiu, especialmente a partir da segunda metade da década de 1960, a junção de técnicas cenográficas artesanais - e muitas vezes rústicas - ao ideário do Tropicalismo; e as décadas de 1970 e 1980, quando, tendo já desenvolvido pesquisas estéticas bastante pessoais, Flávio Império as aplicou não apenas no teatro, mas também em shows musicais, contribuindo para modificar a visualidade desses espetáculos.


O trabalho no Teatro Arena foi marcado, antes de mais nada, pela necessidade de reelaboração da cenografia em função da própria disposição espacial circular: tendo para trabalhar não um palco italiano, espécie de "caixa" que facilitava a criação de uma cenografia ilusionista e decorativa, mas um palco em que os atores estavam cercados pelo público, o cenógrafo foi obrigado a repensar o espaço e a utilizar objetos que fossem ao mesmo tempo simbólicos e funcionais. Flávio Império traduziu essa necessidade na utilização de praticáveis, que ganharam funções diversas conforme a demanda da peça, de cores e de objetos de cena carregados de grande valor dramático, isto é, capazes de condensar determinadas características de situações ou personagens.

Foi então que o artista começou a trabalhar com a escassez de recursos como possibilidade criativa, incorporando-a a seus projetos posteriores. Em "Morte e Vida Severina", espetáculo para palco italiano, utilizou tecidos crus tingidos (não apenas nas roupas mas também nos cenários) e objetos (máscaras, por exemplo) que apontavam para a força expressiva e a aridez encontradas na pintura modernista de artistas como Cândido Portinari, principalmente na sua série "Retirantes".

A liberação do ilusionismo reforçou a possibilidade de reinvenção dos espaços cênicos tradicionais mesmo em trabalhos realizados com bons recursos financeiros. É o caso de "Depois da Queda" (1964), em que o palco foi configurado como uma série de planos superpostos que remetiam à fragmentação da própria consciência do protagonista. Em trabalhos com o Teatro Oficina, como "Os Inimigos" (1966), apareciam também a utilização de elementos tradicionais, porém de maneira absolutamente crítica.

Mas é principalmente a partir de "Roda Viva" (1968) que Flávio Império incorporou o colorido e fontes da cultura popular que doravante apareciam como marcas de sua obra. O espetáculo, inspirado no movimento tropicalista, era inovador tanto na forma despudorada de abordar a cultura nacional quanto em termos espaciais (com a presença de uma passarela pela qual os atores "penetravam" na plateia). A revisão dos limites entre palco e plateia perpassava também o trabalho de Flávio Império como diretor: no mesmo ano, em "Os Fuzis de Dona Tereza", a plateia era invadida por um coro de atores que usava matracas em lugar de vozes. Flávio Império buscou com esse coro representar o povo brasileiro que vivia os dilemas da protagonista, divido entre o apoio ou não ao regime político, com essa mudança de foco do individual para o coletivo a intenção era mostrar o drama nacional, fazendo um paralelo com a situação do Brasil, na época.

Sylvia Ficher e Flávio Império
Em "Roda Viva" também aparecia outra característica marcante do trabalho de Flávio Império na década de 1970: a assemblage (colagem ou ajuntamento de figuras, objetos e elementos visuais, criando efeitos através do acúmulo - como num "amontoado" - ou da simples disposição espacial, como nas instalações das artes plásticas). Espetáculos como "Réveillon" (1975) e "Pano de Boca" (1976) ilustram bem este aspecto: em "Réveillon", o cotidiano de uma família de classe média era representado em seu caráter opressivo e sobrecarregado de signos, medos e limitações; cenograficamente, isso se traduzia em um apartamento feito de amontoados de jornais, móveis e utensílios, protegendo e sufocando a vida familiar. Em "Pano de Boca", foram unidos em assemblage, dentro de um galpão-teatro, objetos que remetiam a um passado teatral de glórias, mas absolutamente decadente - o que refletia também a situação do meio teatral brasileiro setentista, que sofria com o exílio de importantes criadores, a falta de perspectivas e a opressão da censura.

Tecidos utilizados em todas as suas possibilidades cromáticas e espaciais; luxo e "lixo" (despojos da cultura nacional) atrelados como reflexo da nossa brasilidade; inventividade na organização do espaço; pesquisa contínua de materiais alternativos: são esses os elementos que, já na década de 1970, fizeram de Flávio Império um dos nossos maiores cenógrafos. Tal maturidade artística aparecia não apenas no teatro, em espetáculos como "A Falecida" (1979), que compartimentava o palco italiano em diversos ambientes basculantes e interligados, mas também nos shows. Em trabalhos com grandes nomes da música popular como Maria Bethânia e o grupo Doces Bárbaros, o artista transformava as antigas apresentações inspiradas em recitais eruditos e em orquestras de baile em verdadeiros espetáculos visuais, carregados de teatralidade e plasticidade.

Tais aspectos aparecem cristalizados, enfim, nas obras dos últimos anos de vida do artista, tais como "Patética" (1980); "Chiquinha Gonzaga: Ó Abre Alas" (1983) - com cenários e figurinos inspirados nos antigos e modernos carnavais de rua; e "O Rei do Riso" (1985). A última realização do artista foi a cenografia de um espetáculo de sua mais fiel parceira no meio musical: Maria Bethânia, no show "20 Anos de Paixão".

Flávio Império morreu perto de completar 50 anos, no Hospital do Servidor Público Estadual, vitimado por uma infecção bacteriana nas meninges causada pela AIDS.