Luís Eduardo Magalhães

LUÍS EDUARDO MARON DE MAGALHÃES
(43 anos)
Político

* Salvador, BA (16/03/1955)
+ Brasília, DF (21/04/1998)

Filho do ex-governador da Bahia, e ex-senador pelo estado, Antonio Carlos Magalhães, era tido não somente como sucessor de seu pai na política, mas para ir mais longe, sendo preparado para ser presidente do Brasil. Era muito próximo do ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso.

Foi deputado estadual de 1983 a 1987 e deputado federal de 1987 até sua morte, sendo presidente da Câmara de 1995 a 1997. Estava cotado para ser candidato ao governo de Bahia pelo PFL em 1998, e a presidente em 2002.

Se não morresse tão jovem, será que ele faria uma boa administração no governo da Bahia, cargo para o qual estava praticamente eleito segundo todos os prognósticos? Se não morresse tão jovem, será que conseguiria ser o presidente da República em 2002? A morte do deputado Luís Eduardo Maron de Magalhães, aos 43 anos, depois de um infarto fulminante, deixou o mundo político perplexo. Primeiro, porque era muito jovem, e foi uma armadilha do destino levá-lo tão cedo. Depois, porque era a maior promessa política de seu partido, e é duro aceitar o desmonte repentino de futuro tão promissor.

Casado, pai de três adolescentes, filho do senador Antônio Carlos Magalhães, cujo nome aparece em qualquer lista dos políticos mais poderosos do país, Luís Eduardo construiu sua biografia política em vinte anos. Foi duas vezes deputado na Bahia, exercia agora seu terceiro mandato de deputado em Brasília e chegou a presidente da Câmara dos Deputados, entre 1995 e 1997. Resumida assim, sua carreira parece até rotineira - mas, examinada mais a fundo, constata-se que é uma exceção.

Em duas décadas de vida política, Luís Eduardo, com freqüência, foi confundido com o que não era. Em 1987, ao chegar a Brasília para seu primeiro mandato, ele foi recebido como filho de Antônio Carlos Magalhães. Era, na opinião de muitos, apenas o herdeiro de um cacique político, sem brilho nem vocação. Diante da estatura política do pai, enfrentou o desafio de provar que tinha luz própria, e conseguiu.

Luís Eduardo Magalhães e seu pai Antônio Carlos Magalhães
Exibia tanta personalidade que se relacionava até com adversários do pai, como o ex-governador da Bahia Waldir Pires. Com cacife de profissional, foi o elo de aproximação entre o pai e o presidente Fernando Henrique Cardoso - no governo e na campanha. Quando seu pai insistiu para que concorresse a vice na chapa de Fernando Henrique Cardoso, Luís Eduardo resistiu e recusou. "A partir daí, passamos a perceber que ele tinha vontade própria", diz o hoje governador do Ceará, Tasso Jereissati. Ele queria ser presidente da Câmara. Concorreu, ganhou de lavada - e aí, novamente, foram confundi-lo com o que não era.

Sentado na cadeira de presidente, conduziu a aprovação de mais de cinqüenta leis e catorze emendas constitucionais propostas pelo governo. Comandou a quebra do monopólio do petróleo, aprovou o novo conceito de empresa nacional, acabou com as restrições ao capital estrangeiro e foi peça decisiva para a aprovação da emenda da reeleição, seu último ato como presidente da Casa. Com esse cardápio de serviços prestados, chegou a ser classificado por adversários políticos mais maliciosos como o presidente da Câmara mais subserviente ao Palácio do Planalto desde os governos militares.

"Luís Eduardo não era pau-mandado. Ele estava construindo um projeto liberal no qual acreditava desde a Constituinte", disse o deputado Milton Temer, do PT do Rio de Janeiro, cujas posições são tão esquerdistas que espantam até alguns petistas.

Ao assumir a Câmara, Luís Eduardo rompeu com a prática de reunir o chamado "colégio de líderes", em que as decisões eram tomadas por um consenso de cúpula que reunia governo e oposição. Como é de supor, as grandes discussões demoravam a ir a votação. Sabendo que a maioria dos 513 deputados era favorável às reformas, passou a colocar os projetos e as emendas diretamente no plenário. Usando uma prerrogativa do cargo, ele só colocava os projetos em votação quando tinha certeza da aprovação. A seu lado, um assessor punha num laptop a posição de cada deputado que ia entrando no plenário — e, assim, quando o mapa da vitória se desenhava no computador, dava início à votação.

Filho do mais ilustre político baiano e eleito pela primeira vez com apenas 23 anos, Luís Eduardo também chegou a ter seu temperamento confundido com o do pai, um político de estilo agressivo, conhecido por carbonizar adversários e morrer de paixão pela Bahia. "Ele tem as minhas virtudes e não tem os meus defeitos", costumava dizer o senador.


Na verdade, Luís Eduardo tinha estilo próprio. Era duro na defesa de suas posições, mas afável no contato e até solidário com os adversários. "Ele passava com o trator em cima de você, mas antes olhava nos seus olhos e dizia o que ia fazer", lembra a deputada Sandra Starling, ex-líder do PT na Câmara.

Com uma formação liberal, discípulo e admirador do ex-ministro Roberto Campos, Luís Eduardo não tinha nenhuma dificuldade para transitar pela esquerda do Congresso. Essa sua capacidade de se aproximar e até defender adversários vinha de longe. Em 1984, Luís Eduardo era filiado ao PDS, presidia a Assembléia da Bahia e, quando soube que militantes do PC do B baiano haviam sido presos, foi à delegacia para protestar contra a arbitrariedade.

Apaixonado pela política e pelo poder brasiliense, o deputado também não tinha aquela baianidade do pai, só viajava para o interior do Estado quando estava em campanha. Nos fins de semana, quando voltava para Salvador, ficava em casa. Até no cardápio contrariava a tradição - não gostava de frutos do mar, só abria exceção para o bacalhau, e adorava comer carne vermelha. Era um cinéfilo sem tempo de ir ao cinema, daqueles que alugam dez fitas de vídeo num fim de semana. "Ele ficava horas discutindo cinema e tinha boa memória", diz Fernando Barros, publicitário que acompanhava o deputado desde sua primeira eleição.

Mas o que ele adorava, mesmo, era o Congresso. Tinha prazer em articular, falar com deputados, montar uma estratégia de votação. Chegava na Casa pela manhã com um sorriso no rosto e esfregando as mãos em sinal de satisfação. Era preocupado com a imagem do Congresso. Quando achou que havia risco de o plenário não cassar o mandato de Sérgio Naya, o destruidor do Palace II, começou a suar frio. Cassado o mandato, ele relaxou. "Estou com as mãos frias. Aqui é assim. Todo dia uma emoção e uma tensão nova", comentou com seu colega Benito Gama.

Gostava tanto do Congresso e era tão pouco afeito à política regional que relutou muito antes de aceitar lançar-se candidato ao governo da Bahia. Passou mais de dois meses refletindo sobre o assunto, chegou a falar com Fernando Henrique Cardoso para colher sua opinião, mas o presidente fez questão de dizer que aceitaria qualquer decisão sua. Depois de pensar muito, resolveu ceder a um argumento de Antônio Carlos Magalhães. O senador achava que, apesar da lealdade que o governador Paulo Souto demonstrara durante o seu mandato, era arriscado deixar o governo do Estado sem um Magalhães por mais quatro anos. O senador disse que estava com idade avançada e que Luís Eduardo, para azeitar seu projeto de virar presidente da República, não podia perder o controle sobre os deputados estaduais e a bancada federal da Bahia. Diante disso, Luís Eduardo aceitou - mas não escondia de ninguém que preferia ser candidato ao Senado para permanecer em Brasília e no Congresso.

Eleito para o seu terceiro mandato com o maior balaio de votos do Estado, 138.000, Luís Eduardo era um político do PFL e, ao mesmo tempo, não era um político do PFL. Era pefelista no ideário liberal, na militância cotidiana e jamais abandonava o partido, mesmo que discordasse da decisão.

Teve coragem de ficar ao lado do ex-presidente Fernando Collor até o último minuto, e subiu na tribuna para defendê-lo e dizer não ao impeachment. Coragem porque, àquela altura, era sabido que Fernando Collor era um náufrago sem bóia. Coragem porque o próprio Luís Eduardo sabia que as negociatas no Planalto cheiravam mal. Coragem porque ele nem sequer gostava de Fernando Collor, que achava ingrato e arrogante. Só ficou no barco collorido para não contrariar a bancada do PFL.

Mas, por outro ângulo, Luís Eduardo não parecia um político do PFL. Representava uma face séria do partido, transmitia credibilidade e respeito, não se assemelhava à imagem coronelista e não se envolvia com o velho fisiologismo pefelista. "Ele era sério. Quando fechava um acordo, não havia dúvida: ele cumpria", disse o petista José Genoíno.

Era diferente até na aparência. Vaidoso, vestia ternos Ermenegildo Zegna, só usava sapatos italianos e suas camisas, de cor diferente do colarinho, viraram moda no Congresso. Sua morte prematura desarrumou o projeto político que o PFL vinha acalentando há anos: eleger um presidente do partido. Célebre pelo seu traquejo nas artes do poder e pela incomparável rapidez com que aderia a qualquer governo, o PFL nunca elegeu um dos seus para o Palácio do Planalto - e Luís Eduardo era a grande, a maior e, até o dia de sua morte, a única esperança do partido para 2002.

Ele trabalhava para isso e sabia que Fernando Henrique Cardoso gostaria de emplacar o governador Tasso Jereissati como seu sucessor daqui a quatro anos, mas não descartava a hipótese de conquistar o coração de Fernando Henrique Cardoso no meio da caminhada. No início do governo, em conversas privadas, fazia algumas ironias a respeito de Fernando Henrique Cardoso. No fim, só o chamava de "príncipe", com aberta admiração. "Eu tenho paixão pelo Fernando Henrique. Cada vez que converso com ele, me encanto mais", derramava-se.

Parecendo não ser o que era e sendo o que não parecia ser, Luís Eduardo podia dar margem a um equívoco final sobre sua personalidade política - o de que fosse um anfíbio, de posições ocultas ou meio dissimuladas, um camaleão político. Mas era o contrário. Era claríssimo nas suas posições e prezava essa qualidade até mesmo nos outros. Chegou a oferecer ajuda ao deputado Milton Temer na disputa pela presidência do PT contra José Dirceu. Diante da surpresa de Milton Temer com a oferta, ele explicou: "É que você é peixe e eu sou carne. Gosto das coisas claras. Não gosto é do PT, que se comporta como se fosse chester".

Com sua postura de preto no branco, o deputado não tinha idéias novas, não era um formulador, não concebia conceitos. Ainda assim, não descuidava do lado intelectual. Formado em direito, na Bahia, mas apenas dono do diploma, pois nunca exerceu advocacia, nos últimos tempos estava estudando as teses de Max Weber, o sociólogo alemão que Fernando Henrique Cardoso cita em nove de dez discursos. O deputado Moreira Franco, do PMDB, lhe passava apostilas e recomendava leituras.

Antônio Carlos Peixoto de Magalhães Neto e o busto de Luís Eduardo Magalhães
Luís Eduardo tornou-se um articulador eficiente pelo gosto, lábia e habilidade. Tinha paciência para negociar, conhecia pelo nome cada deputado, não tinha reservas para receber em seu gabinete o chamado baixo clero e ouvia aquelas mesquinharias de pedidos - cargo aqui, cargo acolá. Até por isso, sabia do interesse de cada um, do ponto fraco deste ou daquele, informações que valem ouro na hora de uma votação apertada. "O único problema é que eles sempre acham que, se você tem liderança, é porque é ladrão", reclamava em conversas com amigos. "Quando você não aceita um pleito deles, eles acham que é porque você quer roubar mais."

Com esse conhecimento minucioso da Câmara, sua morte abriu um rombo enorme na articulação do governo. Mas, como em política não existe vácuo, os caciques logo se mexeram para ocupar o espaço. O presidente do PFL, Jorge Bornhausen, já estava de olho na nova maré. Sem Luís Eduardo, imagina que o pedaço baiano do partido se enfraquece, e quem sabe isso não ajuda a fortalecer o pedaço catarinense - ou seja, o dele mesmo?

Na quarta-feira, 22/04/1998, o corpo de Luís Eduardo foi enterrado, em Salvador, depois de ser velado no Congresso na noite anterior. E, por incrível que pareça, até na hora da morte Luís Eduardo acabou sendo confundido com o que não era.

Fumante de três maços por dia, gostava de uma boa mesa e bebia com prazer. Hipertenso, amigo do copo e de carne vermelha, passou a muitos a impressão de que não se preocupava com a saúde. É o último equívoco. Ele estava diminuindo o cigarro, medicava-se contra a hipertensão, adotara o vinho tinto no lugar dos destilados por ordem médica, emagrecera 10 quilos nos últimos tempos e sempre fazia caminhadas, como na manhã de sua última terça-feira, 21/04/1998.

Morte

Não atendendo a um conselho médico de fazer um exame que radiografa o coração, sofreu um infarto. Depois do infarto, já na UTI do hospital, o exame foi feito. Quando viu as primeiras imagens, o cardiologista Bernardino Tranchesi chorou. "Era o coração de um idoso", exclamou outro cardiologista presente, Francisco de Assis. Ele não tinha uma lesão nas coronárias como se suspeitava. Tinha quatro lesões na coronária direita e seis no lado esquerdo, e não uma lesão nas coronárias como era suspeitado.

Às 20h do dia 21 de abril de 1998, Luís Eduardo Maron de Magalhães estava morto. Na quarta-feira, 22/04/1998, o corpo de Luís Eduardo foi enterrado, em Salvador, depois de ser velado no Congresso na noite anterior.

No ano 2000 um distrito baiano (próximo á Barreiras), conhecido antes pelo nome de Mimoso, ao ser emancipado recebeu o nome de Luís Eduardo Magalhães.

Fonte: Veja (Texto: Expedito Filho) e Wikipédia
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